Tuca 35 anos - Um teatro em construção
Tuca 35 anos
UM TEATRO EM CONSTRUÇÃO
Por Soraya Misleh
Referência local e nacional como espaço cultural, político e de resistência contra a ditadura militar nos anos 60 e 70, o teatro hoje recebe em suas precárias instalações espetáculos que pouco lembram aquele período.
Nesta reportagem, no momento da passagem dos 35 anos de existência do teatro, a revista PUCviva procurou resgatar mais um pouco de sua história e foi procurar alguns dos personagens que compuseram e compõem a trajetória desse importante legado cultural e político.
É preciso registrar que procuramos evitar a redundância nas informações, pois um trabalho exaustivo foi realizado sob a supervisão da professora Yvone Dias Avelino, em pesquisa encabeçada por Marly Rodrigues, em 1985, quando o Tuca fez 20 anos. O trabalho resultou na publicação Tuca, 20 Anos, editada pelo Imesp.
Embora a placa no saguão de entrada anuncie a inauguração oficial em 28 de agosto de 1965, o Teatro da Universidade Católica (Tuca) comemora seus 35 anos de início das atividades em setembro. Tido pela comunidade como “elefante branco”, o espaço acabou incorporando um grupo de estudantes da universidade que decidiu fazer teatro político e popular. “Como a PUC-SP enfrentava uma crise financeira, cogitava-se transformar o local em fonte de renda para a universidade. Uma das idéias era arrendá-lo para um cinema de bairro. Isso deu mais força ao objetivo do Diretório Central dos Estudantes (DCE), de ter um grupo de teatro como forma de política estudantil e de dar uma utilização ao prédio que não fosse meramente comercial, mas de destinação acadêmica”, contou Antonio da Costa Ciampa, então presidente do DCE, hoje professor do programa de pós-graduação de Psicologia Social da PUC-SP. O grupo de teatro conhecido como Tuca foi além: transformou-se na identidade e na marca desse espaço projetado pelo arquiteto Benedito Calixto de Jesus Netto, batizado formalmente de Auditório Tibiriçá pela cúpula da Igreja na universidade e concluído na gestão do reitor Oswaldo Aranha Bandeira de Mello.
Criado no clima pós-golpe militar de 64, o local tornou-se conhecido como ponto de encontro de universitários e ativistas políticos, tendo sido cenário de fatos que ficaram na história recente de nosso País. Sua abertura para o público, em grande estilo, no dia 11 de setembro de 1965, com a estréia da peça Morte e Vida Severina, já prenunciava isso. Musicado por Chico Buarque de Hollanda, na época estudante na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), o poema de autoria de João Cabral de Melo Neto ganhou vida no palco do Tuca. “Quando se pensou numa resposta a partir de uma atividade artística, foram procurados profissionais como Roberto Freire, Silnei Siqueira e José Armando Ferrara para compor a direção do grupo Tuca. Começou uma articulação dentro da universidade de como aglutinar os jovens. Os departamentos da PUC selecionaram o texto a partir de diversas leituras, o grupo de Língua e Literatura participou dessa etapa, o de Geografia discutiu a realidade da região do Nordeste à qual estava ligado o texto e qual contribuição seria possível dar à montagem do cenário, o de Psicologia acompanhou o público que depois foi assistir o espetáculo, observando suas reações perante o encenado... E tudo isso voltava para dentro das salas de aula”, relatou Elza Ferreira Lobo, então estudante da PUC-SP, na direção do grupo Tuca, atualmente coordenadora do Conselho Estadual de Saúde do Estado de São Paulo.
Silnei Siqueira, diretor de Morte e Vida Severina, relata que foi convidado por Freire para ser assistente de direção. Também participaram Eugênio Kusnet, dando um curso de interpretação, e Alberto D’Aversa com um curso sobre a História do Espetáculo. O projeto Tuca era um projeto abrangente. “Havia uma preocupação ideológica com aquele teatro”, lembra.
Antes, em 1960, Silnei havia assistido Morte e Vida Severina com Walmor Chagas e direção de Cacilda Becker. Achou a poesia de João Cabral belíssima, embora o espetáculo estivesse muito seco, havia muita teatralidade. “Eu saí de lá com a idéia de que se pusesse uma música para alavancar essa poesia...” Por isso, no Tuca, ele sugeriu a Roberto Freire que chamasse o Chico Buarque para fazer as músicas de Morte e Vida Severina.
Outro diretor do grupo no período e também aluno, tendo sido ainda secretário executivo do Serviço de Extensão Cultural da PUC, de 1969 a 1974, Henrique Suster, hoje superintendente de Comunicação e coordenador da área de Relações Institucionais da Bandeirante Energia, explica a seleção enquanto resposta à situação sócio-política vigente em meados da década de 60: “A PUC tinha duas organizações muito fortes: a Ação Católica e a Ação Popular, cuja base filosófica era que o homem deveria ser agente da história. Os militantes da PUC tinham essa imagem e a escolha de Morte e Vida Severina teve muito a ver com tal pensamento, porque é um texto centralizado na pessoa humana.” Ator e aluno naquele momento, o advogado e jornalista Melquíades Cunha Júnior complementa: “A proposta foi extremamente bem pensada, porque a universidade trabalhou para que a encenação não fosse apenas mais uma, mas sim a semente de um projeto integrando-a à sociedade. Isso explica em grande parte o sucesso enorme dessa iniciativa. Não sei o que seria da minha vida se eu não tivesse passado por essa experiência, não apenas por me enriquecer no contato humano e com a possibilidade de fazer alguma coisa de repercussão como foi o espetáculo, mas sobretudo porque me possibilitou conhecer cidades, a Europa (leia quadro sobre as apresentações do grupo em outros locais), fazer amigos.”
Nessa mesma direção de Melquíades, a professora de Direito Elizabeth Nazar Carrazza recorda que o Tuca iniciou as atividades em 1965, ano em que ela entrou na universidade. “Tinha 17 anos, era muito tímida. Na peça Morte e Vida, logo no começo, entravam dois homens carregando uma rede e uma mulher ao lado que era eu, a viúva do Severino morto.” A professora nos conta que ela tinha que cantar, mas cantava muito baixo, quase sussurrando. Ficou assustada. “O Evandro (Evandro Pimentel, morto no incêndio do edifício Joelma, em São Paulo), que fazia o Severino, me pôs no palco e me fez gritar – não cantar –, gritar para soltar a voz. Aí eu acabei conseguindo.” A atual diretora do Centro de Ciências Jurídicas, Econômicas e Atuariais, advogada tributarista e procuradora aposentada do Município de São Paulo, recentemente gravou um CD com músicas inéditas (Dia a dia, Beth Nazar, selo Eldorado), realizando um sonho que vem desde aquela época. Ela lembra a mudança radical em sua vida ao entrar na PUC e fazer teatro, vinda de um colégio de freiras. “Nós vivíamos tudo com muita intensidade. Tanto que a relação entre as pessoas do grupo permaneceu sempre bem viva”, diz Elizabeth. Até hoje o grupo se encontra regularmente.
Segunda montagem e MPB
Esse engajamento era muito forte e o espaço Tuca fervilhava à temperatura ambiente. A segunda montagem do grupo estreou em 1967, revelando esse clima. Intitulada O & A, carregava consigo a criatividade e a ousadia que eram a tônica nas universidades. Para Suster, que participou de ambas, esta, também de autoria de Roberto Freire e musicada por Chico Buarque com arranjos de Júlio Medaglia, foi tão ou mais importante que Morte e Vida Severina, dada a situação política em que foi encenada e a proposta de comunicação conseguida numa época de ditadura. “Conseguiu-se fazer um espetáculo em uma linguagem que todo mundo entendeu, falando-se apenas as letras O (atores representando os repressores) e A (procurando manifestar-se, modificar a situação), dificultando a censura”, recordou. O envolvimento da universidade também foi intenso. Conforme relatado na edição comemorativa Tuca 20 anos, “a utilização de apenas dois fonemas era uma grande inovação e exigiu um profundo trabalho de estudos e pesquisa”.
Silnei lembra que foram precisos dez meses de ensaio. “Era um espetáculo de muita expressão corporal. Houve críticas estupendas sobre a peça. Eu acredito que ele tenha sido mais importante para o Tuca do que Morte e Vida Severina. Tivemos uma temporada do O & A no João Caetano com casa lotada no ano seguinte. Depois veio o AI-5...”
Após esse espetáculo, o grupo Tuca se dispersou, por motivos pessoais e políticos, e parou de exibi-lo em 1968. Houve ainda algumas montagens, mas sem a repercussão das duas primeiras.
O teatro continuou sua trajetória. Abrigou o Festival Internacional da Canção em 1969, e em seu palco se lançaram grandes nomes da MPB. Nesse palco, Caetano Veloso fez aquele discurso histórico em protesto contra as vaias do público à sua canção É Proibido Proibir. A década de 70 também foi marcada por shows memoráveis, como Meu caro amigo com Chico Buarque, Gilberto Gil e Vinícius de Moraes em homenagem a Ciro Monteiro, e Dez anos de Toquinho e Vinícius.
Entre as atividades de caráter político e social, é sempre lembrada a 29.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada no Tuca em julho de 1977, após ter sido proibida a sua realização em diversos locais, inclusive no câmpus da USP. No pequeno auditório, o Tuquinha, agitavam-se debates e atos públicos.
Essa efervescência incomodava os ditadores. Tanto que a PUC-SP foi invadida barbaramente em 22 de setembro de 1977 por tropas policiais comandadas pelo então secretário de Segurança Pública, coronel Erasmo Dias, e centenas de estudantes foram detidos. Naqueles dias, clandestinamente, fora realizado nas salas de aula da PUC o 3.º Encontro Nacional dos Estudantes (III ENE), atividade que reconstruiu a União Nacional dos Estudantes. Em frente ao teatro, multidão, discursos e faixas com os dizeres “Por uma Constituinte livre e soberana”, “Vitória: Realizado o III ENE” e “Abaixo a Ditadura”. Logo em seguida, bombas, gritos, correria, pânico, depredação.
Sete anos depois, em 1984, o período da primavera não representou o desabrochar de uma nova era para o Tuca, mas a destruição. Ironicamente, também num fatídico dia 22 de setembro, o teatro pegou fogo, uma hora antes da apresentação do show do humorista Serginho Leite, cujo início estava previsto para as 20h30. Em instantes, o espaço foi consumido pelas chamas, restando apenas suas fundações.
SOS Tuca
No dia seguinte, teve início uma campanha de reconstrução do Tuca que conseguiu mobilizar estudantes, professores, cidadãos em geral e artistas, incluindo os da peça que inaugurou o espaço. Quem conta é a advogada Magali Toledo Canto Mott, estudante de Direito na PUC-SP nos anos 60 e atriz naquele espetáculo, na diretoria do teatro de 1985 a 1989: “Fomos chamados a colaborar. A idéia era fazer uma leitura do Morte e Vida Severina no Teatro Municipal para angariar fundos. Todos participaram e fizemos umas três ou quatro exibições além dessa, aqui em São Paulo no Masp e no Teatro Maria Della Costa também.” Entre os diversos shows feitos em benefício da causa, na PUC-SP e fora dela, ficou na história um denominado “Tuca a céu aberto” com apresentações por 24 horas no próprio teatro sem telhado e no seu entorno. A cessão dos ingressos comprados para o show do humorista Serginho Leite e a abertura de uma conta para o mesmo fim foram algumas das outras ações tomadas por aquela diretoria durante a campanha. “Fez-se um amplo movimento e um projeto de reforma do Tuca foi elaborado pelo arquiteto Joaquim Guedes, que mudava um pouco a configuração do espaço. Deixava o Tucão, então com 1.200 lugares, com 710, criava dois anfiteatros (onde hoje funciona a TV PUC) com 90 cada e o Tuca Arena, com 400, no local onde antes era o Salão Beta. Naquela época, sem nenhum incentivo cultural, só com a sensibilidade das pessoas, conseguiu-se arrecadar fundos para efetuar a reforma até certo ponto. A universidade não tinha dinheiro para concluí-la. No início de 1989, a administração do Tuca resolveu botá-lo para funcionar provisoriamente e assim ele está até hoje. Apesar de termos quatro ambientes, só podemos usar um de cada vez, porque vaza o som. Não podemos utilizar o espaço com toda a sua potencialidade. O projeto do Guedes de torná-lo polivalente ficou inacabado. Falta tratamento acústico, toda a parte de acabamento interno e instalação predial”, relatou Angela Sprenger, coordenadora do projeto atual de reforma e professora de Fonoaudiologia da PUC-SP.
A tentativa de reabri-lo anos antes foi barrada por um segundo incêndio, dessa vez reconhecidamente criminoso, no dia 13 de dezembro de 1985, um mês após a divulgação do laudo conclusivo sobre as causas do primeiro, dando como culpado um “fenômeno termoelétrico”.
O eterno improviso
O improviso nunca assustou o Tuca. Na montagem de seu primeiro espetáculo, os ensaios eram realizados enquanto o teatro estava sendo pintado, sendo colocados os tacos. “Durante o dia, o teatro estava em obras e à noite nós varríamos o palco e ensaiávamos. Era um teatro em construção. Tinha luz, mas não era uma luz de teatro. Não havia varas para refletores, não havia refletores.” A sorte, segundo Silnei, foi a presença de Sandro Polônio, então marido de Maria Della Costa, que se encantou com o trabalho e forneceu as luzes adequadas.
Mais de uma década após a sua reabertura, o Tuca é um espaço inacabado, pois continuam os improvisos, e as instalações precárias e os espetáculos comerciais ali encenados contrastam na temática com um período onde, conforme bem definiu Melquíades, se buscava na arte uma forma de conscientização.
“O Tuca funciona de forma mambembe. Mas nem por isso deixou de abrigar as atividades acadêmicas ou externas com qualidade. Sua grande diferença em comparação aos outros teatros é que ele não é só uma casa de espetáculos, é um espaço onde questiona-se a situação sócio-econômica e política do País. Tivemos infindáveis atos e protestos na década de 90, a comemoração dos 20 anos da anistia (1979-1999), o início do esclarecimento do que é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), debates sobre a reforma agrária etc. Nesses dez anos, houve uma atuação muito grande dos alunos. Os centros acadêmicos sempre participaram. De segunda a quarta-feira o espaço está disponível gratuitamente para a universidade. Algumas pessoas colocam que o Tuca está muito longe da universidade, eu acho isso um absurdo. Minha preocupação é trazer espetáculos de qualidade, como Feliz Ano Velho, que estreou em 20 de outubro, de interesse não só do público como da mídia. E integram a nossa política cultural os cursos de teatro e de dança, e o coral, que completa 30 anos em 2001”, salientou o produtor cultural Sérgio Rezende, atual administrador do teatro, onde esteve em cartaz a peça infantil Castelo Rá-tim-bum, encerrou-se a exibição do espetáculo Domésticas e a apresentação do compositor Antonio Nóbrega.
Para Suster, o Tuca hoje pode carregar o nome, mas não tem mais nada do que foram aqueles princípios da fundação. “Naquele tempo (década de 60) a universidade estava preocupada com o problema do Nordeste. Para 93, quando fui chamado a dirigir a Fundação Cultural São Paulo, gestora do teatro, baixou o problema geral da ética. Assim como Morte e Vida Severina foi o marketing de fazer uma denúncia da situação naquela região, uma atividade cultural sobre esse assunto abriria a discussão em todos os cursos e no Brasil inteiro. Talvez, 50 anos depois, a gente pudesse dizer que alguma coisa legal mudou no País. Fizemos uma tentativa, um ato público, dois manifestos para os jornais na comemoração dos 25 anos. O então reitor, Joel Martins, um dos grandes padrinhos dessa atividade, faleceu e, com essa ocorrência, as coisas não andaram”, lamentou Suster. Elza Lobo, que também trabalhou à frente da Fundação Cultural São Paulo naquele período, assegurou: “Não sou contra que se façam apresentações cobrando ou que tragam os mais diversos artistas. Você precisa dar oportunidade não só aos engajados, mas também a toda manifestação artística e cultural. E entendo que as coisas mudaram; porém, sinto não haver dentro dos espaços acadêmicos reflexões como aconteciam antes.”
Vivendo das glórias
Na ótica de Suster, esse é um fenômeno não específico na PUC-SP ou no Tuca, mas mundial. “O individualismo vigente, em que as pessoas ficam assistindo tevê e não conversam mais, mandam e-mail para o cara que está ao lado delas, desenvolve um tipo de homem diferente. É a multidão solitária.” Na sua concepção, o que está começando a apontar como uma busca por modificar essa situação é o chamado Terceiro Setor. “Na década de 60, dedicávamos metade do nosso tempo em atividades de participação política. Hoje, as pessoas dão algumas horas do seu tempo profissional em entidades. Mas isso sem mexer na estrutura do País. É o voluntariado.” Atuando nessa área atualmente como coordenadora de projetos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Zita Porto Pimentel, estudante de Psicologia na década de 60 e uma das atrizes da peça Morte e Vida Severina, comentou: “No nosso tempo, a participação na questão política era de um movimento organizado muito maior. Depois de um período de alienação, acomodação e dessa tecnologia que nos impulsiona um pouco para a questão individual, algumas pessoas começaram a atuar numa linha não-governamental. Porém, acho que essas organizações, pulverizadas em pequenos grupos, ainda estão voltadas para aquela geração mais adulta, que sente a necessidade de exercitar uma certa solidariedade. Não quer dizer que o jovem não tenha condições de participar, mas ele está procurando espaço na música, nas questões do meio ambiente.” Como se pode ver, volta-se para a importância da expressão artística. E o que a universidade está fazendo nesse sentido? “Se não há a preocupação de dirigir o seu teatro com propostas humanas, é melhor entregá-lo para o Nisan Guanaes (publicitário) explorá-lo comercialmente. Passaram-se mais de 30 anos e ela continua vivendo de algo que não é mais. Não poderia produzir outros trabalhos tão interessantes quanto Morte e Vida Severina e O & A?, questiona Suster.
Projeto Marcus Pereira
A comunidade puquiana tentou. A experiência é relatada por Carlos Alberto Dutra, o Cacá, do Núcleo de Trabalhos Comunitários (NTC) que participou dessa iniciativa. “Em 1993, um grupo de estudantes pensou numa proposta de ocupação cultural do teatro Tuca nas segundas e terças-feiras. A idéia surgiu no seio do NTC, e depois se abriu para funcionários e professores e acabou virando um projeto institucional intitulado ‘Marcus Pereira’, em homenagem ao grande historiador da música. Elaborávamos atividades que iam desde shows e produções alternativas até uma apresentação de Gilberto Gil e duas da Orquestra Sinfônica Municipal.”
Esse trabalho foi feito voluntariamente por um grupo intitulado por Cacá “amante da música, que tinha uma ideologia”. Aparentemente, tinha tudo para dar certo. Por que isso não aconteceu? “O projeto teve uma duração de dois anos, de certa forma conflitante. Éramos inexperientes, não conhecíamos esse caminho das pedras .” Faltou a integração e o envolvimento vividos em 1965, quando da produção de Morte e Vida Severina. “Aquele momento foi uma constelação de fatores, uma conspiração astral no sentido de uma situação política, de vida universitária, um espaço que estava sem definição e demos uma objetiva a ele, uma aglutinação de forças e pessoas, uma combinação com uma preocupação estética, de promover um espetáculo de qualidade, fora o significado, a reflexão, o estudo. Um dos fatores que garantiu o resultado obtido foi essa dedicação”, resumiu Zita.
Solucionar o problema físico, embora dependa de verba – a previsão orçamentária é de aproximadamente R$ 6,7 milhões –, parece menos complicado do que retomar o clima de uma época tão recente e ao mesmo tempo distante da realidade, porque é percebido e está se fazendo algo. Angela Sprenger já enviou projeto ao Ministério da Cultura para inserir o Tuca na lei Rouanet, de incentivo cultural. A reforma pretendida, segundo ela, foi autorizada pelo Conselho Estadual do Patrimônio Histórico (Condephaat), condição essencial, uma vez que o teatro foi tombado em meados da década de 90. De acordo com a coordenadora, não envolve a parte estrutural, conforme atestado em laudo pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), contratado para fazer a avaliação dos problemas existentes pela Fundação Cultural São Paulo. Abrange troca de fiação, cabeamento, telefonia, ar-condicionado, modernização. Angela estima que a reforma, “se não faltar dinheiro”, deve ser feita em dez meses a partir da resposta do Ministério, aguardada para breve, e após terem sido captados 20% dos recursos necessários, junto a grandes mecenas.
Ganhando o século
O sucesso do espetáculo Morte e Vida Severina transpôs as paredes do teatro Tuca e atravessou fronteiras. Nas primeiras apresentações, aproveitando a ascensão de Chico e outros artistas, estes, depois do espetáculo teatral, davam uma canja no Tuca. Isso era possível porque a peça era curta. “O espetáculo mesmo não traria um público suficiente para custear a ida do elenco para Nancy”, diz Silnei. Foi preciso apresentações em outros locais de São Paulo e no Rio de Janeiro para arrecadar fundos para a viagem. “Até esguichos d’água que ganhamos de um industrial tivemos que vender.” Com a repercussão que Morte e Vida adquiriu, a Philips patrocinou duas passagens com a condição de que ela tivesse a exclusividade da gravação das músicas da peça na primeira apresentação que o grupo realizasse na volta ao Brasil. Depois de Nancy, o sucesso chegou a galope.
Na direção do grupo de universitários atores, Elza Lobo lembra dessa explosão: “A peça entrou no circuito e passou a ser algo obrigatório em outras cidades. As União Estadual dos Estudantes (UEE), em cada Estado, articulavam para levar o grupo Tuca a apresentações. O Consulado da França em São Paulo acompanhou o espetáculo e nos indicou a participar do Festival de Teatro Universitário em Nancy. Havia critérios para ser selecionado a participar, fomos aceitos e acabamos vencendo.” O advogado e jornalista Melquíades Cunha Júnior, um dos atores, acrescentou: “Depois, abrimos o Festival Internacional do Teatro das Nações em Paris e foi também uma consagração.” A embaixada brasileira na França, que até então não havia apoiado o grupo Tuca em sua ida à Europa, reviu sua posição, diante de tamanha repercussão no Brasil e naquele continente. A partir de então, Morte e Vida Severina representaria oficialmente o País.
Da França, onde foram feitas cinco apresentações, o grupo seguiu para Portugal. Segundo a edição comemorativa Tuca 20 anos, realizou um total de 11 espetáculos, sendo oito em Lisboa, um em Coimbra e dois na cidade do Porto. Melquíades Cunha orgulha-se do êxito obtido: “Realmente, os críticos o colocam como um dos grandes espetáculos do teatro mundial do século.”
O Centro Nacional de Pesquisa Científica da Sorbonne produziu uma publicação especial sobre o teatro no mundo, Les Voies de la Création Théâtrale, em que as páginas 297 a 339 estão inteiramente dedicadas à produção do espetáculo Morte e Vida Severina, sendo ali classificada como uma das mais importantes do século.
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