Palavras de Saramago e Petras

APROPUC-SP
James Petras

O escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, membro da delegação do Parlamento Internacional de Escritores, que em 24/3/2002 visitava a Palestina, no campo de refugiados de Khan Younis, sul da Faixa de Gaza, indignado, fez uma declaração que provocou pronta reação dos judeus, inclusive intelectuais tidos como progressistas.
Após visitar as redondezas de Ramallah, reuniu-se com Yasser Arafat, declarou aos jornalistas de todo o mundo, segundo o correspondente da AP Khalil Hamra: “O que está acontecendo na Palestina é um crime que podemos situar no mesmo plano do que ocorreu em Auschwitz. Considerando, inclusive, as diferenças de tempo e espaço, é a mesma coisa”.
Para deixar claro que não foi uma mera declaração intempestiva, emocional, Saramago reafirmou suas declarações, comparando o bloqueio israelense ao mais brutal extermínio em que milhões de judeus foram mortos pelos nazistas.
Em entrevista para as emissoras de rádio Raci e Andalucía Abierta Radio, no dia seguinte, Saramago disse que os israelenses “não se dão conta de que seus antepassados se envergonhariam do que estão fazendo”, agora, com os palestinos.
Menagem Peri, editor da obra de Saramago em hebreu, comentou: “Suas palavras me dóem. De uma pessoa profunda teria esperado uma visão mais complexa da realidade. Somente se queimáramos em fornos seis milhões de árabes ele teria direito de fazer essas comparações”.
Saramago sustentou: “Eu só descrevi o que vi, e prefiro a propaganda barata dos palestinos à cara propaganda de Israel. O que disse dito está, e se a palavra Auschwitz choca tanto, então direi ‘crime contra a humanidade’”.
Na seqüência, reproduzimos o artigo de James Petras, professor na Binghamton University do Estado de Nova York (EUA) e um dos mais importantes intelectuais de esquerda crítico do imperialismo atual, que analisa as declarações de Saramago.

Jenin: Auschwitz ou o gueto de Varsóvia?

Embora coincido com a caracterização geral que faz José Saramago sobre o ataque do exército israelense aos palestinos, me parece que a analogia mais apropriada é com o levantamento do gueto de Varsóvia contra os nazistas, e não Auschwitz. Tanto os israelenses como os nazistas tentavam destruir o tecido social do povo oprimido e expulsá-los da terra conquistada. No caso dos nazistas, por meio dos crematórios e das câmaras de gás; no caso dos territórios ocupados, mediante o terror sistemático e a destruição das estruturas básicas da sociedade; moradias, hospitais, escolas, estradas, redes de eletricidade, abastecimento de água, comércio e estabelecimentos comerciais, alimentos, agricultura e indústria. Nos dois casos, aconteceram incursões sistemáticas e confinamento em campos de concentração de homens entre 15 e 60 anos.
Não obstante, a resistência palestina em Jenin e nas outras cidades e campos de refugiados é similar ao levantamento violento dos judeus de Varsóvia contra os nazistas, e não a submissão pacífica dos judeus que eram enviados a Auschwitz. Ironias da história: os judeus israelenses destruíam Jenin no mesmo dia (19 de abril) em que os hebreus comemoram o levantamento de Varsóvia. Os militares israelenses emprestaram explicitamente dos nazistas suas táticas de guerra urbana, empreendendo uma destruição massiva com o uso de tanques e transportes blindados de tropas depois de encontrar férrea resistência no combate casa por casa. O alto-comando israelense ordenou que os tanques disparassem contra edifícios com todos os habitantes em seu interior, e depois terminaram a obra com buldôzeres, enterrando as vítimas sob os escombros. As tropas de assalto nazistas praticaram a mesma política de “terra arrasada”. O resultado é que Jenin e o gueto judeu em Varsóvia mostram a mesma paisagem desoladora, o mesmo mal-cheiro de corpos em decomposição, sepultados sob as ruínas.
A resposta dos governos sobre seus crimes contra a humanidade é similar: os palestinos e os lutadores da resistência judia eram “terroristas”. Para seus povos, a história é diferente: os lutadores de rua judeus de Varsóvia e os milicianos palestinos são vistos como heróis nacionais. A máquina propagandista dos Estados judeus e nazistas vomitam a mesma afirmação mentirosa: a invasão dos guetos e o esmagamento da resistência são apresentados como “políticas defensivas”; a destruição do tecido social é descrita como o desmantelamento da infra-estrutura terrorista. Ariel Sharon, como Joseph Goebbels, fala em buscar a “paz” mediante o genocídio.
Tanto Adolf Hitler como o Estado de Israel não permitiram o acesso da Cruz Vermelha aos guetos para atender os feridos, doentes e perturbados mentalmente. A mesma visão paranóica que enviou as máquinas de guerra para matar mulheres e crianças impulsiona os israelenses a desafiar e acusar todos os grupos de direitos humanos, a ONU, a União Européia e outras entidades humanitárias que ficaram atônitas diante de tal matança. Enquanto que a paranóia de Hitler o levou a acusar a todos os críticos democráticos de “odiar os arianos”, Sharon e seus cúmplices fanáticos dentro e fora de Israel lançam acusações de “anti-semitismo” contra a ONU, a Cruz Vermelha e outras organizações humanitárias em perpétuos destemperos de conduta psicótica.
A profunda irracionalidade que aflige os líderes israelenses fica melhor ilustrada por um incidente ocorrido no hospital palestino para doentes mentais em Ramallah. Depois de um tanque israelense ter mandado para os ares o muro do asilo, um doente perguntou ao seu médico: “Posso usar seu celular? Quero ligar para a CNN e dizer para Ariel Sharon que pode vir aqui e receber tratamento gratuito”.
A resposta dos partidários dos Estados israelense e nazista às matanças de Varsóvia e Jenin foi similar: celebrações vitoriosas e promessas de apoio adicional. Cerca de 100 mil manifestantes, judeus em sua maioria, saíram às ruas em Washington jurando apoio incondicional para Sharon e para sua campanha genocida. Médicos respeitáveis, dentistas, empresários, celebridades dos meios de comunicação arrecadaram milhões de dólares para financiar a máquina de guerra israelense. Enquanto os judeus israelenses profissionais e progressistas fogem por insegurança ou desgosto, os líderes judeus de Israel e EUA visitam a Argentina para recrutar pobres judeus da classe média e lhes oferecem bilhetes grátis, casas, subsídios, empregos, jardins... roubados dos palestinos. Exatamente igual como faziam os nazistas que desaloja
vam os judeus, os despojavam de suas propriedades e as entregavam aos seus leais seguidores.
Varsóvia e Jenin: judeus como vítimas, judeus como opressores. Os descendentes dos heróis dos guetos de Varsóvia praticam as táticas e estratégias dos assassinos de seus avós. É óbvio que entre os alemães e judeus havia e há opositores das máquinas de guerra nazistas e israelenses. Milhões de socialistas, comunistas, sindicalistas e democratas alemães que se opuseram ao regime nazista foram assassinados, presos e reprimidos. Hoje, uma minoria de valorosos israelenses fazem ouvir a sua voz contra Sharon e seus cúmplices. Exilados alemães progressistas condenaram a matança nazista de judeus em Varsóvia, e alguns inclusive expressaram sua solidariedade com a resistência. Da mesma maneira, nos EUA e Europa grupos de críticos judeus condenam o aparato militar de Sharon. Mas os meios de comunicação nada informam sobre essas críticas. São críticos silenciados. Nos EUA só se ouvem a voz e as imagens do Estado israelense: poderosos dirigentes sindicais continuam adquirindo bônus israelenses com os fundos de pensão de seus associados. As vendas de bônus israelenses subiram.
Hollywood é cúmplice. A diferença é que, ao contrário do que ocorreu durante a Alemanha nazista, não surgiu nenhum produtor de cinema que filme o Triunfo da vontade, a glorificação das mobilizações das massas de Hitler realizada por Leni Reisenthal.
Pensemos en Jenin e Varsóvia. Em ambos os casos, o mundo, os países democráticos ocidentais não fizeram senão contemplar a matança. Horrorizados, mas contrários em atuar. Entretanto hoje, em Jenin, a diferença do que aconteceu com a matança nazista de judeus em Varsóvia, ninguém pode dizer que nada sabia.
Jenin: genocídio em nosso tempo. A destruição do gueto de Varsóvia não foi um ato único de um poder maligno único. Os judeus não são o único povo que sofreu um holocausto. Jenin é nosso holocausto. O levante palestino é conduzido por nossos combatentes da resistência. Em 19 de Abril, em uma cerimônia realizada em Buenos Aires pelo aniversário do levante de Varsóvia, Osvaldo Bayer lembrou num auditório predominantemente judeu a resistência palestina em Jenin. Alguns dos presentes aplaudiram. A maioria guardou silêncio.
Alguns críticos rebatem: Israel é uma democracia, a Alemanha era um Estado totalitário. Israel é uma democracia para os judeus e um violento opressor dos palestinos nos territórios ocupados. Nesses territórios os israelenses atuam como nazistas: despojam os palestinos de suas terras, de sua água, encarceram milhares e destroem os lugares de “seres inferiores”. Outros críticos podem alegar que os palestinos cometem atos de terrorismo contra os colonos e em Israel contra os cidadãos comuns, diferentemente dos combatentes de Varsóvia, que lutavam contra o exército nazista. A diferença é apenas marginal: os combatentes de Varsóvia também mataram funcionários civis alemães e colaboradores polacos e inclusive judeus. A diferença principal é a distância e a geografia: nesse tempo, os civis alemães estavam muito longe. Depois da guerra, toda a população civil alemã foi severamente castigada pelos crimes do governo.
Como todas as analogias, a de Varsóvia/Jenin tem seus limites de tempo e lugar. Mas nos pontos básicos existe uma estremecedora convergência: em ambos os casos, um povo heróico se levantou e combateu a máquina militar de um Estado genocida.


James Petras é professor na Binghamton University
do Estado de Nova York (EUA)
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