O Império em ruínas

APROPUC-SP
Reginaldo Mattar Nasser

"Eu temo nosso próprio poder e a nossa própria ambição; eu tenho medo de ser muito temido (...). Nós até podemos dizer que não abusaremos deste surpreendente e extraordinário poder. Mas todas outras nações pensarão que nós abusaremos. Não é impossível que este estado de coisas, cedo ou tarde, produza uma combinação contra nós que pode terminar em nossa ruína." - ( Edmund Burke, descrevendo o seu medo em relação ao antigo Império britânico)

Após o impacto inicial do dia 11 de setembro, procurávamos e ainda estamos procurando colocar em ordem nosso raciocínio, e encontrar possíveis explicações sobre as causas e conseqüências daquela que está sendo anunciada como a "primeira guerra do século 21". A cada dia que passa, novas surpresas são reveladas, indicando que apesar de estarmos diante de uma situação inusitada já podemos desenhar com mais clareza o cenário internacional que se configura.

Esqueçamos por um instante as imagens das vítimas dos atentados, e sejamos apenas analistas objetivos, procurando ver a surpresa que o fato nos causou como um recurso estratégico que também já foi empregado em outros momentos históricos, e que causou espanto até aos homens que estudaram e vivenciaram a guerra como Clausewitz. Sem conseguir encontrar uma explicação lógica que pudesse atribuir a autoria do incêndio de Moscou, durante as guerras napoleônicas, aos próprios russos, Clausewitz achava que estava diante de "um dos acontecimentos mais estranhos da História"; como "um evento que tanto influenciou o destino da Rússia" pode ser comparado a "um bastardo nascido de um caso de amor ilícito, sem um pai que o reconhecesse?"

Surpresa é uma palavra mágica, que pode ser entendida como uma situação que de acordo com Sun Tzu, pensador chinês que escreveu no século 5 a.C. a Arte da Guerra, pode ser obtida por meio da originalidade, da audácia nas ações, da velocidade da execução, do sigilo, do despistamento e da dissimulação de intenções. Creio que os atentados de 11 de setembro cumpriram rigorosamente todos esses itens e nesse sentido somos levados a alterar num passe de mágica a lógica política estabelecida: o PODEROSO está FRÁGIL e o DOMINADO se fortalece. Os impactos causados pelo atentado e a situação atual de temor na sociedade norte-americana, mostrando as fragilidades da superpotência, fazem com que o sistema internacional passe a ser redefinido de forma significativa.

E nesse momento, o propósito do analista crítico é penetrar nesse verdadeiro labirinto e compreender um pouco mais a respeito dos conflitos, entre as percepções que estão em questão neste momento, pois já se disse com bastante propriedade que as relações internacionais são, até certo ponto, efetivamente o que as pessoas acreditam que elas sejam e que, sob certas condições, os homens reagem não às coisas reais, mas às ficções que eles próprios criaram em torno delas.

Semanas antes do atentado, alguns dos mais importantes think tanks norte-americanos conclamavam a administração Bush a assumir, sem qualquer tipo de constrangimento, o papel de um novo tipo de Imperialismo, nos moldes da Pax Romana, diante das novas realidades emergentes após a Guerra Fria. Havia uma longa lista de problemas que estavam se agravando nos últimos anos e isso exigia uma ação imediata e contundente: narcotráfico, tensões entre a Índia e Paquistão, China e Taiwan, a península coreana, os conflitos nos Bálcãs e no Oriente Médio, proliferação nuclear, terrorismo, etc. Contudo, o dia 11 de setembro revelou um fator desconcertante: o Império estava em ruínas em decorrência de fatores internos - segurança extremamente frágil e desarticulada, conjugados aos fatores externos - os EUA colecionaram durante anos uma série de inimigos, fruto de uma ação diplomática-estratégica equivocada.

O ex-secretário de Estado e influente pensador norte-americano Henry Kissinger expressou com clareza o estado de espírito em que se encontrava o governo dos EUA logo após os ataques: "Os Estados Unidos podem estar no auge dos seus poderes, mas precisamos definir nossos propósitos nacionais. Costumávamos estar confiantes de nosso lugar no mundo. Agora não há mais consenso sobre qual é o perigo", e , conseqüentemente, como combatê-lo. A partir de então, a grande maioria dos think tanks apontava a necessidade de empreender um diálogo sério e respeitoso com o mundo muçulmano, os únicos com condições de empreender uma ação mais eficaz contra o terror.

Diante da necessidade de uma maior segurança interna e os altos riscos políticos nessa nova empreitada, os EUA viram-se obrigados a buscar parceiros não convencionais e a repensar a sua política externa. O alto grau de sofisticação com que os atentados foram programados e o fato de que aviões podem se tornar mísseis contra prédios civis, foram dados novos que surpreenderam a comunidade de informação. Nenhum indício preciso parecia ter chegado ao conhecimento dos agentes do FBI e da CIA após dias de investigação. Num primeiro momento, os EUA viram essa guerra de uma forma diferente, entendendo que seria necessário novas formas de ação militar, e que seria um erro pensar que o terrorismo pudesse ser enfrentado somente pelo uso de força militar. Estaria reservado um importante um papel para a diplomacia na condução de pressão internacional contra regimes que abrigam terroristas: a montagem de novos sistemas de alianças, antes impensável, de todo tipo de país que apoie os objetivos dos EUA.

Para se ter uma idéia da unidade da primeira coalizão antiafegã, conhecida como o grupo "seis mais dois" (os EUA, Rússia e os seis países que fazem fronteiras com o Afeganistão), basta lembrar que antes de 11 de setembro, as relações dos EUA com China e Rússia estavam bastante tensas, não mantinham relações diplomáticas com o Irã e a situação dos direitos humanos no Uzbequistão (campanha de prisões e torturas de muçulmanos devotos) recebia severas críticas por parte do Departamento de Estado. Após os ataques, o Paquistão, até então o principal sustentáculo do regime Taleban no Afeganistão, conseguiu reescalonar US$ 396 milhões de sua dívida; recebeu de Washington uma linha de crédito de US$ 300 milhões para investidores em potencial; US$ 73 milhões para patrulhar as fronteiras paquistanesas, US$ 34 milhões para o combate ao tráfico de drogas e US$ 600 milhões em ajuda externa para enfrentar as conseqüências de uma recessão global. O Uzbequistão recebeu US$ 6 milhões para sanear uma instalação de guerra biológica dos tempos soviéticos, e o Tajiquistão foi agraciado em US$ 28 milhões como ajuda contra a seca. Os EUA silenciaram suas críticas aos "excessos" cometidos por forças russas na Chechênia, ampliaram as suas relações comerciais facilitando as negociações para ingresso da Rússia à Organização Mundial do Comércio (OMC) .

Um mês após o início dos ataques, jornais como The New York Times, Wall Street Journal e Washington Post eram unânimes em apostar num novo desastre militar como havia acontecido no Vietnã. No entanto, a inesperada queda de Cabul em novembro, e o repentino colapso do Taleban, permitindo a constituição de um governo de coalizão representativo das várias facções da Aliança do Norte e da maioria étnica pashtun do Afeganistão, fez com que a sociedade norte-americana, de um dia para outro, considerasse a condução da guerra como quase "perfeita". Segundo o secretário de Estado, Colin Powell, inicialmente um dos mais céticos membros do governo em relação à eficiência dos bombardeios, os EUA tiveram pleno sucesso em montar uma cooperação e coordenar esforços entre "uma força aérea do primeiro mundo com uma infantaria do quarto mundo, bombardeiros B1 com combatentes a cavalo". Os americanos enviaram para o Afeganistão obras-primas de tecnologia, experimentando novos equipamentos, como os aviões Predator, sem piloto, que espiam e, por meio de controle remoto, atiram e matam. O número de soldados americanos mortos em ação foi surpreendentemente pequeno para uma operação de grandes proporções. A esta altura, o "partido da guerra", sob a liderança do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, podia se regozijar da experiência do Afeganistão, em que as "bombas inteligentes" e o dólar foram suficientes o bastante para permitir que os EUA vencessem a guerra praticamente sozinhos e que, em essência, os mesmos métodos operacionais poderiam ser repetidos em outros lugares do mundo. Após um breve período de multilateralismo, em que as intensas costuras diplomáticas realizadas, principalmente, pelo Departamento de Estado sinalizavam uma possível reorientação de sua conduta externa, o sucesso militar permitiu aos EUA retornarem ao seu unilateralismo.

Infelizmente, essa guerra não foi tão perfeita assim, e continua valendo a antiga máxima de que numa guerra a verdade é a primeira vítima. Não foi apenas o governo dos EUA que implantou um rígido controle sobre as informações, restringindo o acesso ao campo de batalha, mas boa parte da mídia se encarregou de "colaborar" fazendo sua autocensura. Apesar do espetáculo dos horrores da guerra aparecer estampado nos jornais - os cadáveres são os dos talebans executados por soldados da Aliança do Norte -, quase não se vê imagens das vítimas dos bombardeios, e fala-se muito pouco nelas. As instruções do chefe da CNN, Walter Isaacson - para não insistir demais durante os programas sobre as vítimas civis afegãs, e sempre lembrar o balanço dos ataques contra Nova York e Washington -, são extremamente reveladoras desses novos tempos. Nas corajosas observações do jornalista do El Pais, Guillermo Altares, a guerra do Afeganistão continua sendo um dos conflitos com mais perguntas sem respostas da História. Apesar das cenas de linchamentos de talebans estrangeiros em Mazar e da matança no cárcere de Qila-i-Jhangi, em Taloqan ou em Cabul, ninguém foi capaz de responder quantas pessoas morreram nessa guerra, não há sequer uma cifra aproximada.

Deve-se lembrar também que Bin Laden ainda não foi encontrado e as células da Al-Qeada continuam ativas em vários países, até mesmo nos EUA, onde o FBI suspeita que haja pelo menos 150 grupos ou indivíduos ligados à rede. Milhares de soldados do Taleban rasparam a barba e voltaram para suas aldeias. O presidente George W. Bush tem dito que os americanos "precisam entender" que ainda "há muito a fazer" e a missão dos EUA só terminará quando o Afeganistão se tornar um país estável. Altos funcionários da administração americana advertem contra baixar a guarda, e admitem que as piores notícias da guerra contra o terrorismo talvez estejam ainda por vir. No momento em que essa guerra descrita como a primeira da erradicação do terrorismo parece estar terminando, está se tornando tentador para o "partido da guerra" passar para a "fase 2". Quando se sabe que a Al Qaeda possui ramificações em "59 outros países", como gosta de lembrar o secretário-adjunto da Defesa, Paul Wolfowitz, não só a escolha dos alvos mas também dos meios é obviamente vastíssima.

Ora, apesar de existir um consenso mundial de que o terrorismo deve ser combatido, as negociações na ONU para a conclusão de um acordo internacional contra o terror revelam que está faltando o principal: não se consegue definir com objetividade o que é terrorismo, em outras palavras, não está claro quem é o inimigo e contra quem o acordo seria utilizado. As últimas décadas têm demonstrado que é extremamente complicado definir terrorismo. O terrorista de ontem é o herói de hoje, e o herói de ontem se torna o terrorista de hoje. Podemos lembrar que, nos anos 30 e 40, quando lutavam contra a ocupação britânica, os israelenses recorriam às mesmas táticas que condenam nos palestinos de hoje. Foi particularmente marcante o atentado cometido contra o Hotel Rei David pelo Irgun de Menachem Begin (prêmio Nobel da Paz) que, com apoio da Haganah de Ben-Gurion, matou 88 militares e funcionários do governo britânico, em 22 de julho de 1946. Mas também foram usadas granadas contra cafés palestinos e cartas-bomba contra funcionários britânicos. Não podemos esquecer também que o presidente Ronald Reagan, entusiasmado com a expulsão dos soviéticos do Afeganistão, nos anos 80, chegou a comparar os mujahidins com os "pais fundadores" dos EUA.

Mais do que definições objetivas, o que nós encontramos hoje em dia nas centenas de artigos de jornais e revistas pelo mundo afora são avaliações genéricas, carregadas de ambigüidades e imprecisões teóricas que primam por rotulações obscurantistas - terrorismo é uma ameaça à civilização ocidental -, é o que mais se ouve. O mais grave é que essa imprecisão teórica freqüentemente é adornada nos meios intelectuais com a tese de "choque das civilizações", de Samuel Huntington, impedindo que se tente encontrar uma explicação causal para o terrorismo situando-o na História, apreendendo suas particulares e seus diferentes significados. Pois a pergunta que deve ser respondida é: por que o terrorismo, sendo um fenômeno mais simbólico que real e que remonta ao passado, atualmente está colocando em redefinição todo o sistema internacional?

Sem dúvida nenhuma, o objetivo do terror ao atacar a população civil é atingir de forma simbólica a unidade e a força de uma nação. É o que pensador francês André Glucksmam chamou, com propriedade, de síndrome de Heróstrato. Heróstrato viveu em Éfeso em torno de 350 antes de Cristo. Num dia de aniversário do nascimento de Alexandre, o Grande, queimou o templo de Diana para adquirir uma imortalidade como a que Alexandre havia conseguido com suas campanhas. O horror que provocou foi tão grande que se proibiu de falar dele. Heróstrato teria perdido seu momento de imortalidade, não fosse o fato de a história nunca poder se ocultar totalmente.

A novidade é que este terrorismo, agora, combina o uso da tecnologia moderna com a tradição árabe (uso dos mensageiros), sem que possa ser rastreado eletronicamente. Você pode comunicar ao mundo inteiro sua causa, pode eliminar milhares de pessoas em poucos minutos sem ser visto, e não pode ser localizado facilmente. Pronto, quando você reúne uma causa que vale a pena morrer, instrumentos de destruição potentes e meios de comunicação extremamente sofisticados um novo tipo de ação política torna-se possível. Os terroristas das Torres Gêmeas se inspiraram em Heróstrato; a demolição das Torres Gêmeas e do Pentágono é nosso templo de Diana, vista e documentada ao vivo pela CNN.

No entanto, diante desse novo desafio, os EUA têm respondido com seus tradicionais métodos empregados nos tempos de caubói, colocando cabeças de bandos de "criminosos" a prêmio. Em vez de buscar soluções políticas para um problema político como é o terrorismo, procedem a uma sistemática "criminalização" dos seus adversários, obstaculizando a priori aquilo que é mais sagrado nas relações internacionais, a negociação.
Não podemos esquecer que a guerra expressa, de certa forma, o sentido de existência da unidade política e, portanto, trata-se sempre de definir com precisão a inimizade, que é o que confere à guerra a sua dimensão política. Pois, a não ser assim, como já observava Carl Schmitt, a inimizade real se tornará abstrata e absoluta, servindo unicamente para uma suposta imposição objetiva de valores mais altos, para os quais nenhum preço é demasiado alto.
Os americanos têm uma tendência para negligenciar os lados negativos do papel que desempenham no mundo, talvez porque eles percebam os conflitos internacionais em termos de cruzadas entre bem e mal, e quando buscam apoio para sua causa almejam a unanimidade. O apelo do presidente Bush é exemplar: quem não está com os EUA está apoiando o terrorismo!

De acordo com o pensador norte-americano Stanley Hoffman, o que faz o Império americano especialmente vulnerável é sua combinação historicamente sem igual de ativos e passivos. Se quisermos estabelecer algum tipo de comparação histórica devemos voltar nossos olhos ao Império romano e não à Inglaterra, França, ou Espanha, que tiveram que operar em sistemas multipolares; os Estados Unidos são a única superpotência. Mas se os recursos militares, econômicos e culturais dos EUA são vastíssimos, os limites de seu poder também são consideráveis. Os Estados Unidos, ao contrário de Roma, não podem impor sua vontade apenas pela força ou através de seus aliados. Não apenas os chamados "rogue states" podem desafiá-lo, mas sobretudo, como ficou provado depois de 11 de setembro, organizações não-estatais estabelecidas em rede mundial.

Por fim, uma recente pesquisa sobre atitudes mundiais em relação aos EUA e aos ataques de 11 de setembro, traz à tona mais um importante elemento para compreendermos o atual cenário internacional - a diferença entre a forma que os americanos acham que são vistos pelos outros e a maneira pela qual o resto do mundo os vê. A pesquisa, realizada pelos institutos Pew Research Center e Princeton Survey Research Associates, e pelo jornal International Herald Tribune, ouviu 275 formadores de opinião nos setores de política, mídia, negócios e cultura de 24 países , 40 deles nos EUA. Nos EUA, apenas 18% consideram que "as políticas e as ações dos EUA no mundo" foram uma das principais causas dos ataques. No resto do mundo, o número sobe para 58%.

Uma média impressionantemente uniforme, de 70% dos formadores de opinião do resto do mundo, disse que a população de seus países achava "bom" que os EUA tenham passado a saber o que significa ser vulnerável. Tudo isso revela um enorme descompasso entre a mentalidade política da sociedade imperial e as novas realidades do tempo presente. Diferentemente dos séculos anteriores, quando os poderes hegemônicos podiam impor sua visão de mundo numa determinada ordem internacional, legítima ou não, há agora um grande vazio institucional, aliado a um manifesto ressentimento mundial em relação ao enorme poder dos EUA.
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