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Terrorismo e crise: o significado das políticas neoliberais

APROPUC-SP

Regina Maria A. F. Gadelha

A análise dos efeitos das transformações provocadas pelo advento das novas tecnologias na última década, impondo aos mercados políticas de reestruturação destruidoras do mundo do trabalho, nos leva a constatar que esta já não é apenas mais uma crise do sistema capitalista, com seus sinais positivos e negativos. De fato, a crise indica os resultados da maneira sistemática pela qual os governos dos países ricos, suas elites empresariais e as oligarquias periféricas subordinadas disseminaram o terror do desemprego e do não-trabalho entre multidões de trabalhadores, sem respeito ou valorização de qualquer aspecto positivo da vida humana1 . A crise revela a irracionalidade das ações dos seres humanos, dominados pela pulsão tanática (a descoberta de Freud), da qual parece restar somente os aspectos negativos: diminuição do homem, da sua dignidade, inteligência, sensibilidade; aumento dos índices de enfermidades e desnutrição, corolário da miséria; redução da esperança de vida; destruição de animais e natureza; diminuição da beleza das paisagens e das emoções.
Desde o início do processo conhecido por "globalização", cientistas sociais, não comprometidos com o status quo das políticas neoliberais, prevêem, em suas análises, o aumento da anomia social e o agravamento das crises econômicas e financeiras do sistema. Indicadora da concentração de renda, a crise atual revela os níveis de degradação física e moral atingidos por grande parte da população do planeta. Porém, ela revela ainda um outro lado mais perverso do processo, até pouco tempo somente presente no espírito de alguns analistas. Trata-se do componente terrorista, que transparece nas ações do desespero das massas, acirradas por velhas e novas religiosidades e crenças, tão mistificadoras como os proselitismos ideológicos difundidos pelas mídias nas sociedades mais avançadas.
Este terrorismo, combinação de crueldade, perversidade e covardia, como o definiu o sociólogo peruano Aníbal Quijano, em artigo recentemente publicado no último número da revista PUCviva2 , não é somente o terrorismo individual, de membros fanáticos, de grupos extremistas nacionalistas ou religiosos. A definição nos permite considerar, como atos terroristas, toda guerra e repressão social, advindos de governos e Estados, que violentam populações civis indefesas, mesmo quando legitimados por discursos oficiais e forças militares supranacionais, como as conduzidas pela ONU e a Otan. Senão, como qualificar as "guerras" executadas pelas grandes potências e as modernas "repressões" de violência extremada, praticadas por governos legítimos sobre as populações civis e que se sucedem desde o final da II Guerra Mundial até os dias atuais?
Porém, os acontecimentos mais recentes prenunciam um novo "apocalipse", exigindo o despertar das consciências daqueles que lutam pela paz, como única forma de salvação e preservação de nossa espécie. De fato, já não se trata de simples luta de classes ou de defesa de interesses nacionais. A atual crise revela toda a brutalidade e a irracionalidade animalesca a que chegaram as classes dirigentes de países ricos e pobres, que manipulam seus cidadãos contra os mais fracos. Porém, progressivamente, nos temos habituado à banalização das torturas e genocídios, às fotos de crianças e adultos famintos, desnutridos, às mutilações quotidianamente executadas há mais de meio século contra populações indefesas, no Oriente Médio, em várias partes da África e da Ásia, na América Latina. Ao mesmo tempo, parece estreitar-se o número daqueles que denunciam e reagem contra o caos anunciado.
De fato, se antes do 11 de Setembro os Estados Unidos, em sua ânsia de dominação, contentava-se em estimular ações de terroristas, de forma camuflada ou diretamente liderados pela CIA e seus agentes, hoje a ambição de hegemonia sem limites deste Estado manifesta-se, sem camuflagem, pelo uso do terror direto e pelo emprego sistemático de modernos armamentos bélicos e bacteriológicos, lançados sobre países e populações indefesas. Como povos sem história e sem memória, nos esquecemos rapidamente dos horrores cometidos nas guerras da Coréia e do Vietnã, no Laos, Cambodja, Timor Leste, Iraque e todos os massacres e genocídios que, da Ásia à África e às Américas, desde as bombas de Hiroshima e Nagasaki, vêm sendo cometidos ou acobertados pelos EUA, em nome das "salvaguardas da democracia e das liberdades individuais" e exaltação do modo de vida norte-americano.3 Ao mesmo tempo, o mundo foi submergido por todo tipo de (des)informação e propaganda, levado a esquecer os horrores cometidos por governos "democratas", desde o pós-guerra. Em particular, contra os povos de países periféricos, em luta por liberdade e condições dignas de existência e vida.
Assim, não há por que nos surpreender os atos terroristas do fatídico dia 11 de setembro de 2001, triste (re)ação de fanáticos organizados ou não por Osama Bin Laden ou outro líder qualquer. De resto, devemos recordar que o miliardário saudita e sua família sempre estiveram associados aos negócios de petróleo, ao lado da família Bush, tendo Bin Laden servido o governo dos EUA durante décadas, como fiel escudeiro das agências americanas. Entretanto, tal como as grandes guerras no século passado, o terrorismo somente é levado a sério quando praticado contra os países ricos da Europa Ocidental ou agora, também, contra território norte-americano.
Esta Introdução se, por um lado, extravasa uma emoção que ultrapassa a necessária objetividade do historiador e do cientista social, não nos impede de reafirmar as análises que fizemos, na última década, contra a mistificação chamada de ‘globalização'. De fato, somos obrigados a insistir, uma vez mais, no processo atual das relações internacionais. Nesse sentido, a crise e o termo "Globalização", para nós, ocultam significativamente as velhas práticas utilizadas pelo imperialismo.4 Mais do que uma economia mundializada, trata-se, na verdade, de uma nova fase da expansão do capital financeiro, imposto pelos organismos internacionais (FMI, OMC, Banco Mundial, ONU e outros), colocados a serviço da hegemonia dos interesses norte-americanos e atuando, em conjunto, com as mídias, que empregam sofisticados sistemas de informática, telemática e telecomunicações. Esta crise reflete, porém, o fim de mais um breve ciclo de dinamismo das finanças e dos negócios internacionais, no bojo da fase B, recessiva, do Kondratieff de longa duração, iniciado nos anos 70.
Outra face mais transparente do funcionamento do processo de internacionalização das economias, entretanto, também pode ser revelada pelas mistificações "encomendadas" a intelectuais neoliberais, que desde o início dos anos 90 preconizaram o fim dos Estados nacionais e suas fronteiras, o término das lutas de classe e a chegada da humanidade ao estágio superior da fraternidade, garantidos pela mobilidade e autonomia do capital financeiro, corrosivo dos sistemas produtivos nacionais. Expansão cíclica permitida pela etapa máxima de dominação do capital-dinheiro sobre as esferas da produção, em que os agregados financeiros ultrapassaram em muito o volume da capacidade de reprodução do capital real, investido em escala mundial. Autofagia é o termo mais exato, qualificador deste processo, em que as transações internacionais atingiram cifra astronômica de circulação financeira, calculada em torno de 700 trilhões de dólares anuais (1995)5 , sem que a produção física e a capacidade de consumo tivessem se expandido na mesma proporção.
A presente crise, portanto, advém da acelerada expansão especulativa e de cunho "fictício" (cf. Marx), baseada em títulos, papéis e ações, não levando em consideração os limites do consumo e da renda dos próprios capitalistas e dos trabalhadores. Entretanto, os trabalhadores são as principais vítimas, não lamentadas, da última década do século 20, sofrendo, em decorrência de políticas econômicas e gerenciais consolidadas, o maior retrocesso social de suas conquistas, em escala jamais ocorrida desde o início da história do capitalismo pós-industrial. A crise revela, também, o esgotamento atingido pela quase totalidade dos recursos naturais do planeta, ao lado das necessidades enfrentadas hoje pelos países centrais, de manterem preservados, em níveis elevados, os padrões de vida de seus cidadãos. Fator que reside na possibilidade da plena realização do excesso de liquidez do capital produtivo e financeiro de seus países, que se nutre das riquezas criadas nas esferas da produção e pela força de trabalho explorada em escala mundial. O que torna ilustrativa a resposta dada, há alguns anos, pelo economista americano John K. Galbraith, entrevistado por jornalista italiano: "Globalização é um termo que não uso. Não é um conceito sério. Nós, americanos, o inventamos para dissimular nossa política de entrada econômica nos outros países. E para tornar respeitáveis os movimentos especulativos do capital, que sempre são causa de graves problemas".6
Ora, as crises das últimas décadas vêm contribuindo significativamente para resolver os problemas do enorme déficit norte-americano, explodido no final dos anos 70. François Chesnais, em seu livro sobre a gênese, o custo e as conseqüências da globalização, indica que o processo de liberalização e mundialização do capital financeiro vem sendo marcado, desde o fim da II Guerra Mundial, por inúmeros choques e entrechoques das economias dos países centrais, mas também por crises de produção, mais autênticas, atingindo o cerne dos setores produtivos. Chesnais conclui a análise afirmando que a fragilidade financeira e os riscos sistêmicos contemporâneos "nos colocam em presença [...] de um modo de acumulação financeira mundial, possuindo instâncias e prioridades de regulação, cujos contornos apenas começamos a vislumbrar; [...] uma mundialização financeira ‘desigual' e ‘imperfeita', entre sistemas nacionais separados e fortemente hierarquizados, repousando sobre a interconexão, de intensidade variada, de um a outro compartimento dos mercados".7
Chesnais assinala a ocorrência de várias crises graves do sistema na última década, indicadoras da profundidade da fase B, do ciclo Kondratieff, e ilustrativas dos riscos e fragilidades econômicas e financeiras dos países centrais, atingindo as economias de países periféricos, em um mercado mundializado: 1.º) o crash de 1987, em Wall Street, gerido pelo FED, com efeito sobre as bolsas e a economia dos países centrais; 2.º) a fragilização dos bancos, a crise imobiliária e a recessão mundial que atingiu as economias dos países centrais nos anos 1990/92; 3.º) as crises mexicana e argentina de 1994/95, socorridas pelos EUA (caso do México) e seu aliado maior da América Latina (o Brasil, que então socorreu a Argentina); 4.º) a crise do Japão (1995/96), atingindo os "Tigres" Asiáticos (Coréia, Indonésia e Tailândia), provocando queda abrupta nos padrões de vida destes países e com reflexos sobre o Brasil; 5.º) as crises da Rússia, da Turquia e do Brasil (1998); 6.º) finalmente, podemos assinalar também a crise atual, originada pelo fim do ciclo (breve) da expansão norte-americana, aprofundada pela perda de confiança dos mercados diante dos trágicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, com queda já evidenciada dos PIB dos EUA e dos países centrais.
Na América Latina, esta crise é responsável pelo afundamento econômico-financeiro da Argentina (em declínio desde 1998)8 e acompanhada pelo colapso político, constatado com a renúncia do presidente Fernando De la Rúa e seus ministros, que foi provocada pelas várias manifestações coletivas e de revolta espontânea do povo argentino, sobretudo a de 20 de dezembro de 2001. Lembramos que a crise argentina é uma crise anunciada e conduzida pelo sistemático emprego das políticas de modelo neoliberal e das quais o país se transformou no laboratório mais perfeito.9
De maneira geral, os efeitos das políticas neoliberais, impostas pelos EUA, através do FMI, se têm manifestado com igual intensidade em todos os continentes, aumentando os níveis da pobreza global. Porém, a crise atual revela uma mudança qualitativa deste processo e que atinge, em todas as partes, as percepções e as consciências dos vários agentes sociais, contagiando diferentes segmentos da sociedade.10
Em trabalho por nós apresentado em 1997, no 2.º Encontro Nacional de Economia Política (SEB), procurávamos demonstrar como o movimento de expansão do capital internacional mascara e acoberta o verdadeiro sentido das políticas e das práticas neoliberais, de retorno ao processo de dominação colonial.11 Esta ascensão revelou-se possível graças à incompreensão12 quanto ao verdadeiro significado e conseqüências do ideário adotado, com seu rastro de desnacionalizações de ativos, desindustrialização e desemprego, desregulamentação de direitos sociais e de trabalho. Nesse sentido, a urgência com que os países adotaram as práticas neoliberais encobre o movimento especulativo do capital financeiro, apresentado como "vantajoso para o progresso" das nações periféricas e que aceitaram realizar políticas de privatizações e desnacionalização dos ativos de seus países, e a desregulamentação de suas economias. Escondeu-se, no entanto, das populações, que o processo de globalização beneficiaria, de maneira desigual, especuladores, produtores e consumidores, empresários capitalistas e trabalhadores.
Uma década de intolerância contra os críticos, mas também de exercício de políticas macroeconômicas equivocadas e que expressamente redirecionam a inflexão da acumulação, aumentando o fosso entre países ricos e pobres, consolidando a hegemonia norte-americana, ameaça hoje o equilíbrio político das nações.13 De fato, ao contrário do passado, os atos de terrorismo atual (coletivos ou individuais, privados ou oficiais) não podem mais ser encarados como ações isoladas, mas alertam para a necessidade de as lideranças buscarem saídas que reduzam os sacrifícios e os custos exigidos das populações periféricas, cujos problemas, bastante conhecidos, necessitam ser solucionados. Da mesma forma, o processo de acelerada submissão das elites empresariais e de governos, que cederam aos ditames do capital especulativo, necessita ser detido. De fato, este capital é igualmente responsável pelas ações terroristas desencadeadas pelos grandes Estados na última década e que atingiram as populações indefesas da Bósnia, do Iraque, em Timor Leste, na Palestina, silenciando tantas vozes que lutaram pela paz.
De fato, uma retrospectiva dos anos 90 revela, em todo o planeta, o agravamento das condições de vida dos povos, que tiveram seus modos de existência alterados pela maior ou menor penetração destas relações capitalistas. Daí que a atual guerra do Afeganistão, bem como os levantes da população argentina, em outra dimensão, não possam ser compreendidos como fenômenos isolados.
O exemplo do Afeganistão, país do Oriente Médio comprimido entre o Irã, o Paquistão, a China e a República do Uzbequistão, revela os profundos desequilíbrios internos, agravados pelas diferenças tradicionais que dividem os grupos étnicos do país e pelas sucessivas guerras civis ocorridas desde a derrubada da monarquia medieval, retrógrada e opressora (1973), até os dias atuais. Sem contar os efeitos provocados pela ingerência de outras nações em seu território (a Rússia, os EUA, o Irã, o Paquistão). Entretanto, estes conflitos encobrem também outros interesses, envolvendo as disputas pela exploração da riqueza petrolífera, ainda não explorada, deste território. O que explica as tentativas de influência e de dominação do país, por parte de tantas nações.
De fato, desde a revolução de 1973, seguida alguns anos depois pela tentativa de implantação de um regime socialista modernizador no país (1978), os EUA ameaçaram interferir na condução dos assuntos internos do Afeganistão. O envolvimento direto do governo norte-americano teve início em meados de 1979, durante a presidência de Jimmy Carter, antes da invasão efetivada pelo exército soviético, em dezembro daquele ano. O pretexto da invasão fora o de "salvar o regime socialista afegão", considerado ameaçado. Mas o país assistiu a deposição do ministério afegão, cujos membros, todos socialistas, tiveram de abandonar o território e a região para preservarem as suas vidas, exilando-se na Europa protegidos pela Convenção de Genebra, que desde o fim da II Guerra Mundial assegura asilo aos refugiados de guerras ou revoluções nos países signatários.
As sucessivas perseguições sofridas pelos opositores do regime e a permanência das tropas soviéticas no país agravaram as divisões étnicas e familiares, provocando a fuga de muitos afegãos, dispersos em países árabes ou de cultura ocidental diversa, como a Alemanha, a França, os EUA e mesmo a Austrália, onde residem alguns destes refugiados. Entretanto, uma vez no exílio, onde ainda permanecem, os exilados afegãos e seus familiares tiveram que se adaptar a ambientes adversos aos seus costumes, lutando por subempregos e, ao mesmo tempo, para preservarem a dignidade e sua identidade cultural.
No entanto, o acirramento das estratégias da Guerra Fria e a má condução da política soviética acabaram por provocar a revolta generalizada do povo afegão, incentivado pelos norte-americanos para expulsarem os invasores de seu território, o que somente ocorreu em 15 de fevereiro de 1989. Entre os chefes da resistência encontrava-se o futuro líder espiritual do Taleban, mulá Mohammed Omar, além do saudita Osama Bin Laden e do xeque egípcio, médico e líder espiritual fundamentalista Omar Abdel Rahman, hoje preso nos EUA, após haver sido acusado de idealizar a primeira tentativa terrorista de atentado contra as torres do World Trade Center, em fevereiro de 1993.
O longo período da resistência, e a guerra contra os soviéticos, provocou a adesão de jovens islâmicos, oriundos dos mais diversos países árabes. Muitos destes jovens, sem trabalho, foram atraídos pelo apelo radical de uma guerra "santa" contra os invasores russos, hereges e ateus. O movimento, estimulado por Osama Bin Laden, então a serviço da CIA, marca o início da formação da Al Qaeda (Fundação de Salvação Islâmica), organização por ele dirigida, e hoje espalhada em diferentes países muçulmanos.14
A expulsão dos russos do território, entretanto, não chegou a derrubar o presidente Mohammed Najibullah do poder, em Cabul. Estabilizada as posições dos grupos militares, a Assembléia dos Chefes, ou choura, reunida em Peshawar para eleger o governo interino, parecia suficiente para garantir a hegemonia da Aliança sunita, formada por membros de maioria étnica pasthun. Logo, porém, a legitimidade da Aliança foi recusada pelos moujahidin, comandantes chiitas radicais, cujas tropas, fundamentalistas, eram compostas também por militantes muçulmanos de outros países, conhecidos por sua intolerância religiosa. Porém, o fracasso do governo da Aliança não se deu apenas devido a resistência dos rebeldes. Ele foi premeditado e garantido pela estratégia política dos americanos e do governo paquistanês.
É o que se deduz do artigo de Armando Sartori, para a revista Reportagem: "Os EUA, escreve, fizeram uma escolha decisiva, que teria implicações diretas com os atentados cometidos contra Nova York e Washington. Entre os diferentes grupos que se opuseram aos soviéticos, o governo Carter escolheu privilegiar os que tinham como ideologia o fundamentalismo islâmico. Talvez porque, para estes, o ódio ao invasor era duplo: não só por ter ocupado o território afegão, mas também por ser comunista e ateu".15
Em conseqüência, sobre as ruínas da desocupação soviética o país mergulhou em interminável ciclo de guerras civis, estimuladas pela CIA e pelo governo paquistanês, então dirigido pela primeira-ministra Benazir Bhutto, certa da iminência da queda de Cabul. Somente em setembro de 1996, a CIA e os serviços secretos paquistaneses puderam ver derrubado o governo de Cabul pelos extremistas do Taleban, apoiados pela Al Qaeda. Começava o longo período de terror, com os membros deste grupo controlando quase a totalidade do país e implantando um regime de exceção baseado no fundamentalismo extremado, na supressão dos direitos civis individuais e, sobretudo, dos direitos conquistados pelas mulheres. Portanto, os EUA e seus aliados, ao armarem e sustentarem os fundamentalistas talebans, tornaram-se igualmente responsáveis pelo retrocesso sofrido pelo país, jogado às "trevas medievais". Estes fatos se produziram diante dos olhos do poderoso G-7, cujos líderes preferiram legitimar a ação extremista de fanáticos, acreditando poder assegurar o controle de suas ações. O que levou estas lideranças a se calarem diante dos assassinatos cometidos pelo Taleban contra líderes afegãos moderados e opositores do regime (incluindo, entre as muitas atrocidades, a mutilação de mulheres) e que, assim, governaram o país com leis draconianas de terror.
O termo "guerra contra o terrorismo", no entanto, revela-se impróprio tanto para justificar a guerra como para compreendermos o início da nova era que se abre com os atos (premeditados) do terror sobre a população civil, provocando o aniquilamento físico de milhares de seres humanos e que já se torna uma prática banalizada. É indicativo, desta nova era, os assassinatos de prisioneiros das Farc's pelo governo colombiano, o recrudescimento dos massacres do povo palestino, a "guerra do Afeganistão", que passará à História como tendo sido a mais terrível de todos os tempos, anunciadora de novo patamar da violência oficializada.
Estes atos, praticados por forças do terrorismo oficial, testemunham o delinear de novo espaço geopolítico, dominado pelo capital, garantidor da hegemonia norte-americana, não restrito ao Oriente Médio. Porém, esta dominação exige, para sua plena realização, a anulação de todos os pactos sociais consolidados, desde o século 18, pelas revoluções americana e francesa. Nesse sentido, os recentes decretos de "combate ao terrorismo", assinados pelo presidente George W. Bush, e ratificados pelo Congresso norte-americano, parecem revogar a era dos direitos civis e humanos, as liberdades individuais e as soberanias que foram, por mais de dois séculos, o apanágio dos liberais.

Notas

1 A respeito, Chossudovsky, Michel. "Pobreza global no final do século 20". Revista PUCviva. São Paulo, 4 (13): 40-48. Julho/Set. 2001.
2 Quijano, Aníbal. "Entre a Guerra Santa e a Cruzada?". Revista PUCviva. São Paulo, 4 (14): 56-67. Out./Dez.2001.
3 As obras do ensaísta americano Noam Chomsky apresentam o real panorama retrospectivo destes massacres no século 20.
4 Gadelha, Regina Maria A. F. "Globalização e crise estrutural". In: Gadelha, R.M.A.F. Org. Globalização, Metropolização e Políticas Neoliberais. São Paulo, EDUC, 1997. págs. 51-3; Idem. Soares, Paulo de Tarso Leite. "Imperialismo e políticas neoliberais". In: Op.Cit. págs. 147-56.
5 LaRouche Jr, Lyndon H. "Chegamos ao fim de uma era de usura financeira. Discurso do pré-candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais dos EUA, dez.1995". Movimento de Solidariedade Ibero-Americana-MSIA. Informe Especial: A globalização destrói as bases do Estado nacional. Rio de Janeiro, set. 1996. p.43; veja-se, ainda, a análise de Chossudovsky, Michel. "Pobreza global ...". Loc.cit. p.42.
6 Galbraith, John K. ‘Entrevista a Enio Carreto'. Il Corriere della Sera. Apud. Folha de São Paulo. 02/11/1997. Caderno 2. p.13.
7 Chesnais, François. Org. La mondialisation financière. Paris, Syros, 1996. pp.260-1.
8 Belluzzo, Luiz Gonzaga. "Elementos para a crise econômica dos Estados Unidos". Princípios. Revista Teórica, Política e de Informação. São Paulo, 63:33-8. Nov./Dez. 2001; também Cano, Wilson. "América Latina: do desenvolvimento ao neoliberalismo". In: Fiori, J. L. Org. Estados e moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis, Vozes, 1999. pp.301.
9 O Presidente provisório da Argentina, Adolfo Rodriguez Saá, reconhece em seu discurso de posse de 23 de dezembro de 2001: "O capitalismo, hoje, não pode dar resposta ao desemprego, à marginalização, à exclusão e à pobreza". Folha de São Paulo, 24/12/2001. O país e a crise, a ser enfrentada, após 9 ‘pacotes' econômicos somente no curto período de governo de Fernando De La Rúa, ostenta os seguintes indicadores: queda anual de 11,6% das atividades industriais e de 10,3% das vendas nos supermercados; taxas de 18,3% de desempregados, com 14 milhões de miseráveis; dívida pública de US$ 153 bilhões; colapso financeiro, com circulação forçada de 11 falsa-moedas internas (9 bônus provinciais e 2 Lecops federais, no valor de US$ 2,85 bilhões, equivalentes a quase 25% do montante de pesos do país).
10 Sobre este aspecto, Chomsky, Noam. Novas e velhas ordens mundiais. São Paulo, Scritta, 1996; Chossudovsky, Michel. "Pobreza global...". Loc.cit.
11 Gadelha, Regina M.A.F. "Impactos da globalização nos projetos das elites nacionais". Anais do II Encontro Nacional de Economia Política. São Paulo, PUC/SP, 27-30/maio/1997. v.2. pp.58-64; o mesmo, mais completo, In: Revista Cultura Vozes. Petrópolis, 92 (92):32-42. 1998.
12 Acreditamos haver concorrido, neste caso, uma infeliz combinação de incompreensão e conivência de frações de dirigentes dos países periféricos e que aceitaram, sem resistência, a adoção do ideário neoliberal, incluindo governos e instituições, partidos e membros de sindicatos, universidades, igrejas e mídias.
13 Sintomático da intencionalidade destas políticas é o balanço do desempenho da economia brasileira no ano 2001, feito pela empresa MB Associados, do ex-ministro José Roberto Mendonça de Barros, para a revista República - Primeira Leitura, Dezembro 2001, seção ‘Bolsa de Futuros', pp. 18-27, e que pertence ao mesmo grupo.
14 Sartori informa que a Al Qaeda chegou a reunir 30.000 homens ao longo da última década. Cf. Sartori, Armando. "O ‘grande satã' contra a sua criatura'. Reportagem. Revista Oficina de Informações. São Paulo, 3 (25):27-34. Out.2001.
15 Ibidem. Ibidem. p.28.

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