Olhar euclidiano sobre Belo Monte e Conselheiro
Pedro Lima Vasconcellos
Celebram-se este ano os cem anos da publicação de uma das obras mais controvertidas da literatura brasileira. Trata-se de Os sertões: campanha de Canudos, de Euclides da Cunha. Monumental, multifacetada, permite e até exige múltiplos olhares na tentativa de se dar conta de todas as suas variantes e tendências. De um lado ela é, em grande parte, a responsável por ter impedido que o massacre brutal perpetrado pela República à comunidade de Belo Monte caísse no esquecimento, como foi o caso de tantas outras agressões, chacinas e matanças feitas pelas elites aos setores populares deste País. Por outro lado, contribuiu para se estabelecer sobre o empreendimento de Antônio Conselheiro, em particular, e sobre as manifestações e reivindicações populares em geral, estereótipos no mínimo discutíveis. Salientaremos aqui apenas algumas facetas desse problema, enfocando uma dimensão que nos parece pouco estudada: o uso que Euclides faz de referenciais provenientes do universo religioso. Eles não são fortuitos ou meramente ilustrativos; pelo contrário, se situam numa longa história de construção do Brasil a partir de uma perspectiva teológica1 . Por outro lado, o fato de Euclides ter se defrontado, nos sertões, com uma comunidade ancorada fundamentalmente no religioso exigiu-lhe uma metodologia que incorporava, de maneira significativa, uma abordagem teológica de Canudos [a que ele sempre negou o nome Belo Monte dado por seus habitantes] e de Antônio Conselheiro. É bem verdade que tudo, em última instância, está subordinado ao determinismo geográfico, aos condicionamentos do clima, segundo os dogmas científicos da época, dos quais Euclides era partidário ardoroso. Mas Belo Monte portava especificidades que exigiam um instrumental específico, que inclusive esclarecessem as formas da presença dos determinismos naturais. O fanatismo ignorante da gente sertaneja, a loucura carismática do líder Conselheiro, frutos de uma forma própria de os condicionamentos do contexto biológico e natural se concretizarem, e a religião cristã, em suas formas mais baixas e atrasadas, exigiram ao escritor alguns vôos particulares, dos quais salientaremos alguns aspectos. O que exigirá de nós um percurso, ainda que rápido, indo desde os artigos, reportagens e telegramas produzidos em 1897, o ano da guerra, a serviço do jornal O Estado de S. Paulo, até a confecção de Os sertões, completada cinco anos depois2 .
Teologia em jornal: artigos, e o caminho para o sertão
Já nos artigos que escreve antes de se dirigir aos sertões, Euclides vê na revolta de Belo Monte a expressão de uma resistência ao novo regime político recém-implantado, no que, aliás, não difere muito de análises contemporâneas. Confia em que “a República sairá triunfante desta última prova”3 . Mas, ao comparar o Belo Monte sertanejo com Vendéia, uma aldeia francesa que se opusera aos rumos impressos pela Revolução Francesa de cem anos antes, Euclides se refere também ao fato de que a resistência tanto num como em outro caso tem motivações religiosas. O “chouan fervorosamente crente” francês compara-se ao “tabaréu fanático” do sertão: ambos exercitam “o mesmo heroísmo mórbido difundido numa agitação desordenada e impulsiva de hipnotizados”4 . O vago e depreciativo fanatismo, perspectiva que Euclides partilha com outros que abordaram a saga conselheirista e da qual não se afastará até Os sertões, é a porta de entrada para considerar o universo mental e religioso dos combatentes de Belo Monte.
No entanto, em seu caminho para o cenário da guerra, no contexto de uma longa estadia em Salvador, Euclides trava um encontro decisivo para suas percepções e análises, com um jagunço de Antônio Conselheiro, Agostinho, adolescente de 14 anos, a 19 de agosto de 1897. Aprisionado e trazido à capital, submetido a longo interrogatório5 , finalmente tem de responder “sobre questões mais sérias”: armas e convicções religiosas. Quanto a estas últimas, a surpresa de Euclides se manifesta na resposta à pergunta pela promessa feita pelo Conselheiro a quem morresse na luta: “Salvar a alma”.
Por que a resposta soou “inesperada”, se “salvar a alma” era tudo a que o cristão mediano, minimamente conhecedor da doutrina católica convencional, aspirava? O espanto vem justamente da concordância entre as promessas do herege fanático e ignorante e o que as igrejas ensinavam, reproduzindo o catecismo tridentino, que Euclides certamente conhecia!6 Pois para o inquiridor, que neste momento sintetizava o sentimento da nação e perguntava o que esta na verdade julgava já saber, importava marcar a diferença, arrancar a aberração, comprovar o absurdo. A concordância então espanta, incomoda e começa a colocar em xeque a polarização estabelecida entre doutrinas palatáveis e fanatismo, entre religiosidade viável e manifestações fruto da ignorância.
Quinze dias depois uma missa, ocorrida em meio a “espingardas, cinturões e cantis e um selim suspenso no teto”, atravessa o caminho de Euclides rumo ao sertão7 , que se mostra visivelmente incomodado com a situação, em que pareceria estar mentindo “às minhas crenças”. Não: “não traí a nossa fé, transigindo com a rude sinceridade do filho do sertão...” Vemos aqui a síntese que ele faz entre seus ideais republicanos e de modernidade e um ritual litúrgico que lhe impede, naquele momento, a anterior indiferença. Mais do que transigir com o sertanejo, a missa que presencia é expressão do que adiante declarará com todas as letras: a parcialidade do divino contra quem se arrogava a agir a partir de referenciais claramente religiosos e em prol do empreendimento militar que se lhe interpõe.
Mártires e demônios
Ao chegar finalmente ao campo de batalha e divisar o arraial, em meados de setembro8 , Euclides não consegue conter o espanto, a começar, como sempre, com a topografia. Mas quando olha “para a aldeia enorme e não se lobriga um único habitante”, pensa numa “cidade bíblica fulminada pela maldição tremenda dos profetas”9 . Como que por um momento deixa os detalhes topográficos e viaja a Israel, ao encontro de profetas vaticinadores do terror e da destruição, encontrando-os abundantemente, particularmente em relação a Jerusalém. Assim sendo, a “aldeia sinistra” tem sua iminente destruição selada com o beneplácito divino, inclusive porque produz mártires10 . A cidade santa bíblica é transposta para as margens do Vaza-barris; tornada “capital de taipa” dos “restos de uma sociedade velha de retardatários”, precisa ser destroçada pela ação civilizatória de “nossas tropas”11 . Por outro lado, o que estas fazem é apenas realizar os vaticínios proféticos, qual agente divino destinado a cumprir as profecias catastróficas de destruição da cidade santa.
Se Belo Monte é o “arraial maldito”, e o Exército não faz outra coisa que realizar a implacável mas indiscutível vontade divina, o que são os rebeldes sertanejos? Euclides não foge à conclusão: eles, que parecem vir de nenhum lugar, seriam, ao olhar da fantasia, “uma legião invisível e intangível de demônios...”12 Se a tão sonhada vitória demora, deve-se ao fato de os inimigos serem sobrenaturais, terrivelmente sobrenaturais.
Desde Nóbrega e Anchieta se sabe que o demônio está no sertão. Afinal de contas, já nos garantia frei Vicente do Salvador, em 1627, que o diabo, não tendo mais lugar na Europa cristianizada, se instalou por estas bandas, mudando inclusive o nome dessas terras, de uma referência ao símbolo da salvação a um mais conveniente com seu novo morador13 . E tendo-lhe os portugueses roubado, pela evangelização, as terras do litoral, contentando-se “de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”14 , restou-lhe o interior. A Euclides coube precisar exatamente onde ele se encontrava. Na verdade, em Belo Monte os demônios estão aos montes, formam uma “legião”. E aí, mais do que uma coincidência, isto parece remeter para um texto evangélico, em que Jesus, ao expulsar um espírito impuro, fica sabendo que seu nome é legião (Mc 5,9)15 . No entanto, é importante notar a direção impressa à citação: ao contrário da legião bíblica, demoníaco não é quem vem de fora, mas quem resiste ao invasor; não são os militares, mas os rudes sertanejos. A violência é provocada pelos jagunços; isso fica patente no fato de Euclides se referir à “legião de demônios” quando fala do uso de armas que estes fazem. Não mereceu imagem semelhante qualquer das descrições de ataques realizados pelo Exército16 . O desconhecimento da topografia e das estratégias do inimigo, que o tornam operante e resistente, converte-o em um coletivo diabólico. Não se pode, portanto, negar o caráter altamente estigmatizado da expressão utilizada. A desumanização do outro chega aqui, certamente, a um ponto alto.
Teologia em livro
Quando passamos a Os sertões, que Euclides começa a escrever logo depois de sua volta dos sertões baianos, ao ser designado para acompanhar as obras de reconstrução de uma ponte em São José do Rio Pardo, interior paulista, vemos que o tom se modifica sensivelmente. Na verdade, as últimas reportagens já deixavam antever uma significativa revisão de posições. Mas é na escrita do livro que Euclides poderá dar vazão às contradições que vem carregando dentro de si desde quando testemunhou o cruel massacre sem poder denunciá-lo. Quanto ao alcance desta revisão, digamos por ora que, a despeito das inúmeras contradições no enredo do livro (e que não é o caso de discutir aqui), os sertanejos que fizeram Belo Monte acabam por ser ardorosamente defendidos, seu martírio corajosamente denunciado, ainda que ao preço da estigmatização do Conselheiro17 . Para dar conta de seu objetivo, Euclides precisará, mais uma vez, articular elementos do universo religioso e bíblico.
Profecias do “falso apóstolo”
A avaliação que Euclides faz de Antônio Conselheiro, desde o começo, é francamente negativa. O líder do arraial rebelde, com seu “sistema religioso incongruente e vago”18 , de alguma forma concentra todos os males do povo que lidera:
Todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja, se condensavam no seu [do Conselheiro] misticismo feroz e extravagante19 .
Nele se expressam tanto as manifestações do atraso racial quanto as aberrações religiosas sincréticas20 . Desta caracterização negativa do Conselheiro Euclides não se afastará, e por ela afirmará a inviabilidade daquilo que Belo Monte representava. Daí encontrarmos, a todo momento, alusões ao “falso apóstolo” e a suas profecias, em que se alternam ironia e crítica. Ele não tem dúvidas: nas prédicas do “retrógrado do sertão” o que se nota é o ressurgimento total das “aberrações”, que se julgariam extintas, “dos chefes de seita dos primeiros séculos”21 .
Possivelmente o dado que possibilitou compreender o misticismo do Conselheiro em termos assim tão negativos foi a expectativa milenarista que Euclides divisou em Belo Monte. Não vem ao caso discutir aqui se este veio foi mesmo determinante na trajetória do arraial conselheirista. Importa é que, com esse dado, foi possível aproximar o Conselheiro, “um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse”22 , de figuras desconhecidas do cristianismo das origens, mormente Montano da Frígia, que Euclides descobrira na leitura da obra do historiador e teólogo Ernest Renan sobre os primeiros séculos cristãos23 . Mas o Conselheiro carrega um agravante: ele expressa um cristianismo há muito esquecido, que não faz qualquer sentido no momento atual. Um típico caso de insânia que em outros tempos poderia ser considerado normal24 .
Daí que o empreendimento Belo Monte não tivesse qualquer possibilidade de vingar. O que não significa que o procedimento bélico tenha sido o mais adequado para dissuadi-lo: “Requeriam [aqueles pobres rebelados] outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador – a bala”25 . Talvez exatamente nesse ponto se localize o posicionamento diferenciado que o autor passa a adotar na escrita de Os sertões.
Guerra de irmãos e martírio dos belmontenses
Assim a obra de Euclides se converte num corajoso manifesto contra a crueldade perpetrada à gente de Antônio Conselheiro pelo Exército brasileiro. A campanha militar fora um equívoco, era necessário denunciá-lo. E ao lado de afirmações quanto à inviabilidade de tudo o que Belo Monte representava, constataremos manifestações evidentes da solidariedade do escritor para com as pobres vítimas da República, embora nem um pouco com o projeto que as animava. O influxo sutil de referências da Bíblia contribuiu para dar maior força à denúncia do massacre e da crueldade, que fica mais impressionante quando articulada a outras situações, conhecidas dos leitores, sobre as quais há consenso geral. Mas não é só isso. Consideremos duas situações.
Em primeiro lugar, num momento perdido da quarta expedição já em combate, uma página que inequivocamente nos remete a “uma paisagem bíblica”26 . Uma “tapera babilônica” que com seu entorno evocava a longínqua e desconhecida Iduméia (às vezes chamada Edom). Região ao sul de Israel, nela habitavam descendentes de Esaú, irmão gêmeo de Jacó, o ancestral de Israel. Ambos os povos desenvolveram uma trajetória acidentada, de conflitos e traições mútuas. Daí que se encontrem na Bíblia palavras desabonadoras e anúncios quanto a sua destruição, o que permitiu a Euclides falar dela como “esterilizada para todo o sempre pelo malsinar fatídico dos profetas”27 .
Mas se o registro fosse apenas esse, não teríamos saído das alusões fatalistas aos anúncios proféticos das reportagens. Na verdade, este aspecto não é o único, e nisso se mostra a perspectiva nova adotada por Euclides. Os idumeus não são apenas os inimigos de Israel. São, antes de tudo, seus irmãos. Daí que noutra passagem, quando Israel necessitava passar pelo território edomita para chegar a sua terra prometida, diante da recusa Moisés tenha optado por contorná-lo a fazer guerra ao povo irmão (Nm 20,14-21). Não é preciso avançar mais para tirar a conclusão...
Uma outra imagem, essa talvez ainda mais poderosa28 . Já no fim da guerra, o arraial praticamente destruído. Incêndios aqui e ali, fumaça interminável eclipsando o sol que, vez por outra, pelo efeito oportuno de “uma lufada rija”, por meio de um “rasgão enorme”, conseguia tornar visível “uma nesga do arraial”, quando se divisavam “bandos estonteados de mulheres e crianças correndo para o sul, em tumulto”. Justo nesse dia, pouco depois da morte do Conselheiro, quando Euclides pôde dizer que “a insurreição estava morta”29 , porque o cerco do Exército ao arraial finalmente se consumara, a descrição da tragédia toma emprestadas aos evangelhos imagens evocadoras da morte de Jesus e amplamente conhecidas: o sol desaparecido, o véu rasgado.
Atrevemo-nos aqui a afirmar que o recurso a essas imagens e “cenas antiqüíssimas do imaginário ocidental” não se deva apenas ao “efeito estético e retórico” (expressões de Zilly) pretendido evidentemente pelo livro. Ele não é desprovido de conseqüências. E o caráter religioso do movimento alvo da guerra é aqui ainda menos suficiente. Na verdade, tanto a menção à Iduméia como o recurso ao relato da morte de Jesus são sintomáticos: neles se vislumbra o novo posicionamento de Euclides e sua opção ao pretender escrever um “livro vingador”. Não é pouco associar o desespero final da gente sertaneja à paixão de Jesus. E a recuperação dos fenômenos cataclísmicos radicaliza a dimensão de tragédia, tanto nos relatos ancestrais como no que naqueles se inspira (na reportagem que fez sobre esse mesmo momento da guerra nem de longe houve qualquer menção à sexta feira-santa). Daí que a vinculação do destino trágico dos sertanejos ao de Jesus crucificado mostre que seu autor fez um longo caminho, que o levou do quase escárnio inicial a uma explícita “simpatia pelos nossos extraordinários patrícios sertanejos”30 , capaz de causar estranheza em alguns de seus primeiros leitores mais cuidadosos. E se antes o Exército aparecia como agente dos desígnios divinos, o que dizer dele agora, algoz dos novos crucificados?
Da mesma maneira constatamos como se mostra eloqüente mencionar uma situação em que, apesar de evidentes conflitos, dois povos irmãos não os resolvem pela guerra. Ou melhor, um deles, divinamente conduzido, não violenta o supostamente inferior e refratário. Em ambos os casos se evidencia “a curiosa posição de militar que se apaixona pelo inimigo e não pelo aliado”31 . Não entrando no mérito das citações e aproximações, pode-se supor que Euclides esperaria da República uma ação civilizatória como a realizada por Moisés frente a Edom. Sua decepção se expressa também ao perceber que, pelo contrário, a presença da civilização no sertão foi desastrosa, convertendo-o num imenso Gólgota.
Conclusão
A eliminação de Belo Monte era inevitável; dessa convicção Euclides não se afastou em nenhum momento, mesmo quando se dedicou a escrever Os sertões, pensado como o “livro vingador”. Afinal de contas, o arraial conselheirista estava na contramão do progresso, e mesmo da religião. Confiante num insano, não tinha qualquer possibilidade de perdurar.
Desta forma se deve dizer, como já insinuamos, que se trata de vingança incompleta e até risível, em que, se o massacre dos belomontenses é ardorosamente denunciado, nem por isso as vítimas encontram a defesa da legitimidade de seu empreendimento, a organização autônoma do arraial, a única coisa que efetivamente queriam. Mas isso era praticamente impossível ao nosso escritor, entre outras coisas por sua dificuldade de lidar com a positividade da religião e sua pouca atenção às motivações, que incluíam inevitavelmente demandas de ordem social, que possibilitaram o sucesso do empreendimento belomontense enquanto a repressão brutal, pedida pelas elites locais e assumida pelo poder central, não se manifestou.
De toda forma, em Os sertões os demônios não ocupam um dos flancos apenas; na verdade a identificação deles é mais difícil porque parecem estar em toda parte, e em algum momento assumem até as feições do Cristo morto... Nas reportagens do Diário de uma expedição ainda têm uma única faceta, ou traço dominante, pois estão num dos lados da batalha. Por isso precisam ser combatidos sem tréguas, mesmo que em alguns momentos recebam a admiração do jornalista, quase incrédulo. O jornal não admite senão este enredo: está em jogo uma causa, não a necessidade de rever referências e procedimentos. Neste momento, portanto, o episódio Belo Monte não serviu para Euclides revisar e criticar a República, tema a que sempre esteve atento32 . Ao jornalista cabia contribuir no combate incansável aos inimigos do novo regime, certo que estava de que ele haveria de sair triunfante, e esta era a “última prova”. Era necessário contrapor às superstições dos rudes sertanejos aquelas das elites culturais e políticas do litoral. Afinal de contas, como ele não se cansou de repetir, “a República”, como os deuses, “é imortal”.
Em Os sertões o tom é outro. E, ainda que insuficiente, justamente essa reviravolta, em menos de cinco anos, torna sua obra-prima ainda maior, digna de celebração pelo fato de seu autor, ao fazer esse percurso, investir contra aquelas instâncias nas quais sempre confiou e aliar-se a gente em cuja causa não punha a menor confiança. Trata-se ainda de uma obra indicadora de quantas revisões nossa história, particularmente a da gente anônima e sistematicamente colocada à margem dos grandes projetos e decisões, continua carente.
Notas
1 Estimulam-nos as reflexões de Marilena Chauí em seu “Brasil: mito fundador e sociedade autoritária”. Perseu Abramo, São Paulo, 2000, p.57-87.
2 As reportagens, artigos mencionados e telegramas enviados ao jornal foram recentemente reeditados (“Diário de uma expedição”. São Paulo, Companhia das Letras, 2000). Dessa edição nos serviremos. E utilizaremos, para “Os sertões”, a edição preparada por Walnice Nogueira Galvão (São Paulo, Brasiliense, 1985). Não temos espaço aqui para considerar outros aspectos da problemática, por exemplo, a história de Antônio Conselheiro e da comunidade de Belo Monte. Para isso são úteis as leituras de Alexandre Otten. “Só Deus é grande”. A mensagem religiosa de Antônio Conselheiro. Loyola, São Paulo, 1990, e Marco Antônio Villa.“Canudos: o povo da terra”. Ática, São Paulo, 1995.
3 “A nossa Vendéia” (1). In: “Diário de uma expedição”..., p.52. Os artigos, que levam o mesmo nome, datam respectivamente de 14 de março, alguns dias após o fracasso da expedição Moreira César, e de 17 de julho, alguns dias antes de o próprio Euclides começar sua viagem a Belo Monte e ao encontro da guerra.
4 “A nossa Vendéia” (1). In: “Diário de uma expedição”..., p.51 (grifos de Euclides).
5 “Diário de uma expedição”..., p.105-111. Sintomaticamente, esse momento não será transcrito em “Os sertões”.
6 Não discutiremos aqui em que a proclamação do Conselheiro se distinguiria do receituário católico convencional, mesmo no tocante à escatologia, pois nos desviaríamos do objetivo deste texto. Pode-se ler a respeito Alexandre Otten. “Só Deus é grande”..., p.203-355.
7 “Diário de uma expedição”..., p.153.
8 “Diário de uma expedição”..., p.174-182.
9 “Diário de uma expedição”..., p.178.
10 Para a qualificação dos soldados como mártires veja “Diário de uma expedição”..., p.69.
11 “Diário de uma expedição”..., p.91.
12 “Diário de uma expedição”..., p.178.
13 Laura de Mello e Souza.” O diabo e a Terra de Santa Cruz”. 6ª ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1999, p.67-68.
14 “Vicente do Salvador. História do Brasil” (1500-1627). 7ª ed., Belo Horizonte, Itatiaia, 1982, p.59.
15 É notável que Euclides tenha percebido o alcance político-militar desta expressão bíblica, algo que vem sendo reconhecido, no campo da pesquisa exegética, apenas recentemente: a legião que aparece no evangelho é imagem da ocupação e violência romanas sobre Israel (Ched Myers. “O evangelho de São Marcos”. Paulinas, São Paulo, 1992, p.237-241; John D. Crossan. “O Jesus histórico. A vida de um camponês judeu do Mediterrâneo”. 2ª ed., Imago, Rio de Janeiro, 1994, p.350-355).
16 Esta não é a primeira vez que Euclides aproxima os sertanejos dos demônios; na reportagem de 20 de agosto, ainda na capital da Bahia, menciona a “perversidade satânica” dos jagunços (“Diário de uma expedição”..., p.115).
17 Fazemos nossas as palavras de Eduardo Hoornaert, para o qual “Os sertões funcionaram, e em certos setores ainda funcionam, como um exorcismo junto à intelectualidade brasileira. Era preciso sacrificar o Conselheiro no altar da honorabilidade brasileira para que a elite do País pudesse recuperar-se do trauma causado pela memória de uma ação tão covarde por parte do governo do País diante de uma comunidade de pobres sertanejos” (“Os anjos de Canudos: uma revisão histórica”. Vozes, Petrópolis, 1997, p.81-82).
18 “Os sertões’..., p.221.
19 “Os sertões”..., p.206-207.
20 Aliás, somos da opinião de que a reviravolta operada por Euclides não conseguiu ser mais radical, pois o autor continuou aferrado a seus preconceitos de ordem racial e determinista.
21 “Os sertões”..., p.221.
22 “Os sertões”..., p.221.
23 Ernest Renan. “Marc-Auréle et la fin du monde antique’. Calmann-Lévy Éditeurs, Paris, 1929 (original de 1882).
24 “Os sertões”..., p.208. Sobre a leitura de Renan e a acentuação do aspecto racial e evolucionista por Euclides pode-se ler Luiz Costa Lima. “Terra ignota: a construção de Os sertões”. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1997, p.108-124.
25 “Os sertões”..., p.251.
26 As considerações a seguir devo-as a Flávio Aguiar, que fez a gentileza de me ceder cópia de seu artigo “A volta da serpente. Um estudo sobre Os sertões, de Euclides da Cunha”, ainda inédito.
27 “Os sertões”..., p.436. As citações bíblicas em que as invectivas contra Edom aparecem de forma mais categórica são o Sl 137 e a profecia de Abdias, bem como Is 34. Nestes casos o contexto é o da colaboração edomita para a destruição de Jerusalém pelos babilônios.
28 “Os sertões”..., p.525-526. Veja a respeito dessa passagem Berthold Zilly. “A guerra como painel e espetáculo. A história encenada em Os sertões”. In: História, ciências, saúde - Manguinhos. Rio de Janeiro, 1998, v.5, p.23-32.
29 “Os sertões”..., p.526.
30 Carta a Araripe Junior, de 30/03/1903. In: Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Gallotti (org.) “Correspondência de Euclides da Cunha”. São Paulo, Edusp, 1997, p.159.
31 Walnice Nogueira Galvão. “Euclides da Cunha”. In: Ana Pizarro (org.) “América Latina: Palavra, literatura e cultura”. São Paulo / Campinas, Memorial / Unicamp, 1994, v.2, p.631.
32 “Ao cobrir a guerra de Canudos, Euclides silenciou sobre o horror da guerra. Deixou-se cegar pela máquina de propaganda da imprensa e do governo” (Roberto Ventura. “Euclides da Cunha e a república”. In: Estudos avançados. São Paulo, 1996. nº 26, p.275-291; a citação é da p.285).
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