CRÔNICA - Um conto

APROPUC-SP

Um conto

Eliseu Cintra é professor do Departamento de Filosofia (PUC-SP)

Disseram-me para escrever alguma coisa.
— Para quê?
— Para ser publicado.
“Para ser publicado!... E se ninguém quiser ler o publicado? Bem, pelo menos eu vou ler: se escrevo, leio. Depois, meu amigo que vai publicar – ou não – deverá ler o que escrevi. Pelo menos dois indivíduos.”
Matutei um conto e contei para a minha mulher. Ela gostou.
— Escreve logo para eu também poder contá-lo.
Ela é contadora de histórias numa escola no Paraisópolis. Um dia me convidou para ir a uma festa de Natal. Era de contadores de histórias. Cabreiro, não queria ir. Por fim, calculei: “Se é uma festa, e ainda por cima de Natal, por certo haverá certas coisas que possam me interessar”.
Era uma coisa muito bonita na Granja Viana. Logo minha mulher me apresentou à grande mestra contadora de histórias. De papo em papo, a senhora me disse que tinha feito curso de “contadora de histórias” numa universidade da Inglaterra. Fiquei tartamudo! Não podia desmentir a mulher, com tantos detalhes que me falava. Para não parecer muito bobo pelo espanto, confessei minha ignorância:
— Sei que há cursos universitários que ensinam História, mas curso que ensina a contar histórias é novidade para mim.
Ela atalhou com um sorriso benévolo.
— A História do Brasil é ensinada ou contada?
Nessa hora me lembrei da questão de se o Brasil teria sido “descoberto” ou “inventado”, algum samba de crioulo doido!
Na festa, já começava a “contação”de histórias. Não digo nada das histórias contadas: umas possíveis e outras impossíveis ao meu reto juízo.
O conto que escrevi demorou para começar. O estorvo do começo era justamente a forma de começar. De criança, as histórias que ouvia encantado geralmente começavam com “Era uma vez...” Não iria repetir agora uma coisas dessas, já meio caduca. Contudo, numa noite de insônia, “era uma vez...” não me largava. Por que isso nas belas histórias infantis? Se era, não é, não existe mais. Para que iludir as crianças com o que não existe mais?
De repente, tal um trovão na minha cabeça: “Era uma vez uma menina moça chamada Ana Emília”. Ana Emília, minha filha, morreu. Está sepultada. Mas ocorre o seguinte: sobre minha mesa está seu último retrato, uma última fotografia que fiz no aniversário de seus 14 anos. Acontece que, olhando sua imagem, é viva a ternura que eu tinha por ela e a ternura que ela tinha por mim! Tinha, quer dizer, tenho.Tinha ou tenho? É tão viva a ternura que surge um nó na garganta. O nó na garganta é de verdade. Ana Emília não é mais de verdade?
Quem ler meu conto, além de mim mesmo, não admiro que possa dizer:
— A imaginação de sua filha provoca nó na garganta, tal como imaginando Alice no país das maravilhas tudo lhe parecia de verdade.
Não vou discutir, até pensando em Pirandello que dizia “Cosi è come vi pare”: “Assim é como lhes parece”. Agora devo estar mais empenhado no convite de “escrever alguma coisa”.
Escolhi escreve um conto. Daí, como sempre penso sobre o que penso, resolvi:”Não posso escrever uma mentira”. Não tenho vocação de pescador para contar verdadeiras mentiras. Cada um faz o que pode e eu não sou pescador. Também não devo contar um sonho que tive. Sonhos são muitos subjetivos e podem aborrecer o leitor. Foi muito difícil escrever meu conto. Uma coisa vinha atrás da outra.
Parece que – diz-se que – um certo homem, querendo escapar de dúvidas e de sonhos, afinal teve descanso em si mesmo: “Penso, logo sou”. Muito bem, mas seu dissesse “sonho, logo vivo”, estaria errado? É possível alguém que exista e não sonhe? Gosto de muitos sonhos que tenho e acordo sentindo coisas que não vivo. Quando acordo, é um pesadelo!
Estou achando bom contar a história de como foi a história de meu conto que é uma história para “escrever alguma coisa”. O possível leitor está lendo a história da história de meu conto que é uma história! Pode ser? Qual será a história de verdade?
Não estou brincando. Primeiro, porque se meu amigo me pediu para “escrever alguma coisa”, já estou “escrevendo alguma coisa”. Depois, considerei importante saber se “alguma coisa” pode ser irreal.O que agora aparece na tela de meu computador evidentemente é real, algo que poderei gravar num disquete ou enviar ao meu amigo por e-mail e sair impresso num livro. Se sair impresso num livro, será mais real do que agora?
Meu conto está na minha cabeça, mas ainda não saiu dela por escrito. Saiu quando falei com a minha mulher. Ele foi falado uma vez e talvez ainda esteja na cabeça dela. Se está na minha cabeça é real? Ou pode ser irreal? Parmênides já dizia: “O ser é, o não-ser não é”. Meu conto ou é, ou não é! Não vale de Aristóteles, que meu conto por ora apenas pode ser um conto: ainda não saiu sacramentado de minha cabeça. Será que existem seres mais reais do que outros?
Meu filho veio ver o que eu escrevia, quer dizer, digitava em meu computador:
— No computador a realidade é virtual, como tudo o que aparece na televisão.
— E não é atual?
Procurou me explicar, mas não chegamos a uma cordo. Até falou de campo eletromagnético. Interrompeu:
— Quando o conto sair por fim de sua cabeça, mostre-me para eu ser mais um que o leia.
De fato, quando falei o conto para a minha mulher, este estava sendo ainda concebido. E falar não é escrever. As histórias que ela fala contando são virtuais ou atuais? A Branca de Neve é somente virtual? E quando aparece no cinema ou na televisão? E na cabeça das crianças, também há campo eletromagnético? Elas acreditam tanto nas histórias que vibram e torcem!
Será que tudo é ilusão? O que não é ilusão, mas é de verdade? Já ouvi bastante que cada um tem sua verdade! Onde? Na própria cabeça? O que é de verdade para um talvez não seja de verdade para outro. Meu conto será verdadeiro para um leitor e mentiroso para outro leitor? Ou todo conto é uma mentira? Para não ser uma mentira, bastaria que não fosse absurdo? E se meu conto for fantástico?
Irreal e real, virtual e atual, ilusório e verdadeiro, absurdo e fantástico... é muita confusão! E, também, as duas páginas que meu amigo pediu que eu escrevesse já terminaram. Fica para uma próxima vez meu conto virar de papel.

 

Texto extraído do livro Caleidoscópio 2000, editado pela Olho d’Água, São Paulo, 2000. www.olhodagua.com.br

 

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