O lugar da escola na pedagogia do MST
Seguem dois textos do Coletivo Nacional do Setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ambos são orientadores atuais do trabalho pedagógico do MST, e o que existe de mais amplo e denso quando pensamos em educação alternativa e de massa, nos dias de hoje,o que para os sem-terra "inclui a luta pelo direito à escola pública, da educação infantil à Universidade".
Introdução
Esta exposição é sobre o lugar da escola no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Algumas informações gerais sobre o MST, que completou 17 anos nesta entrada dos anos 2000.
q Objetivos do MST: lutar pela terra para os trabalhadores sem-terra; lutar pela Reforma Agrária e por um projeto popular de País.
q Nos seus 17 anos contabiliza: aproximadamente 250 mil famílias assentadas e 85 mil famílias acampadas... áreas conquistadas do latifúndio que se transformaram em lugares de vida e de trabalho para muitas famílias...; são 81 cooperativas de Sem-Terra, 45 unidades agroindustriais; diminuição da fome e dos índices de mortalidade infantil... luta incansável para devolver a humanidade roubada deste povo; dignidade.
q Mais de 150 mil crianças e adolescentes estudando em escolas conquistadas na luta pela Reforma Agrária; criação de cirandas infantis no campo; um movimento de alfabetização de jovens e adultos, que envolve hoje em torno de 20 mil educandos em todo o Brasil...
q Também registra em sua história a perda de muitas vidas: seja no dia a dia da violência do latifúndio, seja nos massacres mundialmente divulgados, como foi o caso dos 19 mortos em Eldorado dos Carajás, em 17 de abril de 1996. Este caso, mesmo com toda a repercussão, continua impune até hoje...
O MST e a escola
1. Como a escola entra na dinâmica de um movimento social de luta pela terra?
q Quase ao mesmo tempo em que começaram a lutar pela terra, os sem-terra do MST também começaram a lutar por escolas e, sobretudo, para cultivar em si mesmos o valor do estudo e do próprio direito de lutar pelo seu acesso a ele. No começo não havia muita relação de uma luta com a outra, mas aos poucos a luta pelo direito à escola passou a fazer parte da organização social de massas de luta pela Reforma Agrária, em que se transformou o Movimento dos Sem-Terra.
A trajetória do que pode ser chamado de ocupação da escola pelo movimento social tem os seguintes momentos: mobilização das famílias sem terra pelo direito à escola (luta pela terra feita em família acelerou a consciência de lutar também por este direito); o MST, como organização social das famílias sem terra que o integram, decidiu tomar a si a tarefa de organizar e articular por dentro de sua organicidade esta mobilização (que daí se ampliou e hoje inclui a luta pelo direito à escola pública, da educação infantil à universidade), além de buscar produzir uma proposta pedagógica específica para as escolas conquistadas e se preocupar com a escolha e a formação de seus educadores; a escola passa aos poucos a ter lugar na dinâmica do Movimento, seja porque integra as preocupações cotidianas dos assentamentos e acampamentos, em alguns mais do que em outros, a partir de sua própria trajetória específica, seja também porque agora considerada pelas instâncias da organização como parte da estratégia de luta pela Reforma Agrária e, mais recentemente, luta por um novo modelo de desenvolvimento do País.
2. Qual o lugar da escola na Pedagogia do Movimento dos Sem-Terra?
No começo os sem-terra acreditavam que se organizar para lutar por escola era apenas mais uma de suas lutas por direitos sociais; direitos de que estavam sendo excluídos pela sua própria condição de trabalhador sem (a) terra. Logo foram percebendo que se tratava de algo mais complexo. Primeiro porque havia (como há até hoje) muitas outras famílias trabalhadoras do campo e da cidade que também não tinham acesso a este direito. Segundo, e igualmente grave, se deram conta de que somente teriam lugar na escola se buscassem transformá-la. Foram descobrindo, aos poucos, que as escolas tradicionais não têm lugar para sujeitos como os sem-terra, assim como não costumam ter lugar para outros sujeitos do campo, ou porque sua estrutura formal não permite o seu ingresso, ou porque sua pedagogia desrespeita ou desconhece sua realidade, seus saberes, sua forma de aprender e de ensinar.
Um exemplo simples pode deixar esta situação bem clara. No Rio Grande do Sul temos aprovada desde novembro de 1996 a chamada Escola Itinerante dos Acampamentos, com um tipo de estrutura e proposta pedagógica criada especialmente para acolher as crianças e os adolescentes do povo sem terra em movimento. Temos agora, mas foi preciso uma luta de 17 anos (isto mesmo!) para conseguir o que seria o mais ‘normal', porque justo, e que até já se tornou um direito constitucional: é a escola que deve ajustar-se, em sua forma e conteúdo, aos sujeitos que dela necessitam; é a escola que deve ir ao encontro dos educandos, e não o contrário.
Foi percebendo esta realidade que o MST começou a incluir em sua agenda a discussão de uma proposta diferente de escola; uma escola pela qual efetivamente vale a pena lutar, porque capaz de ajudar no processo maior de luta das famílias sem terra, e do conjunto dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo.
No início a pergunta central parecia ser a seguinte: que escola, ou que modelo pedagógico combina com o jeito dos sem-terra e pode ajudar o MST a atingir seus objetivos? O processo, as práticas e discussões vêm nos mostrando, no entanto, que esta não é a verdadeira questão. Fomos aos poucos descobrindo que não existe um modelo ou um tipo de escola que seja próprio para um grupo ou outro, ou que seja revolucionário em si mesmo. Trata-se é de alterar a postura dos educadores e o jeito de ser da escola como um todo; trata-se de cultivar uma disposição e uma sensibilidade pedagógica de entrar em movimento, abrir-se à pedagogia do movimento social e do movimento da história, porque é isto que permite a uma escola acolher sujeitos como os Sem-Terra, crianças como as Sem-Terrinha. E ao acolhê-los, eles aos poucos a vão transformando e ela a eles. Um mexe com o outro, num movimento pedagógico que mistura identidades, sonhos, pedagogias... E isto só pode fazer muito bem a todos, inclusive aos educadores e às educadoras que assumem esta postura. E também à escola, que ao se fechar e burocratizar em uma estrutura e em um jeito de ser, costuma levar os educadores a esquecer, ou a ignorar, que seu trabalho é, afinal, com seres humanos, que merecem respeito, cuidado, todos eles.
Nesta trajetória de tentar construir uma escola diferente, o que era (e continua sendo) um direito, passou a ser também um dever. Se queremos novas relações de produção no campo, se queremos um País mais justo e com mais dignidade para todos, então também precisamos nos preocupar em transformar instituições históricas como a escola em lugares que ajudem a formar os sujeitos destas transformações. Foi assim que se começou a dizer no MST que se a Reforma Agrária é uma luta de todos, a luta pela educação de todos também é uma luta do MST...
Hoje nas reflexões do MST a escola não é o centro do processo de formação humana, ao mesmo tempo que tem um lugar cada vez mais importante. Ou seja, quando dizemos Pedagogia do Movimento, estamos identificando o jeito e a intencionalidade pedagógica através da qual o MST educa as pessoas que dele fazem parte. E isto é bem maior do que uma escola. Mas descobrimos no caminho que a escola cabe e pode ter um lugar de destaque nesta pedagogia, desde que sintonizada com a intencionalidade pedagógica do próprio Movimento, e de seu projeto histórico.
O aprofundamento destas reflexões pode ser encontrado no livro Caldart, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra, Rio de Janeiro: Vozes, 2000.
Manifesto das educadoras e dos educadores da Reforma Agrária ao povo brasileiro
No Brasil, chegamos a uma encruzilhada histórica. De um lado está o projeto neoliberal, que destrói a Nação e aumenta a exclusão social. De outro lado, há a possibilidade de uma rebeldia organizada e da construção de um novo projeto.
Como parte da classe trabalhadora de nosso País, precisamos tomar uma posição. Por essa razão, nos manifestamos.
1. Somos educadoras e educadores de crianças, jovens e adultos de Acampamentos e Assentamentos de todo o Brasil, e colocamos o nosso trabalho a serviço da luta pela Reforma Agrária e das transformações sociais.
2. Manifestamos nossa profunda indignação diante da miséria e das injustiças que estão destruindo nosso País, e compartilhamos do sonho da construção de um novo projeto de desenvolvimento para o Brasil, um projeto do povo brasileiro.
3. Compreendemos que a educação sozinha não resolve os problemas do povo, mas é um elemento fundamental nos processos de transformação social.
4. Lutamos por justiça social! Na educação isto significa garantir escola pública, gratuita e de qualidade para todos, desde a Educação Infantil até a Universidade.
5. Consideramos que acabar com o analfabetismo, além de um dever do Estado, é uma questão de honra. Por isso nos comprometemos com esse trabalho.
6. Exigimos, como trabalhadoras e trabalhadores da educação, respeito, valorização profissional e condições dignas de trabalho e de formação. Queremos o direito de pensar e de participar das decisões sobre a política educacional.
7. Queremos uma escola que se deixe ocupar pelas questões de nosso tempo, que ajude no fortalecimento das lutas sociais e na solução dos problemas concretos de cada comunidade e do País.
8. Defendemos uma pedagogia que se preocupe com todas as dimensões da pessoa humana e que crie um ambiente educativo baseado na ação e na participação democrática, na dimensão educativa do trabalho, da cultura e da história de nosso povo.
9. Acreditamos numa escola que desperte os sonhos de nossa juventude, que cultive a solidariedade, a esperança, o desejo de aprender e ensinar sempre e de transformar o mundo.
10. Entendemos que para participar da construção desta nova escola, nós, educadoras e educadores, precisamos constituir coletivos pedagógicos, com clareza política, competência técnica, valores humanistas e socialistas.
11. Lutamos por escolas públicas em todos os Acampamentos e Assentamentos de Reforma Agrária do País e defendemos que a gestão pedagógica destas escolas tenha a participação da comunidade Sem-Terra e de sua organização.
12. Trabalhamos por uma identidade própria das escolas do meio rural, com um projeto político-pedagógico que fortaleça novas formas de desenvolvimento no campo, baseadas na justiça social, na cooperação agrícola, no respeito ao meio ambiente e na valorização da cultura camponesa.
13. Renovamos, diante de todos, nosso compromisso político e pedagógico com as causas do povo, em especial com a luta pela Reforma Agrária. Continuaremos mantendo viva a esperança e honrando nossa Pátria, nossos princípios, nosso sonho...
14. Conclamamos todas as pessoas e organizações que têm sonhos e projetos de mudança, para que juntos possamos fazer uma nova educação em nosso País, a educação da nova sociedade que já começamos a construir.
MST - Reforma Agrária: Uma Luta de Todos
1.° Encontro Nacional de Educadoras e Educadores da Reforma Agrária. Homenagem aos educadores Paulo Freire e Che Guevara. Brasília, 28 a 31 de julho de 1997.
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