O significado de "Casa Grande & Senzala" para a cultura brasileira
O refaciando Sociologia, de Gilberto Freyre (1945), escreve Anísio Teixeira:
“Casa Grande & Senzala não tem – como ensaio de interpretação social – muitos companheiros no mundo. [...]. Nada é em Gilberto Freyre linear ou esquemático; o seu pensamento se desdobra rico, múltiplo e maduro, antes psicológico do que lógico, preferindo a aparência da contradição à simplificação empobrecedora e primária, contanto que nenhum aspecto da realidade lhe escape e a possa apresentar em toda a sua extrema, delicada e múltipla complexidade”.1
Casa Grande & Senzala, publicada em 1933, é a obra mais importante do sociólogo Gilberto Freyre e, desde que surgiu, vem sendo considerada uma das obras de maior impacto na cultura brasileira, influenciando os estudos sociológicos, antropológicos e históricos, de maneira geral. De fato, o livro suscitou, desde sua aparição, paixões e críticas, mas nunca indiferença, pois reúne rigor científico e notável erudição, associados a uma enorme comunicabilidade, feito raramente alcançado por trabalho científico dessa envergadura. Essa rara e feliz junção, da atualização científica rigorosa com a simplicidade da linguagem, explica, sem dúvida alguma, a raiz imediata do sucesso e do impacto provocados pela obra.
Casa Grande & Senzala revela-se também inovadora quanto ao estilo. A obra é escrita em linguagem direta e comunicativa. No entanto, esta forma de comunicação, própria ao autor, seria uma das críticas mais freqüentes lançadas pelos seus adversários. Alguns simplesmente se diziam escandalizados pela linguagem, descontraída e espontânea, com que Gilberto Freyre abordava o tema. Outros, no entanto, utilizaram esta crítica para fazer restrições também ao valor científico da obra, que rompia tabus e preconceitos inerentes ao meio e à sociedade brasileira de então.
O tempo se encarregaria em desqualificar e fazer desaparecer uns e outros de seus críticos, tanto mais que a própria linguagem caminhou também no sentido da descontração e do despojamento. Ao mesmo tempo, os avanços das ciências sociais no Brasil passariam a exigir rigor científico da parte dos estudiosos, em todas as suas áreas. O que direcionou estes estudos, portanto, no sentido da obra precursora de Gilberto Freyre. Críticas mais freqüentes só surgiriam anos depois da publicação de Casa Grande & Senzala, provocadas mais por motivações político-ideológicas do que científicas, partindo, inclusive, de pessoas que relutavam em ler e mesmo em conhecer a obra e o pensamento de Gilberto Freyre. Para anular estas críticas, no entanto, não foi preciso mais do que a consagração da obra gilbertiana por parte de representantes do mais alto nível, nas Ciências Históricas, Sociais e Culturais, no Brasil e no exterior, tais como Georges Gurvitch, Arnold Toynbee, Lucien Febre, Fernand Braudel, Eric Hobsbawn, José Honório Rodrigues, Arthur Cezar Ferreira Reis, Anísio Teixeira, para só citarmos alguns grandes nomes.
Formação de Gilberto Freyre e seu significado para o conhecimento de sua obra
A atualidade metodológica e científica de Casa Grande & Senzala surpreende ainda em nossos dias, pois a obra não peca por qualquer espécie de unilateralismo e exagero, nem de tipo nacional ou ideológico. Ao contrário, um dos pontos altos da formação científica do sociólogo pernambucano era a correta colocação de problemas, que até então estavam envoltos em espesso véu de mistificações e em estereótipos enraizados, tais como o das raças humanas e os males da miscigenação e que só pesquisas e obras sociológicas mais tardias viriam enfrentar. Além de generalizadas no mundo inteiro, no Brasil a longa duração das idéias racistas encobriam, porém, seculares interesses de dominação econômico-social e colonialistas, sedimentados pelo prolongamento excepcional da escravidão.
De fato, as relações escravistas de produção se mantiveram intactas até o final do século 19, dificultando não apenas a tomada de consciência dos problemas sociais, como a adoção de novas atitudes críticas em relação à formação da identidade nacional, impedindo a consolidação da cidadania. Do ponto de vista sócio-cultural, no entanto, esses males da escravidão se perpetuaram além do século 19, pois a forte tradição européia que sofríamos, aliada à sociedade local de tipo oligárquico e patrimonial, favorecia vagas mas efetivas idéias racistas. Essas idéias, apesar de muitas vezes inconscientes, nem por isso deixavam de ser aceitas de forma pacífica pelo conjunto da sociedade brasileira, sem contestação até muito pouco tempo atrás.
No caso do jovem Gilberto Freyre, a excelente formação científica recebida, cedo o libertou dos preconceitos racistas comuns de sua época, sobretudo quando reforçados por ufanismos locais ou modismos copiados de teorias unilaterais estrangeiras. Assim, para além do inegável talento pessoal do autor de Casa Grande & Senzala, o legado do conjunto de sua obra revela que seus livros e trabalhos jamais foram escritos de forma improvisada, mas estão alicerçados em invejável formação intelectual, de erudição vasta e profunda.
A formação intelectual e mental, recebida pelo jovem Freyre, revela ter sido também favorecida pelo meio social em que nasceu e conviveu. Essa formação não foi só formal, orientada em cursos superiores e de mestrado e doutorado realizados em universidades norte-americanas, tendo por professores mestres ilustres do porte de Franz Boas, Franklin Giddings, C. G. Seligman, Alfred Zimmermann, entre outros. Ela foi também informal, vinda de berço, filho de professor universitário da tradicional Faculdade de Direito do Recife, que o iniciou nas Letras, no Latim e no Português. Conviveu, além disso, nos Estados Unidos, país onde foi estudar desde os 17 anos, com intelectuais e escritores do porte de John Dewey, Ruediger Bilden, Francis B. Simkins, Ernest Weawer, Yeats, Mencken e outros. Mais tarde, já na Europa, entraria em contato com intelectuais, escritores e artistas de igual categoria.
Porém, Gilberto Freyre também foi um profundo conhecedor das várias manifestações culturais do povo brasileiro. Freqüentador de terreiros de xangôs e candomblés, no Recife e na Bahia, quando ainda não era comum ou bem visto a presença de intelectuais entre as gentes humildes da terra, era no Recife figura bastante conhecida por pais e mães-de-santo. Estes, não raro, vinham pedir-lhe proteção quando das batidas e perseguições policiais aos seus terreiros e centros de religião e rituais dos cultos de origem africana, que então não eram tolerados pelo clero e pelos governantes nem prestigiados por intelectuais, artistas ou políticos, como em nossos dias.
Estes pequenos dados bibliográficos, bem como alguns aspectos ligados à formação e à personalidade do autor de Casa Grande & Senzala, nos parecem necessários para situarmos melhor o impacto de sua obra no panorama cultural brasileiro e, em especial, a sua significação para os estudos antropológicos e histórico-sociais do Brasil. Seguimos, aqui, a lição do Mestre sobre a inevitável projeção da personalidade dos que se ocupam das ciências do homem. Pois, apesar da disciplina de métodos a que se sujeite, como maior ou menor rigor, o cientista social, e que pode evitar certas interferências e distorções em suas obras, nos parece ter razão Gilberto Freyre quando escreve que não há Sociologia totalmente objetiva e que a presença do sociólogo na ciência é não apenas necessária como até inevitável, inclusive porque “inevitáveis seus próprios preconceitos”. 2
Daí porque Freyre considera ser de interesse conhecer não somente o lado científico e técnico do sociólogo, como também a inteireza de sua própria personalidade, para melhor se poder avaliar sua obra e, inclusive, o que chama de “nariz de Cleópatra”.3 Ao se referir à ilusão de Ranke de ver os fatos históricos em sua pura realidade e apoiar as reflexões de Simmel sobre esta problemática, afirma:
“... em Sociologia, como em História e em Psicologia, grande parte do ‘não eu’ só se deixa esclarecer pelo ‘eu’ do indagador: pelo seu poder de compreensão, de empatia, digamos mesmo de imaginação – imaginação científica e mesmo poética – e não apenas pelas técnicas de experimentação e mensuração”.4
Para aqueles que o conheceram e estão familiarizados com a totalidade da sua obra e não apenas com Casa Grande & Senzala, esta afirmação expressa uma verdadeira síntese de seu próprio método de abordagem dos fenômenos sociais, pois a obra engloba toda a sensibilidade desenvolvida ao longo da cuidadosa formação científica recebida, cultura e técnicas de pesquisa aprimoradas, aliando inteligência e oportunidades nem sempre fáceis de serem reunidas em um só indivíduo. Qualidades difíceis e que dependem também de oportunidades5 , nem por isso menos necessárias ao cientista social.
Assim, muitas vezes, para a formação intelectual de um indivíduo bem dotado, vale tanto a disposição de saber aproveitar as oportunidades, como o fato de haver convivido com um ambiente familiar de nível cultural elevado. No caso de Gilberto Freyre, conjugaram-se estes dois elementos e dificilmente poderíamos compreender Casa Grande & Senzala escrita por um autor sem as suas origens, vinculadas às antigas tradições dos engenhos da zona da mata nordestina e do Recife, então maior centro cultural do nordeste brasileiro. De fato, tanto do lado materno como do lado paterno, Gilberto Freyre descende de famílias com antigas raízes na região, de hábitos e gostos aristocratizados, comuns a certos meios sociais que, em Pernambuco, valorizam e se orgulham do passado da Província. Sua mãe, Francisca de Mello Freyre, pertencia à tradicional família Gonçalves de Mello, da qual alguns membros preferem adotar o sobrenome de ‘Pernambucano’, a exemplo de outros igualmente adotados por ocasião dos movimentos de independência e de libertação colonial, tão caros ao Nordeste e pelos quais tantos sacrifícios pessoais já foram realizados. Pelo lado materno é também primo do ilustre reformador dos métodos psiquiátricos no Brasil, o dr. Ulysses Pernambucano, pai do grande historiador José Antônio Gonçalves de Mello, neto.
Pelo lado paterno, Gilberto Freyre é filho de Alfredo da Silva Freyre, latinista, homem de cultura e sensibilidade, com raízes nas casas-grandes dos engenhos da zona da mata da região. Não menos ilustre foi seu primo, por parte de pai, o matemático e físico pernambucano dr. Luiz de Barros da Silva Freire, membro da Academia de Ciências do Brasil, introdutor da Matemática Quântica e da Física Moderna no País, formador de importante geração de reconhecidos e destacados matemáticos e físicos de renome internacional, entre os quais José Leite Lopes, Mário Schemberg, Samuel MacDowell e outros.6
Porém, estas raízes conservadoras e senhoriais gilbertianas, ligadas à aristocracia das casas-grandes dos engenhos de açúcar de Pernambuco, não significam que o autor negue a influência, inclusive biológica, da senzala – viveiro da ampla poligamia local, presente em toda a sociedade brasileira e, em particular, nas zonas de colonização mais antigas do País. Ao contrário, é exatamente esta origem que lhe permite reconhecer e compreender melhor a realidade sócio-cultural do Nordeste, levando-o a constatar e ressaltar os aspectos positivos da miscigenação, até então negados pelos intelectuais no Brasil, inclusive no seu aspecto social. O que o levaria a constatar: “A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que doutro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala”.7
De fato, suas observações sobre a sociedade patriarcal do Nordeste inovaram, ao ressaltar a importância positiva do fenômeno da miscigenação e não somente a situação social do negro. E esse fenômeno ele soube captar com a mesma sensibilidade que assinala em Marcel Proust, quando declara sua admiração sobre a maneira pela qual o grande escritor francês retratou o perfil e o comportamento psicossociológico da aristocracia francesa do final do século 19, recomposta, no dizer do próprio Gilberto Freyre, através do seu próprio ‘eu’, poderosamente empático e poderosamente compreensivo: “O estudo da história íntima de um povo tem alguma coisa de introspecção proustiana; os Goncourt já chamavam ‘ce romain vrai’”8 , escreve. E, em outro momento, parafraseando a exclamação do arquiteto Lúcio Costa, diante das velhas casas-grandes de Minas Gerais, é enfático: “A gente como que se encontra... E se lembra de cousas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós; não sei – Proust devia explicar isso direito”.9
É sempre com extremo respeito que fala sobre o objeto das suas pesquisas em relação ao seu ofício de pesquisador social:
“Estudando a vida doméstica dos antepassados sentimo-nos aos poucos nos completar: é outro meio de procurar-se o ‘tempo perdido’. Outro meio de nos sentirmos nos outros – nos que viveram antes de nós; e em cuja vida se antecipou a nossa. É um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos”.10
Esta passagem nos permite compreender o porquê da sua insistência em esclarecer as causas sociais da degradação da escravidão. Não somente as do homem negro, em particular, mas sobretudo as do escravo em geral. O que o leva a condenar o “regime de exploração do povo tutelado”, sobretudo porque “sem nenhum aspecto criador que importe em compensação à exploração econômica”.11
Tem sido comum, nos anos mais recentes, os críticos de Casa Grande & Senzala acusarem seu autor de haver justificado em excesso a escravidão, romantizando a dura realidade colonial, além de haver tratado mais dos escravos da casa-grande do que os do eito, onde a existência seria muito menos confraternizadora e mais brutal. Essa “tolerância” e “romantização” dos duros colonos e brutais patriarcas da casa-grande, bem como a dos brasílico-portugueses que forjaram a sociedade colonial em geral, tenderia a se acentuar com os anos, em especial após seu relacionamento mais estreito com o mundo oficial português.
Porém, a crítica mais comum que lhe fazem é a de que parece haver, da sua parte, uma maior simpatia para com as minorias dominantes. A pergunta a fazer, no entanto, aos críticos, é se teria sido Gilberto Freyre menos solidário com as outras raças, quando estudou e se referiu aos indígenas e aos escravos negros e às mulheres negras – concubinas ou não, e às vezes até esposas? Pois sua análise se prende igualmente a todos os elementos que compõem a família patriarcal. Muitas vezes incompreendido, Freyre, entretanto, permaneceu sempre fiel à sua formação culturalista e às idéias desenvolvidas em Casa Grande & Senzala e, depois, aprofundadas em obras como Sobrados & Mocambos, Nordeste, Ordem e Progresso e outras, inaltecedoras da excelência do que chama a meta-raça brasileira, forjada pelos contatos entre o colonizador português com as mulheres índias e negras. Os críticos de Casa Grande, porém, deveriam ter atentado para o objeto da preocupação maior da obra gilbertiana e que se encontra explicitada no subtítulo do livro: Casa Grande & Senzala – Introdução à História da Sociedade Patriarcal no Brasil.
Na verdade, Casa Grande & Senzala é uma radiografia e uma análise da formação da sociedade patriarcal brasileira e de sua identidade nacional. O objeto central do estudo é esclarecido com rigor científico, assim como o enfoque interpretativo assumido pelo autor, logo no início do Prefácio: “Foi o estudo de Antropologia sob a orientação do Professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor – separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural.”12 Razão que lhe permitiu apreender tão bem as contribuições de cada raça e de cada grupo, na obra da colonização.
Podemos ainda afirmar ter sido Gilberto Freyre o autor que, no Brasil, tratou de maneira mais completa e abrangente as relações entre colonos e escravos – sejam indígenas, africanos ou mestiços. A atualidade e seriedade científica da metodologia de Casa Grande & Senzala, porém, também representou uma das novidades da obra. O livro, sem deixar de ser leitura agradável, caracteriza-se assim pelo rigor científico e ampla documentação, espírito crítico e liberto dos preconceitos mais comuns ou de mais longa persistência, presentes na sociedade brasileira da época, como as idéias racistas, avivadas pela ascensão das doutrinas nazi-fascistas na Europa. Estes aspectos são pontos fundamentais, infelizmente muito esquecidos pela crítica à obra nos dias atuais, quando se referem às reações ocorridas contra o livro, por parte dos contemporâneos que se declaravam escandalizados com as idéias por ele defendidas.
Quanto às críticas sobre o enfoque muito maior dado aos escravos da casa-grande, parece que esquecem, os que formulam essas objeções, os objetivos do autor em fazer um trabalho na área da Sociologia cultural. O que não o faz esquecer, como tantos outros que escrevem sobre o tema, da interrelação necessária entre economia e sociedade, nem a correção e cuidados científicos exigidos para também se tratar dos aspectos econômicos da economia açucareira dos engenhos. Mas o enfoque principal de Freyre é, sobretudo, a História social e antropológica da região, com maior atenção sobre as relações entre a família da casa-grande e os escravos que viviam em mais íntimo contato com a mesma.13 Enfim, sobre a família patriarcal, vista como a verdadeira unidade colonizadora do Brasil colonial, constituindo um verdadeiro sistema de vida, tanto de economia como de organização social e política. E, nesse plano, ninguém ainda soube tratar, com mais felicidade, a estrutura social do Brasil colonial e imperial, como Gilberto Freyre, expresso, inclusive, na síntese admirável que constitui o próprio título e o subtítulo da sua obra.14
Significado de Casa Grande & Senzala
Ao escolher Casa Grande & Senzala como obra paradigmática destas ‘visões do Brasil’ e do pensamento gilbertiano, no centenário do seu nascimento, procuramos responder a uma questão: No que terá inovado Casa Grande & Senzala e que qualidades possui este livro, para ter causado tanto impacto na sua época e ainda hoje sua leitura suscitar nosso interesse?
Porque, ainda em nossos dias, podemos perceber o impacto que provoca nas jovens gerações a leitura desta grande obra. Na época em que surgiu, porém, o impacto foi maior, porque Casa Grande & Senzala introduzia ousadas inovações na forma de se pensar a sociedade brasileira e que hoje já se encontram reconhecidas e incorporadas à cultura, ao ensino e à metodologia acadêmica das ciências históricas e sociais, em nível nacional. Idéias então inéditas no Brasil e que levaram o autor a enfrentar não somente velhas maneiras de ver e pensar, impregnadas de estereótipos e preconceitos, como antigas estruturas sociais em decadência e que igualmente eram combatidas pelo então jovem sociólogo.15
Porém, o maior impacto do livro terá sido, sem dúvida, a defesa do mestiço, os argumentos sobre suas possibilidades e os reais motivos da sua anulação, o papel preponderante das condições econômicas e sociais injustas e, finalmente, o grande papel do negro na construção da sociedade brasileira.
“Todo brasileiro, afirma, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta, ou vaga e remota, do africano”.16
Com este parágrafo, Freyre inicia o segundo tomo do livro Casa Grande & Senzala17 , falando da experiência geral brasileira, citando exemplos, esmiuçando costumes e casos. E tudo com extrema simplicidade, ternura e sem hipocrisia, fruto da reflexão amadurecida de um pensamento e de mentalidade já desinibida, cientificamente atualizados. Atitude só possível a quem alia a cultura à compreensão e à sensibilidade, estando assim preparado para enfrentar preconceitos antigos e pseudo-científicos, tendo consciência de seu preparo intelectual e científico. O que, em sua época, só era possível para quem conhecia ou mantinha estreitos contatos com os grandes centros intelectuais mundiais.
Não admira, pois, o impacto de Casa Grande & Senzala e os escândalos que suscitou entre as elites brasileiras, há quase 70 anos, quando do seu lançamento. A autoridade científica da obra era, no entanto, de molde a poder enfrentar preconceitos e vencer vaidades e subterfúgios. Atualizada e bem documentada, a obra fora escrita respaldada em pesquisas bem orientadas, seguindo diretrizes novas ensinadas pelos grandes mestres e cujas sugestões seriam tão bem compreendidas e aproveitadas pelo jovem de talento inegável, gosto e capacidade intelectual invulgares, além de preocupação pelos destinos do seu país.
De fato, as pesquisas para a tese que apresentou na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Columbia, em 1923, intitulada Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century, seria a base do livro então lançado no Brasil, com o título de Casa Grande & Senzala.
Comecemos pelos comentários à rica documentação utilizada para compor a obra, as diretrizes do trabalho e o conhecimento teórico-científico que orientaria o plano e a sua realização, junto à capacidade e talento do autor, e que foram responsáveis por um retrato profundo, verdadeira radiografia da sociedade brasileira antiga, projetando luzes sobre a sociedade moderna. A importância desta obra, para a historiografia, os novos enfoques que ocasionou, a inesperada amplitude de interpretações que favoreceu, foram e são tão importantes como os caminhos que abriu para a Sociologia e a Antropologia no País. Daí as razões dos estudiosos das Ciências Sociais assinalarem o aparecimento de Casa Grande & Senzala como um marco para essas Ciências no Brasil.18
Distinguia-se a obra não só pelas diretrizes novas, pontos de vista opostos aos velhos estereótipos e preconceitos correntes e ainda difundidos por autores de renome, como Nina Rodrigues e Oliveira Vianna, como pela ampla pesquisa realizada pelo autor, não só em antigas fontes de documentos oficiais, como pela valorização de uma documentação secundária, até então ignorada ou desprezada no Brasil. Entre estas últimas fontes, incluem-se os cadernos chamados “recolhedores de fatos”: cartas de velhos arquivos de família, folclore rural de zonas que se caracterizaram pela presença do trabalho escravo, livros e cadernos de manuscritos de modinhas e receitas de bolo, livros de etiqueta, romances que fixaram flagrantes da vida e costumes patriarcais, sem falar nas coleções de jornais antigos e da vasta utilização de livros de viagens de estrangeiros.
Junto a estas fontes, informações recolhidas pela Inquisição, inventários, cartas de sesmarias e testamentos, correspondências da Corte e Ordens Régias, algumas dispersas em velhos cartórios ou em manuscritos pertencentes à Biblioteca do Estado de Pernambuco; Pastorais e Relatórios de Bispos em arquivos de velhas igrejas do Nordeste, atas de sessões de Câmaras, Ordens Terceiras, Confrarias e Santas Casas. Também foram consultados as coleções de documentos de outras regiões, como os Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo, Atas e Registros Gerais da Câmara de São Paulo, livros de assentos de batismos, óbitos e casamentos, tanto de livres como de escravos, estudos de genealogia e outros documentos, a maioria pouco utilizada ou até mesmo ainda inédita em nossos dias e utilizados pelo autor para a reconstrução da história íntima e social da família brasileira.
Ainda, sobre as fontes antigas, temos que mencionar as cartas jesuítas e os relatos de velhos cronistas, inclusive os estrangeiros, analisados e comentados pelo autor, avaliados o valor de seus testemunhos e a capacidade de observação e apreciação crítica de cada qual. Ao lado, porém, desta ampla documentação, temos que assinalar a vasta bibliografia utilizada, a antiga e a moderna, comentada e não raro contendo apreciações críticas de grande acuidade e que constituem enorme enriquecimento à obra.
É conveniente ler o que escreve o autor de Casa Grande & Senzala, para avaliar o seu plano fundamental e situar a problemática da contribuição das raças e da miscigenação para a cultura brasileira. No Prefácio à primeira edição, a propósito de seus estudos de Antropologia, sob a orientação de Franz Boas, afirma:
“Aprendi a considerar fundamental a diferença entre RAÇA e CULTURA; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família.”19
Casa Grande & Senzala valoriza certos aspectos da colonização portuguesa no Brasil, até então ignorados ou pouco conhecidos, e que foram pela primeira vez ressaltados por Freyre, ao apontar a qualificação excepcional do povo português para a colonização nos trópicos. Esta tese, defendida no livro com argumentação e crítica baseada em documentação histórico-social de considerável importância, foi desenvolvida pelo autor, em obra posterior.20
Apesar da importância desse critério inicial, fiel a uma visão globalizadora e equilibrada, ao falar sobre a estabilidade da sociedade patriarcal estar apoiada no açúcar (engenho) e no negro (senzala), ressalva:
“Não que estejamos a sugerir uma interpretação étnica da formação brasileira ao lado da econômica. Apenas acrescentando a um sentido puramente material, marxista, dos fatos, ou antes, das tendências, um sentido psicológico. Ou psicofisiológico. Os estudos de [Walter B.] Cannon, por um lado, e, por outro, os de [Arthur] Keith parecem indicar que atuam sobre as sociedades, como sobre os indivíduos, independente de pressão econômica, forças psicofisiológicas, suscetíveis, ao que se supõe, de controle pelas futuras elites científicas – dor, medo, raiva – ao lado das emoções de fome, sede, sexo.”21
De fato, o livro trata do sistema patriarcal como um todo, descrito e analisado como fator fundamental para a formação da sociedade brasileira. A casa-grande, ressalta, “embora associada particularmente ao engenho de cana, ao patriarcalismo nortista, não se deve considerar expressão exclusiva do açúcar, mas da monocultura escravocrata e latifundiária em geral: criou-a no Sul o café tão brasileiro como no Norte o açúcar”.22
“A casa-grande completada pela senzala”, e que refletia tão bem o sistema, é identificada, na obra, como representante de todo este sistema econômico, social e político. Assim descreve, no Prefácio, sua função econômico-social:
“A casa-grande, completada pela senzala, representa todo um sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro-de-boi, o bangüê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater familias, culto dos mortos, etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene do corpo e da casa (o “tigre”, a touceira de bananeira, o banho de rio, o banho de gamela, o banho de assento, o lava-pés); de política (o compadrismo). Foi ainda fortaleza, banco, cemitério, hospedaria, escola, santa casa de misericórdia amparando os velhos e as viúvas, recolhendo órfãos.”23
Esse resumo abrange, de modo muito completo, a organização colonial e imperial brasileira, com variações locais ou apenas de produtos regionais, e que em muitos aspectos se prolongou até 1930. A análise desta organização seria desenvolvida pelo autor em cada um dos setores da sociedade brasileira, de modo original e criador. É, pois, uma pesquisa extensa e completa e da qual resultou um estudo global e profundo da sociedade brasileira. Abrange tanto o estudo de suas estruturas como o de sua psicologia particular e coletiva, analisados de forma integrada e com grande acuidade metodológica e cultural. Nesse sentido, Gilberto Freyre seria dos primeiros a assinalar estar a obra da colonização portuguesa, no Brasil, assentada no tripé latifúndio-monocultor e escravidão, traços estruturais depois atribuídos ao pioneirismo de Caio Prado Júnior.24
Freyre, porém, atribui igualmente grande importância aos antecedentes e experiências do povo português, fatores que o teriam preparado para uma obra de colonização como a realizada no Brasil. A predisposição desenvolvida pelo povo português, devido à posição geográfica do seu país, em contatos com a África e com os muçulmanos e seus descendentes na Península Ibérica, são ressaltados como elementos de grande importância para a adaptação e a convivência dos portugueses com povos de outras culturas e regiões. É o que chama ‘plasticidade’ do português e capacidade muito acentuada de adaptação deste povo às novas condições da América tropical.
Expressão dessa adaptação e da capacidade criadora dos portugueses estão refletidas nas próprias casas-grandes, erguidas no Brasil colonial, e que podemos perceber tanto no aproveitamento do material local, como na arquitetura da época. Freyre descreve a estrutura dessas casas:
“A casa-grande de engenho que o colonizador começou, ainda no século 16, a levantar no Brasil – grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, coberta de palha ou de telha-vã, alpendre na frente e dos lados, telhados caídos num máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais – não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas uma expressão nova, correspondendo ao nosso ambiente físico e a uma fase surpreendente, inesperada, do imperialismo português: sua atividade agrária e sedentária nos trópicos; seu patriarcalismo rural e escravocrata.”25
E, mais adiante:
“Suas casas representam esse imenso poderio feudal. ‘Feias e fortes’. Paredes grossas. Alicerces profundos. Óleo de baleia. [...]. O suor e às vezes o sangue dos negros foi o óleo que mais do que o de baleia ajudou a dar aos alicerces das casas-grandes sua consistência quase de fortaleza.”26
Referindo-se à largueza horizontal dos prédios – cozinhas enormes; vastas salas de jantar; numerosos quartos para filhos e hóspedes; capela; puxadas para acomodação dos filhos casados; camarinhas no centro para a reclusão quase monástica das moças solteiras; gineceu; copiar; senzala – afirma: “Foi expressão sincera das necessidades, dos interesses, do largo ritmo de vida patriarcal que os proventos do açúcar e o trabalho eficiente dos negros tornaram possível.”27
Assinale-se, porém, que ele não ressalta apenas os aspectos positivos da colonização portuguesa no Brasil. Afirma:
“A formação patriarcal do Brasil explica-se, tanto nas suas virtudes como nos seus defeitos, menos em termos de ‘raça’ e de ‘religião’ do que em termos econômicos, de experiência de cultura e de organização da família, que foi aqui a unidade colonizadora.”28
Escreve:
“Ligam-se à monocultura latifundiária males profundos que têm comprometido, através de gerações, a robustez e a eficiência da população brasileira, cuja saúde instável, incerta capacidade de trabalho, apatia, perturbações de crescimento, tantas vezes são atribuídas à miscigenação. [...]. A importância da hiponutrição, [...]; da fome crônica, originada não tanto da redução da quantidade como dos defeitos da qualidade dos alimentos, traz a problemas indistintamente chamados de ‘decadência’ ou ‘inferioridade’ de raças, novos aspectos e, [...], melhores possibilidades de solução”.29
Entre esses males – do passado e do presente – enumera a má alimentação, a subnutrição, a carestia dos gêneros e as dificuldades do abastecimento das populações rurais e urbanas, a sífilis e, em seu tempo, os abusos das usinas e da monocultura latifundiária sobrevivente e as suas conseqüências sobre os homens: diminuição da estatura, do peso e do perímetro torácico; deformações esqueléticas; descalcificação dos dentes; insuficiências tiróideana, hipofisária e gonadial, provocadoras de velhice prematura, fertilidade em geral pobre, apatia e, não raro, infecundidade, traços até então associados às chamadas “sub-raças” ou “raças inferiores”, hoje já desmistificados. Portanto, demonstra que mesmo após a abolição do trabalho escravo, sobreviveram os males ligados à escravidão e à monocultura:
“Estas continuaram a influenciar a conduta, os ideais, as atitudes, a moral sexual dos brasileiros. Aliás a monocultura latifundiária, mesmo depois de abolida a escravidão, achou jeito de subsistir em alguns pontos do País, ainda mais absorvente e esterilizante do que no antigo regime; e ainda mais feudal nos abusos. Criando um proletariado de condições menos favoráveis de vida do que a massa escrava. [...]. O latifúndio só tem feito progredir nos últimos anos, subsistindo à sua sombra e por efeito da monocultura a irregularidade e a deficiência no suprimento de víveres: carnes, leite, ovos, legumes. [...]. De modo que da antiga ordem econômica persiste a parte pior do ponto de vista do bem-estar geral e das classes trabalhadoras [...].O escravo foi substituído pelo pária de usina; a senzala pelo mocambo; o senhor de engenho pelo usineiro ou pelo capitalista ausente. [...].”30
Aspectos importantes, presentes na obra, são, ainda, o estudo do indígena, a problemática da sua catequese, as dificuldades da sobrevivência dos grupos e sua contribuição para a cultura brasileira. Da mesma forma, e de maneira ainda mais extensa, a análise abrange o estudo do negro no Brasil e as valiosas contribuições do africano, a superioridade de sua cultura em relação à do indígena, aspecto até então negado ou muito ignorado, devido aos preconceitos raciais mais acentuados em relação aos negros. Fala da influência considerável das mucamas e mulatas na vida sexual e íntima dos colonos e senhores, mas igualmente da importância do escravo e dos libertos na produção rural e econômica do Brasil. Não devemos nos espantar, portanto, se o livro, apesar do seu caráter científico, causou escândalo na época. Pois Gilberto Freyre falava sem subterfúgios na mistura de sangue existente no País, na poligamia generalizada e na vasta mestiçagem nacional, ao contrário de esconder ou escamotear a questão da mistura de raças. Assim, não é de espantar que as críticas recebidas fossem parciais, inclusive silenciando outros aspectos, de enorme importância, e que entretanto foram por ele analisados.
Poderíamos salientar muitos outros aspectos nessa obra marcante: a percepção lúcida e sutil de certas peculiaridades da sociedade brasileira; o sistema hierarquizado e a posição das várias camadas sociais no sistema patriarcal; as dificuldades e o esmagamento das “indústrias democráticas de pau-brasil e de peles”, que o açúcar abafou. Porém, o açúcar também esterilizara a terra, numa larga extensão em volta aos engenhos de cana, para os esforços da pecuária e da policultura, “deslocando a criação de gado, com possibilidades de vida democrática” para os sertões. Em conseqüência, escreve,
“a minoria de brancos e brancarões dominando patriarcais, polígamos, do alto das casas-grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha, vassalos das casas-grandes em todo rigor da expressão”31 .
A Igreja curvando-se no Brasil colonial à casa-grande, aparecendo “subserviente em capela de engenho”.32
Conclusão
Foram necessários quase 50 anos, após a publicação de Casa Grande & Senzala, para que os estudos históricos e sociais no Brasil voltassem sua atenção para os aspectos sociológicos abrangidos por Gilberto Freyre e que até então eram criticados em sua obra. Estes aspectos eram considerados objetos de “interesse menor” ou de nenhum interesse para a História e as Ciências Sociais, já que relacionados à vida íntima e ao quotidiano. Casa Grande & Senzala, no entanto, é a precursora destes estudos no Brasil, desvendando o culto aos mortos, cujos retratos eram às vezes conservados “no santuário, entre as imagens dos santos”; o costume de se enterrar dinheiro (ou a sua lenda) nos casarões coloniais; as histórias de mal-assombrados, “almas penadas de senhores de engenho que aparecem pedindo padres-nossos e ave-marias”; histórias de frades intrigantes e de negras alcoviteiras; ritos de feitiçaria; negras velhas contadoras de estórias; iniciação dos jovens senhores no amor físico, através das mulatas ou mucamas da senzala. Todos e outros aspectos da vida comum e quotidiana, e que tantas críticas suscitaram ao valor da obra, estão analisados em Casa Grande & Senzala com sensibilidade, inteligência, compreensão e arte.
Ao concluir este trabalho, pensamos que hoje, mais do que nunca, adquire relevo e importância o estudo dos homens e seu tempo, do momento em que surgiu Casa Grande & Senzala, lembrando-nos de toda aquela inquietante geração, responsável pelo desenvolvimento das idéias políticas e sociais no Brasil, nas décadas de 20 e 30. Sem dúvida esta geração, fosse de vencidos ou de vencedores, contribuiu para a renovação das estruturas brasileiras e para a modernização do País após a revolução vitoriosa de 1930.
Os movimentos culturais inovadores que então surgiram em vários pontos do País, não poderiam por isso ser ignorados. Entre estes movimentos de intelectuais, muitos dos quais ainda sem preocupações políticas declaradas, os principais, sem dúvida, foram a Semana de Arte Moderna, em 1922, em São Paulo, e o Movimento Regionalista do Recife, em 1926, mas que desde 1923 ali se esboçara em torno de Gilberto Freyre e do seu grupo.33
A preocupação com os problemas brasileiros já vinha de longe, embora expressa de modo científico ou mais profundo apenas por alguns intelectuais, que se encontravam mais próximos dos centros de divulgação cultural da época: Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, Licínio Lúcio Cardoso, Rocha Pitta, Oliveira Vianna, Alberto Torres, Manoel Bonfim e outros mais. Todos manifestariam preocupação sobre os destinos do Brasil, e que continuou através da geração de Gilberto Freyre e outros intelectuais de matizes ideo-lógicos vários, como Caio Prado Júnior, Oswaldo de Andrade, Mário de Andrade, Anísio Teixeira, Graciliano Ramos, Sérgio Buarque de Holanda etc. Desde então, a preocupação sobre a condição do Brasil vem sendo expressa por intelectuais em todo o País, embora possam se expressar de maneiras variadas e, nem sempre, concordantes.
Porém, uma mesma preocupação intensa, encontrada nos intelectuais dos anos 20 e 30, pode ser resumida neste depoimento do grande mestre da Sociologia brasileira: “Era como se tudo dependesse de mim e dos de minha geração; da nossa maneira de resolver questões seculares”.34 Sentimento que, sem dúvida, refletia o clima geral de idéias e ideais nacionais, que atingia os jovens intelectuais brasileiros nos anos que precederam o surgimento de algumas das grandes obras da historiografia brasileira, da História às Ciências Antropológicas e Sociais.
Referindo-se aos intelectuais da época, escreve Wilson Martins:
“A verdade é que Gilberto Freyre sistematizou, em Casa Grande & Senzala, uma concepção instintiva que eles tinham do Brasil e à qual não souberam dar expressão, ou que apenas exprimiram na literatura de imaginação e na poesia.”35
Porém, apesar desta erudição, possivelmente Gilberto Freyre não teria podido escrever Casa Grande & Senzala se também não estivesse impregnado de tradição brasileira, de vivas raízes no Nordeste e com fortes vestígios, no Recife da década de 20, dos engenhos ainda existentes na zona da mata daquele período. Assim é que o livro sobre a formação brasileira, tão esperado por grande parte da intelectualidade do País, surgiu de um intelectual do Nordeste, consciente dos valores não propriamente provincianos, mas regionais. Ele próprio esclarece, no Manifesto Regionalista, em 1926, que talvez não houvesse região no Brasil que excedesse o Nordeste em tradição e nitidez de caracteres.36 Portanto, cultura autêntica e originalidade, marcante como o livro que surgiria em 1933, se impondo de imediato à cultura brasileira e influenciando até mesmo os estudos sociais de renomados centros científicos de outros países.
Tal é a significação de Casa Grande & Senzala para a cultura brasileira e no panorama mundial, desde a sua primeira edição.
Desde então, a obra e seu autor têm sido atacados por inúmeros intelectuais e defendidos por outros, inclusive por representantes de correntes ideológicas tão diversas como Nelson Werneck Sodré37 e Wilson Martins. A respeito escreve, com razão, Wilson Martins:
“A verdade é que certas críticas a Gilberto Freyre diminuem mais os críticos do que o criticado [...] não é que ele se situe acima das críticas, [...]; o que se deve considerar é que um escritor e um pensador da sua estatura estão acima de um ‘certo tipo’ de críticas, embora mereçam, ao contrário, e até exijam, um outro tipo, completamente diferente: a crítica criadora que, compreendendo a significação da obra, saiba colocá-la no lugar que é o seu, saiba vê-la nas linhas de uma evolução literária e científica e possa marcar-lhe, com tanta segurança quanto seja possível, o alcance e a fecundidade”.38
Os anos posteriores confirmaram ou desmentiram certas impressões, a posteridade reforçando outras, mas Gilberto Freyre ocupará sempre um destacado e importante lugar na cultura brasileira.
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