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Resenha - A soberania dos EUA e a dos outros

APROPUC-SP

Regina Maria A. F. Gadelha

A recente publicação do livro do professor Luis Fernando Ayerbe – Estados Unidos e América Latina. A construção da soberania. São Paulo: Editora da Unesp, 2002 – merecedor do prestigioso prêmio internacional Casa de Las Américas, na categoria “Ensaio histórico-social”, em 2001–, vem completar uma lacuna no campo da geopolítica, das relações internacionais e da história. De leitura fácil e agradável, a obra nos coloca diante de uma pesquisa histórica, embasada em estudo também teórico, que não se contenta com a aparência dos fatos. O que propicia o autor a cumprir os objetivos de esclarecer e informar o leitor sobre o objeto de sua análise.
As quase 290 páginas de leitura da obra nos leva a meditar sobre aspectos raramente abordados em trabalhos de outros autores, ligando a práxis à elaboração teórica culturalista dos intelectuais americanos, participantes da política externa dos Estados Unidos. Porque Ayerbe empreende seu relato atento aos argumentos culturais e ideológicos presentes no discurso intelectual e político dos setores liberais e conservadores, e nas agendas internas e externas adotadas pelos governos norte-americanos, que dão respaldo à construção da hegemonia de sua dominação mundial. Esta direção, norteadora do Plano da Obra, está contida nos capítulos 1 e 2 da publicação, que analisa os argumentos apresentados por Samuel Huntington e Francis Fukuyama, passando por Douglas North, Robert Putnam, Lawrence Harrison, entre outros. Idéias identificadas, também, ao longo da obra, ajudando a entender a construção dos paradigmas justificadores do direito ao exercício da hegemonia mundial norte-americana, exercida em nome da “defesa da civilização ocidental e cristã contra o comunismo”, desde o período da guerra fria.
A leitura do livro nos ajuda a uma melhor compreensão das restrições sofridas pelos países da América Latina, nas tentativas de exercício do direito à autodeterminação, permitido pelo exercício da soberania participativa, no decorrer da formação do processo de globalização
avançada construída pelos Estados Unidos, aliado ao capital financeiro e especulativo internacional.
De fato, nos últimos anos, assistimos à progressiva submissão dos países aos ditames do consenso de Washington, cujas vantagens próprias passaram a ser defendidas em detrimento dos interesses nacionais maiores do povo latino-americano. Ao mesmo tempo, assistimos à renúncia ao exercício da soberania nacional, por parte de governos divorciados dos interesses de suas nações, fazendo reaparecer, no continente, novas formas de “ideologia do colonizado” tanto em nível cultural, como político e econômico, acompanhado por retrocesso social. Desta maneira, governos entreguistas e governantes corruptos colocam em risco as conquistas sociais, a segurança de suas nações e a integridade de suas fronteiras, juntamente com o futuro da governabilidade política e democrática.
O livro de Luis Fernando Ayerbe, fruto da trajetória de pesquisa do autor, baseia-se em documentos de arquivos norte-americanos sobre a política externa desse país. A análise das relações Estados Unidos – América Latina, do início da guerra fria até os anos 90, demonstra as tensões resultantes da resistência, por décadas, exercida por governos latino-americanos, em renunciarem à execução de agendas mais nacionalistas, bem como a progressiva submissão à hegemonia norte-americana, construída por esse país ao longo dos últimos 50 anos, marcados por pressões ou mesmo pela intervenção mais direta nos assuntos internos do continente. A análise, centralizada nos conceitos de realismo e interesse nacional, segurança e hegemonia regional exercidos pelos Estados Unidos, acompanha a construção dos paradigmas centrais de dominação norte-americana e seu significado da parte dos vários governos daquele país, mas adotados, com sinais contrários, por governantes e intelectuais latino-americanos.
A análise histórica realizada abrange o governo populista da Argentina (país de origem do autor) a partir da década peronista (1946/1955), a revolução bolivariana (1952) e a intervenção norte-americana da Guatemala (capítulo 3), aprofundada no capítulo 4 pela análise sobre a revolução cubana (1958) e o período Kennedy-Johnson, de elaboração e execução da chamada ‘Aliança para o progresso’ na América Latina, abrangendo o golpe militar do Brasil (1964) e a invasão americana da República Dominicana. O reformismo militar peruano (1968) e o governo da Unidade Popular no Chile de Salvador Allende (fracassados) são analisados no capítulo 5, coincidindo com a crise do capitalismo central e o breve e relativo declínio da hegemonia norte-americana sobre o continente (abordagem do capítulo 6). Entretanto, os anos Reagan trariam consigo nova redefinição da agenda de segurança norte-americana, impedindo o aprofundamento da revolução social libertadora sandinista, na Nicarágua, que buscou combinar economia mista e pluralismo político, via hoje intentada também pelo governo democrata da Venezuela (Hugo Chávez) e, no Brasil, pela vitória conquistada por Lula da Silva.
Este longo processo, de mais de 50 anos de história da América Latina, é marcado pela via do golpe militar ou por períodos de transição democrática, em que grupos nacionalistas e membros das sociedades civil e militar tentaram implementar políticas de ruptura com as situações de pobreza e desigualdade dominante, de permanência estrutural, características do continente. É, no entanto, no campo da análise teórica que o livro se destaca, na busca de argumentos que confrontam a teoria e a práxis dos Estados Unidos, sem perder de vista duas questões: 1) a influência sofrida pela (re)elaboração, de postura crítica, por parte de intelectuais da América Latina, sobre os rumos da política externa norte-americana para o continente, entre as quais a crítica ao capitalismo dependente; 2) a interferência dos Estados Unidos no desenvolvimento dos processos nacionalistas e de busca de identificação nacional em nossos países.
Esta trajetória é diversa daquela percorrida pelos países asiáticos (capítulo 7), que visaram também atingir a ‘modernidade’, sem perder de vista a característica de suas culturas e identidades, profundamente enraizada no passado de suas civilizações, confrontando com a situação dos povos da América Latina, de civilizações, culturas e identidades destruídas por obra dos colonizadores, o que nos obriga à tentativa de busca permanente de (re)construção de nossas identidades, ainda incompletas.
E, portanto, a análise de Luis Fernando Ayerbe, no que se refere às relações, também culturais, Estados Unidos–América Latina, abrange os aspectos da política interna, cultural e ideológica promovida pelos governos norte-americanos em seu próprio território – políticas econômicas, de dinamização do mercado interno, estimulando o consumo, atraindo investimentos, protegendo indústrias e ramos industriais, absorvendo culturalmente as massas imigrantes, alimentando o “sonho americano” das várias camadas sociais de sua população, de estímulo ao funcionamento das instituições, respeito à Constituição daquele país e às liberdades individuais –, base essencial para o funcionamento do modelo de capitalismo norte-americano, apresentado como o mais sólido argumento para a construção da hegemonia da superioridade americana. Como acentua o autor, esta é a maior “herança dos pais fundadores da nação americana”.
Porém, no campo da política exterior, a postura dos governos norte-americanos tem sido radicalmente diferente. Esse comportamento é exercido por intelectuais burocratas pertencentes a instituições e agencias responsáveis pela elaboração da política externa dos Estados Unidos, que auxiliam seu governo a eliminar as expectativas de autodeterminação dos povos latino-americanos, patrocinando e apoiando os setores mais reacionários e atrasados (também corruptos, acrescentamos) e que, nesses países executam uma política de violação sistemática aos direitos individuais (civis e humanos), sufocando as liberdades civis e democráticas, a livre iniciativa e o direito de autonomia dos povos.
A construção da nova hegemonia americana, portanto, passa pela destruição daquilo que Ayerbe chama de “capital social das regiões periféricas”. Ironicamente, esta é a própria base da soberania das nações, única capaz de permitir nos livrarmos da dependência estrutural (capítulo 8). O que leva o autor à inevitável conclusão de que “Negligenciar a delimitação de interesses nacionais, renunciar à possibilidade de construir o próprio caminho e diluir-se acriticamente no olhar externo representam características do folclore liberal latino-americano”. Portanto, “Contrariamente à idéia hegemônica, recuperar a idéia de América Latina como o centro onde nos enriquecemos e nos protegemos do mundo continua sendo uma opção estratégica”.
Porém, apesar de que “a construção do próprio caminho, sem fundamentalismos nem vocações autárquicas” represente um desafio gigantesco, o que o autor afirma, modestamente, não haver intentado realizar, o seu olhar pertinente sobre o confronto da trajetória da história política e das idéias, do evolver destas relações, nos permite refletir sobre se este não será, de fato, o único e verdadeiro exemplo norte-americano que deve ser seguido por todos nós. Qual seja, o de buscar o reencontro de nossa própria soberania e identidade, em tanto que cidadãos da grande nação latino-americana. Daí, optarmos por concluir com a citação de uma frase do professor Vamireh Chacon, da Universidade Nacional de Brasília: “Autentico internacionalismo é inter-nacionalismo. Cultura é uma questão de fé (a lição maior de Max Weber): cultura que não crê em si, não dura nem fecunda; para durar e fecundar, precisa de mínimo denominador comum, de valores sociais, étnicos e culturais, mais distribuição de renda e acesso à educação.”

O autor, Luis Fernando Ayerbe, é professor-adjunto do Departamento de Economia da Universidade Estadual Paulista, campus de Araraquara, é formado em História pela PUC/-SP, Doutor em História pela USP e Livre-Docente pela Unesp. Foi pesquisador visitante do David Rockefeller Center for Latin American Studies, da Universidade de Harvard, e do Centro de Estúdios Internacionales e Interculturales da Universidad Autônoma de Barcelona, sendo conferencista convidado do Curso de Especialização Lato Sensu Economia Social e Desenvolvimento – América Latina, da FEA-PUC-SP/Cogeae, da PUC-SP.

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