Conclamação da Aliança Social Continental
O Fórum Social Mundial demonstra a capacidade de resistência da sociedade e fortalece em todos nós a crença de que um outro mundo é possível. Sua realização revela o potencial de mobilização e resistência das organizações sociais face a uma globalização marcada pelo descompasso entre o desejo das sociedades e os interesses dos mercados. Sob a hegemonia do pensamento conservador, os governos dos países ricos e pobres cumprem cada vez menos o compromisso básico de promover o bem comum, a democracia e a justiça social. Em meio ao processo de globalização, o Estado tornou-se refém dos mercados, dominado pelos investimentos privados, as multinacionais e o capital especulativo, expondo nossas sociedades a um saque sistemático dos recursos humanos e naturais.
O processo de globalização das Américas encontra-se em estágio avançado e suas conseqüências sociais sobre o emprego, o meio ambiente e a crescente exclusão social são amplamente conhecidas. Atualmente a iniciativa de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) pretende perpetuar as políticas de liberalização preconizadas pelos organismos multilaterais. Ao contrário do que o seu nome sugere, a Alca representa bem mais do que um acordo comercial, abrangendo áreas de serviços, investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual. Além da falta de transparência e participação, a Alca se caracteriza pelas assimetrias dos países envolvidos. A pretexto de promover o livre comércio, ela visa eliminar o controle sobre os investimentos externos, favorecendo principalmente as grandes corporações transnacionais. Foi assim no Nafta, no Mercosul e nos demais acordos comerciais regionais, bilaterais e multilaterais. As multinacionais têm sido as principais beneficiárias desses acordos. A maioria da população está à margem do mercado e não se beneficia das promessas do livre comércio.
A Aliança Social Continental é uma iniciativa de convergência e concertação. Representamos a emergência de um ator social de novo tipo formado por um conjunto de organizações sociais e sindicais do norte e do sul das Américas. Temos denunciado o caráter antidemocrático e clandestino como vem se dando as negociações para a implantação da Alca. Enquanto os empresários influem os governos por intermédio do Fórum Empresarial das Américas, as organizações representativas dos trabalhadores e da sociedade civil permanecem completamente excluídas. Assim como combatemos a realização do Acordo Multilateral de Investimentos (AMI), estamos resistindo a essa tentativa de liberalização comercial e financeira das Américas. Não aceitamos nenhum acordo que, a pretexto de promover o livre comércio, represente uma ameaça ainda maior para o meio ambiente, os direitos humanos, a igualdade das mulheres, os direitos sociais, os direitos trabalhistas e tantas outras conquistas sociais. Como dissemos na I Conferência dos Povos das Américas, realizada em Santiago do Chile, “a América não precisa de livre comércio. Precisa de comércio justo, investimentos regulados e consumo consciente para privilegiar nossos projetos nacionais de desenvolvimento”.
Na Segunda Conferência dos Povos, a realizar-se de 16 a 21 de abril de 2001, na cidade de Quebec, no Canadá, prosseguiremos debatendo estratégias de resistência à Alca e formulando propostas alternativas para a integração continental. Um primeiro passo nessa direção serão as grandes mobilizações que se realizarão em Buenos Aires em princípios de abril, paralelamente à Reunião de Ministros de Comércio da Alca.
Chamamos o Fórum Social Mundial a unir-se aos esforços da Aliança Social Continental para que Buenos Aires e Quebec sejam os próximos pontos de encontro das organizações sociais e sindicais das Américas para combater as bases da Alca. Estamos convencidos que a Alca não corresponde aos desejos de integração econômica, social e cultural de nossos povos, além de representar uma ameaça à soberania nacional. Não podemos abrir mão de projetos de desenvolvimento econômico e social em nome do livre comércio. A verdadeira integração das Américas deve se basear na implementação e coordenação de políticas nacionais e regionais de desenvolvimento econômico e inclusão social.
Chamamos aos organizadores, delegados e delegadas do Fórum Social Mundial a estar conosco em uma expressão de internacionalismo de novo tipo para lutar para que modelos como a Alca não consigam ser implantados em nossa América. Seguindo as pegadas de Seatle e Praga, seremos milhares em Buenos Aires e na Segunda Conferência dos Povos, lutando por novos rumos para a integração continental baseada na democracia, na justiça social e na solidariedade entre os povos das Américas.
Aliança Social Continental: www.cumbredelospueblos.org
Texto do sítio do Fórum Social Mundial, publicada em 23/02/2001
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