CRÔNICA - Mario Lago
Mario Lago
Antes de sair para a caminhada matinal, telefonei para minha mãe (coisas de filha única longe do lar). Depois de alguns minutos de uma conversa trivial, ela com uma voz ansiosa, muito parecida com a de um jornalista no ato do primeiro furo de reportagem, disparou: “Filha, aquele ator da Globo, que você sempre achou parecido com ‘seu’ Ivan, morreu ontem”. De início não entendi direito o que ela dizia. Nem ao menos recordava quem era o “seu” Ivan.
Minha mãe, embora não lhe falte sensibilidade para as dores do mundo, sempre confunde nomes e histórias. Só após ordenar as minhas idéias, notei que ela falava de Mario Lago, 90 anos, filho de um maestro carioca, nascido na Rua do Rezende, ator, compositor, escritor, político, muito parecido fisicamente com um senhor polonês, proprietário da casa em que eu e minha mãe moramos por uns bons cinco anos. Ele também morreu idoso, porém não alcançou a marca dos 90. Gostava do “seu” Ivan. Em minha imaginação de menina sonhadora, solitária, órfã de avôs, idealizei o “seu” Ivan como o avô perfeito.
Comecei a gostar do Mario Lago, na minha adolescência, não por suas qualidades intelectuais, artísticas, morais, mas porque ele, Mario Lago, o ator de “Dancing Days”, novela de grande sucesso em finais na década de 70, guardava fortes semelhanças com “seu” Ivan, o proprietário polonês da minha casa, e por isso Mario Lago também despertava em mim a saudade de um avô inexistente.
Na maturidade passei a apreciar Mario Lago pelo seu exemplo de cidadão brasileiro, compositor de sambas, escritor meticuloso, ator dedicado, político ativo. Morreu com uma pensão de 1.500 reais recebida da União, por ter sido cassado do cargo de diretor da rádio Nacional em 1964.
O precário estado de saúde dos últimos tempos lhe rendeu uma dívida de quase 30 mil reais de tratamento médico. Não acumulou amarguras. Nem perdeu o bom humor nem a paixão pela vida. No ano passado, em entrevista concedida a um jornal de São Paulo, Mario Lago foi indagado pelo repórter se, por acaso, carregava algum arrependimento do que fizera: “Não, fiz o que quis e fiz com paixão. Se a paixão estava errada, paciência. Não tenho frustrações, porque vivi como em um espetáculo. Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile”.
Mario Lago, pena que você não foi meu avô!
Rosangela Borges, mestre em Ciências da Religião pela PUC-/SP, jornalista, professora universitária, é autora dos livros Axé, Madona Achiropita! – Presença da Cultura Afro-Brasileira nas Celebrações da Igreja Nossa Senhora Achiropita, em São Paulo, Edições Pulsar, 2001, e Quem quer teclar comigo? – Adolescendo na Internet, Paulinas, 2001.
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