As pedras de Davi mudaram de mãos
PUCviva – O que te levou ao Oriente Médio recentemente? E o que você viu lá?
Viajei à Palestina como integrante de uma comitiva composta por representantes de entidades ligadas ao Fórum Social Mundial e de outras instâncias sociais e políticas. Participaram, pelo Brasil, Ronaldo Zulke (deputado estadual PT-RS) e Paulo Günter Suess (assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário e Cáritas). Entre os nossos objetivos gerais, deveríamos manifestar a solidariedade do FSM ao povo palestino; iniciar articulações para viabilizar uma sessão do FSM na Palestina, de preferência ainda este ano; finalmente, produzir e divulgar relatos sobre aquilo que vimos. Entre os objetivos mais específicos, deveríamos tentar negociar com o governo israelense a saída digna de Mário Lill e Paul Nicholson, integrantes da Via Campesina e do FSM, ambos presos no quartel-general de Yasser Arafat, em Ramallah, cercado por tropas israelenses desde 29 de março; visitar no cárcere o ativista israelense Sergio Yahni, membro do CI, condenado à prisão, em 20 de março, por ter recusado servir o Exército de Israel; finalmente, deveríamos estabelecer contato com o frei catarinense Antonio Marcos Koneski, que estava na Igreja da Natividade, em Belém, também atacada pelas tropas de Sharon.
Na Palestina ocupada, presenciei uma das situações mais terríveis, sufocantes e sem esperança de toda a minha vida. Naqueles dias de abril, refiz mentalmente, várias vezes, uma espécie de inventário de todas as conjunturas extremas que havia coberto como jornalista. Não me lembro de nada que se compare, em brutalidade, arrogância e ódio ao outro, à prática de “punição coletiva” de um povo inteiro imposta por Sharon.
PUCviva – Você concorda com a analogia de que os ataques do exército do Estado de Israel à Palestina são comparáveis às ações dos nazistas nos guetos de Varsóvia (como disse Saramago) ou a Auschwitz (como comparou James Petras)?
Sim, acho as comparações plausíveis. Entretanto, temos que tomar cuidado, já que não podemos afirmar que Israel seja uma sociedade “nazificada”. Existem milhares de israelenses contrários a Sharon, como demonstrou uma manifestação de 60 mil pessoas, em Tel Aviv, em meados de maio. Eu mesmo contei com a ajuda e mantive contato com muitas organizações israelenses de defesa dos direitos humanos dos palestinos (Paz Agora, B’tselem, Comitê Israelense contra a Demolição de Casas, Gush Shalom), além de intelectuais internacionalmente reconhecidos por defenderem a causa palestina (Michel Warshavski, Uri Avnery, Gershom Knispel e muitos outros). Não podemos confundir o governo Sharon com o povo israelense, ainda que muitos israelenses apóiem Sharon. Mas não são a mesma coisa, de jeito nenhum!
PUCviva – E no caso particular de Jenin, o que muda?
O massacre de Jenin aconteceu. É um fato. Não sabemos ainda quantas vítimas ele produziu, mas entrevistei uma família de sobreviventes. Foi terrível. E é um fato amplamente denunciado também por aquelas organizações israelenses a que já me referi. Ressalto isso, para deixar bem claro que não podemos ser maniqueístas. Não podemos responsabilizar toda a sociedade israelense, nem podemos alimentar o anti-semitismo. Isso não tem nada a ver. É vergonhoso que a ONU tenha se curvado à proibição, determinada por Sharon, de investigar o que de fato aconteceu em Jenin, ainda mais quando todos sabem que Sharon foi também o responsável pelo massacre de 2 mil palestinos que viviam nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, praticado no sul do Líbano, em 1982, por soldados libaneses cristãos que contaram com a cobertura do Exército israelense. Na época, cerca de 500 mil pessoas foram às ruas de Tel Aviv para protestar contra Sharon, que era o ministro da Defesa. O então primeiro-ministro Menachem Begin declarou que Sharon era “mentalmente incapacitado”.
PUCviva – O que esta guerra de Sharon tem a ver com o 11 de Setembro? Qual a relação entre os dois fatos?
Tem tudo a ver. Sharon apenas aplica a “solução Bus” para todos os conflitos, isto é, a chamada “guerra ao terror”. Para a Casa Branca, qualquer um que se oponha aos planos de Bush é “terrorista”. Só na América Latina, porta-vozes do Departamento de Estado já classificaram como “terroristas” as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército Zapatista. No mesmo tom, o ministro do Desenvolvimento Agrário do Brasil, Raúl Jungmann, declarou que o MST é terrorista. Ora, a partir do momento em que você é classificado dessa forma, justificam-se todos os ataques. É o que Sharon está fazendo. Só que os “terroristas” que ele está assassinando são crianças, adolescentes, mulheres, velhos desarmados.
PUCviva – E os “homens-bomba”? Eles não são terroristas?
É impressionante: a cobertura da mídia internacional faz parecer que Israel apenas reage à existência de “terroristas fanáticos” – os “homens-bomba” –, mas sem que sejam jamais discutidas as razões que fazem com que um jovem se disponha a atar uma bomba no seu próprio corpo e imolar-se em sacrifício. É o desespero que produz homens-bomba. Enquanto eu estava na Palestina, um amigo israelense me disse a seguinte frase: “Existe uma fábrica de homens-bomba na Palestina, e o dono dessa fábrica é Ariel Sharon”. Claro, os homens-bomba não começaram com Sharon, mas só em 2001, quando ele foi eleito, houve 36 atentados, quase o mesmo número somado do total de atentado desde 1993, quando surgiram os “homens-bomba”: 42. E só até abril de 2002 foram outros 30 atentados! Além disso, os jornais tendem a estabelecer uma relação de simetria entre o quarto mais poderoso Exército do mundo, e um punhado de jovens miseráveis e desesperados. É óbvio que ninguém aqui pretende defender ataques a civis inocentes, sejam eles palestinos ou israelenses, mas não se pode ignorar as óbvias distinções.
Com notável sensibilidade e precisão, o escritor José Saramago assim descreveu a situação, após uma visita a Yasser Arafat, em Ramallah, no fim de março de 2002: “As pedras de Davi mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos chamados terroristas suicidas... Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida. Mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba.”
PUCviva – Sharon é criminoso de guerra?
Claro! E como tal deve ser punido por um tribunal internacional. Só que, curiosamente, as três últimas testemunhas vivas de Sabra e Chatila que poderiam incriminar Sharon, todos ex-membros da guarda libanesa que agiu sob sua proteção, e que se declararam publicamente dispostas a testemunhar contra Sharon, foram assassinadas, nos primeiros três meses de 2002. Uma das testemunhas, aliás, foi morta em São Paulo, em março: Michael Nassar, assassinado por um pistoleiro que, usando uma arma com silenciador, disparou cinco tiros contra o seu corpo (e sete contra o de sua mulher, Marie). Nassar ainda teve tempo de chamar um amigo por telefone, para dizer que estava sendo seguido. Sharon nega, formalmente, qualquer participação nos assassinatos. Claro, claro. Foi tudo uma extraordinária coincidência. E João Alves ganhou mesmo trinta vezes na loteria, como todos sabemos.
PUCviva – Quais são as perspectivas do Estado de Israel e de um Estado Palestino – e em que prazo? É possível uma convivência?
Não será possível convivência, enquanto Sharon for o primeiro-ministro. Quanto às possibilidades futuras, acredito que a plataforma estabelecida pelo movimento israelense Paz Agora proporciona uma boa base: 1) Israel deve respeitar todas as decisões da ONU, incluindo a de n.º 242, que exige o retorno de todos os territórios ocupados após a Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de junho de 1967), e as que preconizam o desmantelamento de todas as colônias ilegais de judeus construídas em terras palestinas; 2) Israel deve aceitar que Jerusalém seja uma capital binacional (de Israel e do futuro Estado palestino); 3) Israel deve aceitar discutir o direito de retorno de todos os palestinos que queiram viver em sua própria terra, espalhados pelo mundo a partir de 1948, quando foi criado o Estado israelense.
PUCviva – Além dos relatórios já produzidos para o Fórum Social Mundial e de eventuais artigos, você produziu algo de maior fôlego sobre a questão palestina?
Sim, acabo de lançar um livro para a coleção História Imediata da editora Casa Amarela, relatando o que foi a nossa viagem, procurando refletir sobre a situação, a partir das conversar que mantive com as pessoas diretamente envolvidas nos fatos (incluindo os sobreviventes de Jenin). O livro foi publicado em junho.
José Arbex Jr. é jornalista
e professor da PUC
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