Repensando a História ensinada na PUC-SP
Alexandre Pianelli Godoy
Há histórias que ao serem repensadas podem se constituir numa armadilha para o historiador, principalmente quando se referem a um tempo e a um espaço que julgamos tão próximos de nós. Mas este é exatamente o desafio proposto e encarado pelo livro da historiadora, educadora e professora da PUC-SP Helenice Ciampi – A História pensada e ensinada - da geração das certezas à geração das incertezas –, publicado recentemente pela Educ/Fapesp e originalmente apresentado como tese de doutorado em História Social na Universidade de São Paulo.
A obra tem como eixo central de reflexão a própria história da História pensada e ensinada na PUC-SP entre os anos 1970-1980. Helenice Ciampi nos dá a oportunidade de repensar tanto a prática educativa do curso de História naquele período como também de relacioná-la a uma proposta de universidade que nascia no final dos anos 60 e que desafiava o autoritarismo da ditadura militar no Brasil e mais amplamente na América Latina. Para a autora, a PUC-SP talvez tenha sido a única universidade católica daqueles tempos a “efetuar a reforma nos termos do documento de Buga1 ” (pág. 44). Tal documento sistematizava o papel das universidades católicas num momento de lutas pelas liberdades e transformações das sociedades latino-americanas. Parte da Igreja engajava-se, portanto, no caso da PUC-SP, “essa postura [implicou] garantir o exercício da pesquisa e dos estudos na área de ciências sociais, geralmente consideradas ‘subversivas’” (pág. 46), o que afetaria não só a Faculdade de Ciências Sociais como o curso de História da universidade, ponto fulcral da obra.
Fui aluno do curso de História desta universidade e hoje também como aluno da pós-graduação, passo a repensar a minha formação profissional através do trabalho de Helenice Ciampi. E uma das minhas preocupações é se hoje estaríamos vivendo numa era das “incertezas” ou em busca de novas maneiras de problematizar a realidade social sem cairmos em posturas intelectualistas que marcaram a era de tantas certezas e de tantos “ismos”. Aprendemos a duras penas, é verdade, que o engajamento político não pode prescindir de um engajamento intelectual, isto é, de uma prática educativa e, mais especificamente, historiográfica que repense constantemente suas categorias, suas questões, enfim, seus conceitos. Desta maneira, aprendemos também que posicionar-se não é enclausurar-se mas sim estar aberto a outras posições que venham complementar, questionar ou mesmo mudar nossas concepções de mundo.
Como nos conta a autora, o curso de História da PUC-SP nos anos 70 foi favorecido por uma política universitária engajada nos problemas sociais de então. O(s) marxismo(s) foi o fio condutor dos debates historiográficos do período, incorporados principalmente na bibliografia das disciplinas de Introdução aos Estudos Históricos e História do Brasil Colônia, examinadas mais atentamente pela autora. Talvez aquela geração buscasse menos certezas diante de um quadro incerto da ditadura do que um engajamento político que consideravam “de direito”. Isto muda completamente a perspectiva das coisas, pois aquela geração almejava um mínimo de garantias sociais em meio às incertezas nos rumos da política nacional. Não era de maneira nenhuma uma postura altruísta ou simplesmente voluntariosa. Há que se considerar, neste sentido, o papel daqueles intelectuais nas lutas sociais apesar do profundo academicismo que ainda cercava suas concepções teórico-metodológicas2 .
O período de “redemocratização” nos anos 80 não foi menos tenso na PUC-SP nem tampouco para o seu curso de História. As reformas curriculares, as alterações na proposta das ementas das disciplinas do curso de História, os depoimentos de alguns professores e alunos, além das atas de reuniões departamentais pesquisadas por Helenice Ciampi apontavam para uma nova incerteza que se criava: com o fim da ditadura militar quais os rumos a tomar na prática do ensino e da pesquisa acadêmica? É o período de incorporação possível – jamais tardia ou necessária como querem alguns – de novas concepções em relação ao conhecimento e de novos “problemas, objetos e abordagens” na área de História com a historiografia francesa da Escola dos Annales. Se somos herdeiros desta geração e entendemos por “incerteza” a quebra com paradigmas que se pautavam na busca por verdades absolutas e, no campo do historiador, a tomada de consciência de que o conhecimento histórico é sempre uma reconstrução crítica do passado a partir do presente, então ficamos mais à vontade para acatar a denominação de “geração das incertezas” não como sinônimo de indecisão, perda de parâmetros ou a-criticismo, mas como uma ampliação dos problemas, da argúcia crítica e de perspectivas para a sociedade. Esta é uma das discussões que o livro de Helenice Ciampi suscita, embora apareça de forma mais sutil no decorrer da narrativa.
Esta discussão, no entanto, é subjazida por outra mais aderida à obra que diz respeito ao diálogo entre teoria e prática. A articulação entre teoria e prática é ainda hoje um dos grandes problemas que permeiam as ciências sociais e, evidentemente, o ofício do historiador-professor. E mais problemático ainda é o que se entende por “teoria”, “prática” e sua relação. Para Gilles Deleuze não se pode conceber “a prática como aplicação da teoria, como uma conseqüência” e nem “ao contrário, como devendo inspirar a teoria, como sendo ela própria criadora com relação a uma forma futura de teoria. (...) As relações entre teoria e prática são muito mais parciais e fragmentárias. Por um lado, uma teoria é sempre local, relativa a um pequeno domínio e pode se aplicar a um outro domínio, mais ou menos afastado. A relação de aplicação nunca é de semelhança. Por outro lado, desde que a teoria penetre em seu próprio domínio encontra obstáculos que tornam necessário que seja revezada por outro tipo de discurso (é este outro tipo que permite eventualmente passar a um domínio diferente). A prática é um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra. Nenhuma teoria pode se desenvolver sem encontrar uma espécie de muro e é preciso a prática para atravessar o muro.”3
E quais os muros atravessados pela “geração das certezas”? A autora nos mostra que a tarefa não foi nada fácil para aqueles professores da PUC-SP, pois ao mesmo tempo em que viviam o clima autoritário dos anos 70, que os obrigava a tomar uma posição diante daquela realidade conflituosa, acarretando inclusive na invasão do câmpus universitário em 22 de setembro de 1977, tinham que lidar com os impasses teóricos dos diversos marxismos que se disseminavam no período, as reformas curriculares do próprio curso de História, além das mudanças na estrutura de ensino da universidade. O predomínio de um marxismo mais ortodoxo presente na bibliografia das disciplinas do curso de História – vulgarizado por vezes pelo calor dos acontecimentos, segundo os depoimentos de alguns ex-alunos – indicia que para muitos dos agentes históricos daquele momento este foi o diálogo possível entre teoria e prática. Sensível a isto, Helenice Ciampi nos convida menos a “buscar ou cobrar posturas metodológicas atuais, mas de identificá-las e entendê-las na sua historicidade. E, assim, desenhar a configuração do curso no movimento das tendências historiográficas na dinâmica dos debates.” (pág. 28)
A geração dos anos 80, por outro lado, também encontrou os seus “muros” na prática de ensino dos novos “problemas, objetos e abordagens” da historiografia annaliste. Helenice Ciampi aponta que “a avaliação dos resultados revela a pluralidade do entendimento das propostas colocadas, como também a dificuldade da sua concretização em sala de aula”.(pág. 183) Desta maneira, é preciso também repensar o impacto da historiografia francesa no Brasil não apenas em função da produção de nossos historiadores inspirados em tais posturas teórico-metodológicas, mas na maneira como aqueles e os nossos historiadores foram trabalhados dentro de sala de aula.
Herdeiros diretos desta última geração, não podemos negar que as “incertezas” em relação às verdades absolutas, aos conceitos abstratos e às teorias generalizantes contribuíram para uma discussão teórico-prática bem mais consistente do que antes. Entretanto, como aluno da graduação do curso de História nos anos 90 pude perceber que o(s) marxismo(s) ainda era uma marca importante no curso e que nem sempre as discussões teóricas mais contemporâneas foram acompanhadas de uma prática de ensino que as incorporasse minimamente. Não se trata de exigir aqui aquela ilusória semelhança entre teoria e prática, mas de reconhecer que o movimento de uma a outra deve comportar este constante repensar, pois “o embate de novas práticas administrativas, acadêmicas e historiográficas desafia a produção e a transmissão do conhecimento histórico ” (pág. 451). E espero que a nova reforma curricular que se anuncia para o curso de História tenha em mente estes desafios.
O trabalho de Helenice Ciampi nos leva, contudo, a repensar através da História que foi pensada e ensinada na PUC-SP a História que hoje queremos para o futuro da nossa universidade, onde estejam articulados, apesar das dificuldades estruturais, o ensino e a pesquisa, a licenciatura e o bacharelado, o engajamento político mas também intelectual, para quem sabe retomarmos e renovarmos alguns daqueles princípios contidos no documento de Buga, em que o comprometimento social possa ser traduzido num trabalho intelectual que incorpore as incertezas como horizontes de possibilidades.
Notas
1 O documento foi assim denominado por ter sido aprovado num seminário realizado na cidade de Buga, na Colômbia, em fevereiro de 1967.
2 Guardada as devidas diferenças entre os autores, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior mesmo antes dos anos 1970 já se constituíam em algumas das dissonâncias mais importantes do pensamento intelectual brasileiro, não só por fugirem de um mecanicismo e dogmatismo que impregnavam as ciências sociais, como também por adotarem posturas socialmente engajadas. Sobre isto ver: Maria Odila Leite da Silva DIAS. Política e Sociedade na obra de Sérgio Buarque de Holanda. IN: Antonio CANDIDO (org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998, pp. 11-28; e da mesma autora: Impasses do inorgânico. IN: Maria Angela D’INCAO (org.). História e ideal: ensaios sobre Caio Prado Júnior. São Paulo: Secretaria do Estado da Cultura/Unesp/Brasiliense, 1989, pp. 377-405.
3 Michel FOUCAULT e Gilles DELEUZE. Os intelectuais e o poder – Conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. IN: Roberto MACHADO (org.). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, pp. 69-70.
Alexandre Pianelli Godoy é mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP
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