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Resenha
O longo amanhecer – reflexões sobre a formação do Brasil
Maria Angélica Borges é professora do Departamento de Economia e diretora da FEA (PUC-SP)
Ver Celso Furtado* sempre nos conduz a uma interessante reflexão sobre os caminhos que nos levaram a viver as inequações do capitalismo tardio e, neste momento, tem um sabor mais especial, pois nos aproximamos do fim do século, período que gera um terreno propício para um balanço retrospectivo. O milênio termina e os problemas estruturais da sociedade brasileira continuam. Somos marcados pela dualidade, vivemos de maneira aguda as contrições do sistema, pois ameaçamos, mas nunca chegamos a romper os dramáticos índices de miséria que assolam as grandes maiorias. Vivemos a farsa de nos apresentarmos como a potencialidade, sem nos tornarmos efetividade. O extraordinário crescimento do capital financeiro marca esta última fase da globalização – perversa, que nos aprisiona nos tentáculos da especulação. Os últimos anos, vividos sob o aprofundamento da crise estrutural, passou através dos nossos olhos, levando nossos recursos para fora do País, privatizando os nossos espaços sob a égide da transnacionalização econômica, devorando nossas cadeias produtivas e os espaços dos trabalhadores, que foram paulatinamente aumentando o exército dos desempregados. Furtado, sensibilizado com este quadro, aponta o drama que os mais desfavorecidos encontram no desemprego estrutural e sinaliza contradições que se agravam diante da crise capitalista. Portanto, urge que as forças vivas empreendam suas ações para reverter o quadro precário no qual a política econômica cabocla é conduzida, pois as necessidades criam seus espaços de mobilização. Os 500 anos de nossa história trazem a marca da incompletude de nossas classes sociais e de seus projetos políticos; e não podemos afirmar que, na virada do século, vamos nos realizar enquanto sujeitos históricos, atores políticos da criação de um mundo que leve aos cidadãos brasileiros uma perspectiva mais digna de vida e ideais. Mais uma vez, ainda é hora de empunhar a pena e denunciar este quadro de desarranjos. Nesta direção, reconhecemos a voz oposicionista furtadiana, numa incansável denúncia de nosso atraso. Preocupado em descobrir qual a margem de manobra com autonomia que ainda nos resta, o ilustre economista paraibano, que se tornou cidadão do mundo por meio de uma interessante trajetória, vem a público com mais uma instigante contribuição, analisando o País, entrelaçando o cenário nacional com o internacional. Indica que sua atenção recai, também, sobre o público jovem, pois a este cabe a continuidade da construção da sociedade e a mudança deste quadro tão desfavorável. São textos que traduzem o valor paradigmático da vasta obra produzida pelo autor — ao longo de quase seis décadas —, na qual Formação Econômica do Brasil, de 1959, destaca-se como um clássico das ciências econômicas e sociais, tornando o autor leitura obrigatória nos currículos de nossas universidades. Nas suas palavras iniciais, prefaciando esta publicação, lemos: “O que há de comum nos ensaios presentes é a tentativa de captar a especificidade do perfil cultural brasileiro” (pág.10). Os trabalhos estão reunidos sob o manto da aguçada percepção do analista econômico, com visão ampliada por tonalidades de história, filosofia e literatura, que buscam colocar suas impressões digitais no ser social autóctone. Vimos, desde seminários, como é o caso do primeiro texto: “A busca de um novo horizonte utópico”, debates como “Os caminhos da reconstrução”, ou mesmo reflexões que geraram o título “Nova concepção do federalismo”, entre outros que compõem a coletânia, como por exemplo: “Formação cultural do Brasil” e “Mensagem aos jovens economistas”. Cada um tem a sua marca, porém, todos buscam entender, criticar e dar o salto adiante nas irresoluções de um País que traz a marca continental, mas que, desafortunadamente, recai nas armadilhas do capital internacional, que se transveste de porta de entrada para o futuro, levando-nos, cada vez mais, a reencontrar o passado colonial. Celso Furtado decifra o Brasil com a força viva de quem foi um dos atores do processo da construção industrial local, lamentando todas as oportunidades perdidas por culpa da subsunção política e cultural de nossas elites, que se assenhoram do poder para cumprir os ditames dos nossos neocolonizadores. Raros foram os momentos de exceção e, quando uma nova senda mostrava-nos outro caminho, a reação se fez sentir, somando forças retrógradas locais e internacionais numa perversa composição, derrotando as maiorias e garantindo antigos privilégios, recolocando a pauta de lutas político-sociais do País. Reconhece os limites do Estado-nação, sem contudo abrir mão de que este ainda tem papéis a desempenhar, para além da concepção neoliberal: “Hoje passou a dominar a idéia de que o Estado é um trambolho. Mas, sem o Estado, o que fica? O mercado. E qual é a lei do mercado? É a lei do mais forte, a dos mais poderosos, a do grande capital” (pág. 89). Devemos nos recusar a aceitar a redução da sociedade civil aos contornos estreitos do discurso economicista, que expulsa a política do tecido econômico sem deixar lugar para o sócio-cultural, como não se cansa de reiterar Furtado, buscando, inclusive, em Machado de Assis, reforço para as suas teses da potencialidade transformadora da cultura e sua propulsão criadora na história da humanidade. A lógica do capital não esgota a realidade, a arma da crítica, assim como a sua transformação na crítica das armas, como bem disse o filósofo e economista da práxis, inspira-nos a buscar a centralidade do trabalho e construir espaços mais favoráveis e ampliar o locus de resistência, almejando angariar forças para a superação do status quo. Neste sentido, podemos encontrar, nas palavras do autor ora resenhado, reflexões que o agregam, junto com outros importantes intelectuais da tradição nacional-desenvolvimentista, como um integrante da frente ampla, que resiste à financeirização crescente, braço agressivo do grande capital: “O pano fundamental para entender o que se passa no mundo de hoje é que o desenvolvimento da sociedade moderna, ou, se preferirmos, da sociedade capitalista moderna, foi baseado numa espécie de dialética do conflito, o que Marx chamou de luta de classes como motor da história. A história do capitalismo é uma história de luta de classes. É aí que se geram as forças renovadoras”.
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