As ONGs na conjuntura de psicose da guerra
James Petras
Os ataques de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, e os seus desdobramentos, definem a nova conjuntura dos movimentos sociais e das organizações não-governamentais (ONGs). O contexto global antes do 11 de Setembro é importante para entender a reação de Washington depois do ataque, e os efeitos que ambos têm nas perspectivas e o papel que as ONGs podem desempenhar na política internacional.
Antes do 11 de Setembro, a posição internacional de Washington mostrava claros indícios de enfraquecimento. Os movimentos de massa contra a globalização, de Seattle a Gênova, estavam criando grandes obstáculos à "agenda do livre mercado". A rejeição por parte de Washington do Protocolo de Kyoto sobre o aquecimento global, seu repúdio ao Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM) e a sua decisão de não assinar a Convenção sobre as Armas Biológicas e Tóxicas isolaram Washington da comunidade internacional. No Oriente Médio, o Iraque estava conseguindo superar as conseqüências do boicote imposto pelos Estados Unidos, tornando-se um membro ativo da Opep, e aumentando seus contatos com os vizinhos árabes. O Irã tem relações econômicas com o Japão, a Rússia, a União Européia e com a maior parte dos países contrários ao boicote americano. Na América Latina, movimentos sociais formidáveis na Colômbia, Brasil, Argentina e Equador desafiavam o modelo neoliberal. O aprofundamento da recessão nos EUA e na Europa afetou profundamente o "modelo exportador" no México, na América Central e no resto da América Latina e da Ásia. Além do que, a recessão nos EUA estava provocando perda de postos de trabalho em massa e muitas falências, causando maior volatilidade da Bolsa, já sacudida pelo colapso da bolha especulativa no setor de tecnologia da informação.
Em resumo, antes do 11 de Setembro, a hegemonia global dos Estados Unidos se deteriorava, os alicerces internos enfraqueciam, o descontentamento aumentava.
Depois do 11 de Setembro
O período imediatamente após o trauma do 11 de Setembro foi, em nível de governo, um esforço negociado para mobilizar o mundo com base no discurso da guerra. A declaração do presidente George W. Bush foi: "Os países têm de escolher, se estão com a gente ou com os terroristas". O efeito desse discurso foi a mobilização de aliados previsíveis como Tony Blair, da Inglaterra, Aznar, da Espanha, e Berlusconi, da Itália. Outros países da Otan se uniriam à "aliança" com alguma hesitação. Enquanto a maior parte do resto do mundo condenou o ataque terrorista e expressou solidariedade às vítimas, poucos países estavam dispostos a unir-se a uma campanha militar global de resultado imprevisível, contra terroristas pouco definidos, e contra nações que supostamente servem de refúgios para terroristas. Washington só conseguiu um mínimo de cooperação por parte do Oriente Médio e da Ásia Central quando, taticamente, especificou uma série de objetivos restritos a Osama Bin Laden e ao Taleban. Porém, Washington tem uma agenda mais extensa - a guerra contra os fornecedores principais de petróleo à Europa e ao Japão - o Iraque e o Irã.
O objetivo fundamental da campanha antiterrorista mundial do presidente W. Bush é de reverter o declínio da hegemonia global dos EUA. Pretende forçar a Europa a se submeter à liderança norte-americana, conseguir a obediência total dos governantes árabes no Oriente Médio, e incentivar os seus países clientes na Ásia e na América Latina a aumentarem seu poder de repressão à oposição política ao modelo neoliberal e à hegemonia dos EUA.
George W. Bush procura recriar a nova ordem mundial que Bush (o pai) tratou de construir depois da Guerra do Golfo, mas que se deteriorou em seguida. Depois da emergência da Guerra do Golfo, os interesses da Europa e do Japão entraram em choque com a hegemonia dos Estados Unidos, como também provocou o surgimento de movimentos sociais no Norte e no Sul. É provável que, uma vez diminuída a psicose inicial da guerra, as divisões e rivalidades reapareçam com uma virulência ainda maior que a do início dos anos 90. A extensão da guerra, mais além do Afeganistão, a recessão mundial, e a tentativa de Washington de tirar vantagens econômicas do seu papel de liderança na coalizão da guerra podem facilmente provocar divisões.
Mesmo assim, a curto prazo, a mobilização para a guerra envolve uma ofensiva sociopolítica mundial, na tentativa de reverter os avanços feitos pelos movimentos no fim dos anos 90. Essa ofensiva tem várias características comuns:
n Ampliar a legislação repressiva, limitar as liberdades democráticas e aumentar os poderes da polícia.
n Tentar reverter a recessão via "keynesianismo militar", com gastos militares maiores e subsídios de bilhões de dólares para os setores "atingidos de modo adverso" (aviação civil, turismo, etc.).
n Restaurar a hegemonia dos EUA por meio do domínio militar, e o fortalecimento dos regimes afinados com a política norte-americana.
n Voltar a atenção mundial para o terrorismo internacional, visando desviar a atenção dos males causados pelas empresas transnacionais, e calar os movimentos antiglobalização.
n Reverter a tendência ao isolamento dos EUA, provocado pela sua rejeição unilateral dos acordos internacionais sobre a paz e o meio ambiente: Acordo do Kyoto sobre gases de efeito estufa; Tratado sobre Mísseis Antibalísticos; protocolo proibindo a utilização de armas biológicas; resolução sobre um tribunal internacional dos direitos humanos; protocolo contra a utilização das minas terrestres.
A aliança antiterrorista fortalece a liderança global dos EUA, uma vez que o poder de decisão está investido exclusivamente em Washington. A "aliança" não tem influência sobre as táticas e a estratégia, e mesmo a Otan está excluída de qualquer influência operacional. Com efeito, a aliança antiterrorista é uma outra manifestação da ação de Estado unilateral. A utilização imperial do antiterrorismo vai muito mais além do Afeganistão.A expressão como é aplicada por Washington é interpretada tão vagamente que dá margem de manobra para aplicá-la contra qualquer país onde existam movimentos de resistência e de transformação social, e contra quem apoie esses movimentos, inclusive as ONGs.
O coordenador para Terrorismo do Departamento de Estado, Francis Taylor, disse: "O meu Departamento está trabalhando junto com diversas agências governamentais para formular uma estratégia antiterrorista para a Colômbia e outros países andinos. Essa estratégia está planejada para complementar o Plano Colômbia... e a Iniciativa Regional Andina". Taylor declarou ainda que: "Hoje, o grupo terrorista mais perigoso nesse hemisfério são as Farc's". O Departamento de Estado caracterizou a segunda parte da sua estratégia antiterrorista (a primeira é o Oriente Médio) de "uma ofensiva contra o terrorismo nas Américas". O Congresso dos Estados Unidos aprovou um orçamento de US$ 730 milhões adicionais para "a guerra contra o terrorismo... nessa região".
Atualmente, o imperialismo está firmemente ancorado no Estado - o Estado imperial, que intervém na econômica mundial e nacional para subvencionar, promover e proteger as suas empresas transnacionais, e organizar ataques militares para destruir contestações aos seus domínios. Mais do que nunca, o Estado imperial é o centro do Império e a força que impulsiona a expansão do capital multinacional.
Atuando em sincronia, o Estado imperial e as empresas transnacionais têm polarizado o mundo por linhas regionais, nacionais, raciais, de gênero e de classe. A ideologia imperialista, por seu lado, procura esconder essa divisão pela polarização do mundo entre a democracia (Império) e o terrorismo, para consolidar o seu poder imperial. Essa polarização também afetou as ONGs.
A polarização das ONGs
A década passada assistiu a uma proliferação de dezenas de milhares de ONGs, refletindo uma variedade de perspectivas políticas e sociais, fontes de financiamento e orientações políticas. A maioria das ONGs, inclusive as "mais ricas", colabora abertamente com os Estados euro-americanos e os regimes neoliberais locais, trabalhando ativamente contra a propriedade pública/social. Entretanto, em anos recentes, um número crescente de ONGs tem exercido um papel ativo nos movimentos contra a globalização, o racismo e a guerra, de Seattle à África do Sul.
O fato mais significativo no mundo das ONGs é a polarização ou a tripolarização delas. Simplificando, as ONGs podem ser divididas em três grupos que tendem a coincidir com os níveis dos financiamentos recebidos.
1) ONGs que promovem ativamente o neoliberalismo. São "subcontratadas" para debilitar as instituições de assistência social nacional. Recebem grandes somas de dinheiro do Banco Mundial, da Usaid e outras agências de financiamento nacionais e internacionais.
2) ONGs reformistas, que recebem financiamento médio de fundações privadas social-democratas e governos progressistas locais ou regionais para financiar projetos de melhorias, visando a correção dos excessos do mercado livre. Os reformistas procuram "reformar" a OMC, o FMI e o Banco Mundial, e regular o movimento de capitais.
3) ONGs radicais, que estão envolvidas com movimentos de solidariedade e contra a globalização, o racismo e a discriminação de gênero. Entre essas ONGs, há diferenças táticas (desobediência civil, ação direta), objetivos (anticapitalistas, anticorporações, anticapital especulativo) e alternativas (comunitárias, ecológicas, socialistas, autogestionárias).
A polarização das ONGs se revelam nas suas respostas a grandes eventos, como a Conferência de Durban. As ONGs radicais denunciaram o Estado de Israel de racista, enquanto as reformistas tentaram se opor ao racismo sem mencionar o Estado de Israel. As ONGs neoliberais apoiaram Washington ou se calaram.
A segunda área de diferenciação aparece durante as grandes manifestações, de Seattle a Gênova. As ONGs radicais querem a abolição do FMI e do Banco Mundial. Os reformistas se limitam a pedir maior regulamentação do capital especulativo (Taxa Tobin), o perdão da dívida, uma resposta mais decidida para combater a pobreza, e reformas internas para tornar o FMI e o Banco Mundial mais "sensíveis" ao bem-estar popular e ao meio ambiente.
A terceira área de diferenciação é entre as ONGs (neoliberais e reformistas) que procuram colaborar com instituições imperiais (globais) e aquelas que colaboram com os movimentos populares. Os "institucionalistas" acreditam que há "divisões" entre as instituições, e na sua capacidade de "pensar" com banqueiros e funcionários para mostrar como os interesses das grandes empresas e as reformas do meio ambiente e de assistência social são compatíveis com lucros e estabilidade.
As ONGs radicais, de orientação popular, acreditam que mudanças básicas e estruturais de baixo para cima (redistribuição do poder, da propriedade e da renda) são necessárias para conseguir um desenvolvimento sustentável e a justiça social.
Até agora, as lições são claras: as ONGs neoliberais só conseguiram cooptar líderes locais, enquanto o modelo econômico neoliberal entra em colapso e crise, aumentando o número dos pobres e excluídos. As ONGs reformistas e radicais têm crescido e as suas ações têm se multiplicado. O movimento antiglobalização tem crescido, enquanto as tensões dentro do movimento também têm aumentado. Frente à crescente polarização e ao aprofundamento da crise econômica internacional, as ONGs reformistas estão perdendo terreno como interlocutoras, na medida em que os poderes imperiais de Bruxelas e Washington empreendem a guerra contra o Terceiro Mundo e atacam as condições de vida no Norte.
ONGs: repensando as políticas e as estruturas
Diante do aprofundamento da polarização entre o Império e os movimentos populares, Norte e Sul, as ONGs devem repensar a sua organização interna, sua relação com os movimentos de massa e suas políticas de financiamento. A maioria das ONGs reformistas e radicais são organizações de quadros, compostas de funcionários profissionais e de voluntários que "mobilizam pessoas". Embora muitas das causas apoiadas por elas sejam justas, as estruturas são elitistas. Hoje em dia, os movimentos mais promissores e dinâmicos - o movimento dos desempregados na Argentina, o MST no Brasil, os cocaleros da Bolívia, os zapatistas do México - são baseados em assembléias populares e na consulta, na democracia direta. Há uma contradição em estilo e substância entre os movimentos e as ONGs, em termos de suas concepções de luta e de organização. Para resolver essa contradição, que tem conseqüências táticas e estratégicas importantes, as ONGs devem democratizar as suas estruturas, e assumir formas de organização compatíveis com os seus parceiros do movimento popular.
Em grande parte, as estruturas e as orientações das ONGs são definidas pelas suas fontes de financiamento. Quanto mais dependentes do apoio financeiro institucional, em vez de contribuições voluntárias, mais conservam uma estrutura hierárquica. Quanto mais enraizadas nos movimentos populares, mais dependem de contribuições voluntárias. O financiamento institucional coloca limites na agenda política, nas reivindicações sociais e na atividade tática das ONGs. A dependência de contribuições voluntárias significa maior compromisso com o povo em luta, uma maior sensibilidade às suas reivindicações, além de uma educação política maior.
A segunda área, em que a polarização global coloca a necessidade de as ONGs repensar a sua atividade, tem a ver com as suas estratégias. No passado, as ONGs progressistas (radicais e reformistas) concentraram a sua atenção nos microprojetos (na América Central e outros lugares) e, mais recentemente, em mobilizações antiglobalização. Os "microprojetos" conseguiram melhorias em algumas comunidades, mas não foram capazes de reverter o assalto neoliberal ao padrão de vida da população e o controle local da riqueza nacional empreendido pelo capital estrangeiro e local. A mudança no sentido de participar em atividades contra a globalização foi um passo adiante, na medida em que as ONGs progressistas acabaram reconhecendo algumas das maiores forças político-econômicas que estão atacando os pobres. Entretanto, vários problemas novos surgiram: a ideologia antiglobalização ocultou a importância central dos Estados imperialistas e o seu esforço para conseguir a dominação mundial, exagerando a autonomia do FMI, do Banco Mundial e das corporações transnacionais. Segundo, as atividades antiglobalização enfocaram principalmente os eventos ocasionais e dramáticos (Gênova, Davos, Melbourne, Praga), em detrimento das atividades do dia-a-dia da organização e das lutas. A questão não é eliminar os confrontos internacionais, mas combinar com as lutas de massa regionais e nacionais contra as demissões, o desemprego, a intensificação da exploração, etc.
A terceira área em que as ONGs devem "repensar" a sua atuação envolve o financiamento, os seus patrocinadores e a colaboração com empresas privadas, instituições internacionais e governos. Tem havido um debate longo com as ONGs sobre essas questões. Os debates têm enfocado os custos e os benefícios em aceitar a ajuda financeira e o patrocínio desta ou daquela instituição. Muitas ONGs questionam se os compromissos com programas e atividades valem as contribuições financeiras e o patrocínio "legítimo" que recebem em troca. Alguns líderes de ONGs são especialistas na ambigüidade de apresentar uma imagem moderada, assegurando financiamentos substanciais para trabalhos de solidariedade militante. De qualquer maneira, a história mostra que, a longo prazo, a associação em grande escala com as estruturas do poder corrompe os líderes das ONGs, e converte as ONGs em acessórios do projeto neoliberal.
A análise dos custos e benefícios é um processo estreito demais para avaliar o financiamento e as alianças das ONGs, porque não leva em conta a estrutura de poder e a trajetória histórica. Acordos táticos implicam a subordinação estratégica quando se sacrificam os princípios para manter uma burocracia e uma infra-estrutura crescente e cara. O que fazer? A questão fundamental é o compromisso de classe, um programa profundamente enraizado em princípios, uma ideologia clara e a transição de uma organização de "quadros" em um movimento social que se envolve nas lutas de solidariedade internacional e nas lutas de massas locais.
Tanto o presidente George W. Bush quanto Bin Laden procuram polarizar o mundo. Um entre a guerra e o terrorismo, o outro entre o império e a religião Islã. A tarefa das ONGs é rejeitar essa polarização e desenvolver alternativas ao império e ao fundamentalismo. Essas alternativas devem afirmar a autodeterminação dos povos e a importância de ter Estados seculares com programas abrangentes de assistência social para todos.
Antes de 7 de outubro de 2001, quando Washington lançou a sua guerra aérea contra o Afeganistão, as ONGs progressistas (reformistas e radicais) se defrontavam com a polarização socioeconômico e política entre o Império euro-americano e o Terceiro Mundo. Atualmente, essa polarização inclui a guerra do Império contra o Terceiro Mundo. A primeira fase, de acordo com o regime de W. Bush, vai concentrar no Afeganistão. Será seguida por novas guerras, num futuro próximo, contra outros países do Terceiro Mundo. A guerra contra o Afeganistão faz parte de uma ofensiva de longo prazo que tem o objetivo de ajudar os Estados Unidos a recuperar a hegemonia global: o império está envolvido na tática do salame: cortando em fatias cada regime independente que não aceita a subordinação à aliança euro-americana.
Uma dos feitos mais retumbantes do Império foi a sua vitória ideológica sobre setores das ONGs progressistas e de esquerda, quando estas apoiaram os bombardeios e a invasão da Iugoslávia pela Otan, os terroristas do KLA em Kosovo, os fundamentalistas da Bósnia e a invasão (dirigida pela KLA) da Macedônia. Em cada momento, o Império manipulou os símbolos democráticos (direitos das minorias) e a retórica humanitária para expandir a sua esfera de influência. Muitas ONGs se tornaram ferramentas do império, recebendo milhões de dólares em troca de serviços pró-imperalistas e humanitárias. A lógica imperial da guerra no Iraque, na Iugoslávia, no Afeganistão, no Oriente Médio, nos Bálcãs e no Sul da Ásia tem resultado em nova colonização: dois terços do espaço aéreo do Iraque e um terço do país estão colonizados; há bases militares da Otan no Kosovo ocupado, na Bósnia e na Macedônia. Está sendo montado um regime fantoche no Afeganistão. Estão sendo preparadas novas guerras no Oriente Médio e mais além, incorporando-as em uma definição abstrata da guerra contra o terrorismo. São dirigidas ameaças militares contra os países que recusam a se subordinar à lógica militar do Império (recusam a se unir à Aliança). Os marines substituem os funcionários do FMI como emissários dos conquistadores. Em épocas de crise econômica, as classes dominantes desviam a raiva e o descontentamento popular internos contra inimigos externos; os movimentos populares e as ONGs progressistas devem se opor às guerras imperialistas e combater os opressores internos. As ONGs devem conectar a luta contra a globalização à luta contra a guerra e a recessão.
O movimento tem cinco pernas
O desafio enfrentado pelas ONGs é a construção de movimentos capazes de elaborar alternativas a cinco problemas interligados: (1) a guerra e o terrorismo; (2) a militarização e a repressão; (3) o aprofundamento da recessão econômica e a crise global dos mercados; (4) o colapso das estratégias de exportação e a vulnerabilidade dos regimes neoliberais; e (5) o desemprego massivo e a expansão da pobreza no Norte e no Sul.
Atualmente, as guerras imperialistas são "guerras totais" em que os civis e a infra-estrutura elementar para a sobrevivência de um a população (água, eletricidade, alimentação, etc.) são objetos da destruição militar. A guerra total contém as sementes do genocídio; povos inteiros, como no Afeganistão, fogem da destruição em massa e enfrentam a morte iminente por inanição; o número de mortes causadas pela guerra no Afeganistão ultrapassa aquele de Nova York e de Washington em proporções geométricas. No Congresso e nos Parlamentos, apressa-se legislação de caráter policial e antidemocrático, sem debate. Essas novas leis revogam direitos democráticos básicos em nome da segurança, e fortalecem os poderes repressivos que o Estado precisa para limitar a oposição popular democrática.
A guerra e a repressão substituem as reformas socioeconômicas como respostas à crise econômica. Os patrões e as transnacionais aproveitam da psicose de guerra para demitir milhões de trabalhadores, recrutar temporários, intensificar a exploração e pedir subvenções exorbitantes ao Estado.
A crise no Norte significa a catástrofe no Sul. As infames "estratégias de exportação" neoliberais, notórias no Terceiro Mundo, entram em colapso com o declínio dos mercados da Europa e da América. Ajustamentos estruturais suplementares provocam grandes confrontos; os produtos básicos importados são caros demais; as dívidas não podem ser pagas, os setores de exportação vão à bancarrota, o Estado neoliberal não tem recursos: a vulnerabilidade está em toda parte e não se encontram soluções capitalistas. Entretanto, gastos de guerra, subvenções para evitar falências das transnacionais e a diminuição dos mercados provocam um aumento do desemprego nos Estados Unidos e na Europa.
É uma época de aprofundamento de problemas, mas também de grandes desafios e oportunidades de colocar questões básicas e alternativas radicais.
Perspectivas e estratégias de curto e médio prazo
No curto prazo, enfrentamos uma ofensiva da direita, liderada pela aliança bélica euro-americana e respaldada por poderosas empresas transnacionais e forças policiais e militares. Essa ofensiva, que usa os meios de comunicação de massa, os quais têm abertamente aceitado o papel de porta-voz da Aliança, tem conseguido o apoio temporário ou a passividade da maioria da população da América do Norte e da Europa, mas não do Oriente Médio e muitas outras áreas do Terceiro Mundo.
Hoje em dia, particularmente nos Estados Unidos e na União Européia, há uma psicose de guerra manipulada pelo Estado e ampliada e transmitida pelos meios de comunicação de massa. No curto prazo, isso tem criado a supremacia de uma unanimidade irracional em que setores da opinião pública acreditam que a dissidência ou a crítica à guerra é uma forma de "colaboração" com o terrorismo. Nos Estados Unidos, o Estado tem instruído os diretores da mídia a não publicar ou anunciar os discursos do Bin Laden ou do Taleban sem identificá-los como propaganda terrorista. Provavelmente, não houve necessidade da intervenção direta do Estado tendo em vista a autocensura da mídia e o seu apoio total à guerra.
Nesse contexto, movimentos populares e ONGs progressistas têm um papel educativo essencial de contrapor-se à propaganda do Estado e dos seus expoentes intelectuais na mídia. É por meio da crítica sistemática da propaganda bélica e de suas distorções que a opinião pública informada, especialmente as classes populares, pode se mobilizar contra a guerra e as injustiças e inseguranças que a acompanham.
A educação política pode seguir quatro linhas de contra-ataque. Primeiro, pode enfatizar as inconsistências e as contradições da propaganda da guerra, por exemplo, a idéia de que se trata de uma guerra humanitária, quando os bombardeios estão criando milhões de refugiados que enfrentam a fome e a sede, e destruindo as infra-estruturas básicas (eletricidade, água, alimentação, transporte, etc.). A idéia de que a violência do Estado vai desenraizar o terrorismo em vez de multiplicá-lo, aprofundar o ódio e resultar na retaliação violenta. Ao contrário, a guerra vai criar uma espiral de violência e a lógica das guerras prolongadas e ampliadas multiplicará os ataques contra os civis dos Estados Unidos e da União Européia.
O conflito só pode ser minimizado, e os níveis de violência reduzidos, se houver mudanças nas políticas que alimentam as fontes de descontentamento no Oriente Médio (Palestina, Iraque, etc.) e nos Estados do Golfo.
Segundo, a educação política precisa expor como as forças reacionárias sociais do Estado e da estrutura de classes estão aproveitando da "crise de guerra" que elas mesmas criaram para avançar seus interesses à custa da maioria dos trabalhadores. Igual a outras guerras anteriores, essa é uma guerra em que muitos se sacrificam enquanto poucos se beneficiam. Já nos Estados Unidos, os gastos sociais estão sendo reduzidos e os gastos militares estão se elevando. As empresas transnacionais estão despedindo milhões de trabalhadores e recebendo subvenções enormes para compensar os chamados "danos de guerra", enquanto se nega o salário-desemprego aos trabalhadores. O Estado manipula a situação, convocando à "unidade nacional" para esconder as divisões de classe e as injustiças, e ocultar quem está se beneficiando e quem está perdendo com a "guerra contra o terrorismo". Uma cena habitual nos Estados Unidos é a seguinte: os trabalhadores, demitidos, dirigindo seus carros com a bandeira dos EUA desfraldada das antenas, enquanto os dirigentes das empresas negociam novas subvenções estatais com os funcionários governamentais. O ponto central é que a crise econômica precedeu o conflito, e a guerra deu às empresas um pretexto "legítimo" de iniciar uma reestruturação massiva, visando abaixar seus custos e aumentar seus lucros. Se o movimento consegue mostrar a relação entre as perdas socioeconômicas e a guerra, é possível atingir milhões de trabalhadores com um programa de paz e justiça social.
A terceira linha de educação política pode enfocar as divisões reais e latentes na aliança da guerra. A intenção de Washington de ampliar a guerra para incluir o Iraque, Irã, Síria, etc. pode ser particularmente explosiva. A fonte principal do petróleo da União Européia é o Oriente Médio. Novas guerras levarão a uma redução catastrófica no fornecimento do petróleo e um aumento geométrico no preço, que poderia provocar uma grande depressão. Igualmente, os clientes dos Estados Unidos, particularmente a Arábia Saudita, Egito, Paquistão, e outras partes, sofrem enormes pressões populares. Se os Estados Unidos procuram empurrá-los a apoiar a guerra no Afeganistão ou uma guerra mais ampla em países vizinhos, isso poderia provocar rebeliões nacionais. Na realidade, a guerra contra o Afeganistão já restringiu o apoio aos Estados Unidos em comparação ao amplo apoio manifestado pelas vítimas de Nova York e Washington.
Quarto, muitas pessoas no mundo inteiro rejeitam a visão dicotômica do mundo que Bush e Osama Bin Laden têm ("Ou você está conosco - e a guerra - ou você está contra nós"). A maioria dos "moderados" quer ver o fim dos bombardeios e a entrada da ajuda humanitária para alimentar os milhões de afegões famintos e refugiados.
Muitas pessoas acreditavam que os Estados Unidos e a União Européia deviam aceitar a oferta do Taleban de negociar, e que devem ser apresentadas as provas do envolvimento de Bin Laden nos atos terroristas. O fato fundamental é que a maior parte da evidência colhida sobre as pessoas suspeitas não levam nem a Bin Laden nem a Al Qaeda. A maioria era de classe média, não-fundamentalistas, sete estudaram no Ocidente (Hamburgo) e cinco foram treinados em bases militares dos Estados Unidos. Não há provas de que foram treinados no Paquistão ou na Afeganistão ou doutrinados pelas mulás desses dois países. Essas questões precisam ser divulgadas amplamente porque elas mostram as contradições na ideologia usada para justificar a guerra.
Ativismo: envolver o público
Há três possíveis linhas de ação política nessa conjuntura. Primeiro: uma "abordagem indireta" que mobiliza as comunidades, sindicalistas e bairros contra as conseqüências socioeconômicas do aprofundamento da recessão econômica (demissões e desemprego) e os benefícios obtidos pela elite com a "crise da guerra" em nível nacional e internacional. A decisão das empresas transnacionais de despedir trabalhadores devido às "condições do mercado mundial" é um argumento poderoso contra as chamadas estratégias de crescimento pela exportação e dos argumentos da globalização. Para desenvolver as atividades do movimento nessa conjuntura, é importante ligar os problemas sociais locais à globalização e à guerra.
Segundo, as atividades devem enfocar o elo mais fraco na chamada Aliança da Guerra: a violência do Estado de Israel e o desalojamento dos palestinos. Fora dos Estados Unidos, a maioria dos comentaristas reconhece que a guerra do Estado de Israel contra os palestinos é o detonador da crise atual. As políticas de genocídio do regime ultradireitista de Sharon têm unido o mundo árabe e a maior parte da opinião pública na Europa, e mesmo setores da opinião pública nos Estados Unidos, que não fazem parte do lobby judeu em favor do Estado de Israel. Mesmo o presidente Bush e o secretário de Estado, Powell, têm se referido da boca para fora à criação de um Estado palestino. Um enfoque sobre a intransigência israelense pode polarizar a opinião pública contra a guerra, e se tornar um ponto de partida para reativar o movimento contra a globalização.
O terceiro setor possível de atividades está relacionado aos desastres humanitários provocados pelas guerras no Afeganistão, Iraque e Colômbia. De acordo com as Nações Unidas, sete milhões de afegãos estão ameaçados pela morte devido à fome provocada pela guerra, o que é comparável ao holocausto. A ajuda humanitária só pode ser transportada ao local se os bombardeios anglo-americanos terminarem. Essa questão poderia motivar milhões de pessoas a pedir o cessar, pelo menos temporário, dos bombardeios. A "guerra contra o terror" já se transformou numa escalada de guerra contra as forças populares rebeldes na América Latina. O chefe do Departamento Antidrogas dos EUA (DEA) no México declarou que o EZLN é uma organização terrorista. Um porta-voz do Departamento de Estado anunciou um aumento de US$ 700 milhões e pessoal militar adicional para lutar contra o "terrorismo das Farc's". O número de vítimas dessas novas guerras é grotesco: entre 1 e 15 de outubro, os paramilitares apoiados pelos militares colombianos assassinaram 150 camponeses e trabalhadores e não pararam por aí. Isso fornece uma ilustração gráfica do terrorismo de Estado.
Um tribunal internacional sobre a catástrofe humanitária no Afeganistão, liderado por personalidades internacionais, poderia concentrar a atenção do mundo e mostrar à opinião pública o verdadeiro significado da guerra. Em resumo, as ONGs progressistas devem ligar suas estratégias contra a globalização e a crise econômica interna que está se aprofundando. Devem desenvolver alternativas programáticas baseadas na socialização da produção, a redistribuição da renda e o desenvolvimento do mercado interno baseado no aumento dos gastos sociais. As ONGs devem conectar seu apoio para a ajuda humanitária com o movimento que luta contra a guerra e as conseqüências econômicas catastróficas para a Europa, caso a guerra se estenda a outros países do Oriente Médio e do Golfo. As alianças internacionais baseadas na crise internacional requerem a construção de organizações de base em cada bairro, municipalidade e região. As ONGs devem aprender as lições dadas pelos movimentos de ação direta como o MST no Brasil e os desempregados da Argentina, que utilizam piquetes não-violentos nas estradas e pressões estratégicas sobre a produção e a distribuição.
Conclusão
Está claro que uma ofensiva da direita está em curso em escala mundial: medidas chamadas de "segurança" estão fortalecendo os poderes arbitrários do Estado à custa das liberdades individuais e dos direitos sociais coletivos. Também está claro que está surgindo um movimento de resistência, particularmente nos países muçulmanos. Há também um movimento considerável na Europa (Itália, Inglaterra, França). O próprio extremismo da estratégia de guerra total de Bush está tendo um efeito bumerangue: o prolongamento da guerra e a elevação do número de mortos ou feridos estão aumentando a quantidade de vozes dos grupos humanitários, de direitos humanos e dos cidadãos dos países muçulmanos. A ofensiva da direita pode ser combatida. Na medida em que o temor e a insegurança se multiplicam, em que a guerra corrói a economia e o número de pessoas atingidas aumenta, as massas afetadas pela crise nas economias domésticas da União Européia, e mesmo dos Estados Unidos, podem potencialmente ser recrutadas pelos movimentos sociais. A aliança internacional da guerra pode provocar a formação de uma contra-aliança em favor da paz e contra o militarismo. Leis repressivas podem alimentar a sensibilidade democrática: o autoritarismo cria movimentos pró-democracia.
A polarização e as alternativas compulsivas - "guerra ou terrorismo" - podem ter resultados inesperados, isolando os proponentes devido ao extremismo de suas propostas. Os movimentos devem redefinir as polaridades: a globalização e a guerra ou a democracia, a autodeterminação, a ajuda humanitária às vítimas da guerra, e trabalho para os desempregados. A vasta maioria das pessoas recusa a escolha entre as guerras imperialistas e o terror dos fundamentalistas. A maioria escolheria viver em países seculares e pacíficos em que as pessoas são livres para escolher o sistema social que melhor satisfaz as suas necessidades. Atualmente, a ameaça maior à humanidade é o unilateralismo - a decisão do Washington de iniciar uma guerra, bombardear um país até que volte para a Idade da Pedra, rejeitar o Protocolo de Kyoto, rejeitar os controles sobre mísseis, rejeitar a abolição das minas terrestres, rejeitar as cortes internacionais de justiça e as decisões das Nações Unidas que exigem que Israel se retire dos territórios ocupados. Hoje em dia, o unilateralismo equivale ao militarismo. Frente à crise econômica mundial e à concorrência mais acirrada, o unilateralismo implica a intensificação da luta para expandir o controle sobre recursos e mercados vitais, utilizando-se de métodos não-econômicos.
O unilateralismo subverte qualquer pretensão de construir alianças duráveis. O militarismo aliena aqueles que pagam o custo da guerra - a maioria da raça humana. O unilateralismo acaba empurrando aliados para a oposição; as crises econômicas provocam uma reavaliação das prioridades, modelos, mercados e desafiam a ortodoxia neoliberal. Taticamente, é imperativo procurar a aliança mais ampla possível contra o unilateralismo, o militarismo e o neoliberalismo.
A história das duas guerras mundiais, as guerras da Argélia e do Vietnã, nos ensina que a privação, o sacrifício desigual e o custo político e social da guerra enfraquece a unanimidade inicial e acentua a resistência. Ao crescer a oposição de baixo para cima, fissuras horizontais e verticais se aprofundam e desmoronam a arrogância imperial de uma "Nova Ordem Mundial", e abre oportunidades para transformar o mundo, e as eternas esperanças de paz e justiça tornam-se as bases programáticas de novos movimentos sociopolíticos. Para ser parte da solução e não parte do problema, as ONGs progressistas devem distinguir claramente a diferença entre elas e as ONGs milionárias, como Foster Parent Plan, que arrecada US$ 300 milhões a cada ano, a Misereor (US$ 214 milhões), a World Vision (US$ 500 milhões) e a Care (US$ 50 milhões). Essas agências milionárias colaboram com o imperialismo euro-americano. Recebem fundos para enfraquecer os movimentos sociais por meio do "desenvolvimento comunitário" e "familiar" no âmbito da colaboração de classes. Hoje em dia, as fundações das empresas transnacionais, o Banco Mundial e os impérios euro-americanos investem mais de US$ 7 bilhões em ONGs para facilitar a sua tarefa de enfraquecer os movimentos que lutam por um desenvolvimento abrangente e contra o sistema atual. As ONGs progressistas só podem se engajar nas lutas populares de oposição à guerra, e de resistência à globalização, se rejeitam os fundos oferecidos por fontes que condicionam o seu apoio. Todo financiamento oficial está acompanhado por condições que limitam as lutas, o programa, as táticas e a estratégia. Pensar outra coisa é se ludibriar. Se quiserem tornar-se uma força verdadeiramente independente, as ONGs progressistas devem voltar às suas raízes, ganhar a fidelidade do povo, conseguir a auto-sustentação, e viver e trabalhar utilizando doações voluntárias do povo que elas pretendem servir.
Este não é um momento fácil para as ONGs ou para os movimentos populares, mas os tempos mudam, a reação ultrapassa limites. A necessiade leva o povo à luta. Acredito que há um movimento de resistência poderoso que se estende do campo e dos bairros pobres urbanos da América Latina, da Ásia e da África para as ruas, cidades e para os movimentos contra a globalização da Europa e dos Estados Unidos. Devemos agarrar as oportunidades, avançar e rejeitar o chamado da sirene da derrota, da morte, da destruição e da desmoralização.
James Petras é professor emérito de socialogia da Binghamton University
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