A dialética da guerra interimperialista
Jason T. Borba
Introdução
Os projetos1 e resultados da constituição das economias regionais em blocos econômicos têm sido abordados, no mais das vezes, como via para o desenvolvimento regional, como arquiteturas de autopreservação, enfim, como auto-afirmação de identidades culturais, sociais e econômicas. Essa abordagem é praticamente um consenso, implicando que muito da discussão aconteça no âmbito técnico-estratégico, no interior de uma positividade. A formação de blocos econômicos seria quase sempre recomendável e bem-vinda, pelo menos para os membros constituintes. A controvérsia cabe em todos os casos e parte:
a) das economias excluídas do arranjo,
b) das incluídas, mas com interesses específicos não plenamente contemplados, e
c) daqueles que estão propondo projetos alternativos.
No geral, temos a reafirmação da estratégia de integração via blocos regionais.
No entanto, para além dessa abordagem, várias questões se insinuam:
a) os blocos teriam um caráter de terminalidade no processo histórico de integração humana, sendo o sucedâneo perfeito da nação?
b) os blocos econômicos apresentariam os mesmos resultados em quaisquer contextos econômicos na divisão internacional do trabalho, quer no centro como na periferia do sistema?
c) como concretamente os blocos econômicos poderiam formular momentos da constituição de uma verdadeira humanidade emancipada?
As questões são infindáveis. Neste artigo estaremos voltados para um aspecto fundamental dos cenários que estão se desenhando a partir das mais recentes tendências manifestas na economia mundial: seriam os blocos econômicos expressão de um processo de multipolarização2 , com a emergência de novas lideranças em nível global e, portanto, prenúncio de um grave confronto interimperialista nos moldes da Primeira e da Segunda Guerra Mundial? Seriam os movimentos dos blocos econômicos um prenúncio de um movimento de redivisão imperialista nos moldes em que já ocorreram durante o século 20? Existe nos antecedentes do século 20 algum momento que poderia servir para a compreensão dos processos que vivemos hoje e de sua teleologia?
Sem pretender esgotar a questão posta, procuraremos apresentar alguns elementos que apontam afirmativamente para o prognóstico de tendência a um conflito bélico mundial de proporções muito superiores aos que já vivenciamos no século 20. Se esse possível e provável conflito pode ou não ser evitado pelas forças sociais organizadas, não é ainda o caso de se prognosticar. O fato é que uma tendência da realidade para essa direção já pode ser detectada na dinâmica dos fatos recentes3.
Geoeconomia na abordagem da economia mundial
A nossa opção para lidar com o tema é a da abordagem geoeconômica específica4 , que está alicerçada em Marx5 , particularmente em seu esquema de periodização do capitalismo em duas fases: a fase de subsunção formal e a fase de subsunção real do trabalho ao capital. O predomínio dialético da fase de subsunção real do trabalho ao capital no mercado mundial implicou seu fechamento, seu acabamento num sistema integrado de economias capitalistas6 . A economia mundial como sistema fechado indica que suas dinâmicas e transformações deverão encontrar caminhos e processos nela mesma.
Este conjunto não é homogêneo, aspecto já salientado pelos autores clássicos da economia política (Smith e Ricardo). Para estes autores, a heterogeneidade, diversidade cada vez mais profunda, estaria se dando num processo de aprofundamento da especialização que no âmbito do mercado mundial ganharia expressão na divisão internacional do trabalho. O resultado seria uma maior sociabilização dos indivíduos e coletividades numa relação de especialização, complementaridade e interdependência. Regulado pelo mercado, este sistema tenderia a uma homogeneização do nível de renda e dos padrões de consumo na medida em que fossem sendo eliminadas as barreiras institucionais e culturais à livre movimentação dos capitais, mercadorias e trabalho. Este sistema seria essencialmente plano e igualitário no que toca à questão do poder mundial. Na medida em que o mercado fosse se impondo espontaneamente, não haveria mais lugar para dominação de uma nação por outra, mas sim para a cooperação mercantil. O livre mercado seria o lugar das relações entre os indivíduos e entre as nações.
O prognóstico de um igualitarismo de mercado para a ordem mundial dos economistas liberais clássicos contrasta fortemente com a geoeconomia de Marx e Engels. Para estes autores, a partícula fundamental de todo o sistema capitalista de mercado não era a mercadoria em geral, indeterminada, mas a mercadoria capitalista como ápice de toda uma longa evolução histórica. Segundo esta abordagem, a mercadoria como produto da propriedade privada pode ou não ter uma natureza de classe. Por exemplo, a mercadoria simples é um produto que se apresenta para a troca ou a circulação a partir de um produtor que pode ser um artesão, um escravo, um servo ou uma coletividade indígena. Em todos esses casos, o objetivo último de sua produção ainda não é a obtenção do lucro. Está na lógica da mercadoria simples e, portanto, na natureza histórica das economias mercantis produtoras de mercadorias simples, que sua realização leve, dialeticamente, à sua superação na mercadoria capitalista e no modo de produção capitalista. Todo o espectro das formas da propriedade privada pré-capitalista tende a ser superado e/ou subsumido pela forma superior de propriedade privada: a propriedade privada especificamente capitalista. As diferentes formas históricas do trabalho produtivo, aquele que transforma a natureza, tendem a ser superadas pela forma historicamente superior: a do trabalho assalariado produtor da mercadoria capitalista que contém a mais-valia. Desse modo, a produção mercantil simples leva inexoravelmente à produção mercantil capitalista como última forma de produção mercantil, aquela que realiza a natureza da mercadoria tanto em extensão como em profundidade. O que os economistas clássicos saudaram como a universalização da igualdade entre proprietários de mercadorias Marx e Engels saudaram como o ápice da desigualdade e da cisão humana, dado que a generalização da mercadoria tem necessariamente como base a exploração do homem pelo homem na sua forma mais desenvolvida: a exploração capitalista sobre o trabalhador assalariado7 . Para Marx e Engels, enquanto existirem classes exploradas e exploradoras, também existirão nações exploradas e exploradoras.
Desse modo, as transformações no padrão de exploração do trabalho desdobram-se para as relações entre as nações. A assimetria definidora da produção imediata implica necessariamente assimetria entre nações na economia mundial, o que também vale para as transformações que a produção imediata e social capitalista irá sofrer, sem que abra mão de sua natureza profunda de economia baseada na exploração da classe trabalhadora.
É nesse sentido que se torna crucial o estudo da periodização do modo de produção capitalista em duas fases a partir da conceituação marxiana. Os objetivos dessa abordagem são: a) demonstrar o quão elástico é o capital em seus desdobramentos, capaz de gerar e acolher todas as formas recentes que emergem de sua transformação, b) apontar sua inconsistência de base, que conduz necessariamente ao seu limite histórico, c) detectar na realidade atual as manifestações de aproximação ou distanciamento em relação a estes limites e d) prognosticar a arquitetura, a forma mundial dessa crise.
Aquilo que poderíamos chamar de preocupação geopolítica global emerge em si com a modernidade mesma. As potências mercantis e manufatureiras emergentes, desde a época da formação do sistema de Estados nacionais europeus, preocupam-se com as condições gerais de sua auto-afirmação. Isso envolvia necessariamente o interjogo com outras nações e regiões de suas relações, a dizer, o sistema formado pelas nações e aspirantes do complexo eslavo-europeu e o conjunto do mercado mundial criado pelas grandes navegações. O Tratado de Tordesilhas (1494) foi a primeira divisão do mercado mundial, a primeira fórmula de arbitragem internacional com este alcance.
No que concerne às raízes mais profundas dos ordenamentos especificamente capitalistas, que estão nas raízes da situação que vivemos no início do século 21, temos de perspectivar primeiramente a emergência e afirmação da Inglaterra como nação frente à Espanha e à França, neste início da formação do mercado mundial, nos primórdios da era colonial8 .
No decorrer dos três séculos seguintes, rapidamente, no âmbito dos Estados europeus, estrutura-se um game internacional com alcance mundial que envolve a Inglaterra, a França, a Rússia e a Alemanha, sendo esta última ainda em formação. Este game, a partir da segunda metade do século 19 terá o adendo de uma Alemanha unificada, dos Estados Unidos, também recém-unificado e do Japão.
Esse jogo já estava claramente discernido na primeira metade do século 19. Engels, ao acompanhar quotidianamente os movimentos, alianças e choques dos diferentes Estados nacionais no teatro europeu, procurava, no âmbito da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), “colocar em evidência aquilo que se poderia chamar a política exterior dos trabalhadores unidos da Europa”9 .
Desde essa época, estava claro que o fator decisivo para o exercício do poder em escala global pela Inglaterra estava na relação entre a Europa Ocidental e a Rússia com a Europa Oriental como colchão amortecedor. O ponto de gravitação dessa relação era, na época das Guerras Napoleônicas, a França, para em seguida passar a ser a Alemanha.
Em artigo de maio de 1890 ao Sozialdemokrat, Engels expõe a dialética do game envolvendo as potências da Europa Ocidental e a Rússia, em termos que Haldorf Mackinder, o “pai” da Geopolítica, faria alguns anos mais tarde10 . Neste artigo, os condicionantes geográficos, econômicos, militares e históricos ganham uma integração que ultrapassa e supera a abordagem da mera geografia econômica e mesmo da geopolítica. Neste artigo, já encontramos formulações muito próximas ao que depois seria chamado de Heartland, ou Área Pivot – a Rússia. Encontramos a noção de potências externas e internas ao âmbito das áreas contíguas da Europa, Ásia, África (a Grande Ilha). Finalmente, encontramos a análise e previsão para uma “Guerra Mundial”11 .
Um dos aspectos importantes da metodologia de Marx e Engels ao considerar o papel dos países e regiões no game reside na análise das transformações econômicas, sociais, políticas e culturais para determinar o comportamento necessário de seus Estados. Para Marx e Engels, o sistema definia-se com a sempre presente “questão do oriente”12 em que a Turquia constituía-se em um elo-chave do game: “a Turquia, não mais que o resto do mundo, não está estacionária”13 . Esta consideração histórica rigorosa sempre permeia e mesmo fundamenta os prognósticos de atuação destas regiões que se expressa no comportamento dos respectivos Estados. A Rússia será, após a emancipação dos servos, um caso típico dessa abordagem histórica marxiana e engelsiana. Mas de pronto vemos que a chamada Questão do Oriente necessariamente desponta no conjunto dos movimentos no interior do game. Nos textos de Marx e Engels a arquitetura geral do mundo especifica uma topografia de poder com pontos cruciais e decisivos para o resultado geral.
O que surpreende no estudo da grande quantidade de materiais a respeito da “grande política” européia e mundial do século 19 legada por Marx e Engels é que os padrões e praticamente todos os principais atores permaneceram no século 20. As transformações nas determinações geográficas, econômicas e históricas não alteraram a essência do game que se desenrola desde a passagem da Inglaterra da fase de subordinação formal para a real em meados do século 19. No quarto final do século 19, constitui-se o sistema de Estados europeus com a unificação alemã, complementada pela unificação americana e pela emergência do capitalismo no Japão. O mercado mundial inicia um período de grandes transformações qualitativas e quantitativas com a periferia rumando rapidamente para a instalação da primeira fase histórica do modo de produção capitalista. O século 20 assiste a um prolongamento de todas as questões já enunciadas durante o século 19, reiterando um mesmo padrão:
a) no século 19, tendo a Alemanha como ponto nodal, a Inglaterra como potência marítima exterior e a Rússia como fronteira eslava inexpugnável;
b) no século 20, tendo a Inglaterra substituída pelos Estados Unidos e a Rússia, sob a personalidade da URSS.
Limites da geopolítica dos blocos
Há muito se acalenta o sonho da constituição das regiões econômicas em blocos. A grande área bolivariana, o Cone Sul, a integração latino-americana, Mercosul, são alguns projetos próximos. A união da Europa, a África Saariana, a África Ocidental, o mundo Árabe, o Grande Islã, a bacia do Pacífico ou do Atlântico Sul, a união de todas as nações, são outros exemplos. Os países de Terceiro Mundo, o Bloco Socialista etc.... são exemplos de iniciativas mortas.
A questão que se coloca a cada uma dessas idéias de integração é: em que medida os diferentes projetos são acolhidos, limitados ou rejeitados pela dinâmica necessária da arquitetura geoeconômica e geopolítica do capital?
Se tomarmos como base a dinâmica que vem reproduzindo-se desde o século 18, e que perdurou pelas fases seguintes, de grandes transformações econômicas da economia mundial, conseguimos discernir uma medida para avaliar a pontencialidade de cada projeto.
O game, agora alicerçado em padrões geopolíticos e geoeconômicos que lhe correspondem nesse momento histórico, se superpõe, subsumindo ou superando todas as dinâmicas dos diferentes projetos. De fato, a essência das diferentes dinâmicas e os limites dos projetos vamos encontrar na relação de cada um com o game e sua dinâmica própria. Desse modo, o caminho da investigação sobre a natureza, dinâmica e limites dos fatos ou projetos de integração regional está centrado no desenvolvimento do jogo.
Os projetos em andamento de integração econômica regional obedecem a alguns desenhos básicos: podem agrupar economias relativamente próximas quanto a seu grau de desenvolvimento ou podem agrupar economias distanciadas, até mesmo em momentos distintos de desenvolvimento. Importante salientar que a aferição do grau de desenvolvimento econômico toma como base a mencionada conceituação marxiana de periodização do modo de produção capitalista em duas fases.
Um exemplo de bloco econômico regional relativamente homogêneo encontramos no Mercosul onde Brasil, Argentina e Uruguai, por exemplo, desfrutam de um mesmo status na tipologia econômica: trata-se de economias que poderíamos caracterizar como “subdesenvolvimento industrializado”, ou seja, estão na fase de subsunção formal do trabalho ao capital onde o padrão de acumulação baseia-se no predomínio da extração da mais-valia absoluta. Embora os traços da mais-valia relativa estejam fortemente e amplamente disseminados no conjunto do tecido econômico desses países, a relação capital-trabalho ainda está calcada naquilo que poderíamos chamar de “capitalismo selvagem”. O que estas economias têm em comum é o fato de terem cumprido praticamente todos os quesitos para a passagem à fase superior do modo de produção capitalista, a fase de subordinação real do trabalho ao capital, localizando-se, como conjunto, no limite para tal passagem. Daí emerge todo o seu agudo problema neste início de milênio. Um outro exemplo seria o Nafta ou a eventual Alca. Neste tipo de bloco econômico, encontramos uma heterogeneidade entre seus membros. No Nafta, que inclui Canadá, Estados Unidos e México, os dois primeiros países encontram-se no topo das sociedades onde a fase de subordinação real do trabalho ao capital já se realizou plenamente. Ambas fazem parte do centro do sistema, enquanto o México é um caso típico de país periférico com forte segmento econômico industrializado, mas onde predomina a extração da mais-valia absoluta. Importante salientar neste caso que, contrariando os prognósticos iniciais para o Nafta, a integração da economia mexicana às duas outras integrantes do bloco foi bastante restrita, não sendo suficiente para sequer inverter a tendência de crescente distanciamento de capacidade de geração e de distribuição da renda interna. Com efeito, no México, durante os anos 90 do século 20 e início do 21, aprofundaram-se as mazelas características do chamado “subdesenvolvimento”, do “capitalismo selvagem”, formando com Brasil e Argentina os casos de economias latino-americanas que enfrentam a disjunção limite da passagem da fase formal para a real: romper-se ou superar-se. O Mercosul, o Nafta e a eventual Alca estão fadados a serem experiências efêmeras de integração econômica, tanto pela precariedade de seu momento econômico (economias na fase de subsunção formal do trabalho ao capital) como pelo momento histórico do próprio sistema capitalista mundial. Nesta fase, o mundo conspira contra a consolidação ou implantação consistente dessas iniciativas. Com relação à Alca, o modelo repõe concepções de bloco já praticadas durante o século 20: a “América para os americanos”, onde vigorou a política externa do big stick, até o efêmero sistema mundial de blocos proposto por Haushofer.
Karl Haushofer é o polêmico geógrafo alemão, mentor geopolítico, formal ou informal14 , das primeiras projeções internacionais do nazismo. Tendo fundado em 1922 o Instituto de Geopolítica de Munique, suas formulações acabaram fundamentando e orientando os movimentos de Hitler para assuntos de política externa. Concebia um mundo loteado em blocos sob domínio de potências econômico-culturais que teriam o direito “natural” de domínio regional. Apresentou dois esquemas de divisão.
Primeiro esquema de redivisão imperialista
Neste primeiro esquema, cada um dos blocos traria em si um núcleo central e uma periferia. Tratava-se de tentar superar a dinâmica retratada pela geopolítica mackinderiana, o game. As disputas oceanismo-continentalismo e pelo controle da Área Pivot, o Heartland, estariam anuladas. Vejamos abaixo o mapa correspondente a essa primeira proposta:
O mapa mostra quatro grandes regiões capitaneadas pelos respectivos centros de poder. Com essa proposta a intenção era conter a disputa entre os grandes centros de poder mundial, resolvendo-a pelo loteamento estratégico e logístico do mundo. Os centros de poder global eram Washington, Berlim, Moscou e Tóquio.
Segundo esquema de redivisão imperialista
No entanto, a primeira arquitetura tinha alguns fortes inconvenientes: a) não contemplava Moscou na sua necessidade histórica de uma saída para águas quentes, e b) também não contemplava aos quatro impérios o acesso aos Pólos Norte e Sul. Daí a segunda proposta:
Ao que tudo indica, o esquema agora proposto teve algum impacto inicial. Três indícios reforçam essa hipótese: a) a aliança Alemanha-Japão, formando o eixo, b) a aliança Alemanha-URSS, e c) a omissão americana inicial em relação aos primeiros movimentos da expansão alemã.
A dialética Heartland/Rimland se impôs novamente
No entanto, a determinação geopolítica clássica mais uma vez se impôs, e foi exatamente Hitler o primeiro a mover-se contra a redivisão de Haushofer projetando-se militarmente rumo a Moscou, rompendo a aliança com Stálin. O controle sobre a Área Pivot mais uma vez evidenciou-se como objetivo máximo da projeção de poder mundial, animando a lógica da subseqüente II Guerra Mundial, do período da Guerra Fria e do pós-Guerra Fria. Pelo menos para Hitler o destino de Napoleão já deixava antever o resultado.
Conclusão
Hoje nos debatemos com a possibilidade de dois cenários futuros (ordem unipolar ou multipolarização). No âmbito dos nossos esforços de prognosticar os resultados dos movimentos recentes de formação de blocos econômicos, cremos que a dialética Heartland/Rimland constitui-se numa excelente hipótese de trabalho geral, pois de uma certa maneira fornece um enredo provável para os movimentos geopolíticos e geoeconômicos. A superação das propostas de Haushofer pode servir de inspiração para prognosticarmos os limites das estratégias regionais de integração econômica e a especificação da natureza de sua superação: o aprofundamento das contradições intercapitalistas. Aliás, os acontecimentos dos exuberantes anos 90 do século passado (colapso do “socialismo”, Guerras do Golfo e dos Bálcãs, advento do euro, milagre chinês, colapso e ressurgimento da Rússia, esgotamento do neoliberalismo, dentre outros) devem ser avaliados no interior dessa dialética. Vale o mesmo para o início deste “curto século” 21 com o advento do governo Bush (os acontecimentos de 11 de setembro, a guerra do Afeganistão e, mais recentemente, a questão do Iraque, das eleições alemãs e da nova “Doutrina de Segurança de Bush”). A análise de todos esses eventos pode ser feita no paradigma geoeconômico e geopolítico aqui proposto. Em assim fazendo estes acontecimentos revelam-se como aceleradores históricos dos cenários de guerra mundial.
A mídia corrente e a tradicional ciência acadêmica, ao poluírem e esgrimarem ininterruptamente paradigmas do status quo, conspiram contra a necessidade vital de discernir a realidade em meio ao caos vertiginoso dos fatos. Os complexos movimentos geopolíticos e geoeconômicos não revelam sua essência sem que se abram um espaço e um ambiente específicos de absoluta quietude, de retirada do alvoroço quotidiano. Esta densa abertura requer o rigor de metodologia, análise e reflexão. Mas o rigor científico não é suficiente. Geoeconomia e geopolítica são objetos limítrofes, que em tudo revelam em primeira instância precariedade e ameaças inauditas à espécie humana. O momento histórico em que vivemos começa a anunciar as tragédias inelutáveis, em escala mundial, como resultado de mais de um século de desenvolvimento do modo de produção especificamente capitalista. Em meio a tudo isso ressalta um aspecto primordial: em todos os quadrantes está ausente o único agente da transformação histórica, a classe trabalhadora internacional e autonomamente organizada. Fica-nos ao menos a possibilidade do encontro teórico com a positividade da emancipação da humanidade. Este trabalho teórico requer um especial momento de silêncio, quietude e solidão:
“No Nepal, os cães latem a noite inteira. A cada vinte minutos, mais ou menos, param todos ao mesmo tempo e experimenta-se um imenso alívio e quietude. Então, recomeçam.”15
Notas
1 O presente artigo é de uma certa forma a seqüência de outro, publicado nesta mesma revista, em janeiro de 2002 (vide Borba, Jason T., GEOECONOMIA DE 2001: início de um século muito breve. São Paulo, revista PUCVIVA, Ano 4, Nº 15, janeiro-março de 2002, p. 13 e segs). Por outro lado, esta análise, longe de ser exaustiva, também colheu elementos de vários debates sobre o tema, no primeiro e segundo semestres de 2002 em que o Núcleo de Geoeconomia do Depto. de Economia da FEA-PUC-SP esteve presente, bem como em eventos patrocinados pelo Espaço Marx de São Paulo, inclusive nossa participação em mesas e oficinas no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, no início de 2002.
2 Aqui existe, para os cenários futuros uma disjunção: de um lado estão os que vêem o futuro como processo de multipolarização, de outro os que o vêem como afirmação de uma ordem unipolar alicerçada na hegemonia quase absoluta dos Estados Unidos. Para esse segundo cenário ver TAVARES, M. C. A propósito de um debate sobre socialismo e globalização. in TAVARES, M. C., SADER, E., JORGE, E. Globalização e Socialismo. São Paulo, Ed. Fundação Perseu Abramo, 2000.
3 Ver BORBA, Jason T. Geoeconomia: Brasil nos cenários estratégicos mundiais, texto apresentado na mesa “Cenários de Desenvolvimento”, no evento “Brasil 500 Anos”, PUC/SP, agosto de 1999a.
4 O conceito de geoeconomia tem uma especificidade que o distinguia fortemente em relação ao conceito de geopolítica. Se assim é, no entanto, a geoeconomia, na concepção adotada em nosso esforço, não é um simples sucedâneo à de geopolítica em que esta estaria abolida ou superada das decisões e das relações no plano mundial. Segundo algumas formulações, a geopolítica não mais explicaria a relação entre os Estados nacionais, a projeção global de seus interesses. Essas projeções deveriam encontrar sua racionalidade na geoeconomia, como uma espécie de erradicação do aspecto político dessa interação entre Estados. Não mais estaríamos sob a égide da luta pelo poder mundial ou regional, mas sim sob a égide da “integração econômica” tal qual enunciada nas formulações da teoria da globalização: “... al terminar la Guerra Fría la amenaza comunista desapareció, el discurso de los derechos humanos cobró vigencia, el neoliberalismo se impuso, la geoeconomía desplazó a la geopolítica...” (in http://www.viaalterna.com.co/tperez.htm). Para uma exposição dessa modalidade de argumentação em prol da supremacia da geoeconomia ver VESENTINE, J. W. Novas Geopolíticas. São Paulo, Contexto, 2000. Para um esforço de repor a problemática da geopolítica clássica na atualidade, ver MELLO, L. I. A. Quem tem medo da geopolítica? São Paulo, Hucitec/Edusp, 1999. Para outros detalhes ver nota em BORBA, 2002, op.cit.
5 Esta conceituação está desenvolvida principalmente em MARX, Karl. Un chapitre inédit du Capital. (traduction, notes et présentation par Roger Dangeville). 10/18, nºs 532 e 533, Paris, Union Générale d’Édition, 1971. No que concerne à periodização do modo de produção capitalista, esta conceituação marxista é a idéia-chave de leitura de toda a obra e para abordagem dos acontecimentos históricos.
6 No artigo anterior para esta Revista (Borba, op.cit., 2002), já mencionado, salientamos ser um consenso, tanto para as correntes clássicas do marxismo do Século 20 (Lênin, Luxemburgo, Bukharin), como para a geopolítica do mesmo período (Mackinder, Hausshoffer, Spykman). Se o prognóstico para tal realidade já o encontramos nos autores clássicos da economia política (Smith, Ricardo) assim como em Marx, o momento histórico para o advento da comunidade capitalista global situa-se no final do Século 19 e início do 20.
7 Ver BORBA, Jason T. Autonomização do valor e periodização como fundamento radica da transição, in Revista da FEA-PUC/SP, São Paulo, EDUC, 1999b.
8 Ver RIAZANOV, D. Origine de l’hegemonie de la Russie an Europe. in MARX, K & ENGELS, F., La Russie. Paris, 10/18, 1974, p. 55.
9 ENGELS, F. En quoi la Pologne concerne-t-elle la classe ouvrière? in MARX, K & ENGELS, F., La Russie. Paris, 10/18, 1974a, pp. 197-199.
10 Ver ENGELS, F. La politique extérieure du tsarisme russe. in MARX, K & ENGELS, F., La Russie. Paris, 10/18, 1974b, p. 153 e segs. Para Mackinder, ver o bem conhecido artigo apresentado ao Royal Geographical Society em 1904: “Geographical Pivot of History”. Para conceitos e demais considerações referentes à geopolítica de Mackinder ver BORBA, op.cit., 2002. Neste artigo apresentamos o esquema Heartland/Rimland, síntese de Mackinder/Spykman, que expressa a chave de controle mundial como controle da Eurásia:
11 Ver ENGELS, 1974b, p. 189-193.
12 “Qualquer que seja o momento em que se acalma por um tempo o furacão revolucionário, podemos estar seguros da reaparição da eterna questão do Oriente”. MARX, K. La Russie et la Turquie. in MARX, K & ENGELS, F., La Russie. Paris, 10/18, 1974a, p. 117.
13 Ver MARX, op.cit. in MARX, K & ENGELS, F., La Russie. Paris, 10/18, 1974a, p. 153 e segs.
14 Para a controvérsia a respeito do efetivo papel de Haushofer e seu Instituto de Geopolítica na política externa do nazismo ver VESENTINE, 2000, p. 20 e segs.
15 CHÖDRÖN, P. Quando tudo se desfaz: orientação para os tempos difíceis. Rio de Janeiro, Griphus, 2002, p. 30.
Voltar
|
Versão em PDF
|
Encaminhar
|
Imprimir
|










