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Uma releitura da globalização a partir da energia solar e religiosa

APROPUC-SP
Ênio José da Costa Brito é professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião (PUC-SP). Rua Ministro de Godói, 969 - Prédio Novo, 4.º andar, Sala 11 - 05015-001 - São Paulo - SP

“Mas o sol me deu a idéia
de um mundo claro algum dia”
(João Cabral, Auto do Frade)

Os estudos sobre a globalização1 se multiplicam. Saudada num primeiro momento como a solução para os graves problemas que afligem a humanidade neste final de milênio, lentamente, à medida que suas conseqüências se fazem sentir, passa a ser vista mais criticamente. Nossa perspectiva também será crítica, mas circunscrita à realidade brasileira, na qual as conseqüências deste processo extremamente dinâmico e envolvente são muito contundentes.
A globalização será olhada a partir da presença da energia em nossa realidade: presença física (energia solar) e religiosa (energia espiritual). No primeiro momento, mais sombrio, relembraremos o fato de o País, ou melhor, suas elites, fascinadas pelo canto das sereias globais, terem abandonado o projeto nacional. No segundo, mais solar, apoiado nas duas últimas obras do engenheiro e físico José Walter Bautista Vidal, indicaremos uma alternativa capaz de possibilitar a mudança no nosso modelo econômico dependente para outro, auto-sustentado. Finalmente, perguntar-se-á pelas energias religiosas, mais especificamente, pelas energias cristãs capazes de nos ajudar a construir um milênio mais includente, mais harmônico e mais justo.
Antes de entrarmos no tema, uma observação com relação à terminologia. Com muita freqüência se utiliza os termos internacionalização, mundialização e globalização como se fossem portadores de um mesmo sentido. Julgo oportuno distingui-los. Assim, internacionalização é uma tendência que sempre existiu entre os povos; mundialização começou no século 16, com as grandes navegações, quando os descobridores se lançaram ao mar em busca de terras inexploradas. A globalização tem início com a revolução da informática na década de 70.

1. A capatazia das classes dirigentes: o abandono
do projeto nacional

O Brasil está de joelhos! É preciso saber qual dos Brasis está ajoelhado. Para um dos mais importantes geógrafos do Brasil e do mundo, Milton Santos, professor emérito da Universidade de São Paulo, é a “nação de cima” que está ajoelhada e segue sempre as recomendações dos países ricos.
“Felizmente, os pobres também fazem política no Brasil... Em virtude de sua permanente privação, os pobres não têm repouso intelectual e são, cada dia, obrigados a esse trabalho de descoberta do novo que acompanha sua própria sobrevivência. Por conseguinte, pelo simples fato de existirem, eles reinterpretam o mundo, ainda que de modo fragmentário ou parcial, exigindo que se estabeleçam as pontes entre suas visões locais e a realidade total, de modo que seu conhecimento seja íntegro.” (Santos, 1999: 21)

Um olhar
sobre a história

Um simples olhar para nossa história recente revela-nos um País se construindo como Nação, criando sua margem de independência política, econômica, social e cultural. Para Plínio de Arruda Sampaio, foi Caio Prado Jr. quem percebeu com clareza este movimento:
“Ele diz que a constante de nossa história, o traço característico dela, é essa transição do Brasil colônia para o Brasil nação. Diz ainda que toda a nossa história se explica por este esforço de várias fontes, de várias origens, de várias maneiras com vários propósitos, mas sempre esse esforço de estar construindo uma nação ou seja um Estado Nacional”. (Sampaio, 1999: 58)
O Brasil dos anos 30 a 80 realizou um esforço ingente para criar um Estado Nacional independente. Em apenas 50 anos, o Brasil deixa de ser um país agrícola e se industrializa. Este processo de criação de uma nação exigiu sacrifícios. A burguesia comandou o processo, comando confuso e contraditório.
O processo de industrialização não resolveu duas contradições: a da disparidade brutal entre ricos e pobres, que impedia uma ampliação da riqueza e a dependência tecnológica. Não criávamos o suficiente e então comprávamos e pagávamos royalties.
A revolução econômica continuou seu curso. Só para relembrar, ao capitalismo mercantil seguiu-se o industrial, ao industrial o financeiro e a este o global. A cada mudança, tanto o centro como a periferia eram afetados.
Nos anos 70 e 80, o mundo assistiu à revolução tecnológica com a informática e à derrocada da revolução socialista. O Brasil sente os efeitos desses processos. A burguesia, que de 30 até os anos 80, tinha nutrido a idéia de construir uma nação independente diante de outras nações burguesas, sente o custo Brasil.2 Dar continuidade ao projeto exigirá sacrifícios e coragem. Faltou vontade política. Os militares, por primeiro, se retiram do cenário e a burguesia abdicou de um projeto nacional.3
O processo de globalização está em curso, acelera-se o processo de descaracterização do exercício da política. Ainda na expressão de Milton Santos:

“No Brasil [de hoje] a política genuína praticamente morreu. Quem aqui faz política? De um lado, as grandes empresas. Elas já chegam dizendo: vocês têm de nos dar tantos milhões para nos instalar, vocês têm de melhorar esta área... vocês têm de aceitar uma flexibilização do emprego e não sei mais o quê, vocês têm de reduzir nossos impostos... Então, as empresas acabam tendo influência na equação do emprego na área, na maneira pela qual a produção de outras empresas se dá, na forma como o orçamento público vai ser utilizado. Por conseguinte, são elas que fazem a política.” (Santos, 1999: 2)
Acelera-se o processo de entrega: quebra da reserva de mercado da informática, perda da capacidade de construir nossos remédios (Lei das Patentes); entrega do patrimônio: Usiminas, Vale do Rio Doce, Telecomunicações, só para citar algumas empresas.
O povo está atônito diante de uma burguesia que abriu mão de qualquer prurido de dignidade. Está chegando a hora de perguntarmos: queremos ser uma nação independente ou colonial?

Necessidade de um projeto alternativo

Para se pensar em alternativas é necessário fazer algumas pontuações:
Primeira, a globalização, sendo assimétrica, é marcada por uma enorme perversidade, que pode ser comprovada pelo desemprego e pela desestruturação das economias periféricas4 . Segunda, a globalização é profundamente idolátrica, seus ídolos são o dinheiro, o mercado e o consumo. Finalmente, ela é marcada, também, pela crueldade: o crescimento das massas de excluídos e a perda de compaixão para com os pobres são sinais reveladores desta crueldade.
A globalização ignora territórios e pessoas no momento mesmo em que estudos recentes têm mostrado a força do “lugar”. O lugar é o espaço do acontecer solidário, possui um outro tipo de poder, nele se produzem formas de sobrevivência, a economia informal cresce criativamente.
Mas o que vem a ser pensar um projeto alternativo para o País? É pensar um País à altura do que podemos ser, do que necessitamos ser.
“O projeto nacional [alternativo] não tem que ser procurado nas nuvens: ele palpita debaixo de nossos pés, na própria realidade nacional, e daí tem de ser desentranhado, sem utopismo, sem falsos idealismos, sem arremedos mecânicos, sem alinhamentos automáticos.” (Kujawski, 1999: 2)
Pensar um projeto alternativo
é uma necessidade de todos e um dever, um desafio para os que têm fé e se pautam por um discurso e uma ação imbuídos pela justiça e pela igualdade. Não podemos fugir à questão: que nação queremos? Uma nação que marginalize 40 milhões de pessoas ou uma nação que, gradualmente, seja capaz de dar uma vida digna a seus habitantes. O povo brasileiro pede pouco para ser feliz: casa digna, emprego, educação, saúde e lazer.
O que significa pensar em alternativas hoje?

“Antes de tudo, definir um projeto de sociedade socialmente justa, politicamente democrática, culturalmente criativa, em que a economia gere as condições desses objetivos, em lugar de subordiná-los a suas desventuras.” (Sader, 1999: 3)

2. A verdade solar contra as ideologias globais

O tema desta segunda parte convida-nos a homenagear o grande poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, que nos deixou há pouco. A poesia de João Cabral, em muitos momentos é “ uma celebração da luz, do sol, da claridade. (Tenório, 1996: 63-101)
A obra poética de João Cabral é lida por Waldecy Tenório, em A Bailadora Andaluza. A explosão do sagrado na poesia de João Cabral, com muita competência e criatividade. Sua leitura, diz João Alexandre Barbosa, nosso maior conhecedor da obra do poeta, “busca caracterizar a poesia de João Cabral a partir de uma outra margem, ou seja, aquela em que a busca pela razão da poesia não se restringe a uma poesia da razão, mas envolve uma ética da solidariedade que o crítico termina por identificar com um movimento de mais profunda, e por isso difusa, religiosidade.” (apud Tenório, 1996: 12)
O sol é uma presença constante no território nacional. A partir da “verdade solar”, José Walter Bautista Vidal propõe uma meditação sobre a alienação energética na cultura brasileira5 . O que está em jogo é o projeto nacional brasileiro. Nos seus dois últimos livros: A reconquista do Brasil e Poder dos Trópicos ele chega aonde Darcy Ribeiro, em Os Brasileiros: Teoria do Brasil, não chegou: uma análise da tecnologia.6
O núcleo do cosmo energético do físico José Walter Bautista Vidal é a idéia da revolução tecnológica gerando, através de processos civilizatórios, formações econômico-sociais. (Ambrózio, 1999:7)7

Uma antropologia dialética

Darcy Ribeiro, em Dilema da América Latina e em outros escritos, repensou o processo civilizatório preservando as idéias da estratificação social e de lutas de classes, mas rompeu com a idéia de apenas uma linha civilizatória sem, no entanto, abandonar a base tecnológica.
Diz Darcy, alguns anos mais tarde: “A necessidade de uma teoria do Brasil, que nos situasse na história humana, me levou à ousadia de propor toda uma teoria da história”. (Ribeiro, 1995: 13)
Esta teoria da história abriu a possibilidade para se instaurar processos de autoconstrução e atualização históricas. Assim, a proposta de Bautista Vidal não só está em íntima consonância com a visão antropológica de Darcy Ribeiro como oferece a ela, no dizer de Julio Ambrózio, a ossatura – a prova energética e tecnológica – que necessitava para tornar-se um viável e autônomo processo civilizatório.
Bautista Vidal, o mestre da biomassa, ao desvelar a lógica etnocêntrica das teorias econômico-energéticas fundadas no carvão e no petróleo, repete no campo tecnológico a façanha realizada por Gilberto Freyre no campo sociológico.8
Freyre, em 1933, mostrou com clareza que as visões poligenista e monogenista estavam baseadas no mais rigoroso determinismo. “Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala, não só desafia a hierarquia racial como a superioridade branca ao celebrar a miscigenação contra a ótica poligenista e ao exaltar o valor das contribuições de negros e árabes contra a lógica monogenista.” (Brito, 1995: 210)
Bautista Vidal dá continuidade a essa tradição que busca construir uma nação com identidade própria. Para Gilberto Freyre, o mestiço tem uma presença marcante nesse processo; para Darcy, “estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma”. (Ribeiro, 1995: 455). Para Bautista Vidal, a utilização da biomassa pelo Brasil abrirá definitivamente o caminho para preservar a sua identidade cultural, social e política.9
Para Bautista Vidal:

“O importante, portanto, são os hidratos de carbono, que recebem a designação genérica de biomassa: bios, vida, a massa da vida. A vida vegetal formada pelo sol. Toda vida, vegetal e animal, vem daí. Ou seja, a energia solar é a origem da vida. Ela também movimenta motores, as sociedades, as civilizações e é a origem e base da manutenção dos seres vivos. Sem energia não existe vida. É um conceito poderosíssimo. Daí os trópicos deterem cerca de 80% das variedades de vidas do planeta, especialmente os trópicos úmidos da nossa Amazônia.” (Vidal, 1998: 192)

Bautista Vidal pensa um projeto nacional que não vem de fora mas nasce de dentro da nação, de suas forças simples. A nação brasileira pode não só resolver seus impasses em poucos anos, como contribuir para a solução energética do planeta.

Saber cuidar10 : a importância da geografia

O espaço físico é retirado do anonimato, “tal como um pré-socrático – o geógrafo primordial – que não perde de vista a importância da natureza na explicação do Homem, Bautista Vidal revela a mentira ou a esquizofrenia, em se considerar mero insumo a base da ação humana: o mundo físico, diminuído e subordinado ao mercado”. (Ambrózio, 1999: 7)
A nós caberia a leitura dos recentes livros de Leonardo Boff. Saber cuidar e Ética da vida11 relembram que o “cuidado” com a vida em todas as suas dimensões reveste-se de um profundo sentimento religioso.
“Ao longo de seus livros, Bautista Vidal vai tecendo uma espécie de geopolítica energética, geográfico discurso que recupera o papel da nação e de suas vantagens comparativas.”12 (Ambrózio, 1999: 7)
A título de exemplo apresentamos a síntese feita por Antônio Carlos de Andrade Serpa do livro de Vidal, intitulado Soberania e dignidade. Raízes da sobrevivência 13 Vidal nos ensina que:

“Os recursos mundiais são finitos, as nações ricas fundamentam seu poder e riqueza no petróleo, não renovável e em extinção; desperdiçaram perdulariamente o que possuíam; reconhecem ser altamente poluidores, em seus territórios, os geradores atômicos e o uso do carvão: porém, querem manter o alto padrão de vida de seus povos. Fazem-no pela espoliação dos países pobres, cujos recursos abundantes são intencionalmente desvalorizados. Não são beneficiados na natureza por recursos energéticos renováveis. Mantêm essa espoliação por meio do sistema financeiro internacional falido, da degradação das relações comerciais de troca e da manutenção do modelo dependente imposto. Valorizam a tecnologia própria e criaram a Trilateral para protegê-la. Em contrapartida, as nações dos trópicos dispõem, graças ao sol, de recursos energéticos limpos, renováveis, abundantes...” (apud, Vidal, 1991: 14-15)
Bautista Vidal está consciente de que “a práxis da biomassa é capaz de alterar o poder mundial. (Vasconcelos / Vidal , 1998: contracapa), e tece uma refinada crítica à economia liberal a partir da energia. As ciências sociais no Brasil, nos seus estudos nunca se importaram com a “energia da natureza”14 , privilegiaram sempre o capital e o trabalho. Fato que só comprova a importância da reflexão realizada pelo físico brasileiro Bautista Vidal. “Ele propõe uma verdadeira revolução epistemológica ao trazer a energia vegetal da fotossíntese para o cerne do desenvolvimento nacional, estabelecendo conexões entre biosfera e relações sociais de produção.” (Vasconcellos, 2000: 15)
Para ele, a natureza não é um mero insumo, não é apenas base material para a ação humana. Subordinar o mundo físico ao mercado é diminuí-lo.

“O dinheiro, em sua geopolítica energética, perde a onipotência, uma vez que sua legitimidade apenas resulta da ação humana embasada nos recursos naturais. Visto assim, energia, minério, água, clima – toda a terra – não seriam impedimentos à capacidade administrativa, de trabalho e à imaginação dos brasileiros”. (Ambrózio, 1999: 7)

A globalização vai dando sinais de exaustão, aqui e ali seu motor rateia. Hoje, vemos mais claramente que a globalização ameaça a própria biosfera. Sua sobrevivência passa pelo aumento crescente da miséria que parece não ter fim.
Para refrescar a memória relembro que a letra da música A força que nunca seca15 , à semelhança de um haicai, capta um instante ícone da miséria presente no território brasileiro.

A força que nunca seca
Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita

Que faz o equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta

Para cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força nunca seca
Pra água que é tão pouca.

Para completar o quadro, alguns dados a mais:
“Segundo o Ipea, 85 milhões de brasileiros estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, com renda mensal inferior a R$ 132 mensais. Dados oficiais indicam que 28,7% dos brasileiros vivem com menos de um dólar por dia e cerca de três milhões de crianças menores de 14 anos trabalham. Entre 18,5 milhões de aposentados, 11 milhões ganham apenas um salário mínimo por mês, e 5,2 milhões precisam continuar no mercado de trabalho. Oito milhões de pessoas estão desempregadas”. (Beto, 1999: 10)
A globalização16 sobrevive, hoje, apropriando e expropriando em escala mundial. O carvão mineral e o petróleo, motores do capitalismo, estão “marcados para morrer”. O território brasileiro, “é hoje o epicentro da história mundial, sobretudo depois que ficou
escancarado o ocaso do combustível de petróleo e, simultaneamente, a necessidade imperiosa de a humanidade ingressar em outro patamar energético, tendo em mira que a alternativa à fissão nuclear revelou-se um fiasco completo, de modo que o poder mundial está de olho, para usar uma epifania clássica do nosso cinema, na “terra do sol”, sem esquecer que o trópico brasileiro detém a maior quantidade de água doce do planeta”. (Vasconcellos, 2000: 15)
Com o professor José Walter Bautista Vidal, aprendemos que com a utilização da biomassa poderemos gradualmente transformar nossa subserviência em soberania. O Brasil é uma nação que pode emancipar-se.

A religiosidade:
energia de um povo
que quer viver

A energia solar alegra o nosso presente e abre possibilidades futuras, como acabamos de relembrar. Mas o País é também marcado por energias espirituais que se manifestam numa impressionante pluralidade de fés. As diversas experiências religiosas acabam se visibilizando nas mais diversas religiões.
Uma questão se impõe a cada dia com mais força: que responsabilidades as religiões têm neste final de milênio e terão no próximo século? Para responder a esta questão, quero olhar mais de perto a experiência cristã que conheço e dentro da qual me situo.

Agonia de um modelo

Uma figura histórica do cristianismo está se esgotando, o que nos coloca diante de uma situação inédita, pois o cristianismo conviveu dezesseis séculos com a cultura ocidental numa impressionante simbiose. Por “figura histórica” entendemos o conjunto da visibilidade social do cristianismo.
Na esteira do surto religioso que envolve a chegada do milênio e fragmenta o horizonte religioso, as Igrejas cristãs tentam a todo o custo preservar esta figura histórica. Não é preciso uma análise muito profunda para perceber que as Igrejas, principalmente as Igrejas históricas, estavam e estão despreparadas para gerir esses movimentos. (Brito, 1998: 6)
Gradualmente, tomou-se consciência da particularidade desta experiência do cristianismo e implicitamente reconheceu-se o direito de outras culturas viverem as suas experiências de fé. “A cada cultura deveria ser facultado retrabalhar as expressões de sua fé”. (Azevedo, 1981: 47)
Abre-se, pois, a possibilidade de o cristianismo ser vivido pelas culturas particulares. O cristianismo não só pode mas deve ser vivido de maneira diferente. Não se está negando a fé cristã, mas tomando consciência de que o cristianismo é mais do que esta forma de inculturação (ocidental).
Pode-se descrever a inculturação “como a relação dinâmica entre a mensagem cristã e uma cultura ou culturas; como a inserção da vida cristã em uma cultura”. (Azevedo. 1981: 45)
A mensagem cristã em si mesma e no que tem de fundamental é potencialmente universal, isto é, em princípio, ela deve poder ser acessível a todas as culturas. Ideal que nunca foi atingido, como nos mostram à saciedade os fatos históricos. Na verdade, “houve uma identificação substancial e diuturna da Igreja, como instituição, com os postulados culturais da civilização ocidental e com inúmeros pormenores de sua expressão. As estruturas de comunicação da mensagem cristã foram plasmadas pois, sempre mais fortemente, de acordo com os sistemas simbólicos ocidentais e em consonância com os padrões intelectuais do Ocidente”. (Azevedo, 1981: 45)
O cristianismo se ocidentalizou na sua formulação teológica, expressões litúrgicas e organização institucional. Não se pode negar que houve avanços e que, desde o Vaticano II, as Igrejas históricas começaram a peregrinar pelos caminhos da inculturação.

As chances da
experiência cristã

Uma primeira conseqüência do que acabamos de afirmar é que não se pode impor mais uma figura histórica do cristianismo, mas aceitar um começo novo da experiência cristã. Só um cristianismo que realizou uma autocrítica e se “refontalizou” será capaz de empreender um começo novo e colaborar na construção de uma nova civilização.
Este processo exige um discernimento perpassado de amor e verdade, um grau elevado de liberdade interior em relação ao desenvolvimento histórico do cristianismo.
O cristianismo é essencialmente utópico (Aliança, Reino de Deus), é portador de um elemento de esperança (a ressurreição de toda a carne). Traz nas suas entranhas algumas perspectivas revolucionárias: a nova aliança, a lógica da inclusão e a força dos fracos.
Nosso Deus não só assumiu, mas fez uma aliança definitiva com o diferente. Nossa tarefa é transformá-la numa atitude política em favor dos culturalmente diferentes de nós. (Boff, 1994: 48-60)
Um “fato maior”, para usar uma expressão de Hugo Assmann, desafia a humanidade e o sentido do cristianismo: dois terços da humanidade são constituídos por povos literalmente crucificados, marginalizados. Ou, na expressão de Bautista Vidal, a globalização criou um mercado que atende 1 bilhão de pessoas, num mundo que acaba de atingir o índice demográfico de 6 bilhões de pessoas.
Este fato confirma claramente que mais do que nunca: “A opção pelos pobres e marginalizados constitui hoje o critério de universalidade e credibilidade do cristianismo” (Boff , 1994: 74)
Fato que sublinha a responsabilidade do ser humano, o único ser ético da criação, com a missão de religação de todas as coisas. Fato que relembra para os cristãos que não podem abrir mão do princípio de defesa das vítimas, ou, nas belas palavras de dom Paulo Evaristo Arns, “defender aqueles que não têm defesa”.
Neste final de milênio, somos todos convidados a renunciar ao Deus metafísico, distante e patriarcal, e peregrinar em direção a um Deus humilde, em kénosis, encarnado que habita o mais profundo de nós mesmos. Caminhar na direção de um Deus maternal, gerador de vida. Este sim, poderá livrar-nos da violência fratricida e reavivar nossa fraternidade e sororidade adormecida pela rotina do dia-a-dia. (Brito, 1996: 29)

Bibliografia
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Notas
Comunicação proferida no Congresso da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter): Teologia na América Latina - Prospectivas realizado em Belo Horizonte de 24 a 28 de julho de 2000.

1 Ver IANNI, Octávio. Sociedade Global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.Outro estudioso do fenômeno é Renato Ortiz. Milton Santos no seu livro Por uma Outra globalização – Do Pensamento Único à Consciência Universal. (Rio de Janeiro, Record, 2000) retira a globalização de um viés fatalista e saudosista e passa a falar das condições para se ter outra globalização: humanista, solidária e cooperativa.
2 Os grandes grupos industriais brasileiros construídos nos anos 30 a 80 estão sendo vendidos. A Industria Villares, pertencente à família Villares, está para ser comprada pela Sidenor (maior grupo siderúrgico espanhol, com sede em Bilbao). No auge de sua atividade, o grupo Villares chegou a faturar cerca de US$ 1 bilhão, em atividades variadas que iam da produção de aço à fabricação de elevadores, guindastes, motores para navios e turbinas para hidroelétricas. No ano passado vendeu a Elevadores Atlas para a empresa suíça Schildler.(Adachi, 2000: 3)
3 O desmanche das Universidades públicas brasileiras se insere nesse contexto. Na afirmação de Laymert: “Talvez a universidade esteja acabando, talvez um ensino superior forte e atuante não faça mais sentido na condição neocolonial
em que nos metemos”. (Santos, 2000: 5).O grifo é nosso.
4 Ver ASSMANN, Hugo. “Cidadania, crítica à lógica da exclusão”, em Vida Patoral, setembro - outubro, 1995, 7 -12
5 José Walter Bautista Vidal, engenheiro pela Universidade Federal da Bahia e físico com pós-graduação na Universidade de Standford (Estados Unidos). Foi professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, da Escola Politécnica e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na Universidade da Bahia e da Universidade Estadual de Campinas - (UNICAMP). Membro titular dos seguintes Conselhos Nacionais: CNPq, CAPES, FUNAT, FUMET etc.
Autor de dezenas de artigos publicados em revistas especializadas e de divulgação no País e no exterior e de estudos de planejamento nas áreas da Ciência, Tecnologia Industrial, Energia, Meio Ambiente, Industria e Desenvolvimento Econômico.
6 Darcy Ribeiro em Os Brasileiros: teoria Brasil retoma sinteticamente os corpos teóricos desenvolvidos nos livros : O processo civilizatório (1968); As Américas e a civilização (1970) e O dilema da América Latina (1971).
7 Nesta segunda parte nos valemos do belíssimo artigo de Júlio Ambrozio “Projeto Nacional para a questão energética”. Devo a este artigo a idéia básica deste Comunicado.
8 Na expressão de Montero: “A obra inaugural de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala (1933), ao romper com o peso das teorias raciais européias que na sua lógica determinista só podiam conceber a mestiçagem como degeneração, cria o paradigma da cultura mestiça que permite pensar positivamente essa incorporação do negro à brasilidade”. (Montero, 1999:3) Relembra Meihy que “era o ano de 1933, da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. O Brasil tateava em busca de suas identidades. Identidade de povo e identidade de nação. O Brasil daqueles anos queria ser Europa, queria ser branco. Para alguns, éramos um caso quase perdido. Não tivéramos a fortuna da colonização inglesa, holandesa ou francesa. O desconforto com as cores do Brasil era tamanho que, a partir das doutrinas sobre a inferioridade biológica de negros e índios, esposadas pelo sociólogo baiano Nina Rodrigues, pelos influentes críticos literários Silvio Romero e José Veríssimo e pelo sociólogo Oliveira Viana, a elite do País acreditava que a mestiçagem condenava o Brasil ao fracasso”. (Meihy, 2000)
9 “ Um dos mais doces legados de Gilberto Freyre foi nos ter feito realmente acreditar que somos um povo mestiço”.(Montero, 1999:1)
10 Tomamos emprestado de Leonardo Boff o título deste ponto, ver Saber cuidar. Ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999
11 BOFF, Leonardo. Ética da vida. Rio de Janeiro : Letra Viva, 1999
12 “A teoria das vantagens comparativas é um avanço em relação à teoria das vantagens absolutas de Adam Smith. Este último mostrara que o livre comércio seria benéfico para as diversas nações. Se as nações se especializarem na produção daquilo para o qual estão mais aparelhadas e, em seguida, trocarem a produção do excedente entre si, todas serão beneficiadas”.(Araújo, 1988: 42) No entanto, a teoria das vantagens comparativas esquece que as economias não são estáticas.
13 VIDAL, Bautista J., Soberania e dignidade. Raízes da sobrevivência. Petrópolis: Vozes, 1991
14 Gilberto Freyre e Camara Cascudo constituem uma exceção.
15 A música é de Chico César e Vanessa da Mata. A Força que nunca seca foi gravada por Maria Bethânia no disco Diamante Negro (Produção Ariola/BMG).Outra gravação é do próprio autor no disco Mama Mundi (Produção da MZA Music)
16 Alguns estudiosos dizem que a globalização teria sido pensada no interior da Trilateral pelo polonês Zibigniew Brzezinski, o conselheiro para a segurança nacional dos EUA no governo Carter.

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