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Homenagem - José Joaquim de Carvalho

APROPUC-SP

José Joaquim de Carvalho era um dos diletos sobrinhos de Gutenberg perdidos pelo Brasil, entre papel, réguas, escala de cores, cromos, imagens. Muita imagem, versado em fotografia que era.

Não que em suas veias corresse o sangue germânico, mas é que o gênio alemão deixou muitos descendentes perdidos em meio às páginas de papel e as tintas de impressão de todo o planeta. 
E justamente por isso Joaquim guardava em suas mãos segredos que vêm sendo passados de geração a geração desde a Idade Média. 
Por isso mesmo, em plena era do computador, ele sabia que o bichinho não passava de uma ferramenta. Que era preciso reinventar formas de dignificar o trabalho gráfico. Vai daí a sua preocupação em descobrir novas texturas a partir de objetos inusitados, criar cores imprevisíveis, moldar espaços impossíveis entre a margem do papel e o limite do olhar. 
Sempre observando e analisando as novas tendências da arte visual moderna, com seu olhar apurado, seletivo, crítico. Trazia essa bagagem cultural para o seu trabalho de criação no movimento sindical, tendo como base o Sindicato dos Químicos, onde trabalhou por muitos anos. Ali, foi responsável por muitas realizações visuais que ficaram no anonimato por decisão sua. Por exemplo, o slogan "Não fique só. Fique sócio." 
Joaquim vinha fazendo as capas da revista PUCviva, interpretando graficamente com maestria temas tão áridos quanto apaixonantes.
Como tantos outros, na década de 70, militava contra a ditadura e deixou sua marca em alguns trabalhos na publicidade e na imprensa alternativa, num momento em que as Artes Gráficas tinham o papel de mostrar ao leitor, com seus traços preto e branco e sua textura de chumbo, aquilo que a censura encobria nos textos. 
Por isso era que Joaquim pertencia a um outro tempo. O tempo da delicadeza, como poetou Chico Buarque. O tempo da loucura criativa, como profetizava Sergio Sampaio. O tempo da inventividade sem limites, como vaticinava Johann Gutenberg.
Talvez por isso mesmo Joaquim nos abandonou tão cedo, numa madrugada de novembro, aos 49 anos, deixando no nosso jornalismo gráfico um "branco" que dificilmente será preenchido de conteúdo tão cedo. Sua obstinação em não fazer concessões profissionais e a tendência em flutuar nos sonhos o deixou fora do mercado de trabalho por algum tempo, mas nunca deixou de ser coerente com os seus princípios éticos e filosóficos.

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