O Mickey existe? A Xuxa existe? O diabo existe? Eu existo, você existe? Deus existe?
Jorge Cláudio Ribeiro
As indagações do título acima são o eixo do trabalho pedagógico que denomino Método das Cinco Perguntas sobre a Existência. O que teriam elas a ver com uma programação que se pretende acadêmica? E, exceto a terceira e a última, qual sua relação com uma disciplina de conteúdo teológico? Elas foram formuladas de maneira a provocar uma pequena surpresa, que de fato se verifica, para estimular reflexões, conceituações, atitudes e ações nas turmas.
Antes de relatar, porém, o processo ocorrido, gostaria de esclarecer por que decidi fazê-lo.
Objetivos
Entendo que, dentre as várias dimensões envolvendo a educação – legislação, teorias, pesquisas, titulação, treinamentos, tecnologia, material instrucional etc. –, a mais importante é a boa e velha aula. No momento, esta atividade-fim se encontra desvalorizada. Não pretendo propor modelos nem considero minhas aulas melhores do que as de ninguém. Ao desvelar o que acontece dentro da classe, chamo atenção para algo essencial e me insiro num processo de partilha e aprimoramento ainda tímido nesta universidade.
Diante da barbárie que ameaça engolfar nosso esgarçado tecido social, a simples docência já é uma afirmação de humanidade. Nesse sentido, a comunicação, mesmo que aparentemente singela, sobre nossa prática pedagógica numa revista de professores (cuja profissão é “dar aula”, certo?) assume uma dimensão ética e política.1
Disciplina
Meu Método das Cinco Perguntas sobre a Existência vem se desenvolvendo desde 1995, no âmbito da disciplina Introdução ao Pensamento Teológico (IPT). Ela é lecionada em dois semestres a todos os graduandos na PUC-SP, sendo central à proposta filosófica desta universidade2 . Inicialmente, essa matéria se denominou Cultura Religiosa e, durante o extraordinário projeto do Ciclo Básico (1971-1989), chamou-se Problemas Filosóficos e Teológicos do Homem Contemporâneo. Com o fim do Básico, recebeu o nome atual (IPT).3
Meu método das cinco perguntas resulta de uma formulação peculiar, não sendo adotada por nenhum outro professor de nossa equipe. Pelo menos, não dessa forma. Os professores têm um objetivo (“Em busca de dimensões mais amplas da existência”) e conteúdos comuns, mas assume-se haver espaço para caminhos diversos (relativos a cada docente, curso, turma e momento histórico). O projeto se enraíza em circunstâncias bem específicas: uma disciplina obrigatória que, contudo, não integra o “núcleo duro” dos cursos; dotada de conteúdos teológicos; lecionada em geral a calouros; ministrada por alguém com limitações que, assim como cada aluno e aluna, vive uma biografia intransferível.
Nem poderia ser diferente. Em pesquisa4 realizada em 1996-7, estudei a “existencialidade”5 presente na docência de IPT. Essa característica é nossa força e fraqueza. Sem perder o teor acadêmico, pretendemos ir mais além, ao propor aos alunos uma reflexão sobre os fundamentos do existir.
Caso se restringisse à mera (OK, nunca é “mera”) transmissão de conteúdos já consolidados pela tradição, nossa disciplina se resolveria com facilidade no âmbito do arsenal pedagógico. No entanto, num respeito absoluto a suas crenças, convicções e consciência, pretende-se que IPT aconteça nos estudantes6 . Estão em relação várias existências: a de cada aluno e aluna, a de seu professor ou professora e a de toda sociedade. Portanto, é fundamental o envolvimento das pessoas presentes na sala. E aí mora o perigo.
Em geral, o discurso religioso já chega contaminado. É freqüente o testemunho de alunos que temem encontrar em nossas aulas uma programação catequética: “Quando vi no currículo o nome da sua matéria, pensei: ‘Lá vem um padre ou freira dar lições de moral pra gente’. Ou então: ‘Ele parece muito liberal, mas a qualquer momento vai dar o bote, falando contra camisinha e coisas semelhantes’”. Em recente pesquisa7 , percebe-se a rejeição a formas convencionais de tratar o fenômeno religioso. Isso aparece nas frases menos apontadas (de um total de 68) nos questionários respondidos por 1.032 estudantes: “A religião é a única solução para este mundo” (60.º lugar); “Relaciono-me com Deus exclusivamente através da minha religião” (61.º lugar); “Exerço minha espiritualidade exclusivamente com o grupo da minha igreja” (67.º lugar). Vê-se por aí como os jovens desconfiam de verdades que se apresentam como absolutas. Isso não significa que sejam mais céticos ou cínicos que o resto da humanidade, pelo contrário. Vejam-se as frases mais apontadas (do 1.º ao 7.º lugar): “Lutar pelo que acredito é um de meus rituais”; “Existe uma energia que envolve toda a nossa vida”; “A fé é mais importante que as crenças e religiões”; “Vejo Deus na natureza”; “Às vezes converso em profundidade com outra pessoa e isso me traz energia”; “Amor é uma forma de fé”; “Sinto muita alegria em reuniões em que todos estão alerta para a realidade”.8
O desafio em IPT é, portanto, enfrentar forte resistência inicial e canalizar de maneira construtiva o potencial de crítica dos jovens. Essa será nossa grande chance, se formos capazes de surpreendê-los e reverter a expectativa negativa. Nesse quadro de risco e oportunidade se insere o método que passo a explicitar.
Metodologia
Esse procedimento serve de fio condutor a toda a programação, mas não a esgota. Integra-se às atividades “normais”: a relação professor-aluno, aulas expositivas e dialogadas (destaque para a “Alegoria da caverna” de Platão, minha melhor aula sem sombra de dúvida), debates sobre textos, provas etc. As cinco perguntas se articulam com os conteúdos dos livros O humano, lugar do sagrado ou Moradas do mistério, escritos por colegas do Departamento de Teologia e Ciências da Religião.9
A metodologia inclui seminários e vídeos. Começa com os grupos escolhendo uma das cinco perguntas a partir de ementas (ver abaixo). Ao final das aulas, o professor checa com cada grupo como vão as pesquisas. Esse acompanhamento ajuda “a cair as fichas” e a radicalizar a surpresa da proposta, agregando conteúdos e bibliografias dados em aula, fazendo aflorar a criatividade e relacionando as perguntas à situação social (“Para vocês, quem é o diabo hoje?”; “Qais os mandamentos do deus-mercado?”; “Que fim levou a Maria da Graça Meneghel?”; “O Mickey é um mito contemporâneo?”).
Nas últimas aulas do primeiro semestre são apresentados os seminários. À medida que isso acontece (não todos de uma vez, mas com tempo suficiente para debate), os alunos se espelham mutuamente e melhoram suas idéias e formas de apresentação. Os seminários surpreendem por sua criatividade e ao trazerem pautas que aparecerão no resto do curso. Incluem apresentações teatrais, entrevistas com especialistas, pesquisas quantitativas e visitas a museus, a templos e a sites na Internet. Quando a poeira baixa, cada grupo percebe o mosaico em que depositou sua pedrinha. Os seminários se completam com uma síntese pessoal escrita, que pode virar um livro.
Na segunda etapa, no final do primeiro mês do semestre seguinte, são apresentados quinzenalmente os vídeos, com duração de uns 20 minutos. Esse cronograma permite que o material produzido pela classe seja mais assimilado.
Por que vídeos? Trata-se de uma mídia em cuja linguagem os alunos foram alfabetizados ao longo de anos. A TV é uma locomotiva cultural com estilos diversos que, re-trabalhados criativamente, podem ser criticados. Por que todos fazem só vídeos? A partir da diversidade dos seminários, a forma unificada dos vídeos propicia a todos uma base de reflexão e comparação. O foco da disciplina é o conteúdo da discussão não sendo esperadas sofisticações técnicas. Nada que uma câmera de batizado e dois videocassetes não possam fazer. Recentemente, obtive apoio dos professores e do laboratório de vídeo do Curso de Jornalismo, o que permite produções mais caprichadas.
A dificuldade dos vídeos é sintetizar os debates suscitados pelos seminários. Assim, “Deus existe?”, previsto para 50 minutos, estendeu-se por três horas (esse tema desperta mais interesse do que no tempo em que amávamos os Beatles e os Rolling Stones...). Os vídeos têm sido bem-sucedidos, dentro dos objetivos da disciplina.
Ao final do processo, os melhores trabalhos de uma classe são apresentados às outras, para comparação. Além disso, as melhores provas são selecionadas (por vários professores) e publicadas num livro. Essa iniciativa de IPT partiu da constatação de que para textos de grande valor expressivo não basta atribuir uma fria nota. É preciso fazer mais. Esse livro se denomina VITrAL, título que sugere dupla leitura, e caminha para a terceira versão.
Existirmos, a que
será que se destina?
O processo começa com uma distinção de verbos. Com Parmênides, digo que tudo o que houve, há e haverá no universo merece o verbo “ser”. Dentre os entes, uma parcela ínfima nasce, vive e morre, interagindo com o ambiente: esses “vivem”. Em meio aos seres vivos, uma poeira diminuta sabe disso e pode desenvolver (ou involuir) essa consciência, conferir significado a si e à sua presença no ambiente: ela “existe”. Existir é uma forma de vida consciente, livre e construidora de si mesma e do outro. Com Sartre, aprendemos que existir é a forma especificamente humana de viver, a partir da liberdade, do risco da escolha, do compromisso.
Tal sentido de existência fundamenta as perguntas sobre Mickey, Xuxa, diabo, eu/você e Deus. Não interessa investigar o existir em si dessas entidades. A reflexão é sobre de que forma o espelhamento nelas nos ajuda a existir. As cinco perguntas levam a perceber algumas formas de existência, contraditórias e misturadas no imaginário da sociedade. Partem do mais epidérmico ao mais perene. O humano é lugar do sagrado.
O ponto de partida para cada grupo é uma ementa, a modo de provocação:
1-“O Mickey existe?” É claro que existe! E movimenta bilhões de dólares por ano, sendo onipresente em nosso cotidiano. Não só o Mickey existe, mas toda sua imensa família, que inclui o resto do clã dos Disney, chegando a Maurício de Sousa, Hanna Barbera e Papai Noel. Essa questão pretende iluminar o quanto a imaginação confere concretude a seus produtos. Parte-se da ficção em direção ao concreto.
É claro que o Mickey não existe: ele não tem vida própria, não tem liberdade, sendo uma sombra de seus criadores (o desenhista Walt Disney, a indústria cultural, o complexo político-militar e a subjetividade de milhões de consumidores);
2- “A Xuxa existe?” Talvez sim, talvez não. Certamente, já existiu mais. O caminho é inverso ao do Mickey: parte-se do concreto para a ficção. Talvez a senhorita Meneghel se debata nesse conflito, em desvantagem para o herói anterior, imune a dilemas existenciais. Esta pergunta remete à questão da fama, da atribuição externa de características a uma pessoa. Lida-se aqui com a espetacularização da vida atual em sua forma suprema: existir-como-imagem.
3- “O diabo existe?” Sim. Basta ver que sua expulsão sobe o ibope de cultos e programas religiosos na TV. Sim: a Bíblia se refere inúmeras vezes a ele, embora o entenda de forma diferente da consolidada no imaginário moderno. Claro que não existe: “O que existe é homem humano, travessia” (Grande Sertão: Veredas). O que existe é o diabólico (que dispersa e destrói, mas pode ser positivo) e o simbólico (aquilo que agrega, consolida, mas pode ser negativo). Essa pergunta coloca o problema da fabricação social do medo e seus efeitos desumanizantes.
4- “Eu existo, você existe?” Eis a questão da liberdade, da transcendência, do sujeito humano que se constrói (ou não) dialeticamente nas relações com o outro, no diálogo e na solidariedade. Aqui se abre o cenário para indagar sobre o sentido da existência.
5- “Deus existe?” Não, pois nossa experiência do mal inviabiliza a existência de um ser supremo que seja o Bem: ou Deus é todo-poderoso e permite o mal (e nesse caso, também é mau) ou é bom, mas não é todo-poderoso. Sim, existe: olhem que todos os povos têm suas religiões. Não existe: olhem as barbaridades que se fazem em nome das religiões. Deus seria como um Mickey, inventado por nossa ansiedade? Jesus seria uma proto-Xuxa, ou mero exorcizador de demônios? Embora não desprovida de sentido, essa questão seria irrelevante se não fosse possível estabelecer algum contato com Deus. Percebo-o a partir da minha e da nossa existência concreta e histórica. Não é uma relação apenas emocional, mas que me sustenta e induz a crescer, a partir do meu mais íntimo e daquilo que me é superior (Santo Agostinho).
Resultados
Depois de seis anos e uns 110 vídeos produzidos por cerca de 850 alunos, os objetivos foram atingidos? Cada grupo interpretou as ementas a seu modo e abriu um caminho próprio. Não cabe detalhar atividades, discussões e conclusões, tal a diversidade. Em alguns trabalhos, à la Bergman, a classe toda brincou com espelhos; houve recriações teatrais de textos bíblicos e sartreanos; ateus conduziram discussões sobre Deus; visitaram-se terreiros de umbanda, escolas de periferia; fizeram-se entrevistas ao longo da Avenida Paulista (“vamos até o Paraíso e gostaríamos de saber se Deus existe”) . Também houve trabalhos burocráticos e constrangedoramente mal feitos, o que ajudou a amadurecer critérios de avaliação. No todo, a entrega chegou melhor que a encomenda.
Alguns elementos para avaliação:
l Envolvimento – A modo de ironia socrática, a proposta funciona como um contra-fogo à resistência frente a “questões sérias”. O entusiasmo (“Deus em nós”, em grego) cresceu à medida que se aproximava a apresentação e engrenavam as pesquisas, que incluem bibliografia e experiências de campo que exalam o “cheiro” do tema;
l Senso crítico – A obra aberta coletiva rompeu com uma lógica linear, marcada pelo maniqueísmo. Os grupos verificaram que certas existências ocorrem ou não, dependendo do ponto de vista e das circunstâncias. Vários alunos vivenciaram desconforto ao perceber o teor manipulatório dos mitos da sua infância (“sempre quis ser Paquita”; “somos invadidos pelo Mickey”). Tais mitos são desconstruídos ao ser apontada sua evolução histórica (“o Mickey perdeu o rabo”, “Jesus não era católico”), o que revela o fenômeno humano envolvido. Atenua-se uma avaliação moralista do indivíduo (“a Xuxa fez filme pornô”) em prol de uma visão ética que leva em conta os processos sociais.
l Teoria – A abordagem teórica levou, primeiro, à percepção de símbolos universais presentes nas perguntas (“o Mickey é um rato”, “a Xuxa vive no Olimpo”, “Deus e o diabo variam segundo a cultura e a época” e “o espelho tem um lado de dentro”). A proposta assumidamente introdutória propiciou um acesso inaugural a textos e idéias de dezenas de autores (às vezes nem pronunciavam direito seus nomes) da literatura, antropologia, psicologia, filosofia, sociologia e teologia. Também se dialogou com temas da faculdade e com fenômenos atuais, como as identidades virtuais, a padremarcelização das religiões, o consumismo e a demonização da mulher.
l Reflexão – As perguntas eram tratadas como uma relação: “O que essas existências têm a dizer para cada um de nós?” Na síntese individual escrita, muitos explicitaram a reação que os trabalhos induziram neles. Questões que normalmente, ou nunca, são conversadas encontraram espaço de explicitação;
l Atenção – Na releitura destas linhas, percebo que estão permeadas de condenável auto-complacência. Devo admitir que há armadilhas: a abordagem introdutória pode descambar para a superficialidade; a percepção da complexidade pode conduzir à abdicação de critérios e ao relativismo; a multiplicidade de contribuições levaria à incapacidade de síntese; certo tom de gincana pode corroer a indispensável característica acadêmica.
Concluindo: não sei dizer, definitivamente, se Mickey, Xuxa, diabo, eu/você e Deus existem, nem por quê. Certas perguntas foram feitas para serem repetidas e não deletadas. Sorry.
Notas
1 Sugiro a PUCVIVA uma sessão permanente voltada à comunicação de práticas didáticas. Além disso, que as autoridades acadêmicas implementem algo como um Laboratório de Aula voltado para o aperfeiçoamento do exercício da docência.
2 NAGAMINE, José. Universidade e Compromisso social. São Paulo, Educ/ Autores Associados, 1997, pp. 146; 154; 155.
3 GUEDES, Mª Luiza. “Memória e perspectivas do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP: docência na graduação de 1971 a 1990”. Mimeo. Pesquisa DTCR/ PUC-SP, 1990, passim.
4 RIBEIRO, Jorge Claudio. “Um perfil de docente- a dimensão existencial em Introdução ao Pensamento Teológico”. Mimeo. Pesquisa Doutor/ Cepe- PUC-SP, 1998.
5 “Existência” vem do latim ex-sistere, que significa “estar de pé, fora de”, no sentido de quem toma posição na ágora perante si mesmo e os outros, de quem se governa e se constrói autonomamente.
6 RIBEIRO, op. cit. pp.40 ss.
7 RIBEIRO, Jorge Cláudio; LOPES, Regina P.; NASSER, Mª Celina C.; MARTINI, A.. “Perfil da religiosidade do jovem universitário - um estudo de caso na PUC-SP”. Mimeo. Pesquisa Institucional/ Cepe- PUC-SP, 2001.
8 Esses resultados referem-se a um estudo de caso. Não podem ser universalmente generalizados mas fornecem boas pistas de trabalho.
9 ANDRÉ, Maristela et al. O humano, lugar do sagrado. São Paulo, Olho d’Água, 1995; ROMEIRO, Márcio
etal. Moradas do mistério. São Paulo, Olho d’Água, 2000.
Jorge Cláudio Noel Ribeiro é professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião
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