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Política e economia - As eleições 2000 e suas implicações para 2002

APROPUC-SP
Marco Antonio Carvalho Teixeira é doutorando em Política no programa de pós-graduação em Ciências Sociais da PUC-SP e Pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp)

Após serem divulgados os resultados eleitorais de 2000, analistas, lideranças e estrategistas dos partidos governistas e oposicionistas logo se apressaram em apresentar as mais diversas avaliações, procurando maximizar o desempenho de suas legendas, mesmo quando as urnas impuseram derrotas significativas a seus candidatos, além de minimizar os desempenhos positivos alcançados por seus adversários.
Discutir o avanço dos partidos de esquerda no processo eleitoral de 2000 e verificar as possíveis implicações para as eleições 2002 é o que faremos neste artigo. Apresentaremos alguns dados relativos aos resultados das eleições, para com isso verificarmos se realmente, como disse o presidente da República, “não houve vencedores”, ou se ocorreu um avanço dos partidos de oposição, capitaneados pelo PT, como toda imprensa nacional buscou repercutir.

O cenário pré-eleitoral

Rupturas políticas e rearranjos nas alianças eleitorais foram a tônica na preparação das candidaturas para as eleições de 2000. Nos partidos de oposição, a cisão mais importante ocorreu entre o PT-PDT no Rio de Janeiro. Desse fato seguiu-se a impossibilidade de alianças entre esses dois partidos em capitais como São Paulo e Porto Alegre. No caso paulistano, o PDT preferiu marchar com a candidatura Luiza Erundina (PSB), num momento em que a ex-prefeita despontava como a segunda colocada na preferência do eleitorado e ameaçava desbancar a posição do PT de principal força política de oposição na cidade. Em Porto Alegre, os pedetistas optaram por lançar candidatura própria para, no segundo turno, se aliar aos partidos mais conservadores na tentativa de quebrar a série de três gestões consecutivas dos petistas à frente da prefeitura.
No campo situacionista, houve diversos focos de enfrentamento entre tucanos e pefelistas, decorrente, principalmente, do interesse do PFL em apresentar candidato próprio ao Palácio do Planalto e da dificuldade do PSDB em construir um nome com viabilidade eleitoral para a mesma disputa. Os pefelistas não marcharam com os tucanos em importantes capitais como Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo.
Os pefelistas tinham planos mais ambiciosos pois gostariam
de se transformar no principal partido da aliança de sustentação a FHC. Apostavam na continuidade de seus prefeitos em Curitiba, Recife, Rio de Janeiro e Salvador, e ainda lançaram candidato à Prefeitura de São Paulo pela primeira vez desde a existência da legenda.
Assim, o cenário pré-eleitoral apontava para uma expectativa de crescimento do PT e do PFL. Os petistas esperavam por vitórias em capitais como Porto Alegre e São Paulo, além de importantes centros urbanos como Ribeirão Preto, Diadema e Santos; Almejavam também continuar à frente de prefeituras de grandes cidades como Caxias do Sul, Blumenau, Santo André, Mauá, Angra dos Reis, Betim e Ipatinga.
Prevalecendo esse cenário, ocorreria uma fragmentação da aliança eleitoral que levou FHC ao seu segundo mandato, e haveria também o fim da aliança PT-PDT, firmada em torno da candidatura Lula-Brizola em 1998, e que foi responsável pela vitória da chapa Anthony Garotinho-Benedita da Silva para o governo do Estado do Rio de Janeiro no mesmo ano.

As grandes cidades no cenário

O fato de governar grandes cidades e importantes capitais pode representar um peso significativo nas articulações para a sucessão presidencial. Não está em jogo apenas o voto de milhares de eleitores, mas também o manuseio de preciosos recursos orçamentários. Isso coloca governantes e partidos à frente dessas prefeituras na condição de vitrine para o jogo político nacional. Por isso mesmo, as mais importantes peças do xadrez político de 2002 não pouparam esforços no apoio aos aliados e também para evitar que seus adversários mais imediatos avançassem sobre os grandes centros urbanos nas últimas eleições municipais.
O governador Garotinho, que tem pretensões ao planalto em 2002, apoiou o PFL durante o segundo turno na capital carioca tentando evitar a vitória de César Maia, e se esforçou para derrotar o PT em cidades importantes no contexto estadual como Angra dos Reis e Barra Mansa. O governador mineiro Itamar Franco não poupou esforços no sentido de impedir o incômodo político que lhe representaria as vitórias tucanas em Belo Horizonte e Juiz de Fora. Leonel Brizola buscou reaver seu espaço no campo da esquerda rompendo com Garotinho e tentando derrotar o PT em várias cidades gaúchas por intermédio de alianças com partidos conservadores que sempre foram seus principais adversários no Rio Grande do Sul. No PSDB, Tasso Jereissati chegou a trocar farpas com FHC por causa da aliança política regional firmada com um dos principais desafetos políticos do Planalto, o ex-ministro Ciro Gomes.
Cada uma dessas lideranças de relevo nacional apostaram alto de olho em 2002. Mas, se os resultados alcançados não significam um vínculo mecânico com as possibilidades de cada partido para as próximas eleições, eles demonstram que pelo menos neste momento há agremiações partidárias que estão de antemão mais fortalecidas e outras que deverão buscar composições ou até mesmo atrair quadros com densidade eleitoral que possam viabilizar seus planos. Vejamos um panorama dos resultados eleitorais e uma análise sobre seus desdobramentos na seção seguinte.

O desempenho dos partidos

Marcadas por cisões políticas e por uma competitividade pouco vista na recente história brasileira, as eleições 2000 foram cercadas de expectativas sobre o desempenho dos governistas devido ao desgaste de FHC, e também em relação ao crescimento da oposição. Outra expectativa relacionava-se ao impacto da impopularidade de Celso Pitta e dos escândalos de corrupção sobre a candidatura de Paulo Maluf a prefeito de São Paulo. No quadro abaixo verificaremos o número de prefeituras conquistadas pelos principais partidos.
A leitura do quadro I permite verificar que em se tratando de números absolutos de prefeituras conquistadas, o PMDB continua sendo o principal partido nacional, seguido pelo PFL e PSDB. Neste mesmo cenário, a importância do PT acaba sendo minimizada, pois os petistas ocupariam a oitava posição sendo suplantando pelo PL, PDT, PTB e PPB.
Também podemos fazer a leitura desses números organizando os partidos em diferentes blocos: governistas, oposicionistas e demais partidos, para com isso verificarmos a densidade eleitoral usando como o critério o posicionamento em relação ao governo federal. No quadro II iremos encontrar essa informação.
Verificando os quadros I e II, poderíamos ter a impressão que os aliados de FHC foram os grandes vencedores das eleições municipais de 2000 e que o desempenho eleitoral da oposição foi irrisório. Mas, olhar apenas à partir desses dados seria simplificar a análise ao não levar em conta as diferenças de peso econômico e eleitoral de cada cidade.
Observando o desempenho eleitoral dos partidos nas 26 capitais e 36 municípios com mais de 200 mil eleitores1 , os resultados irão se alterar de maneira significativa. Vejamos no quadro III.
Nos dados revelados pelo quadro III, verifica-se que o Partido dos Trabalhadores obteve o melhor desempenho eleitoral se compararmos com os resultados das demais legendas. Em seguida vem o PSDB e logo após o PMDB. Vale destacar que nesses municípios residem 36,4 milhões de eleitores ou cerca de 34% de todo eleitorado brasileiro.
Vamos adotar para esses dados o mesmo critério utilizado em relação ao número total de prefeituras para verificar os resultados dos partidos por blocos de apoio e oposição ao governo federal. Dividiremos os partidos em blocos governistas, oposicionistas e demais partidos, para assim obtermos o desempenho nas grandes cidades. Vejamos o quadro IV.
Os dados presentes no quadro IV revelam que nas capitais e demais municípios com mais de 200 mil eleitores, os partidos de oposição conseguiram um desempenho bem próximo ao dos governistas. Mas, se nos atermos apenas ao número de eleitores que serão governados por cada um dos blocos, verificaremos que os oposicionistas alcançaram melhores resultados nos centros com maior concentração populacional. Vejamos o quadro V.

A leitura do quadro V permite verificar que se adotarmos como critério a análise do desempenho em relação ao tamanho do eleitorado a ser governado, os partidos oposicionistas estão em ligeira vantagem sobre os governistas.
Essa é uma leitura feita com base na divisão de blocos e supondo que as forças partidárias que hoje dão sustentação política a FHC marcharão juntas em 2002. Da mesma forma, a análise vale também para o bloco oposicionista, a pesar de o quadro decorrente do processo eleitoral 2000 apontar para uma fragmentação dos partidos que fazem parte desse bloco com a inviabilização de uma candidatura única de oposição. Na seção seguinte trataremos de uma avaliação das possíveis articulações políticas nas principais agremiações partidárias.

Uma avaliação dos principais partidos

Os resultados das eleições municipais não alteraram significativamente a atual correlação de forças políticas no plano nacional. O esperado o enfraquecimento do PSDB não foi tão acentuado, e a expectativa de crescimento do PFL não se confirmou. Pelo contrário, os pefelistas saem menores do que entraram nessas eleições ao amargarem perdas importantes como as ocorridas no Recife e Rio de Janeiro, e o desempenho abaixo das expectativas em Curitiba.
O senador Antônio Carlos Magalhães tornou-se a única liderança política vitoriosa no PFL ao reeleger o prefeito de Salvador. Além disso, ele verá cerca de 90% dos municípios baianos serem administrados por seus aliados. Assim, ACM retoma o papel de interlocutor principal do PFL e já vem defendendo abertamente a reedição da aliança com os tucanos ao lançar a dupla Tasso Jereissatti e Jaime Lerner para o embate eleitoral de 2002.
Os tucanos, após saírem derrotados nas principais cidades brasileiras, parecem que se retraíram e não estão dando quaisquer sinais em torno de algum novo nome do partido para concorrer ao Palácio do Planalto. Os resultados das eleições e os problemas de saúde enfrentados pelo governador Mário Covas paralisaram a discussão do processo sucessório.
O PMDB, apesar de se manter como o partido que governa o maior número de prefeituras do País, permanece dividido em lideranças regionais e vem a cada eleição perdendo importância nos grandes centros urbanos. A exceção de Fortaleza, os peemedebistas não conseguiram vencer em nenhuma outra importante capital ou grande cidade. Com isso, o partido deverá esperar uma definição de seus principais aliados, notadamente PFL e PSDB, para depois discutir os rumos que tomará na sucessão presidencial.
No PPB, não há nada para se comemorar. A derrota de Paulo Maluf deixou o partido com uma única prefeitura importante em São Paulo: a de Santos. Fora do território paulista, o prestígio da legenda foi mantido em Santa Catarina, onde os pepebistas conseguiram reconduzir Angela Amin à prefeitura de Florianópolis. Ainda em São Paulo, os pepebistas viveram uma de suas piores fases ao verem diversos prefeitos do interior serem cassados por improbidade administrativa, e, em alguns casos chegaram a ficar presos2 .
Além disso, amargaram as denúncias de corrupção e o péssimo desempenho de Celso Pitta, que já abandonou o partido, à frente da prefeitura de São Paulo. É praticamente nula a possibilidade dos pepebistas lançarem candidatura própria ao Palácio do Planalto em 2002.
Os setores de esquerda, representados pelo PT, PSB, PDT e PPS, apesar de contarem com alguns candidatos já declarados: especialmente Lula e Ciro Gomes, só poderão revelar suas estratégias políticas após Itamar Franco e Anthony Garotinho definirem os destinos que irão tomar.
O governador mineiro Itamar Franco que abandonou o PMDB, já viu seu nome colocado entre os quadros do PSB diversas vezes, mas até o presente momento não definiu seu futuro. Os socialistas acenam com a possível candidatura de Itamar ao Planalto e assim romperiam a tradicional aliança com o PT.
O governador Garotinho, que se viu obrigado a abandonar o PDT após diversos conflitos com Leonel Brizola, acenou com a possibilidade de ingressar no PSB, mas desistiu momentaneamente após verificar a preferência dos socialistas por Itamar Franco. Antes de mergulhar numa crise de relacionamento com Brizola e de ver o PT abandonar a base de sustentação ao seu governo, Garotinho era um nome quase certo para disputar as eleições presidenciais de 2002. Num dos dois cenários, o PSB poderá ter um candidato a presidência da República recrutado fora dos quadros do partido.
O PDT parece ser dentre os partidos de oposição o grande derrotado. A estratégia de Leonel Brizola em se lançar candidato a prefeito do Rio de Janeiro e de se aliar aos partidos conservadores para enfrentar o PT no Rio Grande do Sul mostrou-se trágica para a legenda. O candidato Brizola amargou o quarto lugar nas eleições para a capital carioca. O PDT, além de perder o embate para o PT nas cidades gaúchas, viu suas principais lideranças históricas do Rio Grande Sul abandonarem o partido.
Individualmente, o PT é o grande vitorioso. Com o desempenho da legenda nas últimas eleições municipais, cogita-se o lançamento de um nome alternativo ao de Lula para a sucessão presidencial. O argumento é simples, Lula é um nome bom de partida, mas péssimo de chegada, além de já ter sofrido três derrotas consecutivas. Se vingar a chapa Tasso-Lerner, defendida por ACM, os petistas precisarão de um nome com bom trânsito nos setores médios da sociedade para poder competir com a candidatura governista.
A possibilidade de o PT prescindir da candidatura Lula se justifica pelo ótimo desempenho obtido pela legenda não só em capitais como: São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Recife e Aracaju, como também em importantes pólos econômicos regionais do eixo Sul/Sudeste como: Caxias do Sul, Pelotas, Blumenau, Chapecó, Criciúma, Londrina, Maringá, Guarulhos, Ribeirão Preto e Campinas. Essas vitórias serviram para minimizar importantes derrotas com as ocorridas em Santos, Betim, Angra dos Reis e Barra Mansa.
O quadro político decorrente das eleições municipais de 2000 confirma parcialmente a análise feita por FHC em relação à inexistência de vencedores. Essa afirmação vale apenas para o bloco governista. O não triunfo do PFL acabou trazendo tranqüilidade ao governo e pode ter devolvido o controle da sucessão entre os governistas ao próprio FHC.
Se formos eleger um grande vencedor, o PT sem dúvida nenhuma é o maior merecedor desse título. Porém, o partido sabe muito bem que para além de vencer eleições é preciso fazer bons governos, caso contrário poderá se transformar no grande derrotado nas eleições de 2002.

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