Home >> Revista PUC Viva >> 07, 500 anos da chegada dos europeus, dez. de 1999 >> Lima na história da América Latina

Lima na história da América Latina

APROPUC-SP

Lima na história da América Latina
Enrique Amayo

Para María Elena Moyano
(Os habitantes pré-colombianos do Peru) jamais ocuparam as terras de cultivo para seus projetos urbanos. Pelo fato de a terra fértil ser muito escassa, usaram terras sem cultivo para construir suas cidades, que cresceram desde então e alcançaram tamanhos e formas notabilíssimas. (Luís Lumbreras (1992:202).
* * *
Vila El Salvador é uma mostra concreta de como o povo se organiza para enfrentar o Estado e conquistar alguns direitos. Embora os senderistas pretendam deformar esse projeto que não ficou na teoria, senão que se transformou num fato concreto e prático, na formação de 2.500 organizações de base constituídas por jovens, mulheres, pequenos empresários. Eles querem destruir essa realidade e dizer ao povo que essa não é a solução nem a alternativa: que a única solução é que eles vençam a ‘guerra popular’ e ganhem o Estado. Nosso ponto de vista é totalmente diferente.
Nunca os pobres governaram o Peru; sempre houve uma classe política elitizada. Nós confiamos em que o próprio povo aprenda, desde o mais simples, a se autogovernar para que algum dia seja capaz de governar em nível nacional. (María Elena Moyano - V. Tupac Miloslavich: 127).

Este trabalho será apenas uma aproximação à complexa problemática anunciada no título. Nas páginas que se seguem somente poderemos mencionar, quase de maneira descritiva, alguns dos elementos dessa problemática. Essa análise deve ser feita com os conceitos de Ferdinand de Braudel da história de longo prazo (que caracteriza as civilizações). Confessamos que a demonstração pontual dessa história teria que ser conseqüência de uma profunda investigação que não temos condições de fazer. Entre outras razões, porque em São Paulo, onde vivemos e realizamos este trabalho, tivemos acesso a poucas fontes relacionadas com Lima. Por exemplo, não tivemos acesso ao último Censo Nacional do Peru realizado em 1993. Quase todas as informações recentes sobre Lima que daremos são de projeções realizadas antes do censo. Elas, por exemplo, davam para a Grande Lima de 1992 uma população de 8 milhões de habitantes. No entanto, ainda que não tenhamos as cifras exatas, sabemos que o censo constatou cifras menores que sete milhões (v. por exemplo, DEC: 16/4/97). Parece então que com Lima e o Peru passa-se um fenômeno já detectado em outros lugares da América Latina, ou seja, a queda, comparada com projeções a partir de censo anteriores, das taxas de crescimento demográfico.
Os imensos problemas da Lima de hoje são conseqüências primordiais das profundas mudanças econômicas e sociais que ocorreram, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. Essas mudanças colocam cada vez mais em questão a colonialidade1 , fenômeno de longa duração que tem suas raízes na Colônia. Ou seja que, em nossa opinião, os problemas gravíssimos en frentados por Lima são porque uma nova metrópole está nascendo, radicalmente distinta da anterior. A Lima dominantemente ocidental e branca, filha da Colônia, chamada arrogantemente de Pérola do Pacífico, está dando passagem para outra, cada vez mais andina, onde o predominante são todas a formas de mestiçagem étno-cultural. Parece que Lima finalmente representará o Peru. Estaria se tornando a verdadeira capital desse país. Esse processo de mudança é imenso e caótico, pois, principalmente, tem sido resultado da emigração de milhões de provincianos e camponeses, muitos deles indígenas, que em pouco tempo tiveram que se adaptar a uma urbe que não tinha condições de recebê-los. É então que essa cidade passa a ser chamada por muitos de Calcutá da América Latina.
Dentro dos limites anteriores é preciso considerar o que vem a seguir.

A Lima pré-colombiana
Lima é a capital nacional mais antiga da América do Sul. Sua fundação espanhola, feita em 1535, foi como capital do vice-reinado peruano, ou seja, das possessões da Espanha na América do Sul. Do Panamá à Terra do Fogo, incluindo vasto território hoje pertencente ao Brasil. Essa fundação foi feita próxima do centro religioso de Pachacámac, um complexo urbano da América pré-colombiana que tinha capacidade para receber dezenas de milhares de peregrinos. Por isso, a Lima metropolitana de hoje (que inclui Pachacámac) tem sítios arqueológicos de primeira grandeza. Desde 1821 é a capital do Peru.
Vamos nos deter brevemente na Lima pré-colombiana. Por razões de tempo, a Lima desta exposição é principalmente aquela posterior a 1535, quando ela, juntamente com o Peru, foi violentamente incorporada à história ocidental. Mas, na verdade, Lima é milenar, um dos centros urbanos mais antigos da América. Muito antes de 1535, nos três vales que hoje formam a Grande Lima Metropolitana (caminhando do norte ao sul: Chillón, Rímac e Lurín), a revolução urbana já havia ocorrido milhares de anos a.C. Por exemplo, o edifício comunitário mais antigo da América foi construído no Cerro de la Paloma, que faz parte da Lima Metropolitana de hoje, no ano de 4.334 a.C. (Agurto: 92). E nesses vales, centros religiosos e palácios cada vez mais sofisticados, com uma população camponesa crescente em seus arredores, eram uma realidade dezenas de séculos a.C. Como prova: o grande centro de cerimônias de El Paraíso é de aproximadamente 2.000 anos a.C. (Agurto: 95). Ou seja, milênios antes da invasão espanhola os habitantes originais de Lima, progressivamente, haviam dominado e transformado racionalmente em seu benefício a paisagem circundante. Como veremos rapidamente depois, esses três vales, além de pequenos, estavam rodeados por um grande deserto. Os limenhos aborígenes, com trabalho e conhecimento, através dos séculos, foram criando uma sofisticada e delicada rede de canais. Primeiro, dominaram plenamente os vales e depois conquistaram o deserto. Para a sua racionalidade econômica, baseada na proteção da força de trabalho, era essencial preservar os territórios agrícolas. Por isso, construíram seus centros urbanos no deserto. Somente quando o sistema de canais lhes permitiu o domínio pleno do vale e o avanço sobre o deserto, que começaram a urbanizar algumas partes estratégicas no centro desses vales. Quando chegaram os conquistadores europeus, os três vales que compõem a Lima metropolitana estavam ocupados. A agricultura intensiva permitia o sustento da uma população indígena crescente que habitava territórios dominados por senhores (em palácios) e por uma poderosa casta sacerdotal (em centros religiosos). Pachacámac, no Vale de Lurín, desde aproximadamente o ano 700 d.C. era o mais importante (não único) centro religioso desses três vales, com irradiação em toda a costa pacífica sul-americana. Sua extensão urbana cercada por muros cobria aproximadamente 10 quilômetros quadrados de deserto. E o centro do vale do rio Rímac, onde os espanhóis “fundaram” Lima, era uma grande praça triangular com um palácio e dois templos e confluência de uma série de caminhos. Esse vale era habitado por mais de 20 mil camponeses (Agurto: 56).
Os problemas de Lima se iniciam com seu nascimento para a história ocidental. Isto porque é um fato que, para que aparecesse a Lima ocidental e cristã (ou seja, espanhola e colonial), a pré-colombiana, sistematicamente, teve de ser destruída. Poucas coisas são mais paradigmáticas desse processo arrasador que o processo seguinte. O Palácio de Taulichusco, o senhor da água, que controlava e mantinha a rede de canais do Vale do Rímac, foi destruído (v. DLA). Sobre seus restos Francisco Pizarro levantou a sua morada. E como símbolo de sua importância, ali depois seria construído o palácio dos vice-reis e, finalmente, daquele que da sua independência até os dias atuais o Peru é governado. Ou seja, com Pizarro, iniciou-se um rápido processo de destruição de preciosas obras de engenharia hidráulica, que pacientemente foram construídos pela população indígena em séculos de trabalho acumulado. O processo de destruição foi acelerado porque os conquistadores, presos ao modelo eurocêntrico que não aceitava a existência de humanidade e inteligência em homens diferentes do europeu, foram incapazes de reconhecer um traçado urbano distinto, feito com outros materiais e baseado em outros princípios. A Lima quadrada (típica do formato urbano espanhol) se impôs sobre o traçado indígena triangular. Sua quadradíssima praça de armas, coração da Lima colonial, foi montada em cima de um cruzamento de caminhos que tinha três grandes construções. Para que o quadrado funcionasse, foi preciso destruir a formação anterior. Lima foi construída por cima de caminhos, canais e palácios. A dinâmica desencadeada foi ainda mais perversa porque os espanhóis consideravam inimaginável construir em terras desertas. Tinham que fazer a sua cidade ao redor do eixo do vale, ou seja, em suas melhores, mais verdes e magníficas terras. Ilustremos esse processo com o caso da água. Na chegada dos ibéricos, o lençol freático de Lima estava a dois metros de profundidade. No final da década de 80 deste século, estava quase a 70 metros e descia dois metros por ano (Figari y Ricou: 23). O processo foi assim porque seus comandantes foram homens como Pizarro, com sua mentalidade. Em nossa opinião, o melhor retrato do caráter dos conquistadores ocidentais representados por Pizarro foi feito, no final do século 16, pelo cronista indígena Huamán Poma de Ayala. Ele disse que estes, especialmente Pizarro, uma vez preso o último imperador inca do Peru, Atahualpa, tomaram suas riquezas. Todas, de maneira tão ilimitada, que esse inca “ficou muito triste e desconsolado e despojado de sua majestade, sentado no solo, sem seu trono e seu reino”. Como se não fosse suficiente, os conquistadores prosseguiram “até tomar de Atahualpa sua legítima mulher” (Poma de Ayala: 72).
Pizarro e o bárbaro processo desencadeado foram assim porque, como é sabido, os espanhóis vieram ao Novo Mundo não para ser lavradores, mas para ficarem ricos, ou seja, principalmente, pelo ouro, pela prata, pelas pedras preciosas etc. Por isso quase não se preocuparam com a agricultura que sustentava os homens e os fazia sãos e ricos (base, essa sim, da racionalidade econômica andina, cujo eixo era a preservação da força de trabalho). Então, a Lima colonial, ao mesmo tempo que sofria o rápido e irreversível processo de destruição de suas melhores terras agrícolas com o correspondente avanço do deserto, foi organizada para ser o centro do modelo ocidental de exploração da maior parte da América do Sul. Esse modelo era essencialmente não-reprodutivo, baseado principalmente na mera extração de riquezas (prioritariamente metais preciosos, obtidos em quantidades fabulosas) para serem exportadas para a Metrópole. O sustento dos homens, especialmente dos indígenas (e posteriormente dos negros e de outras etnias não-brancas, usadas como simples força de trabalho) importava muito pouco. A prova está na drástica redução da população indígena de Lima e de todo o Peru no final do século 16. Poderia se dizer que a racionalidade econômica do modelo ocidental se baseava na destruição de sua própria força de trabalho.

A importância colonial de Lima
Até o final do século 17, Lima foi a cidade principal do império espanhol. Em seguida foi a Cidade do México2 . E a importância de Lima se devia ao fato que ela era o centro controlador do gigantesco circuito comercial, baseado na mineração, cujo eixo era o complexo econômico formado pelas lendárias cidades de Potosi (na atual Bolívia) e Huancavelica, nos Andes do Sul do Peru. As quase inesgotáveis veias de prata e ouro do “Cerro Rico de Potosi” circulavam graças ao também inesgotável mercúrio da “Ciudad Vieja de Huancavelica”. O minério extraído, como a história ensina, foi em quantidade jamais imaginada por europeu algum. E isso foi feito literalmente queimando, nos fornos, 90% dos andinos. Sabe-se que um dos principais responsáveis pelo pior genocídio que a humanidade conhece (nos referimos à destruição da população indígena não só andina mas da América inteira) foi a economia mineira organizada pelos espanhóis. Essa economia, construída com a vida de milhões de homens, foi a determinante principal não só da “revolução dos preços” da Europa do século 16, mas também, e isto é o mais importante, da geração da acumulação primitiva (século 16 a 18), essencial para a gênese do capitalismo, capítulo central da história do Ocidente e mundial. E a Lima colonial desempenhava um papel chave nesse gigantesco processo extrator das riquezas da América pela Europa. São essas riquezas a base material que possibilitou construir a Era Moderna.
Paralelamente a esse processo se desenvolveu outro. É o que Luis Lumbreras chama de congelamento do formidável pacote tecnológico andino. Ou seja, que quase todos os conhecimentos, formas e processos tecnológicos e científicos que possibilitaram o êxito da construção de uma alta civilização nos trópicos, passaram sistematicamente a ser destruídos e não utilizados. Os sábios que sabiam ler os quipus (sistema inca feito com diferentes tipos de nós miúdos em cordas gigantescas), os astrônomos e matemáticos cujos conhecimentos permitiam previsões quase perfeitas, fato que permitiam colheitas abundantes e possibilitavam também a orientação de viagens marítimas com sucesso, até extracontinentais, os agrônomos que em sofisticados campos experimentais reproduziam todos os climas do império dos incas para saber quando, como, onde e o que semear, os engenheiros que com canais traziam a água desde os cumes dos Andes (às vezes desde 6.000 metros) e construíam o maior sistema de vias da era pré-colombiana mundial, os arquitetos que construíam cidades no pico das altas montanhas e na Amazônia (como Machu Pichu}, os tecelões que experimentando com fibras, lãs, tintas e técnica conseguiam fazer tecidos que até hoje surpreendem pela sua perfeição etc., etc. Quase tudo isso foi destruído.
Esses homens, coisificados na depreciativa e genérica designação de “índios” criada pelos ocidentais, foram submetidos a trabalhos vis e aniquilados. Com eles foram muitos segredos que os sábios amautas transmitiam, para a classe dirigente, de geração para geração. Era impossível, para a arrogância de analfabetos como Pizarro, imaginar que esses “índios” podiam ser sábios. Pouca coisa se salvou. Por exemplo, é fato conhecido que na história da agricultura mundial, a área andina (e também a região que se estende entre a metade sul do México até a Costa Rica) tem um papel de primeira ordem. Das 155 plantas nativas domesticadas pela população andina pré-colombiana (provavelmente, ninguém no mundo domesticou tantas plantas, v. Brack Egg), algumas chegaram até a Europa e se expandiram pelo mundo: batata, batata doce, milho, feijão, tomate, mandioca, cacau, amendoim, abacate etc. Alguns desses produtos, quase simultaneamente, foram domesticados em outras partes de nosso continente, principalmente na região da América Central e México, e por isso falaremos da batata.
É difícil imaginar a sorte da população de grande parte da Europa sem ela. Sem a batata, a Alemanha, a Rússia e o Norte da Europa, provavelmente, não teriam gerado a massa crítica populacional necessária para entrar na industrialização (v. McNeill). E desse imenso pacote tecnológico, feito a partir de um paradigma diferente do ocidental, e que por isso considerado inútil, pouquíssimas outras coisas se salvaram. Mencionemos apenas outras duas. As necessidades da expansão capitalista mundial recuperaram em massa, na metade do século 19, a quinina e o guano. A primeira é um remédio eficaz contra a malária. Foi a cura para os construtores que, finalmente, com o trem, tornaram possível a abertura dos continentes tropicais até seu centro. A segunda, veremos rapidamente depois.
A idéia dos grandes conquistadores, simbolizados por Pizarro, ignorantes e por isso arrogantes, de que tudo que prestasse teria de vir da Europa, foi determinante para congelar o pacote tecnológico andino. A conclusão eurocêntrica de que não é possível a civilização nos trópicos, provavelmente, começou dessa maneira. A pouca tecnologia andina que se salvou, abandonada à sua miserável sorte, congelou seu processo de desenvolvimento para poder sobreviver. Congelada (por extensão, junto à tecnologia das outras culturas e civilizações americanas, asiáticas e africanas conquistadas) ela, que funcionava em seu meio (os trópicos), foi, ao mesmo tempo, violentamente substituída pela ocidental, que nunca funcionou simplesmente porque não estava em seu habitat. Assim foi como se obteve a “arrogante” conclusão eurocêntrica já citada. O correto seria dizer que o paradigma tecnológico do Ocidente foi incapaz, até hoje, de criar civilização nos trópicos (v. Lumbreras). A prova é a destruição e arraso sistemático feito pelo Ocidente a partir do século 16 de homens, povos e territórios gigantescos na América Latina, Ásia, África e Oceania. E regressando a Lima, no processo de congelamento da tecnologia andina, essa cidade desempenhou um papel fundamental.
Como capital do vice-reinado do Peru, Lima, utilizando seu porto muito próximo, o Callao, tinha o monopólio do comércio de todas as possessões espanholas na América do Sul. E Espanha, por sua vez, através dos portos de Cádiz ou Sevilha, era o único país que podia comercializar com essas colônias e somente por Lima. Ou seja, que era o modelo paradigmático do que a história conhece como o monopólio correspondente ao Pacto Colonial. E o vice-reinado do Peru, até 1739, correspondia ao território que se iniciava no Panamá e chegava até a Terra do Fogo, no extremo sul da América do Sul, excluindo parte da Venezuela atual e as Guianas e incluindo um vasto território que hoje pertence ao Brasil. Em 1739, para “racionalizar” a exportação de sua gigantesca colônia americana, Espanha criou o vice-reinado de Nova Granada (com os atuais países da Colômbia, Equador, Panamá e Venezuela). Diferentes tratados da Espanha com Portugal no século 18 transferiram para os portugueses território que, ao norte, chegava até o Pará e, ao sul, a até Paraná. Em 1776, pelas mesmas razões acima, Espanha criou o vice-reinado da Prata (atuais Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai). Desta maneira, no final do século 18, o território peruano se reduziu drasticamente.3
De qualquer maneira, Lima, durante mais de dois séculos, foi o centro econômico indiscutível da maior parte da América do Sul. No final do século 17, as mudanças advindas com as divisões territoriais significaram a diminuição considerável do poder do Peru, embora continuasse sendo a cidade mais importante da América do Sul.
A realidade econômico-estrutural do período colonial assentou as bases da colonialidade. Este é um fenômeno de longa duração extraordinariamente captado por Aníbal Quijano. Simplificando, esse fenômeno tem como um de seus componentes a idéia de que tudo que vem de fora, especialmente da Europa, é melhor, que os peruanos, andinos e latino-americanos em geral não servem porque em tudo são inferiores: tanto como homens quanto como cultura. Na verdade, nunca foram algo. A Europa e o Ocidente lhes deram tudo. Antes do contato salvador com o Ocidente eram analfabetos, pagãos, idólatras, selvagens sem ciência e tecnologia úteis para o seu tempo. A Europa os salvou, cumprindo a sua missão civilizadora. Deu a eles: idioma, religião, ciência e técnica. Graças ao Ocidente, entraram na civilização.
E se tudo isso é certo, então a atitude racional única, porque é a salvação, é imitar e copiar o Ocidente. Mais que isso, é preciso ser Ocidente. Apesar disso, como a história tem mostrado, ainda que muitos tentaram seriamente, com toda a sua consciência, o Ocidente não os aceita. E não os quer porque é incapaz de aceitar como seus os índios, mestiços, árabes, asiáticos e africanos. O Ocidente os quer como instrumentos para seu benefício ou como seres folclóricos, mas nunca em termos de absoluta igualdade, salvo se perderam a alma.4 Perder a alma consistiria no processo de, consciente e mimeticamente, adaptar-se ao Ocidente por considerá-lo o sumo da modernidade e paradigma da civilização atual e, ao mesmo tempo, renunciar ao não-ocidental porque este só significa atraso e barbárie. O principal ideólogo dessa opção é Mario Vargas Llosa.5 É evidente a coerência desse escritor; por exemplo, a seu próprio desejo eliminou o que poderia identificá-lo como andino (não-ocidental, nesse caso, índio ou mestiço) ao explicitamente trocar a sua nacionalidade peruana pela espanhola. Dessa maneira, objetivamente optou pela essência de Ocidente impossível de entender sem a ação dos conquistadores brancos. Llosa representa bem esse tipo de ideologia que também caracteriza a colonialidade. Essa ideologia que despreza o índio e o mestiço e admira o branco tem sido a regra das classes dominantes do Peru e da América Latina desde os tempos da colônia.6
Dentro desses limites Lima se desenvolveu. Como grande centro econômico colonial, foi também um importante centro cultural. Assim, reproduzia e ampliava a colonialidade. Rapidamente isto será percebido por meio da religião e da universidade.
Como demonstração de sua importância econômica, Lima se construiu como uma grande cidade. Nela se ergueram centenas de edifícios: palácios, residências, igrejas e conventos, muitos dos quais são autênticas jóias da arquitetura americana. Foi então que começou a se construir o essencial do que hoje é conhecido como área monumental, constituída por aproximadamente dois mil edifícios, declarada pela Unesco, no final dos anos 80, como patrimônio da humanidade (v. Patronato de Lima).
Partes fundamentais de Lima são edifícios religiosos. São dezenas de igrejas e conventos. É que a Igreja Católica desenvolveu um papel estrutural fundamental para o processo de conquista e colonização. Tinha de penetrar nas almas de milhões de idólatras selvagens, levando-lhes o verdadeiro Deus, a única religião. A história registra que não salvou a muitos. Dos cerca de 15 milhões que o território do Império dos Incas tinha em 1532 (quem sabe, precisamente? Dobyns dá, por exemplo, uma população de 30 milhões e Cook, de nove milhões. V. Bibliografia), menos de meio século depois, em 1580, restava cerca de 1,5 milhão (esta uma cifra em torno da qual coincidem todos os pesquisadores do problema. V. Wachtel). Que a Igreja era extremamente importante na Lima colonial (tinha um importantíssimo papel a cumprir: “salvar almas”) não deve ser inferida somente de seus impressionantes monumentos religiosos, nem só de sua eficientíssima Inquisição, nem tampouco de suas gigantes cas e sistemáticas campanhas de extirpação de idolatrias (lembremos que Lima foi a única cidade da América do Sul “beneficiada” com um Tribunal da Sagrada Inquisição cujo papel essencial foi destruir as religiões indígenas). É preciso se deduzir, em nossa opinião principalmente, de seus santos. Nenhuma cidade ou país da América tem tantos santos católicos como Lima. Do período colonial, são quatro habitantes de Lima que Roma elevou à categoria de santidade (Santa Rosa de Lima, San Martin de Porres, Santo Toribio de Mogrovejo e São Francisco Solano). Vale dizer que San Martin foi o primeiro santo negro (na verdade mulato) da história da Igreja.
Embora a igreja de Lima colonial tenha sido fundamental para a reprodução ampliada da colonialidade, ela mesma não pôde resistir a outros fenômenos históricos de larguíssima duração que tinha sua origem em uma tradição cultural diferente da ocidental. A maior festa católica de Lima e do Peru tem origem na colônia e é a do Senhor dos Milagres ou Cristo Moreno. E se chama Senhor dos Milagres porque no terrível terremoto de 1687, poucas coisas ficaram intactas e, entre elas, “por milagre divino” uma parede onde um escravo anônimo havia pintado, de cor escura, um Jesus Cristo Crucificado. Posteriormente, no ainda pior terremoto de 1746, onde somente 25 das seis mil edificações de Lima permaneceram intactas (v. Gunther Doering), novamente o “milagre”: a parede com esse Jesus Cristo permaneceu imaculada. Por isto é que na Lima monumental de hoje, poucos são os edifícios anteriores a essa data. E digamos aqui, de passagem, que o terremoto é um fato determinante na história peruana. Lima, no período colonial, foi semi-destruída três vezes por terremotos e, no período republicano, foi assolada por outros dois, fortíssimos. Assim, o símbolo católico maior do Peru é conseqüência de um terremoto e do trabalho de um negro. Informemos aqui que o terremoto é elemento constitutivo importante do conceito andino pré-histórico chamado Pachacutec. Esse conceito significa, mais ou menos, a força que transforma o mundo colocando-o abaixo. Força incontrolável pelo homem, tão poderosa, que destrói o mundo para voltar a criá-lo em seguida sobre bases inteiramente diferentes. Esse conceito, elaborado pelos sábios andinos pré-colombianos, vem provavelmente da observação de que poderosíssimas forças telúricas (terremotos, maremotos, erupção vulcânicas, mudanças climáticas agudas ocasionadas pelo fenômeno conhecido contemporaneamente como El Niño e que se origina na costa norte do Peru atual, etc.) eram quase normais no espaço em que habitavam. A geografia moderna nos ensina, por exemplo, que o Peru faz parte do chamado Círculo do Fogo do Pacífico e que nele é determinante a placa tectônica de Nazca (e Nazca é parte do território peruano). Assim, o símbolo cristão do Peru, sincrética e inconscientemente, aceita em sua conformação, como determinantes, elementos que não são ocidentais e sim principalmente andinos (Pachacútec=terremoto=milagro7 ) e, secundariamente, africanos (a cor). O que vale dizer que esse símbolo em si mesmo é quase a negação da ordem racial imposta pela colonialidade.
Como se está vendo, Lima foi um centro cultural importante. Não só pelo complicado processo religioso já descrito. Também porque, ainda que originalmente estiveram vinculados a esse processo religioso, nessa cidade foi que se iniciou em 1584 a história da Imprensa na América do Sul. Ali também foi criada a primeira universidade da América (1551). Vamos nos deter brevemente neste último evento.
A Universidad Mayor de San Marcos foi fundada em Lima em 12 de maio de 1551. Desde então, nunca fechou as suas portas. Podemos medir a sua importância pelo seu papel determinante na organização de outras universidades valiosas para a história da América Latina. Exemplos da de Bolívia (de Chuquisaca, 1552), da Argentina (de Córdoba, 1609), da Colômbia (Santo Tomás de Aquino, de Bogotá, 1619), do Equador (San Gregorio Magno, de Quito, 1621), da Guatemala (San Carlos, 1687), da Venezuela (Santa Rosa de Lima, de Caracas, 1721) (v. Cipur).
Ainda que a Universidad Mayor de San Marcos tenha sido fundamental para a reprodução da colonialidade, nesse processo também apareceram as contradições. No final do século 18 nasce em Lima a Sociedade de Amantes do País, que através de sua revista, El Mercurio Peruano, inicia os estudos sobre a realidade “nacional” (estas duas instituições estão entre as mais antigas da América). Ainda quando essa sociedade era independente, muitos de seus membros eram acadêmicos notáveis da Universidad Mayor de San Marcos. Não há dúvida que o que dominava nela era ver o país com olhos europeus, especialmente espanhóis e franceses. Ou seja, que nessa sociedade a mentalidade dominante entre seus membros correspondia à colonialidade. Entretanto, alguns começaram a superar os limites impostos por essa mentalidade. E é esse o caso (não único) do médico e pesquisador da natureza Hipólito Unanue, que, por exemplo, realizou aproximações científicas sérias sobre a folha de coca. Somente em tempos recentes suas observações foram superadas. De qualquer maneira, e ainda quando estivessem cheios de contradições, os membros dessa sociedade da Universidad Mayor de San Marcos foram responsáveis pelo desenvolvimento de um clima intelectual propício para o diálogo. Por isso, quando o barão Alexander Von Humboldt visitou Lima em 1802, não chegou a um lugar vazio. Tinha, assim como em outras partes da América Latina que visitou, com quem dialogar e obter informações. Isso ajuda a explicar a facilidade com as quais ele realizou alguns “descobrimentos” importantes. Assinalemos dois. O primeiro consiste na “prova” da existência de uma gigantesca corrente oceânica que, atualmente, leva o seu nome. Na verdade, ela era conhecida dos andinos desde tempos remotos. Então vejamos. A maior cidade marítima da América Antiga, Chán-Chán (séculos 10 a 15 d. C., localizada na costa central do Peru) tem numa praça uma grande parede adornada com altos relevos que mostram o choque e desvio da corrente que vem desde a Antártica no Sul (de Humboldt) com a que vem do Norte (Equatorial) 8 . Como se vê, a cultura Chimú, que construiu Chán-Chán como sua capital, observava e conhecia tanto esses fenômenos, sem dúvida determinantes de sua vida, que até os havia representado.
O outro “descobrimento” foi o seguinte. Humboldt levou o guano (adubo natural de aves marinhas) para a Europa para estudá-lo. Como é sabido, o guano foi fundamental, depois de 1840, para a revolução, em termos de produtividade, da agricultura capitalista mundial em seu período mais importante do século 19. Mas o guano era utilizado no mundo andino desde tempos imemoráveis. Esse adubo é essencial, por exemplo, para explicar a extraordinária riqueza e produtividade da agricultura intensiva inca. O que queremos dizer, como já assinalaram autores como Mary Louise Pratt (v. bibliografia), é que Humboldt se apropriou e divulgou na Europa muitos conhecimentos que já existiam no Peru (e em outros lugares que visitou na América).
O correto seria dizer que, nos casos mencionados, Humboldt descobriu, para a história moderna do Ocidente, o que as civilizações indígenas americanas descobriram, conheciam e por isso usavam desde a mais remota antigüidade.
E na valiosa acumulação de informação como a mencionada, a Universidad Mayor de San Marcos desenvolveu um papel importante que, assim que a República foi instalada, se transformaria em mais fundamental.
Deduzimos disso que, lentamente, ainda na Lima colonial, passaram a ser evidentes os limites da colonialidade e, portanto, foi surgindo a sua crítica, embora não de maneira consciente.

A Guerra do Pacífico
Nos tempos coloniais (1532-1821), Lima foi a cidade mais importante da América do Sul, sendo que é um fato que desde o final do século 17 sua importância foi diminuindo. Seu destino foi marcado pela diminuição de metais preciosos enviados para a Metrópole. Posteriormente, no período republicano (desde 1821), foi perdendo importância, especialmente diante de cidades atlânticas como Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo. Embora perdesse a importância, pelo menos dois momentos, nos anos entre 1821 até a Segunda Guerra Mundial, foram de grandes investimentos e, portanto, de expansão e sofisticação urbana. A Lima colonial que a República herdou era relativamente pequena e cercada por muros (v. Gunther Doering). Ela foi cercada no final do século 16 para evitar as investidas dos piratas9 , que a atacavam para roubar suas grandes riquezas10 . Mas os gigantescos recursos recebidos pela venda do guano e do salitre11 iniciarão o processo de destruição de suas muralhas. Isso foi no início da década de 70 (1870) e Lima se expandiu construindo parques, avenidas, edifícios, palacetes, tudo influenciado principalmente pela arquitetura francesa.
Mas esse processo se deteve, e até retrocedeu, quando o Chile declarou guerra ao Peru (5/4/1879), ambicionando apropriar-se das riquezas peruanas. E conseguiu. O Peru, com a sua aliada Bolívia, perdeu a Guerra do Pacífico (1879-1883) e as tropas chilenas invadiram Lima. Não só foram incendiados alguns dos principais bairros (como o elegante Balneário de Chorrilhos), como também saquearam e depredaram a cidade. Levaram em barcos para Santiago o valioso roubo que se constituía de livros e arquivos da Biblioteca Nacional do Peru (instituição das mais antigas e valiosas da América). O que levaram era extremamente rico, como prova o fato seguinte.
Chile enviou para Lima, para selecionar os livros, o mais famoso arquivista, bibliotecário e colecionador de documentos de sua história: Toribio Medina. Mas roubaram muito mais. Especialmente estátuas e adornos que faziam Lima bela e sofisticada. Levados, melhorariam a até então provinciana capital chilena. Por exemplo, os leões de mármore de Carrara da entrada do Palácio da Exposição da capital peruana foram transformados em ornamentos que permanecem até hoje em uma das principais vias de Santiago, a Avenida dos Leões. E as portas coloniais da Catedral de Lima foram vendidas pelos soldados chilenos ao inglês John Thomas North (chamado de “Rei do Salitre” porque chegou a monopolizar esse produto no final do século 19). North instalou essas portas em seu palácio nos arredores de Londres12 .
Depois da grave crise ocasionada por aquela guerra, Lima lentamente se recuperou. Pelos anos 20-30, na base dos excedentes acumulados pelo “boom” exportador de suas matérias-primas (petróleo, algodão, açúcar e minerais) durante a Primeira Guerra Mundial, iniciou-se um expansão para o sul, construindo-se grandes avenidas (v. Caravedo).
Poderíamos dizer que, entre os anos da colonização até a Segunda Guerra Mundial, Lima cresceu. Entretanto, continuava sendo uma cidade relativamente pequena. No início do século 17 tinha cerca de 15 mil habitantes. No começo da República, aproximadamente 70 mil. Em 1876 (pouco antes da Guerra do Pacífico), eram cerca de 102 mil habitantes. Em 1920, quase 270 mil e em 1940, 645 mil (v. DEC). Em todo esse período, Lima foi dominada por uma classe que se considerava assim mesmo: branca, ocidental e cristã. E essa classe, orgulhosamente, chamava a sua bela cidade de Pérola do Pacífico.
Mas também nesse período começa a surgir a crítica cada vez mais consciente da colonialidade. Não podemos analisar aqui em detalhes as lutas e os processos sociais que foram tornando cada vez mais evidente que o Peru (e América Latina) não era mera reprodução do Ocidente. Para ser realidade histórica com possibilidades de futuro, tinham que tornar evidente sua originalidade. Para isto era fundamental tanto recuperar o passado como submeter à crítica o caráter de sua vinculação com o Ocidente, dentro do processo histórico da dinâmica mundial. Para essa recuperação foram determinantes os anos 20 deste século. Foi então que poderosos movimentos intelectuais, como o indigenismo, culminaram na organização, em Lima, da revista Amauta.
Desde o nome, essa revista mostrou ser diferente. Utilizou um nome que em quechua, a língua dos incas, significa professor, guia, sábio, explicador de coisas que o homem comum não entende. E seu diretor, José Carlos Mariátegui, na apresentação da edição número 1, de setembro de 1926, dizia:
“...O título... reflete nossa homenagem ao incaismo.. O objeto desta revista é apresentar, esclarecer e reconhecer os problemas peruanos... mas consideraremos o Peru sempre dentro do panorama do mundo. Estudaremos todos os grandes problemas de renovação políticos, filosóficos, artísticos, literários, científicos. Todo o humano é nosso. Esta revista vinculará os homens novos do Peru, primeiro com os outros povos da América, em seguida, com os outros povos do mundo...”
É também nestes anos que seu poderoso movimento literário, artístico e científico (grande parte de seus membros colaboraram em Amauta, publicada entre 1926 e 1930, e por isso são conhecidos como “A geração Amauta”) assentou as bases definitivas de uma outra maneira de ver o Peru: cada vez mais crítica do paradigma ocicêntrico e cada vez mais andina. Entretanto, não era uma visão dogmática, sectária, isolacionista ou de volta ao passado. Foi, sim, para recuperar as raízes do passado, para projetar-se ao futuro, mantendo suas especificidades no processo de construção de um mundo comum. Nas palavras de Mariátegui: “considerando o Peru sempre dentro do panorama do mundo”. Visão compartilhada pelo seu maior poeta, “El Cholo” César Vallejo, que no início dos anos 30, se declarava cidadão do mundo e escrevia: “Perú, al pie del orbe”. E a geração amauta compartilhava dessas visões.
Grande parte do processo descrito aqui acontecia em Lima, onde a Universidad Mayor de San Marcos desempenhou o papel principal. É impossível entender a crítica cada vez mais consciente à colonialidade sem compreender o papel cumprido por algumas pessoas e instituições dessa universidade. Como exemplos, os professores (autênticos amautas): arquiteto Júlio César Tello, os historiadores Luis Valcável e Jorge Basadre e, mais recentemente, o etnólogo e romancista José María Arguedas. E nos tempos atuais, o sociólogo Aníbal Quijano, os críticos literários Antonio Cornejo Polar e Francisco Carrilho, o lingüista Alfredo Torero, o arqueólogo Luis Lumbreras, o historiador Pablo Macera etc.
Registremos que estes últimos se nutrem não só da recuperação de clássicos como El Inca Garcilaso de la Vega, Huamán Poma de Ayala e Juan de Santacruz Pachacuti, como também das valiosas contribuições feitas pelas ciências biológicas para o conhecimento das sociedades andinas. E entre os institutos de pesquisa da Universidad Mayor de San Marcos, mencionemos o Instituto de Medicina de Altura (IMA)13 e o Instituto Veterinário de Investigaciones Tropicales y de Altura (Ivita)14 .
Digamos finalmente o seguinte: Mariátegui foi o verdadeiro pai e iniciador da crítica consciente e sistemática da colonialidade. Mas ele não pertenceu à Universidad Mayor de San Marcos, pelo contrário, como dizia, foi autodidata e antiuniversitário. Mas, apesar de tudo, grande parte de sua poderosa obra só pode ser entendida em relação com essa universidade. Por isso, especialmente nos últimos anos, a crítica internacional tem deixado cada vez mais evidente que José Carlos Mariátegui foi, provavelmente, o mais audacioso pensador latino-americano deste século15 . Sua audácia, de conseqüências históricas, consistiu em mostrar, contra o que era dado como certo, que o Peru e as sociedades latino-americanas não eram reprodução nem cópia do Ocidente, mas formas sociais diferentes. O desafio proposto por Mariátegui para a América Latina era o de recuperar a sua especificidade. É oportuno salientar que essa posição de Mariátegui, implícita sobretudo nas suas obras elaboradas entre 1923 e 193016 , teria sido impossível sem o apoio indireto dos trabalhos do arqueólogo Julio César Tello. O “índio” Tello, em 1919, iniciou a difusão dos resultados da Expedição Arqueológica da Universidad Mayor de San Marcos que ele dirigiu em Chavin, no centro dos Andes do Peru. Suas pesquisas ali comprovaram a originalidade da civilização andina (ver o título de seu livro na bibliografia). Tello abriu o caminho, que só se ampliou com o tempo, para provar que o início da civilização (ou seja, da revolução urbana) na América foi no Peru, uma das sociedades urbanas mais antigas do mundo, com mais de 40 séculos.
Assim foi como a Lima colonial, a Pérola do Pacífico, foi gerando a sua crítica radical. Mas os limites do modelo de origem colonial, sua incapacidade para representar e resolver os problemas do país, seriam mostrados na prática e de maneira ainda mais radical pelos fenômenos sociais que se aceleraram depois da Segunda Guerra Mundial.

A Lima metropolitana
Lima está situada em frente ao mar. É a única capital americana na beira do Pacífico (oceano que hoje é o eixo da economia mundial). Seu porto, El Callao, é também uma das saídas naturais da Amazônia no Pacífico. Lima é também a maior cidade da América Latina no Pacífico. Em tamanho e população é a quarta cidade da América do Sul, a quinta da América Latina (onde estão Cidade do México e São Paulo, segunda e terceira megalópoles do mundo) e está entre as 30 maiores do planeta. Por pura coincidência, Lima se situa quase no centro tanto em relação à costa peruana como em relação ao Pacífico latino-americano. Para os especialistas da geopolítica, isso significaria uma posição estratégica privilegiada. Os espanhóis começaram a construí-la em um vale, às margens do pequeno rio Rímac, que corta o deserto que se encontra entre o Pacífico e os Andes. Mas, especialmente neste século, passou a cobrir também os outros dois vales limítrofes, que correm paralelos, o Chillón e o Lurín. E por isso, atualmente, Lima metropolitana ocupa cerca de 700 km quadrados desses três vales (v. Cipur).
A geografia de Lima ajuda a definir uma de suas principais características: os contrastes ou contradições. Assim, por exemplo, se situa no que hoje é um deserto, em um território onde quase nunca chove mas que, ao mesmo tempo, é muito úmido. Ela é, simultaneamente, desértica e uma das mais úmidas do globo. Mas seus contrastes não são apenas geográficos, são econômico-sociais, étnicos e culturais.
Em 1961, Lima tinha 1.845.910 habitantes; em 1972, 3.302.523; em 1981, a população atingiu 4.608.010. Dados recentes indicavam, em 1995, um salto para quase 7 milhões de habitantes. Com taxa de crescimento anual de 2,8%, uma das mais altas do continente, somando-se a imigração, calcula-se que no ano 2000, Lima chegará aos 10 milhões de habitantes, um pesadelo para os planejadores urbanos. Quase 50% de sua população atual vive em áreas concentradas, conhecidas como “barriadas” ou povoados recentes (v. DEC). Ou seja, que pelo menos a metade de Lima é área de alta concentração mas, ao mesmo tempo, como outro exemplo das suas contradições, seu centro histórico monumental, constituído por mais de mil edifícios que estão sendo reconstruídos, é considerado pela Unesco, como já vimos, patrimônio da humanidade.
É óbvio que essa cidade tem problemas gigantescos. Vejamos alguns. Por exemplo, para satisfazer seu problema de moradia hoje, seria preciso construir por volta de l milhão de casas (v. Sánchez et al). Para grande parte da população, faltam serviços públicos elementares como água potável, esgotos, energia elétrica, transporte, telefone, escola, postos de saúde etc. Ilustremos estes problemas com um dos mais agudos, a crescente falta de água potável. De maneira desigual, esse problema afeta a toda a população de Lima. O líquido vital é muito limitado e ele é obtido, inclusive nos bairros da grande burguesia, com dificuldades. O péssimo e velhíssimo sistema de distribuição de água faz com que a metade simplesmente se evapore no caminho. Ou seja, do total, 50% nunca se pode contar. A isso se acrescenta que o crescimento de Lima praticamente esgotou o seu lençol freático. Como já vimos, ele abaixa dois metros por ano (v. Figari e Rocou).
O Peru é uma potência mundial em água doce, mas ela está desigualmente distribuída em seu território. O lençol freático do deserto próximo a Lima teria que receber a injeção de águas de rios que correm para a Bacia Amazônica (ou seja, o Atlântico). Os gastos de bilhões de dólares necessários para trazer esses rios para Lima, cruzando com túneis quase todo os Andes, tornam difícil esse feito. Quase impossível por ora porque Lima é a capital de um país que tem sofrido, durante anos, uma das crises econômicas mais profundas da história, uma das piores da América Latina e do mundo.
Isso ajuda a explicar fenômenos de massa relativamente novos para as Ciências Sociais. Um exemplo é a informalidade. Nos anos 80 dizia-se que Lima era a capital do mundo da informalidade (v. De Soto). E era porque é um fato, que continua até hoje, que mais de 60% de sua População Economicamente Ativa não tem trabalho permanente (v. Derpich et al).
Outro exemplo é aquele que teve origem no fato de que Lima, até setembro de 199217 , foi a capital de um país em guerra. De um tipo de guerra quase inédita, pois ela era informal, oficialmente inexistente, silenciosa, permanente, letal e absolutamente destrutiva. A crise geral do Peru foi acelerada por essa guerra interna. Ela foi declarada contra a sociedade e o Estado peruano (representado por suas Forças Armadas), tanto pelo Sendero Luminoso (para “construir” o que chamava de “sociedade de nova democracia”), como pela Máfia (a que Sendero Luminoso se associou indiretamente para controlar o fértil e abundante Vale del Huallaga, na Amazônia, convertendo-se na principal área produtora de folhas de coca do mundo). Essa guerra, que arrasou grandes territórios, produziu os refugiados internos, ou seja, vítimas constituídas especialmente por indígenas e camponeses andinos (em sua maioria, crianças, mulheres e anciões), que às dezenas de milhares deixaram seus destruídos territórios e emigraram principalmente para Lima. Na capital, ampliaram os bairros pobres (barriadas) e o setor informal da economia. Esses “refugiados” são um setor social dramático pois, diferentemente das vítimas das guerras convencionais, esta, que oficialmente nunca existiu, não pode-lhes dar o status de verdadeiros refugiados.
Não sendo reconhecidos não receberam ajuda nem proteção de nenhum organismo internacional relacionado com essas carências, por exemplo, da Acnur (órgão da ONU para ajudar os refugiados, vítimas de guerras e catástrofes), que felizmente, sim, esteve ativa tanto nas cruéis e injustas guerras da América Central, como em todas as outras, chamadas de baixa intensidade, provocadas pelos EUA nos anos 80 em diversas partes do mundo “para defender a democracia” 18.
Exemplifiquemos a origem desses “refugiados” com o caso dos evangélicos. A revista do Instituto de Defesa Legal (Ideele) (v. bibliografia) de novembro de 1993, informava que os evangélicos eram aproximadamente 4,53% da população peruana, ou seja, uma minoria religiosa. E acrescentava que um alto índice deles era de camponeses índios, inocentes habitantes milenares das áreas transformadas em zonas de guerra. Por isso começaram a ser massacrados. Segundo essa revista, as estatísticas dos próprios evangélicos mostram que em 1982 mataram um deles. Em 1983, foram 49 mortes provocadas pela guerra; 141 em 1984; 36 em 1985; 15 em 1986; 4 em 1987; 37 em 1988; 81 em 1989; 40 em 1990; 90 em 1991 e 33 em 1992. Ou seja, entre 1982 e 1992, foram assassinados 529 evangélicos. Essa revista demonstra que desse total o Sendero Luminoso matou 446, as Forças Armadas do Peru assassinaram 49, e pela polícia, 12 por forças paramilitares, e um pelo Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA), grupo inimigo do Sendero Luminoso. Outras 18 mortes foram provocadas por autores não identificados.
Por que essa terrível violência do Sendero Luminoso contra os evangélicos? Por que assassinou quase 85% do total de mortos? Porque esses últimos, segundo eles declararam, se recusavam a se vincular ao Sendero Luminoso, porque somente serviam a Deus. E para não morrerem ainda em quantidade maior, esses evangélicos, igual a tantos outros, fugiram desesperados da zona de guerra. Até onde sabemos, não existem estatísticas precisas sobre os refugiados internos, mas a cifra deve girar ente 250 mil a 600 mil.
E assim foi que Lima inchou ainda mais. Simultaneamente, territórios inteiros do interior, habitados por milênios, simplesmente se despovoaram.
Então os problemas recentes de Lima foram acentuados em conseqüência dessa guerra silenciosa.
Como se sabe, Lima é a capital de uma das áreas do planeta historicamente mais exploradas pelo Ocidente. Sua crise, em muitos aspectos, é uma crise de esgotamento ocasionada pela exploração secular. Suas classes dominantes internas, que desde a conquista tomaram o Ocidente (constituído atualmente pela Europa Ocidental e EUA) como paradigma, são essenciais para explicar a exploração. Lima, como outros poucos lugares do planeta, serviu para impor (nesse caso no mundo andino) um modelo de exploração que teve início na Colônia e não foi interrompido até hoje. Esse modelo de exploração vinculou a sociedade ocidental (exploradora) com sociedades não-ocidentais (as exploradas: indígenas, transplantadas da África, da Ásia etc.). Esse modelo se baseia na prática da violência tendo, ao mesmo tempo, uma justificativa moral: a missão civilizadora. Historicamente, junto da exploração econômica nua e crua (responsável pela destruição de dezenas de milhões de homens e pela tentativa de apagar a memória e a história milenar das cultura e civilizações indígenas americanas), apareceu a síndrome ocicêntrica que considerou natural tanto a superioridade do Ocidente como seus derivados: o racismo e o desprezo social, étnico e cultural. Tudo isso são elementos constitutivos do fenômeno da colonialidade que, na essência, é a ideologia de um modelo de exploração que, originado na colônia, ainda persiste.
Na Lima de hoje, até a colonialidade está em crise. Isso poderia ajudar a explicar por que, desde os tempos coloniais e até os anos 50 desse século, quando era predominantemente branca, ocidental e cristã, Lima começou a ser chamada de a Calcutá da América Latina. Até o modelo de exploração que conhecíamos, baseado na colonialidade, está em crise. Nessa era das incertezas19 não é possível todavia saber como será o novo. O desejo deste autor é de que seja menos explorador e que, em termos econômicos e sociais, seja mais igualitário. Seria desejável um modelo que tivesse como hegemônicas as relações de reciprocidade, típicas da sociedade andina pré-colombiana, que continua vivendo com força, apesar das dificuldades, em grande parte do movimento popular da Lima de hoje. As relações de reciprocidade explica por que esse movimento construiu o bairro de Vila El Salvador, com quase 300 mil habitantes.

Vila El Salvador
Em abril de 1971, milhares de homens e mulheres que não tinham casas, mas que estavam bem organizados, ocuparam áreas sem construção no bairro de Monterrico, o mais elegante de Lima. O presidente do Peru, general Juan Velasco Alvarado, depois de violentas escaramuças entre os ocupantes e a polícia, deixando alguns mortos, comunicou ameaçadoramente que se o local fosse deixado pacificamente, eles receberiam terrenos e ajuda técnica para construir sua própria vila. Assim foi feito. Mas os habitantes receberam terrenos no meio do deserto e a pouca ajuda técnica dada pelo governo foi, principalmente, enquanto Velasco esteve no poder. Entretanto, os moradores estavam bem articulados e decidiram se organizar ainda mais. Acabaram criando a Comunidade Urbana Autogestionária de Vila El Salvador e com isso, obtiveram água, canalização, asfalto, energia elétrica etc. Com muito trabalho organizado, construíram creches, escolas, colégios, postos médicos, parque industrial etc. Até elaboraram planos para criar sua universidade. Documentos importantes indicam que o projeto da Vila El Salvador era de se estabelecer como a célula socialista de um Peru futuro20 . Que tudo isso tenha sido uma realidade, crescentemente consolidada conforme o tempo passava, para 300 mil habitantes, se devia, em muito, ao fato de que grande parte deles serem imigrantes recentes vindos de comunidades camponesas do interior andino. E, como é sabido, nessas comunidades sobrevivem com força elementos da sociedade pré-hispânica, como, por exemplo, o trabalho de ajuda mútua realizado com base nas relações de reciprocidade ou minka.Vila El Salvador, ou Cuaves, a abreviação de Comunidade Urbana Autogestionária de Vila El Salvador, por seu compromisso com o socialismo, se organizou de maneira democrática e independente. Uma de suas grandes líderes foi María Elena Moyano. Mulher inteligente, valente, linda, zamba (mestiça de índio, negro e branco), pobre, de origem operária, militante de esquerda (primeiro da Esquerda Unida, depois, do Movimento Unificado Mariateguista e, finalmente, do Movimento al Socialismo) 21.
Quando o Sendero Luminoso começou a atuar em Lima, considerou vital para a sua estratégia controlar Vila El Salvador. Mas a maioria dos dirigentes da Cuaves, María Elena entre eles, discordaram dos métodos terroristas do Sendero. Então, como no caso dos evangelistas, o Sendero Luminoso decidiu matar os seus opositores. É um fato que a política do Sendero não aceitava discordâncias. Para esse partido, absolutista e verticalmente organizado, todo discordante era um inimigo que tinha que ser destruído e de maneira ainda mais feroz se o oponente era de esquerda. O caso de María Elena é só uma prova, ainda que seja a mais lapidar. Ela, vice-presidente da Cuaves, democraticamente eleita por essa comunidade autogestionária, discordou aberta e desafiadoramente dos métodos do Sendero. Qualificou esse partido de desestruturado pela sua prática de assassinar os melhores e mais importantes dirigentes populares do Peru, simplesmente porque discordavam do Sendero. Finalmente, María Elena tentou por-se à frente do movimento popular clamando, a partir de uma posição de esquerda, pela derrota política do Sendero Luminoso. Então o Sendero decidiu realizar com ela uma ação pública rigorosa. E assim, diante de seus filhos pequenos, foi assassinada a tiros em 15 de fevereiro de 1992, e, de imediato, seu corpo foi dinamitado. Ela estava dirigindo-se para uma atividade organizada pela Cuaves. A explosão a despedaçou de uma maneira tal que seu enterro, que comoveu o país, assistido por milhares de mulheres e homens do todas as idades, foi quase simbólico, pois não havia ficado nada para ser depositado na terra.22
Podemos inferir o seguinte deste episódio. Primeiro, quem colocou a Cuaves num beco sem saída, do qual dificilmente sairá sem se destruir como modelo de uma formidável experiência social, quase inédita em nível mundial, foi o Sendero Luminoso. A classe dominante vem depois. Segundo, que ações como as realizadas contra María Elena ajudam a explicar a extrema impopularidade do Sendero. E sua impopularidade se devia também ao fato de que o Sendero Luminoso era um fiel representante da colonialidade. A diferença estava em que para essa organização o paradigma não estava no Ocidente, mas sim na China de Mao-Tsé-Tung. especificamente do período da Revolução Cultural e do “Bando dos Quatro”.
Para o Sendero Luminoso salvar o Peru significava transplantar mecanicamente tudo o que tinha sido feito na China de Mao. A memória de seu formidável passado, presente nos homens andinos de hoje, não valia nada porque não coincidia com a mensagem política do Sendero. Por isso tinha que ser destruída.23 E essa impopularidade, em última análise, ajuda a explicar o êxito do Estado peruano, e de seu presidente Alberto Fujimori, para desbaratar essa organização a partir do momento em que Abimael Guzmán, líder do Sendero Luminoso, juntamente com o seu Comitê Central, foi capturado em uma operação policial. A operação, dirigida pelo general da Polícia Nacional, Ketin Vidal (convertido quase em herói pelo imaginário popular), foi antológica por sua eficiência, limpeza e não-violência. Abimael e os membros mais importantes do Sendero, os líderes do partido famoso no mundo por sua eficiente violência, que estavam com ele no momento da ação, não ofereceram resistência. Até agora se especula por que ocorreu dessa maneira. Se sabe disso porque toda a operação de captura foi filmada pela polícia. Depois o vídeo circulou pelos canais de TV.

Por uma utópica Lima andina
Obviamente que Cuaves sofreu e mudou em um período relativamente curto. Dificilmente hoje é a mesma que aquela que foi descrita por María Elena Moyano em suas frases do início deste artigo. Entretanto, em nossa opinião, Vila El Salvador continua sendo a mostra mais evidente de uma outra Lima que está se formando, como parte de um Peru também diferente. Mas esse processo é complicado, doloroso e incerto. Ninguém sabe no que vai dar tudo isso (mas alguma coisa igual se poderia dizer do mundo). O que é certo é que continua de pé a possibilidade de uma nova Lima, construída por outros atores sociais, dentro de um Peru novo desejado por Mariátegui há 70 anos e imaginado há mais de três décadas por José María Arguedas. Este último, etnólogo e escritor, em seu poema A Nuestro Padre Creador Túpac Amaru (himno canción), dizia:
...Túpac Amaru, hijo del Dios Serpiente; hecho con la nieve del Salqantay; tu sombra llega al profundo corazón como la sombra del Dios montaña, sin cesar y sin límites... Padrecito mío, Dios Serpiente, tu rostro era como el gran cielo. Oyeme:.. Hemos bajado a las ciudades de los señores. Desde allí te hablo. Hemos bajado... como las interminables filas de hormigas de la gran selva. Aquí estamos, contigo, jefe amado, inolvidable, eterno Amaru... Estoy en Lima, en el inmenso pueblo, cabeza de los falsos wiraqochas... Sobre la arena, con mis lágrimas, con mi fuerza, con mi sangre, cantando, edifiqué una casa... Al inmenso pueblo de los señores hemos llegado y lo estamos removiendo. Con nuestro corazón lo alcanzamos, lo penetramos; con nuestro regocijo no extinguido, con la relampagueante alegría del hombre sufriente que tiene el poder de todos los cielos, con nuestros himnos antiguos y nuevos, lo estamos envolviendo. Hemos de lavar algo las culpas por siglos sedimentadas en esta cabeza corrompida de los falsos wiraqochas, con lágrimas, amor o fuego. – Con lo que sea! Somos miles de millares, aquí, ahora. Estamos juntos; nos hemos congregado pueblo por pueblo, nombre por nombre, y estamos apretando a esta inmensa ciudad que nos odiaba, que nos despreciaba como a excremento de caballos. Hemos de convertirla en pueblo de hombres que entonen los himnos de las cuatro regiones de nuestro mundo, en ciudad feliz, donde cada hombre trabaje, en inmenso pueblo que no odie y sea limpio, como la nieve de los Dioses montañas donde la pestilencia del mal no llega jamás. Así es, así mismo ha de ser, padre mío, asi mismo ha de ser, en tu nombre, que cae sobre la vida como una cascada de agua eterna que salta y alumbra todo el espíritu y el camino...
Este poema de Arguedas, repleto de esperanças utópicas, se nutre do passado andino para criar uma realidade nova (la Lima Nueva). Ali, a possibilidade mais importante aberta pela modernidade, a democracia igualitária que aceita as diferenças, é buscada pelos andinos sem renunciar ao seu passado. Pelo contrário, no passado encontram elementos que os levam naturalmente para essa conquista, a mais alta da modernidade. Ou seja, o velho em função do novo ou topo da realidade possível criada sem copiar nem calcar. Assim, no poema, os andinos que estão transformando Lima têm cordões umbilicais (que mais que históricos, são míticos) com o passado. Quer dizer, não contradição entre o passado e a construção do futuro. Pelo contrário. Por isso não é por acaso que Arguedas escolheu como eixo de seu hino-canção a Túpac Amaru, o inca revolucionário que em 1781, com seu projeto de reconstruir a justa sociedade inca representada pelo Tahuantinsuyo (em quechua, quer dizer Territorio de los Quatro Suyos ou Regiões), abriu o caminho para as futuras lutas pela liberdade e independência da América Latina. Por isso, é chamado de pai criador, pois ele iniciou o processo que criaria uma nova realidade na história de nosso subcontinente. Processo que, no poema, não terminou porque os andinos de hoje continuam movendo-se, invocando seu nome. Nesse complexo hino que mistura o passado e a realidade atual, etc., aparece, por exemplo, o Deus Serpente (Amaru). Ou seja, a grande boca aquática ou o totem iniciador da linha real incaica. E tudo se torna mais ainda complexo se consideramos que, historicamente, Túpac adotou o sobrenome Amaru. Igualmente, é mencionado o Salqantay, um pico nevado, sagrado para os incas. Sagrado como continuam sendo para os índios de hoje (respeitosos com a natureza) todas as grandes montanhas (ao ponto de considerá-las deuses) porque cuidam dos povoados e dos homens, uma vez que são residências dos espíritos protetores ou Apus24.
E Arguedas também recorre à idéia dos “falsos wiracochas” para referir-se aos exploradores ou conquistadores. Poucas coisas são mais indignas no mundo andino que ser falso wiracocha= conquistador=explorador. Historicamente, os espanhóis foram assim chamados porque, para conquistar o Tahuantinsuyo, mentiram fazendo-se passar pelos enviados de Wiracocha que regressava. Isso foi assim porque, no panteón inca, Wiracocha era o deus branco que trouxe justiça e civilização ao mundo andino. Esse deus, conforme a lenda, ao terminar a sua missão civilizadora, construiu com serpentes marinhas um barco e, prometendo que voltaria, desapareceu no Pacífico. Séculos depois, os espanhóis, conhecedores desse mito, se apresentaram25 para os incas como sendo os brancos enviados por Wiracocha para comunicar seu retorno. Por isso, foram primeiramente muito bem recebidos. Isso facilitou a conquista, pois convivendo com os incas, os espanhóis aproveitaram para conhecê-los e, simultaneamente, ir preparando seus planos de atacá-los. Os incas se surpreenderam quando os espanhóis, traiçoeiramente, atacaram, prenderam e depois assassinaram, apesar de ter recebido o fabuloso resgate que foi exigido, a Atahualpa, o imperador inca. Iniciou-se assim um dos capítulos mais genocidas da história humana, ou seja, a conquista. Os incas descobriram então que esses espanhóis eram “falsos wiracochas” ou bestas insaciáveis com forma humana que somente aplacam sua gana quando comem ouro26 .
No poema, Arguedas põe Lima como a cabeça desses falsos wiracochas. Por isso, contra ela, como se fosse um dever, sistematicamente e com muita paciência, os andinos atacam convencidos de que é possível transformá-la finalmente em lugar de homens que entonem os hinos das quatro regiões de nosso mundo, em cidade feliz onde cada homem trabalhe, em imenso povo que não odeie e que seja limpo.
O hino-canção de Arguedas traduz claramente a idéia de que é absolutamente possível ser moderno sem perder a alma. Assinala assim, para o Peru e para a América Latina, o caminho para entrar, com suas especificidades e sem complexos nem dependências, no processo de construção global da pós-modernidade.

  Voltar PDF  Versão em PDF E-mail  Encaminhar Imprimir  Imprimir

Publicações

» Revista PUC Viva
loguinho_pucviva_novo
revista_puc_critica_logo
puc_viva_logor
twitter
facebook
youtube
vimeo

tv_apropuc3


Enquete

O que você acha da implementação do ensino à distância na PUC SP?