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DEBATE Reflexões sobre o materialismo histórico, o escravismo e a rebelião negra

APROPUC-SP

Frederico Costa

O objetivo deste artigo centra-se numa reflexão sobre o sistema escravista que dominou o Brasil por mais de trezentos anos e sua contestação prática no mesmo período. Isso, num contexto de comemorações oficiais em torno dos supostos “500 anos de Brasil”, como se a História começasse nessas terras somente com o aval dos colonizadores, o que reforça uma visão colonialista e organicista, ou seja, um esquema interpretativo sem o destaque das contradições estruturais da realidade, onde os fatos históricos, suscitados pela luta de classes, são desprezados para fortalecer a harmonia do modelo metodológico hegemônico. Assim, mantém-se a visão das classes dominantes, do passado e do presente, de integração tranqüila entre o branco colonizador, o indígena oprimido e o negro escravizado, conformando um povo alegre e de índole pacífica. Exemplo disso é a campanha da Rede Globo.
No espaço acadêmico, a situação também não é das melhores. Os adeptos da “História nova” e os pós-modernos crêem que é uma violência teórica a busca de uma explicação totalizante da realidade, particularmente da histórica, e um conhecimento objetivo de caráter universal. Contentam-se com os “pequenos relatos”, restritos a eventos isolados e fragmentados. Assim, a História “tende a ser vívida mas unidimensional, eliminando esse conceito estratificado do tempo em benefício do curto prazo, do contexto contemporâneo, da conjuntura imediata” (Eagleton, 1998: 55). Nessa perspectiva teórica, condena-se as “grandes narrações”, passando a História a ser entendida como uma sucessão interminável de episódios fortuitos e desconexos, onde tudo torna-se justificável, até as maiores atrocidades. De fato, a aversão a qualquer modelo metodológico monista e unitário exime qualquer consideração sobre os regimes de exploração do passado e do presente, isto é, do capitalismo. Em síntese, não se sabe de onde viemos nem para onde vamos, o ser social dissolve-se, e o caráter ativo do homem e a ação política dos trabalhadores acabam resumindo-se a objetivos modestos e “realizáveis”, bem a gosto do neoliberalismo de “esquerda” e da “terceira via”, em suas mais diversas modalidades.
Em oposição a essas linhas teórico-políticas, a “oficial” e a pós-moderna/historionovista, pretendemos afirmar neste artigo a validade do pensamento de Marx e Engels e sua continuidade teórico-prática, na perspectiva do materialismo histórico-dialético.
Principalmente porque, nas últimas décadas, o mundo vem passando por profundas transformações. As políticas de privatização econômica e destruição de conquistas sociais implementadas a partir da década de 70, de maneira desigual, na Europa, Estados Unidos e América Latina; a restauração capitalista nos Estados operários burocratizados1 ; as modificações no processo produtivo, com vistas à recuperação do crescimento das taxas de lucro e o avanço das ideologias de eternidade do modo de produção capitalista, colocam em destaque o debate em torno de uma metodologia para compreender o passado a serviço de uma consciência crítica do presente.

Algumas considerações sobre o referencial teórico marxista

O materialismo histórico-dialético surgiu com o movimento operário contemporâneo, expressando a luta deste contra o domínio da burguesia. Antes disso, alguns pensadores sociais e historiadores haviam chegado a uma análise próxima da visão materialista do desenvolvimento da sociedade humana, como Vico, Guizot, Thierry e Mignet2 . Foram, porém, Marx e Engels, teóricos do movimento operário nascente que superaram dialeticamente essas idéias dispersas, dando-lhes um estatuto científico e coerente, capaz de explicar a origem e o desenvolvimento contraditório da história humana, possibilitando aos homens os instrumentos teórico-políticos para dominá-la e transformá-la.
Segundo Marx, em uma carta a Joseph Weydemeyer de 5 de março de 1852:
“O que de novo eu fiz, foi: 1. Demonstrar que a existência das classes está apenas ligada a determinadas fases de desenvolvimento histórico da produção; 2. Que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; 3. Que esta mesma ditadura só constitui a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes” (Marx & Engels, 1982 : 555).
De fato, com Marx a análise do ser social passa a ter um caráter científico:
“Marx privou o homem definitivamente e para sempre desses odiosos privilégios, considerando-o como um elo natural no processo evolutivo da natureza material; a sociedade como organização para a produção e a distribuição; o capitalismo como uma etapa no desenvolvimento da sociedade humana” (Trotsky, 1988 : 8).
Podemos resumir, didaticamente, os pressupostos da concepção materialista da História em quatro momentos básicos: humanismo, historicismo concreto, razão dialética e práxis política revolucionária.
Primeiro, o humanismo, a teoria de que o homem é um produto de sua própria atividade, de sua história coletiva. Assim, a transformação do mundo com a constante produção do novo, por meio de atos teleologicamente postos pelo ser social, diferencia-se tanto da reprodução da vida na esfera biológica, como das transformações do ser inorgânico. Em resumo, pode-se dizer que a espécie Homo sapiens não se diferencia na e da natureza, apenas por suas propriedades biológicas (morfologia, fisiologia, carga genética etc.), porém por propriedades sócio-históricas, que têm seu fundamento no trabalho. É aí, na práxis humana, entendida como transformação da realidade objetiva pelo homem social (o qual, nesse processo, transforma a si mesmo) que para Marx reside a resposta para a indagação do que é o homem, seu surgimento e desenvolvimento, isto é, o processo da criação, do ponto de vista do homem, é, pois, um processo de autocriação (Schaff, 1967 : 76).
Segundo, o historicismo concreto, isto é, a afirmação do caráter ontologicamente histórico da realidade, com a conseqüente defesa do melhoramento da espécie humana. O processo de autocriação do homem, fundamentado no trabalho, é contraditório. Historicamente, com a exploração do homem pelo homem e a luta de classes envolvendo desenvolvimento e perda de si mesmo, crescimento e divisão, em um processo regulado por leis tendenciais oriundas da própria atividade dos homens:
“Na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas de consciência social” (Marx & Engels, 1982 : 530).
Terceiro, a razão dialética, em seu duplo aspecto: o de uma racionalidade objetiva imanente ao desenvolvimento do real, que se apresenta contraditoriamente, e o das categorias capazes de apreender subjetivamente essa racionalidade objetiva, categorias que superam as provenientes do “saber imediato” e da “razão analítica”, como contradição, totalidade concreta, superação, mediação, entre outras:
“Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano, sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo de pensamento – que ele transforma em sujeito autônomo sob o nome de idéia – é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado” (Marx, 1987 : 16).
Quarto, o materialismo histórico rompe com todas as “filosofias da História”, no fato de não reduzir-se a explicar passivamente a História, mas de buscar compreendê-la para transformá-la, fazendo consciente sua tendência inconsciente. Seu objetivo é apreender o processo histórico em função da revolução proletária, da superação do capitalismo rumo a uma sociedade sem classes, ou seja, a práxis política revolucionária é imanente ao materialismo histórico. Assim, escapa ao empirismo puramente factual, tanto positivista como pós-moderno, e à especulação idealista e teológica: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo” (Marx & Engels, 1982 : 03).
Em síntese, entendemos o materialismo histórico como uma teoria científica da história da humanidade, pois a concebe como um aspecto, o fundamental, do desenvolvimento do ser, portanto submetida a leis objetivas, independentes da vontade humana, como o ser natural, embora com uma legalidade qualitativamente diferente deste. O seu objetivo, desde que a História, a partir da dissolução da comunidade primitiva, vem sendo movida pela luta de classes, é, de acordo com seus fundadores e melhores intérpretes, dar ao proletariado consciência do seu papel histórico, oriundo de sua função na sociedade moderna.
Dessa forma, qualquer reflexão sobre os fenômenos do passado deve servir para a construção de uma identidade crítica das classes exploradas e setores sociais oprimidos: a compreensão de suas origens, o desenvolvimento histórico de sua exploração e opressão, as formas de resistência, a reação das classes dominantes, a dinâmica da luta de classes, a ideologia hegemônica e as potencialidades inerentes aos movimentos de contestação, seus limites e perspectivas.

Acumulação primitiva e escravismo colonial

O sistema escravista3 no Brasil não surgiu por acaso, mas por necessidades inerentes ao desenvolvimento das forças produtivas no continente europeu. No mesmo período em que na Europa alastrava-se o trabalho livre, nas colônias das Américas implantavam-se diversas formas de trabalho compulsório: a escravidão aberta ou disfarçada, de indivíduos indígenas e negros na “encomienda”, “hacienda”, “plantation”, engenho, fazenda e outras modalidades de organização econômica.
Foi no período da chamada acumulação primitiva, que possibilitou, na Europa, a transição do feudalismo para o modo de produção capitalista. Tal processo representou profundas mudanças na força de trabalho e no capital. Em relação à força de trabalho significou a separação radical entre o produtor e a propriedade dos meios de produção. Camponeses foram expulsos de suas terras, enquanto artesãos perdiam suas oficinas. Assim, surgiu uma força de trabalho “livre” para ganhar um salário de miséria ou marginalizar-se.
Em relação ao capital, a acumulação primitiva envolveu intensa concentração de capital, utilizando todos os mecanismos possíveis: saque, espoliação, roubo, massacres e guerras. A colonização e a escravidão colonial inseriram-se nessa conjuntura.
“As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio,
a escravidão das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e da pilhagem das Índias orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que marcaram os albores da era da produção capitalista. Esses fatores idílicos são fatores fundamentais da acumulação primitiva” (Marx, 1987 : 868).
Nesse contexto, de surgimento do capitalismo sob a égide do capital comercial, é possível compreender a introdução e consolidação do trabalho escravo no Brasil, em uma etapa histórica de desintegração do modo de produção feudal, quando a produção de mercadorias no âmbito mundial atingira uma etapa superior. A produção escravista não se destinava ao mercado interno, mas a um mercado externo distante e de características diferentes, estando submetida, na esfera da circulação, ao monopólio comercial imposto pela metrópole portuguesa. Tal estrutura representou uma elevada exportação de excedente econômico da colônia brasileira para Portugal, dependente da Inglaterra, o que explica o caráter atrasado do capitalismo brasileiro e o seu papel subalterno na divisão internacional do trabalho.

A opressão escravista

O Brasil colonial e imperial organizou-se sobre a base do trabalho escravo, no qual escravos e senhores representavam as classes sociais fundamentais. Estando a legislação, as doutrinas religiosas, a cultura dominante, as técnicas de controle e a repressão estatal voltadas, principaralelamente, para garantir a sujeição dos escravos. De acordo com Ianni:
“Para explicar o caráter repressivo e violento das relações escravistas de produção é necessário compreender que o escravismo é um sistema de produção de mais-valia absoluta, sistema esse no qual a mercadoria aparece imediata e explicitamente como produto da força de trabalho alienada. Aliás, o escravo é duplamente alienado, como pessoa, enquanto propriedade do senhor, e em sua força de trabalho, faculdade sobre a qual não pode ter comando. O escravo é obrigado a produzir muito além do que recebe para viver e reproduzir-se; e não dispõe de condições para negociar, nem o uso da sua força de trabalho nem a si mesmo. Esse é o fundamento do caráter repressivo e violento do escravismo” (Ianni, 1988 : 56-57).
Os escravos encontravam-se no nível mais baixo da estrutura social escravista, suportando, quase sozinhos, os custos da produção econômica; a legislação imperial, por exemplo, “proibiu que escravos recebessem sequer nas escolas primárias, equiparando-os aos doentes de moléstias contagiosas” (Gorender, 1988 : 64). O escravo era propriedade total e ilimitada do seu senhor, não tendo quaisquer direitos. Podia ser vendido, alugado, penhorado ou morto, sendo do amo a criança que ainda se gerava no ventre da escrava. O padre André João Antonil, provencial dos jesuítas e reitor do Colégio da Bahia no começo do século XVIII, colocava em pé de igualdade “escravos, cavalos, éguas e bois” (Freitas, 1978 : 26).
Nesse sistema, o escravo só poderia obter liberdade pela morte natural ou pela alforria.
Em relação à jornada de trabalho, não havia limite, estendia-se da aurora à noite, sendo de quinze até mais horas por dia, domingos e feriados. Os escravos batizados pela Igreja Católica estavam dispensados da guarda e do descanso nos domingos e dias santos, a não obediência dos mandamentos bíblicos era justificada pelas necessidades da produção.
Na economia escravista colonial, voltada para a produção de mercadorias exportáveis, era antieconômico destinar terras e tempo de trabalho para a cultura de gêneros alimentícios, sendo a morte pela fome comum entre os escravos “conta o padre Antonil que muitos escravos se alimentavam de raízes e com freqüência podiam ser vistos rondando a casa do amo para suplicar algum alimento” (idem: 30).
Em relação a vida média de um escravo:
“O tempo médio de vida dos escravos proletários que trabalhavam nos canaviais e engenhos não excedia provavelmente de cinco anos. Calcula-se que uma quinta parte do plantel tinha que ser renovada todos os anos. Uma vez que os traficantes só embarcavam negros jovens e em perfeito estado físico – uma verdadeira ‘elite biológica’, como disse um antropólogo –, cabe admitir que essa elevada taxa de mortalidade provinha fundamentalmente das atrozes condições de vida a que eram submetidos” (idem: 30).
As classes dominantes escravistas, para manter o funcionamento normal do sistema econômico e inibir qualquer possibilidade de rebeldia, mantinham uma poderosa estrutura repressiva. Os castigos dados aos escravos não eram atos isolados. O terror tornava-se essencial para garantir a exploração e o cativeiro, pois
“na essência do funcionamento e dos movimentos do escravismo, enquanto formação social, está um singular processo: a violência e a repressão abertas são as exigências políticas, sociais e culturais de relações de produção organizadas para produzir mais-valia absoluta, produto esse que aparece direta e explicitamente como expropriado” (Ianni, 1987 : 57).
Isso demonstra como a violência contra os trabalhadores escravos estava inserida no mecanismo interno do próprio sistema econômico escravista. O tronco, o pelourinho, os anéis de ferro que esmagavam dedos, o aguiolhamento junto às caldeiras, os açoites diários, entre outras torturas, são inseparáveis do escravismo. As relações cordiais entre amos e escravos só existem na historiografia escravocrata ou nas novelas da Rede Globo. Além disso:
“À parte esses tormentos rotineiros e regulares, há memória de sadismos inconcebíveis: a castração, a destruição de dentes a marteladas, a amputação de seios, o vazamento de olhos, a marca na cara com ferro em brasa, a queimadura com lacre ardente. Registram-se casos de escravos emparedados vivos, afogados, estrangulados. Em Pernambuco houve casos de escravos arremessados vivos às caldeiras ou passados na moenda. Amputavam-se os seios às negras que não pariam com a esperada freqüência nos criatórios mantidos por certos senhores. Os feitores davam coices nas barrigas das negras grávidas ou desfechavam pauladas nas cabeças dos homens, coisa censurada pelo padre Antonil porque podia acarretar a morte do escravo ‘que vale muito dinheiro’” (Freitas, 1978 : 34-35).

Quilombos e insurreições

Segundo resposta do rei de Portugal a uma consulta do Conselho Ultramarino de 2 dezembro de 1740, quilombo era “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles” (Moura, 1987 : 16). Isso demonstra como a resistência escrava não foi esporádica. Pesquisadores, estudando a toponímia (estudo da origem do nome de lugares), vêm mostrando a constância de nomes de cidades, vilas, povoados, fazendas ou simples acidentes geográficos como serras e rios, com nome de quilombo, o que demonstra sua importância histórica e sua permanência na memória social.
Os quilombos foram um fenômeno nacional de contestação objetiva, independente da consciência dos explorados, à ordem escravista. Tem-se notícia deles, os principais, em quase todo o território nacional: Sergipe (8), Bahia (12), Amapá (2), Pará (7), Maranhão (6), Minas Gerais (9) e São Paulo (11), como os quilombos de Jabaquara, Atibaia, Santos, Campinas, Piracicaba, morro de Araraquara, Fazenda Mojolinho (São Carlos), entre outros. Além, da existência deles na Ilha de Marajó, Mato Grosso (Quilombo da Carlota), Santa Catarina (Quilombo de Alagoa) e Rio Grande do Sul (Quilombo do Rio Pardo)4 .
Essas comunidades, fundamentalmente de ex-escravos, organizavam-se de diversas maneiras, tinham dimensões variadas e duração muito diferentes. Havia pequenos quilombos, compostos de poucos homens, até quilombos de aproximadamente 20 mil pessoas, como o de Palmares, símbolo da rebelião antiescravista. Os menores possuíam uma estrutura muito simples, eram basicamente grupos armados. Já os maiores exigiam uma estrutura mais complexa, econômica, social, política e militar. O interessante é que a abundância de mão-de-obra e o trabalho cooperativo possibilitavam um aumento significativo da produção, que servia inclusive para o comércio.
Uma das causas da vitalidade e permanência dos quilombos era uma incipiente solidariedade de classe, isto é, a aliança entre os quilombolas e os escravos da senzala. Em Sergipe, por exemplo, em pleno Império, 1872, na Vila de Japaratuba, os quilombolas para fugirem das autoridades refugiaram-se nas próprias senzalas, onde foram escondidos pelos escravos que ali se encontravam. Assim, existia um sistema de informação e apoio entre quilombolas e escravos.
Os quilombos foram, também, um pólo de resistência à estrutura escravista, atraindo várias camadas e setores oprimidos para sua ór-bita, como pequenos proprietários, contrabandistas, garimpeiros, mascates, agricultores.
A quilombagem, embora sendo a principal, não foi a única forma de resistência dos escravos à ordem dominante. Outras, como

o assassínio de senhores, de feitores, de capitães-do-mato, o suicídio, as fugas individuais, o banditismo, a ocupação de engenhos, as guerrilhas e as insurreições urbanas ocorreram enquanto durou a estrutura escravista. Além da integração dos escravos em várias revoltas contra a ordem colonial e imperial.
Ocorreram inúmeras revoltas, como as de 1756 e 1864 em Minas, cuja tática era a união dos quilombolas com os escravos da cidade. Na de 1864, cujo centro era a cidade de Serro, o plano da insurreição resumia-se a lançar fogo em algumas casas e, quando os brancos estivessem distraídos, matariam quantos fossem possível para obter a liberdade. No entanto, a delação fez ruir o levante. Um de seus principais líderes, o escravo Adão, foi condenado às galés (trabalhos forçados executados por presos em correntes) por vinte anos, enquanto outro implicado, o branco Herculano de Barros, foi absolvido por falta de provas.
Destaca-se, também, a insurreição de 1835 em Salvador, liderada por escravos islamizados (maometanos), a qual significou o ponto culminante de uma série de revoltas que vinham desde 1807. Preparada nos seus detalhes, foi precedida de todo um período organizativo, o que ligou sua direção aos escravos de diversas nações como iabus, benins, minas, geges, mundubis, tapas, bornus, baribas, grumas, calabares, camarões, congos e cabindas. Os escravos se reuniam secretamente em diversos locais de Salvador. Além disso, criou-se um clube, também secreto, que funcionava na Barra (Bairro da Vitória). Os principais líderes eram escravos nagôs: Diogo, Ramil, James, Cornélio e Tomás, entre outros de outras nações ou libertos, como o negro Sule, o preto forro (liberto) Belchior da Silva Cunha, Ivá, Mamolim, Manuel Calafate, Aprígio. O movimento vinha sendo articulado também entre os escravos dos engenhos e os quilombolas da periferia. Não esqueceram a questão financeira, criando um fundo para as despesas do movimento.
O plano militar resumia-se no seguinte: partiria o grupo da Vitória comandado pelos chefes daquele clube dando combate aos opressores, rumando para a Água dos Meninos e em seguida marchariam para o Cabrito, onde se reuniriam aos escravos dos engenhos e quilombolas. Tal plano não foi cumprido na íntegra porque houve delação. Mesmo assim, no dia 24 de janeiro de 1835 estourou o movimento armado. O objetivo das autoridades era evitar a todo custo a união entre os escravos urbanos e os dos engenhos e quilombolas. Nos combates de rua os escravos derrotaram diversas vezes as tropas da polícia, porém no dia 25, quando tentaram tomar o forte da cavalaria, apesar do heroísmo, foram derrotados. Ocorreram 281 prisões, vários tiveram condenações de mais de duzentos açoites e cinco foram condenados à morte. No dia 14 de maio de 1835 eram fuzilados, pelo “crime” de lutarem contra a escravidão: os libertos Jorge da Cunha Barbosa e José Francisco Gonçalves e os escravos Gonçalo, Joaquim e Pedro. Todos eles foram condenados à forca, porém o governo imperial e escravista não encontrou carrasco que os executasse.
A campanha oficial do “aniversário de 500 anos de Brasil” está alicerçada na teoria conservadora da democracia racial.
Reflexões para a
atualidade
Essa teoria teve como principal mentor Gilberto Freyre, e como principal referência bibliográfica a sua obra Casa Grande e Senzala. Freyre argumenta que a colonização portuguesa, em relação a outras práticas de escravidão, foi uma colonização que, grosso modo, não maltratou tanto o negro. E quando isso acontecia, as punições eram justas. Nasce assim a teoria da harmonia entre negros e brancos. O que antes era defeito do Brasil – o grande número de negros e o alto grau de miscigenação –, passou a ser qualidade. O Brasil era um país formado a partir da contribuição dos negros, dos brancos e dos índios, e essas três raças viviam de forma harmônica. Não houve discriminação no País. Do cruzamento das três raças surgiu o “brasileiro”. Resultado: diluiu-se todo o passado escravista e suas conseqüências econômicas, políticas e culturais; o conceito de “brasileiro” superava as diferenças raciais e classistas. A visão de um País racialmente democrático é a disseminada pelos meios de comunicação e pelos livros didáticos da rede pública.
Como demonstramos, uma escravidão mais “humana” e menos repressiva não condiz com a realidade histórica. A suposta contribuição harmoniosa das três raças para formação da nacionalidade é totalmente fictícia, já que a cultura “portuguesa” foi imposta. Os valores morais, religiosos, políticos e sociais válidos eram os vindos da Europa. Para a historiografia escravocrata coube ao branco contribuir com a razão, enquanto negros e indígenas ficaram com as pequenas contribuições nos campos da emoção, do folclore e do exótico.
A partir dessa repartição arbitrária e classista de valores entre as três raças, as imagens positivas condensaram-se no branco colonizador: beleza, inteligência, cultura superior, religião. Aos negros e silvícolas oprimidos coube o lugar da feiura, da burrice, do folclórico, do exótico, da inferioridade, da preguiça, da barbárie. O que, sem dúvida, até hoje dificulta a formação de uma consciência classista nos setores explorados e oprimidos, pois deixa de introjetar nas crianças e adolescentes trabalhadores, principalmente nas negras, a auto-estima tão necessária à formação de qualquer pessoa autônoma.
Provavelmente, não existe nada que conteste com maior eficiência a falácia da “campanha do Brasil, 500 anos” e da suposta democracia racial do que a própria situação do negro brasileiro, superexplorado e oprimido. A maioria dos negros está concentrada nos extratos mais baixos da sociedade, são meninos de rua, abandonam com maior freqüência as escolas, não conseguem uma boa colocação profissional e têm baixa remuneração. Se a explicação não é biológica nem tampouco “culturalista”, preconceitos e discriminação incondicionados. Tais fenômenos só podem ser compreendidos no contexto de um passado escravista e na dinâmica do processo de acumulação capitalista, que favorecem e alimentam os mecanismos sociais de discriminação racial.
Hoje, vivemos em um regime de escravidão assalariada sob a ditadura da burguesia. Os que lutam por terra, moradia, emprego, melhores salários e por uma sociedade sem classes, são chamados de “baderneiros” e “bandidos”, como os quilombolas e lutadores do passado. Padres e pastores os condenam ao “fogo do inferno”, como a Igreja Católica nos tempos da Colônia e do Império condenava os explorados em luta. As forças do Estado burguês, a serviço da escravidão capitalista, também reprimem, assassinam, prendem e torturam, como no Estado colonial e imperial, os trabalhadores que lutam por seus direitos.
No entanto, temos algumas lições a tirar das rebeliões antiescravistas. Primeiro, que a luta de classes é o motor da História, enquanto existir exploração do homem pelo homem, tanto no passado escravista como no capitalismo de hoje. Segundo, qualquer reivindicação dos explorados, inclusive a luta contra os preconceitos e a discriminação racial, se integra na luta de classe contra classe. Terceiro, os trabalhadores, de todas as raças, não devem confiar nos opressores e seus representantes. Quarto, os oprimidos devem contar com suas próprias forças, sua organização é essencial e a forma de luta prioritária é a ação direta. A luta desenvolvida por aqueles que nas senzalas fétidas, nas matas e nos bairros populares travaram uma luta heróica, mesmo sem uma consciência clara, contra o escravismo, terminará apenas com a instauração de uma sociedade sem classes, no Brasil e no mundo.

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