Personagens - Nada mais concreto que a filosofia
NADA MAIS CONCRETO QUE A FILOSOFIA
Conversar com a mineira Salma Tannus Muchail foi como fazer um passeio pela história da Filosofia da PUC e do País. Sua trajetória acadêmica se confunde com a história dessa ciência na universidade. A professora, além de nos contar essa cronologia, nos mostrou como e por que a Filosofia interage com todas as outras ciências e como ela está presente e é necessária para a preservação de nossos valores humanísticos.
Como exemplos de autores que estuda, Salma cita Michel Foucault. “Antes dele e também com ele, Merleau-Ponty”, filósofos que transitam nas fronteiras de várias ciências. Fora do ambiente acadêmico não esconde a sua predileção por jogos – de cartas, especialmente.
Aproveitando uma ‘janela' entre uma aula e outra, gravamos este depoimento. Num esforço de distanciamento, tentamos olhar a PUC de cima de uma árvore ou de um banco de praça. O resultado está nas páginas seguintes.
Nos fins dos anos 60, Salma foi chamada para substituir o professor Alexandre Correia, durante um mês, na então Faculdade Sedes Sapientiae. Não saiu mais: está na PUC há mais de 30 anos.
“Quando vim para São Paulo conhecia praticamente nada da cidade e pouquíssimas pessoas. Apresentei meu currículo na Faculdade São Bento e na Faculdade Sedes Sapientiae, ambas da PUC. A primeira recusou meu currículo. Suspeito que o veto foi por razões ideológicas. Embora eu tivesse estudado em Louvain, uma Universidade também católica, eu recebera uma formação mais diversificada e menos dirigida como então parecia ser a daqui. Quanto ao Sedes, lá não tinha vaga. Assim que apareceu uma necessidade de substituição, fui convidada pela professora Irmã Laura Fraga Sampaio a preenchê-la. Aquele um mês acabou se tornando 30 anos. Entrei substituindo um grande professor, Alexandre Correia. Era uma época em que a Universidade fervia, tanto aqui como na Europa. Participei muito desse período”.
Salma começou sua formação universitária na PUC de Campinas, fazendo Pedagogia. Mas logo se convenceu de que não era aquele o curso que preferia. Dois professores belgas propuseram que a jovem aluna fizesse Filosofia e que depois teria uma bolsa para estudar fora. Apesar do receio inicial, acabou indo para a Europa. “Completei o bacharelado no Brasil e depois fui para a Universidade de Louvain. Lá fiz outra vez o bacharelado, o mestrado e parte do doutorado. Sempre em Filosofia”. Voltou da Bélgica antes de defender o doutorado. “Suspendi a tese de doutorado e vim para o Brasil. Vim sem ter perspectiva de trabalho profissional.”
Ela relata o caminho que percorreu e que a levou para os braços da Filosofia. “Houve, inicialmente, um motivo muito circunstancial, trivial até, e depois outros, é claro. Nasci numa cidade muito pequena, chamada Prata, no interior de Minas. Quando ainda menina, minha família mudou-se para Uberlândia. Lá ainda não tinha universidade. As pessoas que desejassem estudar tinham que sair da cidade. Eu queria continuar os estudos mas não sabia o que escolher. Ora, tive uma professora de Filosofia que eu respeitava muito mas não gostava nada do que ela ensinava. Achava que não iria gostar nunca daquilo. Por outro lado, adorava as aulas de outra professora que havia cursado Pedagogia”. Depois, conta Salma, na PUC de Campinas, numa sala com 80 alunos de Pedagogia, “havia duas ou três disciplinas de que participavam uns oito alunos de Filosofia. Eu me dava melhor com eles, gostava daquelas matérias e descobri que gostava de Filosofia...”.
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