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Lutas sociais na nova (des)ordem

APROPUC-SP

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

Em uma passagem luminosa, Marx e Engels observam que, nos momentos fastidiosos, os ideólogos da classe dominante (os membros passivos da classe) nutrem a ilusão de serem independentes dela. Nas situações de crise, quando cada um se vê obrigado a explicitar de que lado está, aquela ilusão se dissolve e os membros passivos e ativos da classe se unem firmemente na defesa do status quo. Os discursos produzidos em torno dos atentados de 11 de setembro foram pródigos ao confirmarem a fecundidade daquelas formulações. Já se comentou, por exemplo, que a própria cobertura televisiva, no chamado tempo real, dos atentados foi feita de modo a espetacularizá-los, mas também, cuidadosamente, esmaecer, ou mesmo omitir, certos aspectos que pudessem aumentar a não negligenciável sensação de vulnerabilidade da única superpotência do pós-Guerra Fria. 
Nos dias seguintes, a baixaria se generalizou. Dispensando qualquer sutileza, os grandes meios de comunicação, principalmente rádio, televisão e revistas semanais, se alinharam na defesa da política imperialista do grande Irmão do Norte. Difícil escolher de qual constrangimento fugir: a animadora do programa de auditório, vestida com a bandeira dos Estados Unidos, ou as coloridas revistas semanais - o pão intelectual da classe média acomodada e assustável - satanizando tudo o que cheirava a "fundamentalismo islâmico" e denunciando a farsa de se transformar a "vítima" (os EUA) em "culpado". E a prática da autocensura tornou-se, para muitos, motivo de orgulho. Afinal, estávamos em mais que uma guerra. Uma cruzada!
Por outro lado, se levarmos em conta o que ocorreu durante a guerra contra o Iraque e, mais tarde, contra a Iugoslávia, as vozes dissonantes aumentaram extraordinariamente. Muitos intelectuais criticaram a política dos Estados Unidos, denunciaram o processo de satanização de árabes e muçulmanos (quase sempre embrulhados no mesmo pacote). E, o que é mais importante, apesar do bombardeio ideológico, amplos contingentes populares, nos mais diversos países, expressavam a percepção de que, de algum modo, o Estado norte-americano colhia o que semeara, e se declaravam contra a guerra ao Afeganistão.

Lutas sociais na nova (des)ordem
Acusando o golpe, os ideólogos do Império (e oportunistas de todos os calibres) se empenharam na relevante tarefa de combater o "antiamericanismo", recorrendo, inclusive, ao arsenal teórico da psicanálise. No fundo, adotavam a equação bushiana: ou "nós" ou "eles", associando qualquer crítica ao imperialismo norte-americano à adesão aos autores do atentado. Para complicar mais ainda a situação, a Al Jazeera, uma rede de tevê sediada no Qatar, se revelou mais credível (e, no contexto, ideologicamente mais eficaz) do que o aparentemente inexpugnável dispositivo de comunicações a serviço do "nós". Mais uma torre ameaçou ruir. 
Enfim, o Estado norte-americano, para invadir o Afeganistão, foi obrigado a se envolver em uma série de manobras que revelou a situação de miséria em que se encontrava a política externa da maior potência planetária: flertou com a criação do Estado palestino (o que, quando escrevo estas linhas, se inverteu em apoio à destruição da Autoridade Nacional Palestina); relaxou as pressões contra o Paquistão, um dos participantes "informais" do clube atômico, o que, além de complicar as relações com a Índia (também com o mesmo status no clube), pode criar, dependendo da conjuntura, de um lado ou outro da Caxemira, um futuro "Estado" irresponsável, agora com dentes nucleares. E emitiu sinais positivos para a China, que tinha acabado de ser "promovida" pela administração Bush, de "parceiro estratégico" a "adversário estratégico"1 . Tudo indica que se manifesta uma crise de hegemonia, embora no curto prazo aumente a supremacia norte-americana no panorama internacional. 
Todavia, as amargas experiências do século 20 já demonstraram, em primeiro lugar, que nem tudo o que se opõe à hegemonia significa alternativa a ela. Em segundo, que crise de hegemonia não resulta necessariamente em vitória das forças contra-hegemônicas. Pode dar fascismo. 
Ainda é cedo para se avaliar a importância histórica dos atentados de 11 de setembro. Mas é provável que contribuíram para revelar que algo mudou na correlação de forças ideológicas que parecia haver se consolidado ao longo dos últimos anos 90. Um objetivo deste artigo é sugerir que esta mudança guarda estreita relação com as lutas sociais contra-hegemônicas travadas ao longo do período. É do ponto de vista destas lutas que serão abordados os referidos atentados terroristas. Para isto, não convém começar pelos eventos mais imediatos. Ao contrário, para examinarmos se, e como, o 11 de Setembro constitui um marco histórico, é preciso, no mínimo, reconstituir alguns aspectos do contexto do pós-Guerra Fria, o que supõe uma rápida incursão pelo período anterior. Só então nos atreveremos a arriscar uma avaliação da importância daquela manhã traumática e esboçar algumas hipóteses sobre o futuro imediato.

Lutas sociais na Guerra Fria
Já antes do final da II Guerra Mundial, em 1945, se desenhava um sistema bipolar instável. Dois importantes fatores de instabilidade eram, em primeiro lugar, a imensa zona cinzenta constituída pelas regiões que permaneciam fora da influência direta de cada superpotência; em segundo, a capacidade ou incapacidade de cada uma destas manter o controle sobre sua própria área de influência. 
O equilíbrio instável entre os dois adversários, cujas forças eram bastante diferenciadas, colocou o planeta, no dia a dia, quase à beira de uma catástrofe nuclear. Houve momentos de extrema tensão, quando as pessoas, inclusive no Brasil, acordavam se perguntando se a terceira guerra mundial havia começado. Não começou.
O próprio equilíbrio nuclear contribuiu para que houvesse uma extrema habilidade em evitar que a Guerra Fria "esquentasse". Isto implicou, fundamentalmente, evitar o confronto militar direto. Foi o que ocorreu no Vietnã, invadido pelos EUA e, reciprocamente, no Afeganistão, atacado pela URSS. Neste particular, os riscos de confronto direto estavam principalmente em Berlim, então dividida, e em Cuba, onde a URSS havia instalado um arsenal nuclear. Ambos os focos foram desativados com as negociações efetuadas no bojo da crise dos mísseis, em 1962.
A segunda medida para evitar o choque direto foi o respeito às iniciativas de cada superpotência para manter o controle sobre suas respectivas áreas de influência. Os EUA intervieram, por exemplo, na Guatemala, em 1954, e depuseram o presidente Jacobo Arbens. A URSS se manteve à margem dos acontecimentos, mesmo porque não tinha muito o que fazer em contrário. Quando houve, em 1956, na Hungria, uma tentativa de revolução que democratizasse o regime, a intervenção da URSS também foi brutal. Os EUA, apesar dos protestos formais, nada fizeram para impedir o restabelecimento da ordem no interior do bloco soviético. Algo semelhante ocorreu em 1968, com o movimento reformista na então Checoslováquia e a esmagadora intervenção militar soviética. Tratava-se, em ambos os casos, de países que faziam parte nitidamente da área de influência da URSS. 
Um outro cuidado foi, após o final da II Guerra Mundial, evitar o uso de bombas atômicas e de hidrogênio. Os arsenais nucleares iam crescendo em razão geométrica. Porém não foi utilizado, seja quando houve uma espécie de "empate técnico" (guerra da Coréia), seja quando cada uma das superpotências amargou sua própria derrota (no Vietnã e no Afeganistão).
Ao longo das três primeiras décadas da Guerra Fria, houve significativo avanço de dois grandes conjuntos de lutas dos dominados: os movimentos de libertação nacional e, especialmente em alguns países melhor situados no bloco hegemonizado pelos EUA, as lutas operárias e populares por interesses imediatos, ou seja, realizáveis no interior do próprio sistema capitalista. 
Já na segunda metade dos anos 40, a independência da Índia, o triunfo da revolução chinesa e a criação do Estado de Israel assinalavam uma dupla tendência: o declínio dos imperialismos britânico e francês, com a decorrente ampliação da área a ser disputada por EUA e URSS; e a presença de aspectos antiimperialistas em diversos movimentos de libertação nacional, o que contribuía para que eles se apresentassem como portadores de um projeto socialista, visto que muitos deles eram dirigidos por partidos que se apresentavam como comunistas. Nos anos 50, esta dupla tendência se acentuou, especialmente após a Conferência de Bandung, que deu origem ao chamado bloco dos não-alinhados. Não foram poucas os Estados nacionais recém-constituídos na África e na Ásia (inclusive no chamado mundo árabe) que se intitularam socialistas. 
Esses movimentos despertaram grandes esperanças em populações espoliadas por séculos de colonialismo, representavam sérias derrotas para Estados imperialistas ocidentais e, ao se aproximarem da URSS, levaram os EUA a alterarem sua posição original de firme apoio ao processo de descolonização. Mesmo após a explicitação de um sério conflito entre a República Popular da China e a URSS, o nacionalismo continuou sendo predominantemente considerado sinônimo de, para retomarmos a palavra que voltou à moda, "antiamericanismo". Em suma, boa parte do período da Guerra Fria foi marcada por uma turbulência em amplas regiões da periferia do bloco hegemonizado pelos EUA, o que, objetivamente, favorecia a posição do bloco mais fraco, liderado pela URSS, o qual se expandia e, apesar de percalços, como na Iugoslávia e, em seguida, a denúncia dos crimes de Stalin, por Nikita Kruschev, mantinha alto grau de coesão. 
Em países de capitalismo avançado do bloco hegemonizado pelos EUA, definiu-se um padrão de lutas operárias e populares que, com base em sólidos aparatos sindicais, fortes partidos comunistas ou social-democratas, foi incapaz de destruir o sistema, mas revelou grande capacidade para conquistar importantes vitórias no interior deste, contribuindo para a instauração do chamado "compromisso social-democrata". 
Neste processo, o imperialismo hegemonizado pelos EUA ficava sob o fogo cruzado de lutas no centro e na periferia. Uma questão bastante debatida na época e que chegou a dar origem a alguns livros era a de por quanto tempo o capitalismo sobreviveria. 
Hoje é mais claro que tal situação era essencialmente instável, e vários fatores contribuíram para uma profunda alteração na correlação de forças entre os dois blocos, o que se relacionava estreitamente com os desdobramentos das lutas sociais. 
Em primeiro lugar, se evidenciou que o imperialismo soviético enfrentava dificuldades crescentes para assegurar hegemonia no seu próprio bloco2 . Por outro lado, se desencadeava, especialmente sob a inspiração da revolução cubana e da guerra de guerrilhas vietnamita, um novo ciclo de lutas antiimperialistas, especialmente na África e na América Latina. Enfim, especialmente a partir de 1968, várias lutas sociais nos países de capitalismo central ameaçavam transbordar o "compromisso" que, por outro lado, se defrontava, em vários setores, com tendência à queda de lucratividade do capital industrial3 .
Neste sentido, é preciso evitar uma dupla unilateralidade: por um lado, ignorar os avanços das lutas anticapitalistas e antiimperialistas durante a Guerra Fria; por outro, cair na nostalgia dos anos dourados4 . Levar em conta que a existência de dois blocos ampliava a margem de manobra para as lutas mencionadas acima não implica supor que a URSS apoiava as lutas revolucionárias, ou mesmo antiditatoriais, no mundo inteiro.
Este foi o contexto em que se deu, em ambos os planos, a contra-ofensiva neoliberal. Os principais itens do pacote foram a abertura comercial; o livre fluxo de capitais; a chamada reestruturação produtiva; a repressão aos movimentos sociais; e o endurecimento do confronto com a URSS. Tratava-se de um elenco de medidas que, implementadas desigualmente, teve o efeito de impor uma séria derrota aos movimentos operários e populares no centro e na periferia, aos movimentos nacionalistas do chamado terceiro mundo e chegou ao ponto culminante com o colapso da URSS e seus Estados clientes. 
Com o final da Guerra Fria, o discurso dominante, inclusive nos meios acadêmicos, era que a humanidade estava ingressando em uma nova era de paz, de prosperidade e de triunfo da democracia liberal, a um ponto em que um intelectual tornou célebre, mais uma vez, a tese de que a história havia chegado ao fim. Não haveria mais grandes choques, nem grandes transformações à vista. 
Com a classe operária passando por uma série de mutações, os antigos projetos nacionalistas originários dos movimentos de libertação nacional engolidos pelos movimentos fundamentalistas e étnicos dos mais diversos tipos, e a nova rodada de transnacionalização do capitalismo, parecia de fato que a história havia chegado ao fim. Era o fundo do poço dos movimentos sociais que, não por acaso, já não despertavam o mesmo interesse nos círculos acadêmicos.
Tudo parecia levar a crer que, como afirmou um certo autor em um livro instigante, o século 21 seria norte-americano. Afinal, os EUA se tornaram a única superpotência; coordenaram com sucesso a guerra contra o Iraque; no ano da inauguração do euro, impuseram à França e à Alemanha (para não falar na Inglaterra e demais países tradicionalmente submissos à política externa norte-americana) a invasão a um país europeu (a Iugoslávia) e estenderam o flanco sul da Otan, avançando sua capacidade de intervenção militar para mais perto do território russo; e as políticas neoliberais haviam triunfado sob todos os aspectos, exceto no que se refere à rentabilidade do capital produtivo. Para completar, os EUA foram um dos dois países (o outro foi a China) a ter elevadas taxas de crescimento econômico durante os anos Clinton. A expressão "Império Americano" passou a se tornar corriqueira. Todavia, ao contrário do que se alardeara, no mundo hegemonizado pelos EUA as desigualdades aumentaram, seja entre países, seja no interior de cada um deles, inclusive nos países de capitalismo avançado. Um continente inteiro, a África, viu suas esperanças se desvanecerem e, em pleno período da chamada globalização, ficou praticamente excluído do circuito das relações internacionais. Os nacionalismos árabes sofreram um fracasso retumbante em seus projetos de industrialização via capitalismo de Estado, e deixaram um rosário de frustrações que viriam a ser o principal caldo de cultura de um fundamentalismo que se propagaria por quase todo o mundo islâmico5 . Na América Latina, as transições democráticas chegaram a impasses que nenhuma tentativa de cunhar conceitos novos, como "democracia delegativa"6 . No geral, as mesmas classes dominantes, às vezes dirigidas pelas mesmas pessoas físicas, se mantiveram no poder, com uma revitalizada capacidade expoliativa.

Rachaduras na nova (des)ordem
Mas, aos poucos, o fundo do poço passou e, em diversas regiões do mundo, especialmente na América Latina, a chamada nova ordem começou a apresentar fissuras. Em um evento altamente simbólico, em 1.º de janeiro de 1994, no mesmo dia em que se inaugurava o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), poucos meses após a publicação da Utopia desarmada, de Jorge Castañeda (atual ministro do governo Fox), veio à luz, no sul do México, a guerrilha liderada pelo EZLN. Enfim, surgia um movimento que articulava em termos progressistas o nacional e o étnico e, além disso, ou se apoiaria em um internacionalismo de novo tipo ou pereceria rapidamente. Pois, no mundo pós-Guerra Fria, tratava-se de um movimento antineoliberal que não dispunha do apoio (nem ao menos simbólico) de qualquer outro Estado. Mais ainda, em pleno triunfo ideológico do neoliberalismo, é um movimento antineoliberal e não institucional movido fundamentalmente a ideologia, pois seus recursos militares são pífios. Encerrando uma longa fase em que se afirmava que o internacionalismo era essencialmente burguês, o EZLN convocou o Congresso Intergalático pela Humanidade e contra o Neoliberalismo. Partindo do étnico ao intergalático, tentava resolver a seu modo o problema com que se deparou toda uma nova onda de lutas sociais que atravessaria a América Latina, do México à Argentina: como se atualizar frente à questão nacional? Isto implica, objetivamente, no plano externo, algum tipo de tensão com o Estado norte-americano, principal pilar político do capitalismo em uma nova rodada de transnacionalização.
No Oriente Médio, a resistência popular palestina aumentou, colocando em cheque, a liderança de Arafat e revelando, por outro, a política intransigente e terrorista do Estado israelense. Como este depende dramaticamente do apoio norte-americano, o conceito dos EUA entre as massas islâmicas não chega a ser dos melhores. 
Na Europa de capitalismo avançado, as marchas internacionais contra o desemprego demonstraram a vitalidade de um novo sindicalismo relativamente desvinculado das grandes estruturas burocráticas que marcaram o século 20, e capazes de unificar lutas de trabalhadores empregados e desempregados7 .
Mas todas estas lutas, embora apontassem para um novo internacionalismo, eram, no fundamental, compartimentadas nacionalmente e ainda se ressentiam da pouca presença dos trabalhadores inseridos nas estruturas do capitalismo avançado.
Na segunda metade dos anos 90, algumas lutas expressaram de maneira mais clara as novas tendências que se gestavam. As greves realizadas na França, em 1995, e a dos trabalhadores da UPS, nos EUA, em 1997, ambas contando com o apoio da grande maioria da sociedade, ajudaram a, no mínimo, relativizar as teses sobre os efeitos devastadores da perda de combatividade dos trabalhadores nos países hegemônicos8 . Também na Europa, os processos movidos contra Pinochet, que se encontrava em tratamento de saúde na Inglaterra, contribuíram para mobilizar a luta democrática em diversos países e recuperar a memória histórica sobre os anos de chumbo na América Latina. Milhões de jovens ficaram sabendo como se construiu a chamada vitrina do neoliberalismo e, especialmente, o papel que os EUA desempenharam no apoio aos golpes de Estado e à instalação de ditaduras amigas por todo o continente. 
Mas a grande novidade em matéria de novas lutas internacionalistas9 ocorreria ao apagar das luzes dos anos 90, em Seattle, quando o que era para ser a consagração da Organização Mundial do Comércio foi transformado em fiasco por uma miríade de organizações e movimentos sociais. A partir de então, se intensificaram as lutas que, na falta de um nome melhor, são chamadas de "antiglobalização" e têm, entre outras coisas, infernizado as tentativas de reunião dos que se propõem a executivos do capitalismo transnacionalizado. A rodada se repetiu em Washington, contra a reunião semestral do FMI (abril/2000); Praga, contra o FMI e o Banco Mundial (setembro/2000); Québec, contra o "encontro das Américas", que reunia 32 chefes de Estado (abril/2001); e Gênova, contra a reunião do G-8 (junho/2001). Os quaqüilionários do planeta perderam muito de seu charme, a ponto de a prefeitura de Davos, na Suíça, onde estavam se reunindo todos os anos, se preocupar com a imagem da aprazível cidade. E a reunião da OMC se realizou quase clandestinamente no deserto, em Doha, no Qatar10 . Contra o dogma de que não havia alternativa ao neoliberalismo, difundia-se a convicção de que um outro mundo não só é possível, mas necessário.
O governo Bush, nascido de uma eleição suspeita, que depois se revelaria fraudulenta, contribuiu para reforçar esta convicção, ao anunciar projetos de exploração petrolífera com altíssimos riscos ambientais, denunciar o protocolo de Kioto e retomar o projeto "Guerra nas Estrelas". Outros fatos se acumulavam nesta espécie de inferno astral vivido pela política externa norte-americana. Em março, os Estados Unidos foram expulsos da Comissão de Direitos Humanos da ONU, pois votaram "sistematicamente contra todas as resoluções aprovadas por aquela instituição desde 1948". E, juntamente com Israel, "foram levados a se retirar da Conferência contra o racismo", realizada em Durban11 .
No plano econômico, a crise, finalmente, chegou ao último bastião do capitalismo avançado e se tornou, rigorosamente, planetária. Ao longo dos doze meses anteriores à queda das torres gêmeas, a economia norte-americana já estava em crise e, conforme anunciou oficialmente um comitê de economistas do Serviço Nacional de Pesquisa Econômica (NBER), os EUA "estão em recessão desde março"12 . 
Podemos, portanto, sem grandes triunfalismos ex-post, sugerir que novas lutas sociais avançavam, ao mesmo tempo em que se manifestavam sérios indícios de que a nova ordem mundial apresentava fissuras que abriam importantes brechas para a construção de uma contra-hegemonia. Em que sentido os atentados de 11 de setembro interferiram nesta situação?

Nem tudo que reluz é ouro
Qualquer tentativa de resposta a esta questão crucial requer uma extrema cautela, pois diversos aspectos relacionados com os episódios de 11 de setembro não foram esclarecidos. Como observa Miguel Urbano Rodrigues, os serviços de segurança e inteligência norte-americanos já estavam cientes de que se preparavam operações terroristas de grande envergadura. Mesmo assim, agiram com extrema lerdeza13 . Até o momento em que escrevo este artigo, a participação do Taleban nos atentados não foi provada e a recusa de Bush à proposta de negociação feita pelo comando da milícia aumenta as suspeitas de que, antes de 11 de setembro, os EUA já se preparavam para invadir o Afeganistão. 
Mesmo assim, algumas formulações importantes foram apresentadas por diversos autores mais motivados pelo senso crítico. Estes seguiram, por exemplo, o caminho oposto ao trilhado por muitos especialistas em estratégia bélica, que se esmeraram em explicar, sempre aludindo à experiência soviética, por que os EUA, devido à topografia da região, teriam imensas dificuldades para derrotar o Taleban. Os que exageraram na análise topográfica cometeram um triplo equívoco: ignoraram que a luta contra a invasão soviética se deu no contexto da Guerra Fria, sendo apoiada por uma coalizão de países extremamente ampla, com especial destaque para a maior potência econômica e militar do planeta; esqueceram-se de que a invasão soviética não contou com apoio popular interno, ao contrário da feita pelos EUA, cuja população, traumatizada pelos atentados, foi coesa a favor do ataque ao Afeganistão; não perceberam que, inversamente ao caso da URSS que, solitariamente, invadiu um país relativamente coeso e apoiado por uma formidável aliança internacional, desta vez um país muito mais dividido e totalmente isolado foi invadido por uma extraordinária coalizão, da qual participam (ou se dispõem a participar) praticamente todos os Estados imperialistas.
Sem recorrer a grandes erudições sobre topografia, diversos estudiosos partiram do suposto de que os Estados Unidos teriam sucesso no ataque ao Afeganistão14 . Afinal, o enfoque topográfico expressa, na maioria das vezes, a prioridade a uma outra questão, no geral, mal formulada: quem vencerá? Bush ou Bin Laden, os EUA ou o Afeganistão? Mal formulada quando negligencia a diferença entre combate ao terrorismo e invasão de Estados, além de, ao superestimar a figura de Bin Laden, personificar questões muito mais amplas e, ironicamente, assumir os termos que interessam, por diferentes motivos, às políticas do governo Bush e às do dirigente da Al Qaeda. Mas o pior é quando se confundem questões estratégicas da política norte-americana com o discurso bushiano contra o terrorismo.
Para os pensadores críticos em relação à (des)ordem reinante, a boa questão é - insisto - quais as implicações do 11 de Setembro para o avanço ou retrocesso das lutas sociais em curso?
Uma primeira resposta aponta para os impactos negativos, pelo menos no que se refere ao curto prazo. De um lado, como já foi observado por vários analistas críticos, o governo Bush adquiriu, em poucas horas, um formidável apoio que lhe assegura recursos econômicos e políticos para realizar políticas inimagináveis antes dos atentados. No plano interno, liberdades democráticas têm sido violadas. Instalou-se uma justiça de exceção. A lei antiterrorista ("lei patriótica") permite prender suspeitos quase indefinidamente, violar sua correspondência, inclusive via Internet, grampear seus telefones, vasculhar seus domicílios sem mandato judicial, deportá-los. Boa parte dos cerca de 1.200 estrangeiros secretamente aprisionados (cerca de 600 permanecem aprisionados sem julgamento) não teve o prazer de ser apresentada a juízes. Bush atribuiu a tribunais militares o poder de julgar secretamente, em navios de guerra ou bases militares, estrangeiros acusados de terrorismo, o veredito não comporta recursos e a unanimidade não é necessária para que o réu seja condenado à morte. Nos grandes meios de comunicação, inclusive a CNN e as grandes revistas semanais (por exemplo, Newsweek), a prática da tortura é defendida como legítima. No Chicago Tribune, Steve Chapman teve a brilhante idéia de lembrar que um Estado democrático como Israel não hesita em torturar 85% dos detidos palestinos. Em total desprezo pelas convenções de Genebra, a ordem é liquidar os membros da Al Qaeda mesmo quando ele se rende. Não é, portanto, de se estranhar que mais de 400 prisioneiros tenham sido massacrados quando se revoltaram no forte de Quala-e-Jhangi e um número maior tenha tido a mesma sorte na tomada de Tora Bora. Outros governos de países imperialistas se dispõem a ingressar nesta cruzada antidemocrática, que pode desembocar em uma miríade de Estados policiais no centro do sistema capitalista internacional15 . Berlusconi deve estar salivando. A quantas andam o trabalhista moderno Tony Blair e seu fiel escudeiro, Antony Giddens, o teórico da "terceira via"?. 
No plano externo, os EUA conseguiram articular um leque de forças que lhes permite avançar posições na Eurásia, região considerada estratégica para a disputa pela hegemonia no século 21. Em contrapartida, as lutas sociais recuaram. Será preciso muita determinação para consolidar os avanços obtidos nos últimos anos. Mas, se não é o caso de edulcorar a situação, também não se deve confundir prudência com derrotismo. 
O potencial de lutas populares, mesmo quando sem organização política consistente, é bastante elevado, como foi demonstrado pela deposição do governo argentino, que procurava implementar uma política claramente apoiada pelos EUA. Os desdobramentos da crise política argentina, na qual se entrelaçam lutas sociais e questão nacional, serão importantes para clarificar a nova correlação de forças. Se a direita comprometida com as propostas liberais ameaça explicitamente as liberdades civis das quais se apresentava como a paladina, mais do que nunca é hora de as forças contra-hegemônicas assumirem a defesa das liberdades, avançando rumo à superação da falsa dicotomia, tão cara aos (neo)liberais, liberdade versus igualdade.
Qualquer análise mais importante deve levar a sério a crítica à tese do choque de civilizações e examinar quais são as forças em luta no mundo árabe. Neste sentido, muitos analistas têm relembrado que os principais adversários dos EUA no Oriente Médio, inclusive o Taleban e Osama Bin Laden, foram nutridos pela atual superpotência planetária16 . Mas é preciso cavar mais fundo.
Quando se critica o fundamentalismo islâmico, é preciso puxar um outro fio do contexto histórico e destacar o estreito nexo que tem existido entre a maré montante deste fundamentalismo e, por um lado, o avanço do neoliberalismo (outra expressão de fundamentalismo), com o rosário de miséria e destruição de vínculos de solidariedade social que disseminou pelo mundo afora17 ; e, por outro, também sob a batuta do Estado norte-americano, a repressão sistemática, exercida, ao longo de décadas, sobre a esquerda islâmica. Guardadas as inúmeras diferenças, este é o traço de união entre os Estados do Oriente Médio, inclusive o de Israel, Arafat (quando tem condições para isto), a Al Qaeda e o Taleban. Esta milícia, aquela organização e seu principal dirigente, nunca foram de esquerda (seja qual for a conotação que se atribua ao termo) e jamais tiveram a pretensão de se apresentar como tais. Onde atuaram, antes do 11 de Setembro, no Afeganistão, na Chechênia e nos Bálcãs, foi em estreita articulação com a CIA e congêneres. 
Esta é a primeira clivagem a ser levada em conta e se relaciona estreitamente com uma outra contradição que tem sido mencionada, de distintos modos, por diversos autores críticos. No essencial, ela se refere às diferentes apropriações do islamismo: de um lado, pelas classes dominantes de alguns países, como a Arábia Saudita e o Paquistão; de outro, pela imensa maioria das classes populares islâmicas em todo o Oriente Médio. Aquelas são abertamente pró-Estados Unidos e procuram implementar um processo altamente controlado e seletivo de modernização conservadora. Por sua vez, o islamismo popular é, em quase toda a região, profundamente contrário à política imperialista dos Estados Unidos, mas desprovido, no momento, de uma forte liderança de esquerda18 . Alguns autores sugerem que esta é a base social que os intregrismos buscam capturar com vistas à conquista do poder político em países islâmicos estratégicos e mais identificáveis como traidores. Neste sentido, os atentados em Nova York e Washington tinham, ao contrário do que supõe Marc Ferro, um alvo político definido: desestabilizar e, em seguida, depor os governos islâmicos pró-EUA, especialmente o da Arábia Saudita. Alguns estudiosos vão além e afirmam que o verdadeiro objetivo era "a comunidade muçulmana" (1,4 bilhão de pessoas), que se estende de Rabat a Jacarta, passando por Lagos e pelas periferias das cidades européias. É o caso de Michel Rogalski, para quem o integrismo islâmico é uma força em ascensão. Neste sentido, a incompatibilidade dos movimentos internacionalistas com os atentados não seria apenas de método (repúdio ao terrorismo), mas envolveria uma radical incompatibilidade de projetos políticos. Acho difícil discordar deste autor quando ele afirma que "a escolha não é entre Bin Laden e Bush. É entre Bin Laden e os progressistas do mundo muçulmano". 
Qualquer erro de avaliação a este respeito pode levar as lutas sociais a becos sem saída. 
Isto não implica, obviamente, ignorar o papel central do Estado norte-americano neste processo, inclusive como potência opressora e agressora. Daí o imenso impacto simbólico produzido pelo atentado sobre centros nevrálgicos do Império, os quais pareciam até então inexpugnáveis. Muitos dos que, já no 11 de Setembro, afirmaram que "o mundo não mais seria o mesmo" não expressavam qualquer disposição em lutar por um mundo onde caibam os bilhões de miseráveis (inclusive norte-americanos) que vegetam neste mundo eufemisticamente dito "globalizado". Não demonstram qualquer indignação com o permanente e (crescente terror) imposto aos palestinos; com os milhares de mortos que a invasão ao Iraque (e subseqüentes sanções) produz até hoje; com o flagelo imposto a 40 milhões de curdos. São etnocêntricos às avessas19 . 
Para início de conversa, é preciso repudiar os atentados de 11 de setembro e também a guerra ao Afeganistão. Nunca é demais repetir que, desde que os EUA se tornaram superpotência, nos estertores da II Guerra Mundial, sua política externa tem estado intimamente ligada ao terrorismo, estatal ou não estatal. Não é porque são, para usar o vocabulário bushiano, "do mal". É porque são uma potência imperialista.
Neste sentido, a escolha também não é, como sugerem diversos cientistas políticos, entre, de um lado, uma política hegemônica, por meio da qual os EUA20 arbitrem sabiamente os conflitos no interior de seu império planetário; e, por outro, uma política agressiva e arrogante, que desperta ressentimentos por toda a parte. A alternativa é falsa e só interessa àqueles que não se interessam em desvendar os estreitos vínculos entre: 1) imperialismo e guerra; 2) a atual fase de transnacionalização do capitalismo em crise e os projetos imperiais assumidos explicitamente pelos que, desde os anos 80, dirigem a política do Estado norte-americano. Realizar este projeto passa pelo confronto com qualquer força que represente ameaça real ou potencial à supremacia norte-americana. 
Para os que acham que "um outro mundo é possível" e se dispõem a lutar por ele, interessa reforçar todos os movimentos, fóruns, publicações, etc., que possibilitem atualizar os debates sobre o imperialismo e melhor enfrentá-lo neste início de milênio. Este enfrentamento será enraizado nacionalmente. Em um tabuleiro cada vez mais planetário, deverá ser necessariamente internacionalista. Com a guinada autoritária dos que se apresentavam como paladinos da liberdade, deverá ser bastante criativo para articular eficácia e aprofundamento democrático. Neste particular, a luta para democratizar os meios de comunicação adquire um papel crucial. É de fundamental importância explicar para milhões de deserdados que o império cavalga, mais uma vez, o tigre de uma crise que não consegue controlar e nada tem a lhes oferecer além da barbárie nua e crua.

Notas
1 Já tendo fincado os pés no Afeganistão,o governo Bush sinaliza que não pretende se retirar tão cedo, o que implicará a emissão de novos sinais para a China. 
2 Consulte-se, a este respeito, a clássica polêmica travada, em 1968, por Paul Sweezy e Charles Bettelheim acerca da URSS e de sua intervenção na Tcheco-Eslováquia. A despeito de suas diferenças, ambos os autores concordavam quanto à inexistência de socialismo na URSS e que a invasão da Checoslováquia era uma tentativa de evitar que o descontentamento popular se propagasse por toda a Europa do Leste, inclusive a própria URSS. No plano teórico, o marxismo soviético estava nitidamente na defensiva; proliferavam as organizações comunistas críticas em relação à URSS e os estudos críticos mais contundentes em relação ao caráter da sociedade soviética eram produzidos por intelectuais que se proclamavam marxistas. A polêmica de Bettelheim e Sweezy foi publicada em Portugal, pela Editora Portucalense, com o título Sociedades de Transição: lutas de classes e ideologia proletária.
3 A este respeito, a literatura é vasta. Limito-me a citar o já clássico artigo de Perry Anderson, "Balanço do neoliberalismo", publicado na coletânea organizada por Emir Sader e Pablo Gentili. Rio de Janeiro, Paz e Terra, e a coletânea dirigida por Gérard Dumenil e Dominique Lévy, Le Triangle Infernale: crise, mondialisation, financiarisation, Paris, PUF/Actuel Marx, 1999.
4 Quase toda a produção intelectual de bom nível - inclusive de origem hollyoodiana - produziu críticas mais ou menos mordazes e, inclusive, desesperadas, ao "welfare-state way of life". Lembremo-nos, por exemplo, da produção frankfurtiniana do período. Um texto sobre a "condição operária" na França, extremamente crítico à política da CGT e do PCF, foi escrito, em 1978, por Robert Linhard, em um livro, L' Établi, que foi publicado no Brasil, pela Editora Paz e Terra, com o título Greve na Fábrica. Uma abordagem crítica do movimento operário na época é feita por Alain Bihr, em por exemplo, "Os desafios atuais do movimento operário", Lutas Sociais, 7, e Da Grande Noite à Alternativa, São Paulo, Boitempo, 1998.
5 Samir Amin, em L'ethnie à l'assaut des nations: Yougoslavie, Ethiope (avec une collaboration de Joseph Vansy), Paris, L'Harmattan, 1994, apresenta formulações valiosas para o exame deste processo de etnicização, especialmente no que se refere às frustrações provocadas pelos Estados nacionais e pelas experiências ditas socialistas.
6 Ver, a este respeito, o artigo de Ricardo Silva, "Democracia delegativa ou vicissitudes da transição?", publicado em Revista de Sociologia e Política, 4/5.
7 A este respeito, ler, por exemplo, "Francia: ha nacido un nuevo movimiento social", de Christophe Aguiton, que participa da coordenação dessas marchas internacionais contra o desemprego. Lutas Sociais, 4.
8 Sobre as greves de 1995, na França, consultar a excelente coletânea organizada por Michel Vakaloulis, Travail salarié et conflit social, Paris, Actuel Marx/PUF, 1999. Em "O ‘novo modelo americano': dos empregos McDonald's à greve dos teamsters (UPS)", Ariovaldo de Oliveira Santos aborda a greve dos trabalhadores da UPS no contexto das alterações das relações de classe nos países de capitalismo avançado, especialmente o norte-americano. Lutas Sociais, 6. 
9 Para alguns autores, a novidade consiste no encontro entre internacionalistas e novos mundialistas. A este respeito, ver o instigante artigo de Michel Rogalski, "Internacionalistas e novos....", publicado em Lutas Sociais, 7.
10 Tranqüilidade também favorecida pela nova correlação pós-11 de setembro.
11 Ver, a este respeito, o artigo de José Arbex Jr., "O Reichstag de Bush", publicado em Caros Amigos, 55, out/01.
12 Segundo o mesmo instituto, "desde 1930 as três maiores economias do mundo (EUA, Europa e Japão) não enfrentavam crise tão sincronizada". Um dos membros do NBER declarou que "o fato de o mundo inteiro estar virtualmente em recessão ao mesmo tempo irá contribuir para a duração e para a severidade da crise". Folha de S. Paulo, 27/11/2001. 
13 Miguel U. Rodrigues destaca uma pergunta "particulamente incômoda" que o governo Bush ainda não respondeu: "Entre a destruição da segunda torre e o ataque ao Pentágono transcorreram 43 minutos. Por que motivo não foi interditado o espaço aéreo da capital federal? O sistema antimíssil de proteção não foi acionado e sobre Washington não apareceu um só avião de combate". Entrevista a Princípios, 63, jan/02. .
14 Cito, por exemplo, o artigo de Immanuel Wallerstein, "Cuidado! Estados Unidos podría prevalecer!", publicado em La Jornada, 29/8/01: "Tengo pocas dudas de que Estados Unidos pueda bombardear Afganistán, problablemente derrocar al regimen talibán y possiblement matar a Bin Laden". Obviamente, para o autor, o mais importante é examinar os perigosos desdobramentos políticos deste imbróglio.
15 As informações que apresento neste parágrafo foram colhidas principalmente no editorial um tanto desesperado de Ignacio Ramonet, "Adieu libertés", publicado no Le Monde Diplomatique de janeiro/02. É importante destacar (e apoiar) as resistências que surgem e podem impor recuos a estas políticas reacionárias, inclusive dentro dos EUA. 
16 Para aqueles que se impressionam com a propaganda acerca das relações do narcotráfico com as FARCs, cabe observar que 60% da heroína consumida nos EUA tem sido produzida ao longo da região fronteiriça afegã-paquistanesa. Em nome do objetivo estratégico de combater a URSS, a CIA fez vistas grossas a esta saudável atividade, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos e seus porta-vozes faziam um verdadeiro bombardeio propagandístico em torno dos estreitos vínculos das FARCs com o narcotráfico. Em relação à produção e tráfico de heroína, apoio-me em "La croisade de George Bush Junior", de Tania Noctiummes e Jean-Pierre Page, texto a ser publicado no próximo número de Lutas Sociais. Observe-se, por outro lado, o contraste entre as novas lutas sociais (aparatos simplificados, ausências de liderenças personalistas, fraca hierarquização, inexistência de vínculos com Estados e empresas transnacionais, distância dos circuitos sombrios do capital bancário). Em três palavras: a antítese da Al Kaheda. 
17 A literatura a este respeito é vasta. Limito-me a citar o livro de Michel Chossudowsky, A globalização da pobreza, São Paulo, Moderna, 1999.
18 Ver, a este respeito, o já citado artigo de Wallerstein e a entrevista de Marc Ferro publicada na Folha de S. Paulo, 25/12/01.
19 Para atualizar um gracejo carioca da época da primeira "orgia de importações" (a partir de 1808-1810), antes de saírem de casa, se vestem conforme a previsão do tempo em Washington.
20 Cujos dirigentes querem "mais arrocho na Argentina" e já anunciaram o final da "curta lua-de-mel com Pequim". Folha de S. Paulo, respectivamente 22 e 30/12/01.

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