| Poemas
Silêncio
Silêncio se enfrenta sozinho na terra, quando se fica só, na sala em que se deu aula, quando terminou o curso e todos os alunos se foram - silêncio se enfrenta das cadeiras, dos rostos que se foram, da lousa ainda escrita, da mão que escreve atemorizada pela tortura possível, provável e real de cães para crudelíssimas experiências - silêncio - se fica com saudades dos alunos, das perguntas e das crenças de uma cidade que se vai deixar - silêncio dos momentos felizes, de momentos mais estabanados, de ausências e de passos - silêncio de uma missão que se tem de cumprir, a de ensinar - a de transmitir crenças, certezas, verdades - da letra da lousa que fica como depoimento.
Um dia, quem sabe, ser um professor melhor, não mais belo, e de longe olhar outra paisagem numa classe, não mais esta, ó saudades, silêncio e meus passos que breve irão para jamais - os tijolos que comprei, as dúvidas sobre mim, minha casa, minha alegria vão comigo - nos sonhos da serra e das paisagens - ó Santos, onde andei pequena, inolvidável e rebelde - e onde voltei para ensinar rebeldia - e olhar ainda infantil, ainda apaixonado de meus anos - fique em paz, cidade, viva - viva à sombra da serra e junto do mar, de todas as vidas - recolha ao final nossos suspiros saudosos depois da morte - para além da outra vida e em sonhos colhe o meu nome e o guarda.
Marly Cavalcanti é professora do Departamento de Administração da PUC
[para meu pai]
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