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FSM – significado e perspectivas

APROPUC-SP
Chico Whitaker

Toda avaliação que se faça do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, de cujo Comitê de Organização participou a Comissão Brasileira Justiça e Paz1 , não pode deixar de lado um fato: ele ganhou a dimensão suficiente para se tornar um contraponto ao Fórum Econômico Mundial, que se realizava nos mesmos dias em Davos, Suíça. Todos os meios de
comunicação que cobriam Davos, no Brasil e no exterior, tiveram que abrir espaço para Porto Alegre. Os próprios organizadores do Fórum Econômico Mundial mencionaram o Fórum Social Mundial em seus discursos. O jornal Forum News Daily, publicação do Fórum Econômico durante os dias em que se realiza, mandou um correspondente para Porto Alegre para cobrir o que se passava no Fórum Social. Uma teleconferência de mais de uma hora, divulgada em muitas televisões do mundo, colocou frente a frente participantes de um e outro Fórum.

Mas essa avaliação será inteiramente diferente se for feita pelos que tiveram a possibilidade de participar do encontro de Porto Alegre, ou por aqueles que o acompanharam à distância. Para os primeiros, ele foi um enorme sucesso, um acontecimento marcado por um entusiasmo contagiante; os segundos, de forma geral, não chegaram nem de longe a ser tocados por esse entusiasmo. É o que se descobre quando se relata, para quem lá não esteve, o que se viveu no Fórum Social Mundial.
Isto já é um elemento de avaliação, que se transforma num desafio: o de fazer chegar a muito mais gente do que esteve em Porto Alegre, no final de janeiro de 2001, toda a energia que lá brotou, e que a mídia não conseguiu ou não quis mostrar, simplificando o conteúdo e as perspectivas do encontro ou atendo-se a descrições periféricas das aparências ou a fatos mais sensacionais. Se ela não conseguiu mostrar que algo novo se passava, os responsáveis pelo encontro têm de descobrir em que falharam para convencê-la disso. Se não quis mostrar, ainda que não pudesse deixar de falar do encontro, é porque o Fórum Social Mundial tornou-se perigoso para o sistema que nos domina.
Não foi à toa que revistas brasileiras de grande circulação publicaram fotos da queima da bandeira dos Estados Unidos - ocorrida efetivamente um ou dois dias antes do Fórum em manifestação de bancários gaúchos - como se fosse o início do Fórum. Ou que se procurou reduzir o seu final a episódios ligados a ações de José Bové, cuja pretendida expulsão do Brasil alimentou ainda mais o sensacionalismo da imprensa. Ou que se procurou transformar o Fórum numa iniciativa do PT brasileiro ou simplesmente do PT do Rio Grande do Sul, para assustar quem não estivesse melhor informado. Esse bloqueio e as distorções de interpretação que foram divulgadas no Brasil e no mundo nos mostram que os donos do Brasil, aliados aos donos do mundo, ficaram preocupados.
Quantitativamente, as expectativas dos organizadores foram largamente ultrapassadas: previam quando muito 2,5 mil participantes e vieram 4 mil delegados, de mais de mil organizações de mais de 100 países, fazendo-se presentes também em torno de quinhentos parlamentares e prefeitos do Brasil e outros países e alguns governadores de Estados brasileiros, além de 6 mil outras pessoas que a eles se juntaram nas oficinas e quase outro tanto que se distribuiu pelos eventos, encontros e manifestações ocorridas em Porto Alegre - acompanhados, fotografados, entrevistados por mais de mil jornalistas de todo o mundo.
Este afluxo - que foi crescendo com cada vez mais força à medida que se aproximava a data do Fórum e sua proposta se tornava mais conhecida - tinha uma explicação: a oportunidade da convocação. No plano mundial, era a hora de se dar um salto qualitativo nas manifestações que nos últimos três anos vêm contestando as decisões das multinacionais e dos governos, FMI, OMC e Banco Mundial a seu serviço. Nos mesmos dias em que, em Davos, os donos do mundo se encontravam, disputou-se a mídia internacional, para protestar mas também e principalmente para discutir como fazer para construir um mundo novo, a partir do que já se faz de alternativo. A presença maciça de brasileiros, por sua vez, sinalizou que o discurso presunçoso que desqualifica opositores, tão ao gosto dos nossos atuais governantes, já cansou, e se torna imperioso reagir com força à submissão de nosso País aos interesses do capital internacionalizado.
Qualitativamente, já se pode dizer que, a partir de Porto Alegre, não mais existe um "pensamento único" sobre o futuro da humanidade, que pretendeu decretar o "fim da história". O Fórum Social Mundial deu a partida a um processo de reflexão sobre o que seria um outro mundo centrado nas necessidades humanas e não na lógica do dinheiro. Este outro mundo é possível, e para construí-lo se está aprendendo muito com o que a humanidade já experimentou, às vezes dolorosamente, para fazer com que o "social", ou o "societal", como se prefere dizer hoje na França, conduza o processo de produção e distribuição de riquezas. A própria noção de "riqueza" foi questionada em Porto Alegre, abrindo espaço para novas buscas.
Esse tipo de questionamento mais profundo - como muitos outros que surgiram em Porto Alegre - foi possível pela forma como seus participantes trabalharam pelas manhãs. Os organizadores do Fórum construíram um amplo temário, com quatro eixos de reflexão, que consideravam desde o modo de a humanidade produzir riquezas e como se poderia assegurar a todos a acessibilidade a essas riquezas, sem riscos de descontinuidade, até o papel da sociedade civil e dos espaços públicos na organização social, o poder político e a ética no exercício desse poder. Para cada eixo foram formuladas quatro questões - situadas na realidade atual de um mundo ainda mais integrado pelo processo de globalização. Essas questões foram propostas, com muitos subitens, aos palestrantes convidados, vindos de todo o mundo, escolhidos entre pessoas com militância ou estudo acumulados sobre essas questões.
Contando-se com esses palestrantes realizavam-se, todos os dias, quatro plenários concomitantes, de que participavam, cada um, perto ou mais de mil pessoas, em que não se pretendia oferecer interpretações definitivas ou palavras de ordem, mas as respostas que os palestrantes consideravam que podiam dar às questões que lhes foram colocadas. A lição aprendida da experiência, aplicada nessa parte do Fórum, foi a de que ainda temos - e talvez o tenhamos sempre - muito mais questões do que respostas sobre os modos concretos como as sociedades poderão vencer os desafios civilizatórios que enfrentam, e precisamos buscar e continuar buscando, ninguém devendo ou podendo se impor como portador de verdades definitivas.
Dentro dessa dinâmica de palestrantes convidados, o Fórum teve também momentos de grande emoção, quando pessoas com uma experiência de vida ou uma reflexão particularmente significativa tiveram espaço para dar seus testemunhos. Alguns desses testemunhos atraíram participantes em número muito maior do que comportavam as salas, criando inclusive situações de difícil solução material.
Outra grande lição do aprendizado da humanidade, que se refletiu intensamente no Fórum, foi sobre a necessidade de se respeitar, democraticamente, a pluralidade e a diversidade de aspirações, objetivos e sonhos que movem o ser humano. Porto Alegre mostrou que é necessário e possível viver essa diversidade. A parte da tarde dos dias do Fórum era dedicada a oficinas sobre temas propostos pelos próprios participantes: mais de 400 oficinas superlotaram todos os espaços disponíveis da PUC de Porto Alegre, tendo que extravasar para as salas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Cada uma organizada da sua forma, convidando expositores de sua própria escolha, programando continuidades, estruturando novas redes, firmando compromissos e fazendo as declarações e chamamentos que seus próprios participantes assumiam.
Mais do que as conferências das manhãs, esse espaço aberto no Fórum Social Mundial foi o mais rico e prometedor, pelas trocas de experiências e novas articulações que proporcionou para a continuidade da ação transformadora das entidades e organizações que participavam das oficinas. Trata-se de um lado de respeitar efetivamente a diversidade e de outro de fazer frutificar a riqueza que dela nasce, quando se dá realmente a cada um a condição de sujeito de suas opções de vida, e quando se considera que a democracia é uma condição essencial que deve regular, na transparência, as relações entre pessoas e entre povos.
Uma terceira lição foi traduzida na opção de não se terminar o Fórum com um documento final, com a pretensão de sintetizar tudo que nele tivesse sido dito e discutido, canalizando esses conteúdos para algumas poucas afirmações que fornecessem uma orientação única para seus participantes. Ou seja, um novo "pensamento único" no lugar daquele que se está contestando. A não apresentação de um documento final já era a orientação dos organizadores do encontro ao começar a prepará-lo. O acerto dessa orientação foi confirmado com sua realização. Já seria difícil construir um documento desse tipo, dada a diversidade, a multiplicidade e a riqueza de análises e propostas de ação que emergiram das 400 e poucas oficinas. Mas mais do que isso ele seria fundamentalmente empobrecedor, além de contraditório, com a opção de se dar a palavra a todos, deixando a todos o direito de tomarem suas próprias decisões sobre o que fazer. O Documento Final do Fórum foi na verdade o conjunto de documentos elaborados pelos seus participantes, que neles encontrarão, à medida em que forem colocados à sua disposição através da Internet ou de publicações específicas, instrumentos para a continuidade de sua ação.
Por outro lado, o Fórum só aceitava a inscrição de quem viesse representando uma entidade, movimento ou organização. Todos os que para lá se dirigiram já eram portanto pessoas engajadas, de algum modo, em algum tipo de ação transformadora visando superar a hegemonia neoliberal. Instituir-se, como Fórum, em direção desse movimento humano multifacético - alimentado e reforçado pelo que foi nele vivido e discutido - seria, além de pretensioso, um obstáculo ao aumento de sua força.
O entusiasmo e a energia que perpassaram o Fórum resultou naturalmente de fatores como os acima descritos. Seus participantes pareciam estar acordando de uma prolongada sonolência paralisadora, reencontrando-se na alegria e na esperança. Daí o entusiasmo que contagiou a todos. Ficou claro que se estava começando a construir uma nova e poderosa barreira ao domínio do neoliberalismo no mundo. A sociedade civil estava se globalizando na luta contra a lógica perversa e cruel da acumulação do capital, e ganhando com isso uma força com a qual antes não contávamos. Nascia a combinação de uma resistência, mundialmente articulada, à globalização a serviço do dinheiro, com a formulação de alternativas para a construção de outro mundo, centrado no ser humano. Foi um acontecimento efetivamente histórico. Como premonitoriamente disse Inácio Ramonet no Le Monde Diplomatique, um mês antes da realização do Fórum Social Mundial, "o século 21 começa em Porto Alegre".
Mas tudo isso não foi suficientemente percebido por quem acompanhou o Fórum à distância. Muito pouca gente no Brasil foi atingida pelo sopro que nasceu em Porto Alegre. Menos ainda em outros países do mundo: embora houvesse delegações numerosas, especialmente de países mais próximos ou da Europa, muitos dos países presentes tinham alguns poucos ou mesmo um ou dois representantes. A tarefa agora passou a ser, portanto, a de difundir ao máximo o que se passou em Porto Alegre e o que significou o Fórum Social Mundial. Isto já começa a ocorrer entre nós - eu mesmo participei de vários encontros desse tipo nestas duas semanas depois do Fórum - e estamos recebendo notícias de reuniões e eventos que estão sendo organizados em outros países com esse objetivo. Será necessário intensificar esse esforço, contando com o testemunho sempre entusiasmado dos que estiveram em Porto Alegre. Mas será necessário também dar continuidade ao Fórum.
A opção adotada pelos organizadores do Fórum, apresentada em Porto Alegre na sua sessão de encerramento, é a de aumentar esta onda antineoliberal, que aprofunda a proposta de um mundo novo, espalhando-a pelo mundo afora. Decidiu-se procurar realizar Fóruns como o de Porto Alegre em diferentes países do mundo, para que em cada um a onda se propague e atraia para essa luta carregada de esperança um número crescente de pessoas desses países e dos seus países vizinhos, como ocorreu em Porto Alegre com o Brasil e seus vizinhos.
E agora? Os anos pares serão multipolares: simultaneamente, em diferentes países, nas mesmas datas de Davos, um conjunto de Fóruns Mundiais interligados. Nos anos ímpares, um único Fórum Mundial. O neoliberalismo que se cuide: uma onda avassaladora nasceu em Porto Alegre, para se contrapor ao seu domínio e mostrar que "um outro mundo é possível".

Chico Whitaker é secretário-executivo da Comissão Brasileira Justiça e Paz. Texto apresentado à Comissão Episcopal de Pastoral (CEP) da CNBB em 21/2/2001

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