Home >> Revista PUC Viva >> 15, TERRORISMO OU TERRORISMO, JANEIRO DE 2002 >> Geoeconomia de 2001: início de um breve século

Geoeconomia de 2001: início de um breve século

APROPUC-SP

Jason T. Borba

"O tempo não existe, exceto para mudar." Aristóteles

Estaríamos num bom momento para visualizar as grandes tendências geoeconômicas1 da nossa sociedade global? Certamente. O início deste século/milênio não foi festejado como foi o fin de siècle. Olharam para o passado e comemoraram o fato de a civilização haver chegado em "2000". Mas paradoxalmente é o olhar adiante que traz uma insondável nostalgia: saudade do futuro! Alguns fatos neste ano de 2001 chamaram a atenção quase total da mídia e das análises estratégicas: a) o advento do governo G.W. Bush, b) a crise EUA-China, c) a crise econômica atingindo os EUA, d) os atentados de 11 de setembro. Há alguma conexão entre eles?2 
Diz Marx que "a história da indústria, a existência objetiva da indústria, é o livro aberto das forças essenciais do homem, a psicologia humana materializada. Até o presente não se considerou a indústria na sua conexão com a essência do homem; somente se tomaram os aspectos exteriores, utilitários"3 . Neste início de milênio a "psicologia materializada" é a indústria-mundo, a máquina mundial capitalista da qual absolutamente nada se furta por tratar-se de um mundo fechado4 . Cada crise econômica ou política recente, em qualquer lugar, repercute imediatamente no destino de cada indivíduo no mundo. "O futuro a Deus pertence", mas mesmo assim é vital o esforço de se prever uma mudança de qualidade, o surgimento das condições específicas que poderão colocar perante a história o agente consciente de sua profunda transformação5 .
A conexão entre o todo e a parte, fácil de ser constatada, é difícil de ser lida e compreendida. "Estamos num mundo em acelerada transformação" é voz corrente em todos os quadrantes da atividade humana e o estresse de uma tal condição é crescente. Seria um estresse benigno resultante de uma nova ordem mundial que se construía, a da globalização? Hoje, golpe após golpe, a sensação reinante é de que a ordem do mundo está se desconstruindo. Os paradigmas de sociabilidade e de autopercepção são cada vez mais insuficientes para lidar com este processo vertiginoso. 
A análise centrada nos fatos tende a ficar ultrapassada quando eles se sucedem dramaticamente6 . Um quadro mais amplo é necessário. Tentaremos então um olhar abrangente, integrando dialeticamente passado, atualidade e futuro7 , tornando possível uma abordagem geoeconômica dos acontecimentos para avaliar em que medida aceleram, detêm ou desviam as tendências mais profundas em curso.

Megacenários geoeconômicos
Vamos listar os principais cenários envolvendo nosso objeto: o devir da economia-mundo ou sociedade-mundo8 .
Primeiro cenário. Inicialmente, temos aquele que acaba de sair de cena. Trata-se da Nova Ordem Mundial (NOM), construída ao longo das décadas de 80 e 90 sobre os pressupostos da teoria e da doutrina ufanista da globalização que acabava de vencer a Guerra Fria. O mundo tenderia para a homogeneização, superando as moedas nacionais, fronteiras alfandegárias, bancos centrais e mercados nacionais que comporiam um mercado global.
Conflitos armados internacionais seriam pontuais, onde resistências idiossincráticas assumissem formas extremas: Iraque e Iugoslávia como paradigmas da nova intervenção disciplinadora. ONU, FMI, Banco Mundial, Otan seriam os novos gerenciadores globais. Não haveria mais possibilidade para um conflito nos moldes da I e II Guerras Mundiais9 . A Nova Economia "anunciava" uma era em que a geopolítica dos Estados socialistas e dos periféricos estaria superada, assim como a geopolítica dos Estados capitalistas centrais. A ordem mundial bipolar da Guerra Fria dava lugar a um mundo unipolar sob a hegemonia dos Estados Unidos: o Império. Tínhamos a queda do Muro de Berlim, o fim do socialismo institucional da ex-União Soviética e do Leste Europeu, a opção pelo mercado na China, o fenômeno dos "tigres asiáticos" e as "economias emergentes"10 . No entanto, havia um prazo para que este programa provasse sua efetividade: os anos 90. 
Este programa neoliberal foi um fracasso total: o mundo esteve longe de uma homogeneização econômica. Leste Europeu, Ásia Central, América Latina e África tiveram mais exclusão que foi mistificada pela integração financeira especulativa e pela desnacionalização de seus ativos. 
As crises financeiras se sucederam, colocando fora de combate o Japão, as economias asiáticas, a Rússia de Yeltsin e as economias latino-americanas. A Europa Ocidental acelerou a duras penas sua integração, mas a Alemanha, seu carro-chefe, enfrentava dificuldades crescentes em integrar o espólio da ex-Alemanha Oriental. Era o fim do sonho de ver a Otan e a União Européia alargadas rumo ao Leste Europeu e para a Ucrânia, Georgia, países bálticos, região do Cáspio. Toda essa região mergulhou numa catástrofe econômica, junto com a própria Rússia. Seu Produto Interno Bruto caía pela metade e até mais.
O custo para trazer economias subdesenvolvidas para a economia global é incomensuravelmente alto. A proposta de reforma neoliberal está calcada num argumento essencialmente quantitativista, com uma abstração básica: o subdesenvolvimento tem profundas raízes na estrutura da economia mundial, na sua formação e é condição de existência do próprio modo de produção capitalista.
Segundo cenário. China é protagonista de um conflito mundial, como potência emergente com forte pressão populacional, altíssimas taxas de crescimento econômico, discurso fortemente nacionalista e regime político autoritário e armamentista. Taiwan, Tibet, Caxemira, Vietnã, Coréia do Norte, Pacífico Ocidental e em toda a fronteira russa, além das questões econômicas e comerciais, a colocam como pólo germinador de crescentes tensões. 
Terceiro cenário. A Rússia volta a capitanear um conflito global. A partir de 2000, a restauração do centralismo nacional e regional, a recuperação econômica, a retomada do militarismo, fazem com que volte a ser protagonista de um conflito em grande escala, reeditando os cenários da Guerra Fria.
Quarto cenário. Pode reemergir da milenar questão muçulmana, reeditada no petróleo e no Oriente Médio, um Islã totalmente ou parcialmente unificado que protagonizaria um conflito mundial. Hutington formula a natureza profunda desse conflito como choque de civilizações11 , enquanto nos parece mais profícuo pôr o foco na questão nacional12 e, por via de conseqüência, na questão econômica.
Quinto cenário. Trata-se da mudança no paradigma das guerras, que ganham uma nova dimensão: a informação e o espaço. Os primeiros movimentos neste sentido estão sendo dados aceleradamente pelos EUA. Alguns trabalham com o prognóstico otimista de que, assim como a paz, a guerra é apenas um dos resultados possíveis na era da economia da informação13 ; outros vêem esta transformação como meio de projetar o domínio americano para mais um século e, com ele, uma tensa e pragmática pax americana14 .
Sexto cenário. Os movimentos terroristas de alcance mundial eram vistos como ameaça apenas potencial. A partir dos atentados de 11 de setembro já são vistos em alguns cenários como prováveis protagonistas de um conflito mundial com novos contornos e talvez já em curso.
Sétimo cenário. Existe, porém, um megacenário clássico tido como superado. Uma guerra mundial que reedite no geral os contornos das duas guerras anteriores, ou seja, uma guerra entre potências capitalistas, o clássico conflito interimperialista. Tal cenário sobreviveu nas iniciativas mais outsiders que atualizavam a análise marxista tradicional de Lênin, Luxemburgo, Bukharin, Trotsky. Idéia básica: os fatores econômicos e geopolíticos das duas guerras anteriores estão presentes na atualidade. O ponto de partida é a teorização da natureza mais profunda do modo de produção capitalista e a tentativa de reafirmar a necessidade de sua superação histórica na disjuntiva guerra ou revolução. Não só o marxismo não-institucional tem incursionado neste cenário, mas também correntes do pensamento geopolítico estratégico15 . Estados Unidos, Alemanha e Japão seriam novamente os principais protagonistas em torno dos quais iriam se alinhar os demais interesses, num conflito alimentado por forças econômicas de primeira grandeza, interesses geopolíticos mais amplos, e forte tradição militar. Este é o cenário no qual iremos nos deter, pois subsume os outros conflitos, os quais passariam a ser eventos da trama que leva àquele conflito maior.

Geopolítica: a chave do domínio mundial
Embora a geopolítica tome apoio fundamental no fator geográfico, ela teve uma grande eficácia prática na esquematização e orientação dos grandes atores do megajogo do poder no século 20. A disputa clássica entre poder terrestre e poder marítimo é um dos seus fios condutores. Hoje ela serve para um primeiro approach ao jogo do poder mundial que se desenha neste início de século16. Os fundamentos da geopolítica da fase madura do capitalismo são os modelos do inglês Halford Mackinder e do norte-americano Nicholas Spykman, ambos da primeira metade do século 20.
A idéia âncora deste modelo é que uma sinergia entre o HEARTLAND17 e o RIMLAND dominaria a "grande ilha" formada pela Eurásia e, a partir dela, o mundo. Como imperativo para realizar o poder marítimo em domínio mundial, para Inglaterra e posteriormente Estados Unidos, ambos fora da grande ilha eurasiana, era fundamental o controle ou do HEARTLAND (Mackinder) ou do RIMLAND (Spykman). Note-se que a aliança continental natural da Inglaterra era a Rússia tzarista, enquanto a dos EUA, pelo menos no momento decisivo da II Guerra Mundial, foi a União Soviética de Stalin.
As aparências enganam e a análise histórica revela a essência dos fatos. Na visão imediatista e linear dos contendores, com o fim da Guerra Fria o jogo bipolar teria um vencedor: EUA ou URSS, capitalismo ou "comunismo". A estratégia geopolítica e econômica de Zbigniew Brzezinski, implementada a partir do governo Carter de meados dos anos 70, resultou na hegemonia global dos EUA, a NOM cujos limites já vimos. No entanto, este início de milênio está ressuscitando as formulações clássicas da geopolítica, revelando que a falência da URSS constitui apenas um momento da falência do esquema de gerenciamento global do RIMLAND, tanto no seu segmento europeu como no asiático. O conteúdo concreto da relação EUA-URSS foi a sua plena funcionalidade, com o aprofundamento da dominação e desenvolvimento global do modo de produção capitalista após a II Guerra Mundial.
O desmantelamento da URSS começou a ser compreendido como momento de uma crise mais ampla da produção mundial de mercadorias desde o início da década de 9018 . De fato, logo em seguida ocorreu a crise cíclica de 1992/93 que atingiu fortemente a economia norte-americana. A partir da sucessão de crises nos anos 90 e o conseqüente agravamento do processo de exclusão periférica ficou cada vez mais visível às demais potências a precariedade e o perigo da tutelagem geoeconômica uni-polar do HEARTLAND e do RIMLAND.
Um dos desdobramentos deste paradigma geopolítico é que África, em particular a África negra, e América Latina não são regiões decisivas para o controle do poder mundial.
A questão islâmica envolve uma dialética complexa, mas que pode ser sintetizada na superposição e interação das questões religiosas, étnico-raciais, nacionais e de classe. Estes níveis se assentam no fator econômico que determina suas dinâmicas. A área significativa do mundo muçulmano pode ser vista abaixo. No entanto, pode-se maximizar a importância da autonomia relativa da superestrutura religiosa como determinante da relação conflituosa entre toda esta região e as economias centrais, e mesmo algumas das principais economias periféricas vizinhas (Rússia, China, Índia), dando ensejo a toda uma geopolítica específica ligada ao Quarto Cenário apresentado acima.



Presença muçulmana19
Os esquemas geopolíticos não devem ser descartados, mas integrados e subsumidos num esquema de análise com base em conceitos e categorias especificamente marxianas20 . Para compreendermos a dinâmica mais profunda da geoeconomia e seus cenários o mundo pode, grosso modo, ser dividido em três grupos de economias com padrões de acumulação distintos:
a) O centro - Nas economias centrais a dinâmica do capital domina plenamente o conjunto da sociedade, sua economia e suas instituições, constituindo-se como comunidade21 . A inovação tecnológica se dá em todas as atividades produtivas e improdutivas como paradigma. Trata-se do "capitalismo civilizado" em que a relação capital-trabalho se dá em termos negociais, com salários acima do custo de reprodução da força de trabalho e a jornada de trabalho diminuindo com o desenvolvimento tecnológico. Os principais países centrais são os EUA, Alemanha, Japão, França, Inglaterra, Itália, Europa Ocidental (com exceção de Espanha, Grécia e Bálcãs), Austrália;
b) A periferia industrializada - Embora tenha desenvolvido uma base industrial, a característica geral da periferia industrializada é que a acumulação se dá com o alongamento da jornada de trabalho e salários abaixo do custo de reprodução da força de trabalho: trata-se do "capitalismo selvagem". A urbanização se deu de forma acelerada e caótica gerando megacidades. As instituições e demais formas superestruturais têm sua funcionalidade na manutenção dessas economias nesta situação precária e não no seu pleno desenvolvimento capitalista. A trava fundamental para as economias maiores e mais complexas localiza-se no complexo produtor de bens salário e de capital. O caso clássico é o da Inglaterra da Revolução Industrial no século 18 até o desenvolvimento da navegação a vapor em meados do 19. Os principais países deste grupo são: México, Chile, Argentina, Brasil, Venezuela na América Latina; África do Sul, Nigéria, Argélia, Líbia, Egito na África; Espanha, Grécia, Leste Europeu, Bálcãs na Europa; Síria, Turquia, Iraque, Arábia Saudita, Irã, países satélites da ex-União Soviética, Paquistão, Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia, Coréia do Sul, Coréia do Norte, China e Rússia; 
c) A periferia não industrializada - Aqui trata-se de países que sequer realizaram sua revolução burguesa, nos quais, mesmo havendo uma unidade territorial e de governo, a base econômica é predominantemente pré-capitalista e calcada no setor primário. Eis alguns exemplos: Paraguai, América Central, praticamente toda a África Negra, Chifre da África, Afeganistão.
De um ponto de vista histórico, todos os países da periferia industrializada, tendo já realizado sua revolução burguesa nos séculos 19 e 20, entraram na dinâmica capitalista e agora sofrem uma imensa pressão para desenvolvê-la, ou seja, generalizarem a mais-valia relativa para todos os setores da economia, mas com isso passando a ser economias centrais - o que é impossível neste momento histórico. Alguns países da periferia não industrializada estão sofrendo grande pressão objetiva para realizarem sua revolução burguesa - é o caso do Afeganistão. Porém, os países do centro do sistema, já envolvidos na dinâmica tecnológica e geoeconômica especificamente capitalista, lutam dramaticamente entre si, numa concorrência econômica vertiginosa, acelerada pelo progresso tecnológico. Por outro lado, o centro luta também contra a pressão da periferia industrializada para tornar-se centro.
Logo após a II Guerra Mundial a industrialização de alguns grandes países da periferia foi compatível com o crescimento da economia global. Dos anos 70 em diante, a pauta de exportações da periferia industrializada modifica-se fortemente, concorrendo com o comércio exterior do centro. Os anos 80 evidenciam o estreitamento do potencial de crescimento da economia mundial e o processo de exclusão se deu de modo irreversível: a periferia industrializada praticamente estagnou e retrocedeu na década de 90. Alguns poucos países (China, Coréia do Sul e tigres asiáticos) tiveram seus milagres econômicos nos anos 80. A China, com investimentos japoneses maciços, ainda persiste com altas taxas de crescimento, embora já declinantes.

 

A trama oculta
Este modelo, que tem como base Marx, envolve e determina a dinâmica dos outros dois. Os países determinantes do HEARTLAND e do RIMLAND são capitalistas e compõem a periferia industrializada. Isto também acontece com o Islã. As questões emergentes para todos estes países desdobram-se e dão forma provisória à sua questão econômica de fundo, a qual é impossível resolver na atual arquitetura geoeconômica.
Desse modo, alguns países no HEARTLAND e no RIMLAND irão exacerbar seus conflitos no ordenamento atual entre centro e periferia. Os dois grandes pivôs desse jogo são a Rússia e a China. Ambas economias entraram fundo mas precariamente na dinâmica capitalista, sofrem pressões crescentes para gerenciar a reprodução das relações capitalistas de produção, com dificuldades crescentes para expandir e mesmo manter o nível de emprego. A Rússia agora está num processo precário de recuperação da grave crise dos anos 90. O Estado chinês luta desesperadamente para manter suas altas taxas de crescimento. A projeção geoeconômica regional da Rússia e da China no curto prazo é inevitável. Todo o RIMLAND estará envolvido nesta dinâmica, que tenderá a gerar pressões crescentes sobre todo o sistema.
Três movimentos conexos são esperados a partir desta situação de crescente pressão interna nas sociedades russa e chinesa:
a) Primeiramente trata-se da emergência efetiva de vários focos de poder e de desestabilização, até agora restritos ou potenciais, em todo o RIMLAND. Síria, Iraque, Irã, Paquistão, Índia e Coréia do Norte são alguns exemplos. Com Rússia e China fornecendo armamento e apoio geopolítico, cada contendor não hesitará em direcionar partes significativas e crescentes de seus orçamentos para o rearmamento. Mas nesse espaço temos a vital via de transporte do petróleo para o Japão, Tigres Asiáticos, Coréia do Sul e Austrália, que parte do Golfo Pérsico pelo Oceano Índico, sul da Índia, passando pelo perigosíssimo estreito de Málaka, subindo pelo Mar da China e passando por Taiwan. Hoje a Rússia fornece armamentos de ponta e apoio à Índia, que pretende projetar sua marinha para o Índico e Pacífico Ocidental, para onde China também projeta sua marinha e apóia o Paquistão. Japão projeta sua marinha para o estreito de Málaka e faz exercícios conjuntos com a marinha indiana. Malásia, Indonésia, Filipinas e Austrália, entre outros, além dos Estados Unidos, pressionam resolutamente o Japão para que assuma o papel de novo sustentáculo da segurança diante de uma China emergente22 . A guerra do Afeganistão neste segundo semestre de 2002 foi importantíssima para romper o hímen do chamado 9.o Artigo da Constituição japonesa. China, Coréias do Sul e do Norte protestam veementemente em relação à nova condição militar japonesa23 . A despeito das aparências, o fator decisivo para o rearmamento da Alemanha e Japão é a dinâmica política interna e externa e não os fatores tecnológicos e militares24 .
b) A Rússsia, para garantir sua governabilidade interna, deve expandir a influência regional, reconstituindo seu poder sobre as ex-repúblicas vizinhas da Guerra Fria. A inserção na bacia petrolífera do Cáspio, as jazidas de gás e petróleo da Sibéria, além da estratégia adotada quanto à energia atômica fazem com que a Rússia seja determinante na formação do preço da energia mundial. A Europa é bastante dependente direta e indiretamente da energia proveniente da Rússia, particularmente a Alemanha. Hoje os maciços investimentos alemães na economia russa são em setores estratégicos, tais como exploração, refino e transporte de petróleo, energia atômica, energia aeroespacial. A cobertura que a Alemanha dá às ações internas e regionais do Estado russo destoam totalmente da postura da Europa no seu conjunto e principalmente da norte-americana. Aqui, é importante lembrar, estamos no core da preocupação de Mackinder e Spykman que, de resto, pautou a trama diplomática em todo o século 19: a junção Alemanha/Rússia. Com qualquer cenário (Alemanha aliando-se firmemente à Rússia ou esta aliando-se firmemente aos Estados Unidos e ao resto da Europa) a chamada "questão alemã" tende a reemergir. Vide a visita de Putin à Alemanha logo após os atentados de 11 de setembro e sua defesa explícita pelo rearmamento alemão25 . Mas isto é momento atual. Embora Japão e China, assim como Alemanha e Rússia, tenham profundas relações comerciais e financeiras, a agressiva emergência da China e da Rússia, alimentada pelos seus próprios imperativos geoeconômicos - ora aproximando-se, ora concorrendo entre si - insemina as condições para a reemergência de Japão e Alemanha como poderes armados mundiais. A lei dialética geral das relações internacionais é de que o aprofundamento da interdependência comercial, financeira e de investimentos cria e amadurece as condições para conflitos cada vez mais graves: é no auge do comércio internacional que estouram os maiores conflitos.
c) A pressão crescente da Rússia e da China não seria suficiente para o rearmamento do Japão e da Alemanha. Seria necessário que a aliança e tutelagem norte-americana desse lugar a um relativo afastamento, bem como a uma quebra da confiança que esse esquema desfrutou durante todo o pós-guerra. Caso a candidatura democrata tivesse ganhado a presidência nos EUA, uma continuidade na política externa levaria a uma sucessão de revezes, num contexto cada vez mais desfavorável no RIMLAND. O advento do governo G.W. Bush e sua doutrina militar, de aposta total no novo paradigma da guerra espacial, parece ter sido precoce. Após o governo Clinton, com atuação militarmente eficaz em vários pontos do RIMLAND e no próprio HEARTLAND, a inflexão foi abrupta demais com Bush: Palestina/Israel, Bálcãs, Ucrânia e repúblicas do Báltico, Protocolo de Kyoto, armas químicas, escudo antimíssil, a questão racial, foram itens em que a retirada americana das questões globais foi abrupta, truculenta e mal absorvida. No entanto, os sinais do esgotamento do ciclo econômico virtuoso iniciado em 1992/93 já eram inquestionáveis no final de 2000, fazendo com que o gerenciamento do RIMLAND no estilo Clinton tendia a tornar-se impraticável com a multiplicação dos pontos efetivamente desafiadores. A irreversível ascensão regional da Rússia, China e Índia e o quadro geral que se desenhava faziam com que a retirada e a aposta na mudança estratégica de paradigma era o mais recomendável e confortável. É neste contexto que os atentados de 11 de setembro tiveram a função de desentocar a política externa americana de volta para o segmento asiático do RIMLAND. Mesmo assim, a isolada atuação militar americana foi explicitamente pontual e policialesca, com atabalhoadas alianças ad hoc com a Autoridade Palestina e com o governo paquistanês. Revelava-se uma ausência total de integridade estratégica? O interesse dos EUA na Ásia Central devido à economia do petróleo mostrou-se totalmente irrelevante como motor da intervenção. A vitória americana sobre o governo Taleban foi efêmera e inconsistente do ponto de vista estratégico. Essa atuação desamarrada no RIMLAND parece estar coerente apenas com a hipótese de que apesar da aparência de ofensiva, a linha estratégica de ação do governo norte-americano é a de um retorno à sua escolha estratégica original: retirada da linha de frente no gerenciamento do RIMLAND. Com isso: a) ou Europa e Japão assumem este caríssimo encargo internacionalmente ou b) estas regiões entram num processo autofágico de megalibanização em que suas forças sejam consumidas nos conflitos intra-regionais. O agravamento da crise econômica, que começou já há algum tempo para Japão e Europa e atinge o núcleo da economia norte-americana, e a impotência das políticas tradicionais anticíclicas reforçam este prognóstico. Impotência interna e externa, pois as dificuldades internas impedem o socorro contra a exclusão insuportável no plano externo. Timidamente, uma ofensiva seria direcionada apenas para a América do Sul, leia-se Brasil, com a implementação da Alca. Esta estratégia foi abalroada em 11 de setembro, porém pode ser retomada nos próximos anos, com pouca possibilidade de êxito.

 

Conclusão
A História não se faz linearmente. Assim, a multipolarização mundial que está em curso envolverá muitos recuos e avanços, em que inesperadas alianças momentâneas serão estabelecidas e desfeitas. Esta tendência foi fortemente acelerada pelos grandes acontecimentos de 2001, em que as notícias relevantes foram aquelas ligadas aos primeiros passos para o ressurgimento do militarismo alemão e japonês. Estas notícias foram discretas nas prioridades da mídia internacional, mas algumas análises à direita e à esquerda estiveram atentas. Impossível neste momento falar em datações, dado que as tendências históricas fazem o seu próprio tempo, não raro através de saltos surpreendentes.
A subjetividade deste processo de multipolarização será a de um recrudescimento dos nacionalismos, desde já observável na forma precária de um antiamericanismo. O centro e a periferia serão tomados pelo sentimento nacionalista e pelo militarismo. Trata-se de um movimento inexorável, mas sem um projeto viável de solução histórica, pois o capital já desenvolveu a socialização do homem em nível mundial, aliás cumprindo, mesmo contraditoriamente, a sua tarefa histórica (Marx). O desfecho dessas tendências, com a exacerbação dos nacionalismos e do militarismo, será dado na dinâmica social e política no momento em que o internacionalismo da classe trabalhadora readentrar a arena mundial: aí o mundo estará fazendo sua dramática escolha.
A América do Sul, neste quadro, não desfruta de posição no core dos acontecimentos dramáticos projetados neste cenário, deixando de ser prioridade internacional para o capital. O RIMLAND, no seu segmento asiático tende a atrair as atenções e esforços máximos para gerenciamento da ordem mundial. Numa escala de importância, a América do Sul será preterida em prol do RIMLAND.
O esforço desta análise é o de demonstrar que o tratamento do movimento concreto é possível a partir da conceituação marxiana. Sendo isto possível, as previsões históricas gerais daquele corpo teórico terão validade.

"Só a verdade vai te libertar, mas antes vai te aborrecer muito."
(Gloria Steiner - feminista norte-americana, in documentário "Gloria Steiner"-GNT)

Notas
1 O conceito de geoeconomia deste artigo é distinto da economia estratégica de alguns sites de negócios e da distribuição geográfica da atividade econômica. Geoeconomia aqui não é "um outro nome para geopolítica" (ver Max Altman, in http://www.correiocidadania.com.br/ed230/internacional2.htm). Trata-se de uma compreensão integrada de economia e política no âmbito mundial, a partir das formulações de Marx, especificamente aquelas relativas à periodização do modo de produção capitalista em duas fases. Para mais elementos ver BORBA, Jason T. Autonomização do valor e periodização como fundamento radical da transição, in Revista da FEA-PUC-SP, São Paulo, EDUC, 1999a. Ver também BORBA, Jason T. Geoeconomia: Brasil nos cenários estratégicos mundiais, texto apresentado na mesa "Cenários de Desenvolvimento", no evento "Brasil 500 Anos", PUC-SP, agosto de 1999b. Está prevista sua publicação no livro Brasil 500 Anos sob organização da professora Lúcia Bogus do Programa de Pós-graduação em Ciências Socias da PUC-SP. O site www.geoeconomia.com conterá a partir de março de 2002 desenvolvimentos teóricos e análises com base nesta abordagem.
2 A presente análise, longe de ser exaustiva, foi desenvolvida a partir de vários debates sobre o tema, ocorridos no segundo semestre de 2001 e patrocinados pelo Núcleo de Geoeconomia do Departamento de Economia da FEA (PUC-SP).
3 MARX, Karl. Critique de l'économie politique (Manuscrits de 1844). in MARX, Karl e ENGELS, Friederich. La premiére critique de l'économie politique. Paris, 10/18 no 667, Union Générale d'Édition, 1976, pág. 251.
4 Tanto a teoria clássica do imperialismo (Lênin, Luxemburgo, Bukharin), como as formulações clássicas da geopolítica (Mackinder, Hausshoffer, Spykman) assim concebiam o mundo já no início do Século 20.
5 A respeito - e de acordo com as concepções de Marx, Engels e Lênin - diz Rosa Luxemburgo: "O socialismo não advém portanto automaticamente e em todas as circunstâncias da luta cotidiana da classe operária. Nascerá da exasperação das contradições internas da economia capitalista e da tomada de consciência da classe operária, que compreenderá a necessidade de lhes abolir por meio de uma revolução social" (Rosa Luxemburgo, "Réforme sociale ou révolution?", in LUXEMBOURG, Rosa. Oeuvres I. Paris, François Maspero, 1976, pág. 47).
6 Ao finalizarmos este artigo, o atentado ao parlamento indiano em meados de dezembro pode levar a um confronto militar entre Índia e Paquistão, dois Estados atômicos.
7 Um quadro geral para o futuro é pressuposto da análise dos fatos presentes, na estrita linha metodológica apresentada por Rosa Luxemburgo nos seguintes termos: "Graças a que chave mágica Marx conseguiu penetrar os segredos mais profundos de todos os fenômenos capitalistas(...)? É simplesmente porque concebeu a economia capitalista por inteiro como um fenômeno histórico, cuja história se extende para trás, como a rigor o admitia a economia clássica, senão que também para além dela, foi haver considerado não só o passado, a economia feudal, mas também o devir socialista. (LUXEMBOURG, op.cit., pág.59).
8 Não vamos abordar os cenários derivados do agravamento das questões geoambientais por entendermos que provavelmente serão "atropelados" pela dinâmica geoeconômica.
9 Uma variante deste cenário é o que deriva da teoria francesa da regulação. A economia globalizada ou mundializada seria passível de um outro modo de regulação financeira, envolvendo um novo quadro institucional internacional, segundo, por exemplo, o movimento ATTAC - Ação por uma Taxa Tobin de Ajuda aos Cidadãos, ou mais recentemente Association pour une Taxation des Transactions financières pour l'Aide aux Citoyens (cf. http://www.attac.org).
10 Mesmo no campo do pensamento de esquerda, algumas análises derivadas da teoria da globalização e da mundialização descartam a possibilidade de um conflito mundial nos moldes das guerras mundiais do Século 20. As abordagens das teorias da globalização e a da mundialização retomam, quase na sua integralidade, os marcos teóricos e teses da teoria do Ultra-Imperialismo ou Super-Imperialismo de Hobson e Kautsky do Século Passado.
11 HUTINGTON, Samuel. The Clash of Civilizations. Foreign Affairs, vol. 72, No. 73, 1993.
12 Para a vinculação entre os conflitos etnicos e a questão nacional, ver SENGHAAS, Dieter. Les conflits ethniques ou le retour des nacionalismes. in http://www.weu.int/institute/chaillot/chai11f.html#chap2.
13 TOFFLER, Alvin, TOFFLER Heidi. Guerra e antiguerra: sobrevivência na aurora do terceiro milênio. Rio de Janeiro, Record, 1994.
14 FRIEDMAN, George, FRIEDAMAN, Meredith. The Future of War. New York, First St. Martin's Griffin, 1998.
15 ver FRIEDMAN, George, LEBARD, Meredith. EUA x JAPÃO: Guerra à Vista. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993. Consultar também o site www.stratfor.com para acompanhar suas análises correntes.
16 Ver excelente artigo a respeito em MINASSIAN, Gaïdz. Les géostratèges du début du 20e siècle et la crise afghane. Paris, Le Monde, Jeudi, 1er novembre 2001, disponível em http://www.lemonde.fr/article/0,5987,3232-239207-,00.html.
17 O Heartland é composto pela Rússia e algumas regiões anexas. A Alemanha está no Rimland. A junção entre as duas se constitui no evento mais temido desde o século 17, temor que se confunde com a própria história da modernidade e principalmente da ultramodernidade nestes 20 e 21.
18 KURZ, Robert. O colapso da modernização. São Paulo, Paz e Terra, 1992.
19 Ver mapa mais detalhado em http://ww.lib.utexas.edu/maps/world_maps/muslim_distribution.jpg.
20 Os conceitos fundamentais em Marx são os de Fase de Subsunção Formal (FSF) e Fase de Subsunção Real (FSR) do Trabalho ao Capital desenvolvidos no "4.º Capítulo Inédito do Capital". A base para a FSR é a predominância da mais-valia relativa nos principais setores da economia, com destaque para os que produzem bens salário e bens de capital. De um modo geral, toda a sociedade, suas instituições são produto e resultado do capital. Como todos os conceitos econômicos marxianos, também estes têm dimensão diacrônica e sincrônica, sendo esta que nos permite a utilização para o estudo geoeconômico. Para mais elementos e bibliografia ver BORBA, Jason T. O caráter histórico do dinheiro em Marx. Dissertação de mestrado (mimeo), São Paulo, EAESP/FGV, 1981.
21 Trata-se do capital enquanto comunidade total (Gemeinwesen). Uma abordagem mais ampla e profunda, com bibliografia a respeito do conceito ver BORBA (op.cit.1999a) e BORBA, Jason T. Indivíduo e Capital: uma abordagem a partir de Marx & Jung. Tese de doutoramento (mimeo), São Paulo, PUC/SP, 1998.
22 Conferir Janes Security. Powerful forces continue to affect Asian stability, disponível em http://www.janes.com/security/regional_security/news/jid/jid000621_1_n.shtml.
23  CONACHI, James. Discussion intensifies in Japan over remilitarisation, 8 January 2001, disponível em http://www.wsws.org/articles/2001/jan2001/jap-j08.shtml.
24 Elementos podem ser encontrados em FRIEDMAN e LEBARD (op.cit. 1993) e BORBA (op.cit. 1999b). 
25 RICHETER, Patrick. President Putin visits Germany: Moscow and Berlin seek a new role in world politics. 3 October 2001, disponível em http://www.wsws.org/articles/2001/oct2001/puti-o03.shtml.

  Voltar PDF  Versão em PDF E-mail  Encaminhar Imprimir  Imprimir

Publicações

» Revista PUC Viva
loguinho_pucviva_novo
revista_puc_critica_logo
puc_viva_logor
twitter
facebook
youtube
vimeo

tv_apropuc3


Enquete

O que você acha da implementação do ensino à distância na PUC SP?