"Um outro mundo é possível"
José Arbex Jr.
6 de abril de 2001: a Argentina mobiliza o seu Exército para proteger a fronteira com o Brasil. Dezenas de ônibus brasileiros estão parados em postos fronteiriços, à espera de serem liberados por oficiais militares. O clima é tenso. A mobilização do Exército tem como principal objetivo evitar a entrada de uma caravana de brasileiros, integrada por sindicalistas, militantes de partidos de esquerda e de uma infinidade de ONGs e por estudantes. Tratava-se, basicamente, do mesmo público que participara do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, entre 25 e 30 de janeiro de 2001.
A caravana deveria chegar ao centro de Buenos Aires às 18h do dia 6, onde se encontraria com participantes de um ato internacional convocado pelas entidades que organizaram o Fórum, por grupos argentinos e mundiais de trabalhadores, sindicatos e associações políticas. O alvo do protesto: uma reunião preparatória do encontro de Quebec, convocado pelos Estados Unidos para discutir, no dia 20 de abril, a implantação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
A preocupação das autoridades argentinas era plenamente justificada. Todos viram o impacto que o Fórum de Porto Alegre causou na opinião pública mundial. Agora, em Buenos Aires, voltavam a se enfrentar as mesmas forças antagônicas: de um lado, os senhores do neoliberalismo, com as suas políticas que aprofundam as desigualdades sociais, as injustiças, a fome; de outro, as organizações populares do mundo, dispostas a enfrentar o aparato policial e a brutalidade para fazer valer princípios de igualdade que se julgavam “superados”.
As autoridades argentinas temeram que a reunião terminasse em fiasco, ainda mais no quadro de crise catastrófica que abala o país, após uma década de aplicação de políticas neoliberais. Por isso, o Exército foi mobilizado e as fronteiras foram fechadas, em atitudes que contrariam, claramente, os tratados de livre trânsito firmados no quadro do Mercosul. Ao mesmo tempo, a mobilização do Exército evidenciou o fato de que o Fórum Social deverá firmar-se como grande referência internacional da luta contra o imperialismo no futuro próximo.
Exatamente por ter sido tão importante, o Fórum de Porto Alegre foi muito mal noticiado pela “grande mídia”. Fingindo que estavam cobrindo o Fórum, os jornais e emissoras de televisão concentraram as notícias em fofocas e disputas menores, dando particular atenção à figura do agricultor francês José Bové, apresentado como uma espécie de “figura exótica”. Fizeram isso para ocultar o conteúdo e a amplitude das discussões.
Por essa razão, vamos fazer, em seguida, um breve relato do que se passou em Porto Alegre, como forma de resgatar um momento histórico de rearticulação das organizações de esquerda, em escala internacional.
122 países, 3. 700 delegados, 16 mil participantes
“Um outro mundo é possível”, dizia o lema do Fórum Social Mundial, no mesmo período em que banqueiros, economistas e financistas discutiam, em Davos (Suíça), a melhor forma de manter o mundo tal como está. Na última semana de janeiro, Porto Alegre foi alegremente “invadida” por representantes de 122 países, incluindo 3.700 delegados (dos quais 1.502 eram estrangeiros), por outros 16 mil militantes de movimentos sociais, ONGs, partidos e grupos estudantis, além de “turistas” e de cerca de mil jornalistas que cobriram o evento (pelo menos 300 do exterior).
Os debates foram organizados em 16 mesas redondas e 400 grupos que contaram com a contribuição de intelectuais e ativistas de renome internacional – da “madre de la Plaza de Mayo” Hebe Bonafini a Ahmed Ben Bella, líder da Revolução da Argélia. A pauta foi formada por dois grandes temas, riqueza e democracia, desdobrados em quatro eixos que orientaram o conjunto das discussões: 1 - a produção da riqueza e a reprodução social; 2 – o acesso às riquezas e a sustentabilidade; 3 – a afirmação da sociedade civil e dos espaços públicos; 4 – poder político e ética na nova sociedade. Se um outro mundo é possível, o Fórum de Porto Alegre foi um marco na luta pela sua conquista.
Aplausos, balé e passeata
Logo na abertura dos trabalhos, às 15h do dia 25, o superlotado salão principal da PUC-RS quase veio abaixo quando foram anunciadas, entre todas, as delegações do Brasil, de Cuba e a do MST. A nota negativa foram as vaias à delegação dos Estados Unidos, como se ela representasse a Casa Branca! Após os habituais discursos de saudação, feitos pelo governador Olívio Dutra, pelo prefeito Tarso Genro e pelos integrantes da comissão de coordenação do Fórum, os participantes foram brindados com uma bela coreografia afro-hispânico-brasileira.
Em seguida, uma passeata de 20 mil pessoas desafiou um calor insuportável (ao longo da semana, a temperatura média certamente superou os 30 graus, agravados pela umidade do ar) e percorreu as ruas de Porto Alegre, detendo-se diante de uma loja McDonald’s e de uma agência do banco Santander, demonstrando, espontaneamente, os sentimentos antiimperialistas.
A passeata acabou cinco quilômetros depois, na Praça do Pôr-do-Sol, onde ficaram os acampamentos de estudantes, de grupos indígenas e de muitas ONGs. Ali seriam realizados shows e festas todas as noites. Um grupo de estudantes da Unicamp montou, no local, uma transmissora de rádio que funcionou durante toda a semana.
Lugar para todos
Os grupos de debate incluíram temas que, normalmente, são considerados “marginais”: discriminação de gênero e raça, questões culturais (como o problema da preservação das culturas regionais e indígenas em oposição à tendência “uniformizadora” da globalização) e proteção ao meio ambiente. Por exemplo, participaram do Fórum pelo menos sessenta grupos de mulheres, em sua grande maioria de origem latino-americana, indígenas e camponesas, que organizaram oficinas sobre violência doméstica, sexismo e desigualdade de salários e direitos. Havia uma compreensão generalizada de que cada um desses problemas “setoriais” só poderia ser corretamente analisado e resolvido no quadro de uma luta mais ampla contra o neoliberalismo.
É claro que houve falhas, a começar do fato de que a comissão organizadora esperava um número muito menor de participantes (falava-se em algo em torno de 2.000) e de jornalistas (não mais do que 300). É fácil imaginar a confusão provocada pela multidão que tomou conta das dependências da PUC-RS. Grupos de representantes do movimento negro, por exemplo, acusaram os coordenadores do evento de terem dado pouco destaque ao problema do racismo.
Mas os problemas não obscureceram a riqueza de reflexões e informações que foram trocadas – da resistência democrática ao poder das corporações, estimulada pelas emissoras públicas de rádio e TV nos Estados Unidos, à luta dos camponeses de uma pequena comunidade da Índia, que ganhou uma dimensão simbólica nacional.
Recomposição da “esquerda” mundial
A realização de um Fórum com dimensões tão importantes só pode ser explicada pelo momento histórico e político. De um lado, ele é determinado pelas “condições objetivas” construídas pela crise global do neoliberalismo. Após duas décadas de aplicação das políticas preconizadas pela simpática dupla Reagan – Thatcher, o mundo viu aumentar vertiginosamente o processo de concentração de riquezas, a miséria e a exclusão social. De outro lado, a esquerda, abalada pela queda do Muro de Berlim, já reúne as “condições subjetivas” para propor alternativas à “globalização” do capital.
Essa capacidade crítica e analítica é o resultado acumulado de um intenso e não raro penoso processo de mobilizações, incluindo as experiências do movimento dos zapatistas, do MST, da guerrilha colombiana, das manifestações e encontros de Berlim (1994), Belém (1999), Seattle e Praga (2000).
Desse quadro emerge o fato central: as forças de esquerda recuperaram sua iniciativa, sua capacidade teórica de destruir as bases do “discurso único” e de propor políticas concretas. Mas a expressão genérica “forças de esquerda” não pode nem deve encobrir as importantes divergências ideológicas que se desdobraram no interior do próprio Fórum, bem como aquelas que fizeram com que vários grupos de esquerda se recusassem até mesmo a participar do evento.
Críticas da “esquerda” e da “direita”
Grosso modo, a crítica “à esquerda”, feita principalmente por grupos anarquistas e trotskistas, considera que o Fórum não passou de “festa”, capitaneada pelos setores mais “reformistas” do PT e dos socialistas franceses – aqueles que não querem acabar com o capitalismo, mas sim torná-lo mais apetecível. A própria realização do Fórum teria sido uma tentativa de “capturar” a esquerda para a esfera de influência do capital, propondo o canto de sereia de uma “globalização com face humana” (daí Davos ter topado a teleconferência).
A crítica à direita considera que o Fórum mostrou-se incapaz de propor alternativas concretas ao modelo neoliberal. Seus participantes limitaram-se a formular propostas que não conduzem a lugar algum, como a moratória ou a suspensão do pagamento da dívida externa, colocando-se fora do jogo estabelecido pelo mercado. O Fórum, portanto, seria apenas uma festa de fogos de artifício e nenhuma conseqüência.
Entre uns e outros, o conteúdo das discussões travadas no interior do Fórum afirmou, em geral, concepções ideológicas antiimperialistas e favoráveis à instauração de regimes democráticos e populares. Mas não estabeleceu, claramente, um caráter anticapitalista. Como disse, em entrevista a Caros Amigos, o padre e sociólogo belga François Houtart, é verdade que o Fórum foi marcado por divisões ideológicas, mas isso apenas realça a necessidade de um palco democrático de debate entre as mais variadas correntes antiimperialistas.
Democrático, antiimperialista, popular
O Fórum foi, de fato, uma nova demonstração do caráter pluralista e democrático que tem caracterizado as mais recentes manifestações contra o imperialismo. Foi, precisamente, esse “novo espírito democrático” que permitiu reunir, no mesmo espaço, um amplo espectro de forças, dos mais “reformistas” aos mais dispostos à “ação direta” contra o capitalismo. Um exemplo de convivência democrática foi a atitude do Fórum em relação à ocupação simbólica, feita pelo MST, de uma fazenda da Monsanto, no município de Não Me Toque.
Ninguém no Fórum entendeu a atitude do MST como de “desafio” ou de “provocação”, como um gesto que teria ferido o consenso mínimo que permitiu a realização do evento. Ao contrário. Tão logo se espalhou a notícia da detenção de Bové pela Polícia Federal, e da ordem de sua expulsão do Brasil como conseqüência da ocupação em Não Me Toque, houve uma imediata reação de todos os participantes, que passaram a exibir faixas e cartazes em que diziam “somos todos José Bové”.
Conclusões e novas propostas
Após os cinco dias de debates, o Fórum de Porto Alegre foi encerrado com uma carta que funciona como um chamado à mobilização. A carta convoca nova sessão do Fórum para Porto Alegre, sempre em datas coincidentes com as de Davos, mas abre a perspectiva de que se multipliquem “mini-fóruns” em todo o mundo. A idéia é transformar a preparação dos fóruns em eixos de organização de lutas de massa – como a caravana para Buenos Aires –, de tal forma que as reuniões anuais sejam apenas um momento de aglutinação e organização de um processo muito mais amplo, abrangente e profundo.
Para dar sustentação orgânica a este processo, formou-se uma comissão coordenadora que terá, como principal objetivo, manter ativa uma rede de relacionamento nacional e internacional com os movimentos sociais, partidos políticos, ONGs e todos os que se associarem à luta contra o imperialismo. Em junho, deverá ser realizada uma plenária internacional de coordenação, para dar seqüência a todos os procedimentos.
Independentemente das divisões ideológicas – e, talvez, até estimulado por elas –, o Fórum anuncia um novo momento de vigor crítico e organizativo da esquerda internacional. Contra a ordem engessada e bruta do neoliberalismo, uma nova brisa de esperança democrática, fresca e leve, anima os movimentos sociais e populares, em todo o planeta.
Já não era sem tempo!
José Arbex Jr. é jornalista e professor do Departamento de Jornalismo da PUC-SP
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