Conto - Pérolas

APROPUC-SP

Ele me deu o colar, para que eu sempre lembrasse de Cole Porter. Eu não sabia que o compositor americano – cujas músicas adorávamos, quando rodávamos pelos bares da cidade –, ornamentava com pérolas seu pescoço. Quando abri a caixa, acostumada que estava com pingentes coletados em bazares, quase rodopiei, como aprendiz de bailarina, sem forças nas pernas, ainda. Meus olhos abriram e fecharam muitas vezes, letreiros luminosos dizendo aos poucos, entre um piscar e outro, que há na vida tesouros. Eu transbordei, menina pela primeira vez se sabendo arca, menarca. Ele, vendo meu estado oscilante, dedos cambaleantes, se aproximou de meus lábios, sem os tocar. Só um hálito exalou, como se minha boca fosse uma rosa que não se pode pegar, sob o risco de toda ela desmanchar. Segurei o colar – tímida, um tanto –, mais do que deveria, menos do que poderia. Situei a peça rara no meu corpo, casa. Transpirei, ao ver no espelho uma outra mulher, eu, antes um quase nada. O amor, cama, se fez sem que eu pudesse ou quisesse retirar de minha morada aquela estrada, via láctea. Dedilhei os cabelos do moço, aquele moço, feito uma pianista sutil, na técnica e na calma. Durante o gozo, quase acreditei na existência da alma, essa invenção da metafísica, adolescente lírica. Depois, relaxada, voltei a fazer as pazes com meu corpo e minha linguagem, esta sim, minha paisagem. O amor durou. Algumas semanas. Sete, talvez. Depois, de mim se afastou, canção que vai sumindo, a voz se dissipando, longe do alcance dos ouvidos humanos. Eu, enquanto, quis ser as notas coordenadas, formando a melodia, querendo ainda ser o sol que irradia. Sonhei habitar o mesmo espaço da harmonia, até chegar ao lugar para onde todas as canções vão. Vão. Eu dizia o nome do moço sem perceber, como se na minha vida ele estivesse ainda. Ele. Em vão. Ele, persistia. Nem rompeu comigo, porém. O adeus veio vestido de silêncio, o que aumentou ainda mais seu peso. Um fio branco, meu, solto no meu colo, um dia, me fez lembrar da passagem que somos, todos. Só, recuei. Lancei-me contra a luz, lâmpada, mariposa absoluta, deixando-me queimar sem luta, destino dos que acreditam na morte como parte da diária lida. Li um poeta obscuro, e não senti secura. Ele dizia que amar é sempre inseguro, porque, infante, se reduz sempre a uma ausência de fala, tal qual o susto, mudo, gerado por voltas em uma roda-gigante. Leve, repouso após o instante sem fôlego e breve, fiquei mansa. No entanto, ainda faltava alicerçar uma esperança. Criança, puxei, agridoce, o colar. As pérolas rolaram soltas, sem lar. Eu estava desfazendo minhas inseguranças, ali: chão, música de salão e dança. Night and day, cantei. E dancei. Recolhi cada um dos pequenos e brancos glóbulos e os coloquei novamente – agora desconjuntados, nenhuma trança – naquele deserto, presépio, caixinha que toda luz tampa. É da natureza das pérolas: elas fenecem, quando não mais em contato com a quentura do corpo. Murcham, como flores sem água. Água, tomei, logo após. Eu também sabia: um autor, inventor de uma psicologia, pleno de ousadia, cujo nome em mim nem mais cabia, havia falecido depois de um copo d’água. Repeti, em voz alta, suas últimas palavras, após a trivial bebida: que delícia! No outro dia, abri a porta da minha casa e fui. Fui, sem pensar em nenhuma humana lei. Get out of town, assobiei.

Alex Moreira Carvalho é professor da PUC

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