Transgênicos: uma questão estratégica
|
Marco Aurélio Weissheimer A discussão envolvendo o desenvolvimento de organismos geneticamente modificados (OGM), os transgênicos, extrapolou o domínio estrito da comunidade científica e transformou-se numa questão política estratégica. A decisão do governo do Rio Grande do Sul no sentido de proibir o cultivo de plantas transgênicas no Estado incendiou o debate. O governo gaúcho posicionou-se firmemente contra a produção e o consumo de alimentos geneticamente modificados, somando-se ao esforço de inúmeras entidades da sociedade civil que lutam contra a proliferação dos transgênicos enquanto não se tem uma maior clareza a respeito de seu impacto econômico e ambiental. A pressão pelas No final dos anos 80 começou a surgir uma forte pressão internacional, capitaneada pelo Acordo Geral de Preços e Tarifas (GATT), favorável à aprovação do novo código de propriedade intelectual. Foram propostas três grandes mudanças, nas áreas de programa de computador, indústria farmacêutica e patenteamento de seres vivos. Antes da aprovação do novo código, o Congresso Nacional brasileiro viveu um intenso debate sobre o tema. O governo brasileiro foi pressionado pelo governo dos Estados Unidos a aprovar a nova legislação, recebendo inclusive ameaças de represálias comerciais em caso de resistência. O Brasil acabou aprovando o código de propriedade intelectual, reconhecendo retroativamente patentes que já eram de domínio público, e permitindo o patenteamento de seres vivos transgênicos. No início dos anos 90, foi criada a Organização Mundial do Comércio (OMC), que tratou de aumentar a pressão em favor do novo código. Em março de 1995, o Parlamento Europeu recusou-se a votar o capítulo sobre patenteamento de seres vivos, considerando antiética a mera discussão do assunto. Uma evolução São seres que não passaram pelo lento processo de evolução das espécies e que são introduzidos na natureza de modo abrupto. Para Francisco Milanez, este é um dos principais problemas desta técnica. Segundo ele, a introdução de seres criados em laboratório por meio do cruzamento de material genético de espécies distintas origina um fator de desequilíbrio no ambiente natural. “Estes novos seres não terão passado pelo processo de evolução harmoniosa das espécies. Por essa razão, representam um risco ambiental estrutural. Mesmo que não saiam matando diretamente, eles vão ocupar o lugar de outros seres naturais, seja pela eliminação direta, seja por um enfraquecimento progressivo. A introdução crescente de organismos geneticamente modificados, em larga escala, resultará na redução da biodiversidade natural”. Hegemonia destrutiva Milanez enfatiza o risco ambiental da adoção da nova técnica: “a hegemonia de uma espécie transgênica pode destruir rapidamente a diversidade interna da espécie natural, empobrecendo-a e tornando-a mais suscetível a todo tipo de problema. O topo deste processo é a clonagem, que permite a criação de centenas de indivíduos iguais, como é o caso das matas de eucalipto plantadas, no próprio Rio Grande do Sul, pela multinacional Riocell. Se um indivíduo for afetado por alguma doença, todo o conjunto o será, uma vez que a diversidade entre os indivíduos foi eliminada”. Ele lembra que o Rio Grande do Sul tinha centenas de variedades de milho, adaptadas às particularidades de cada região. “Isto tudo foi sendo perdido com o surgimento do milho híbrido”, diz o biólogo. “A segunda geração de milho híbrido gera indivíduos que não possuem as propriedades da primeira. Assim, a cada plantio, é preciso comprar um novo lote de sementes de híbrido. As centenas de varietais de milho foram reduzidas a umas poucas. As outras viraram ração para galinhas e porcos. Hoje, está se tentando recompor algumas destas variedades, mas este processo de recomposição é lento, ao contrário do caminho da destruição”. O poder da Monsanto e Grandes empresas multinacionais, como a Monsanto, a Novartis e a AgrEvo, estão investindo milhões de dólares em pesquisas sobre transgênicos. Algumas das novas plantas criadas através destas pesquisas foram desenvolvidas para serem resistentes a agrotóxicos que estas mesmas empresas fabricam. O problema é que as conseqüências do uso destas plantas, modificadas geneticamente, na agricultura, no meio ambiente e na saúde do consumidor ainda não são suficientemente conhecidas. E quanto mais se pesquisa, mais se descobre que podem trazer problemas. Suspeita-se, por exemplo, que a soja misturada com genes de bactérias esteja aumentando as alergias. O milho, outra planta fundamental para a alimentação humana, foi cruzado com uma bactéria para ter poder inseticida. Descobriu-se recentemente que ele mata outros insetos, e não apenas a praga para o qual foi desenvolvido, podendo acarretar graves danos ao equilíbrio dos ecossistemas nos quais foi introduzido. O fator soja A chegada ao Brasil da soja transgênica resistente ao Roundup também preocupa o engenheiro agrônomo Sebastião Pinheiro. Em sua “Cartilha sobre Transgênicos”, ele observa que o Roundup é um herbicida da Monsanto que mata qualquer planta, inclusive a soja. Mas a soja transgênica, produzida pela mesma empresa, que recebeu um gene resistente ao Roundup encontrado em algas e bactérias, não morre quando se utiliza este agrotóxico para eliminar as ervas daninhas na lavoura. De acordo com o pesquisador, as indústrias passarão a criar cada dia mais produtos e tornar sua soja viciadas neles, deixando o agricultor à mercê do mercado e sem apoio oficial para investir na agricultura ecológica, o que provocará uma maior contaminação do solo, da água e dos alimentos. Perigosa e cada O glifosato – cujo nome comercial é Roundup – é a terceira maior causa de problemas de saúde em agricultores norte-americanos, em virtude do alto grau de alergias de vários tipos que provoca. Quando no solo, mantém um poder residual por grandes períodos, afetando também os lençóis freáticos. Cerca de 70% dos alimentos processados têm soja ou milho entre seus ingredientes. A soja está presente em cerca de 60% dos alimentos vendidos nos supermercados. Adeus às sementes O principal interesse econômico nessa técnica é impedir que o fruto ou grão de uma variedade comercial se torne uma semente, exterminando assim o potencial reprodutivo daquela planta. Os agricultores, que então seriam obrigados a adquirir novas sementes a cada safra, deixariam ainda de exercer o papel que vêm desempenhando há mais de dez mil anos: o trabalho de melhoramento das variedades realizado através de cruzamentos e seleção de sementes. A posição adotada pelo governo Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, bate de frente com a estratégia destas grandes corporações e já está gerando uma ferrenha disputa judicial e política. O Rio Grande do Sul produz 22% da soja brasileira. Somados aos 9% produzidos pelo Mato Grosso do Sul, outro Estado importante na produção de soja (e também governado pelo PT), pelo menos 31% da soja produzida no Brasil seria “OGM free” (não-transgênica). Em vários países europeus há pressões para diferenciar a soja transgênica da não-transgênica, com diferenciação de preços. A tendência é que a soja convencional obtenha melhores preços. Há referências de preços significativamente maiores da soja convencional em relação à soja transgênica. Assim, observa Francisco Milanez, além de levar em conta preocupações de caráter ético e ambiental, a postura do governo gaúcho pode resultar num ganho econômico para os produtores do Estado. O cronograma das disputas judiciais 24/07/98 - A 6ª Vara da Justiça Federal de Brasília, deferindo parcialmente liminar impetrada pelo Greenpeace (reivindicava suspensão da comercialização de óleo feito a partir de soja transgênica, produzido pela Ceval), determinou que a Associação Brasileira de Óleos Vegetais (Abiove) modificasse os rótulos de todos os óleos feitos a base de sementes de soja transgênica, para que as embalagens trouxessem informações sobre a composição do óleo e sobre os riscos à saúde. A autorização para comercialização do óleo de soja transgênica havia sido dada à Ceval pela CNTBio em setembro de 1997, quando foi importado 1,5 milhão de toneladas de soja dos EUA (15% desse produto era modificado geneticamente). Endereços na Internet Mais informações sobre a questão dos transgênicos podem ser obtidas na Internet, nos seguintes endereços:
Biblioteca das Alternativas do Fórum Social Mundial. Publicado na Revista da Adurgs. |
|
Voltar
|
Versão em PDF
|
Encaminhar
|
Imprimir
|










