Um convite à humildade

APROPUC-SP

Um convite à humildade
Hudson Hubner França

Há 44 anos exercendo a medicina, esse mineiro de Manhumirim – cidade localizada aos pés do Pico da Bandeira, a 22 km de Manhuaçu – é um homem de muitas atividades. Aos 70 anos, o professor Hudson Hubner França divide seu tempo entre a cardiologia – sua especialidade –, as aulas e a diretoria do Centro de Ciências Médicas e Biológicas (CCMB) da PUC-SP, em Sorocaba, as incursões pelo mundo da literatura – um de seus poetas favoritos é Manuel de Barros – e, claro, a família e os amigos. Como se não bastasse essa rotina atribulada, ele ainda encontra tempo para praticar o esporte que acabou se tornando um hobby, o tênis. O outro hobby é viajar. “É imprescindível que um médico, além da literatura específica que ele precisa ler em função da profissão, se dedique também a ampliar seus horizontes por meio de outras formas de cultura, e viajar é uma delas.” Católico de formação – praticou a religião durante cinqüenta anos –, hoje se diz apenas uma pessoa religiosa. “O que importa é que você se comporte o tempo todo como se Deus existisse. Eu o respeito pela natureza, pelo próximo, pela lealdade no trato com esse próximo.” E conclui: “Deus é um código de ética.”

Talvez por ter nascido no sopé de um dos picos de montanha mais altos do País é que o doutor Hudson tenha tomado gosto por conhecer o mundo desde as alturas. Quer dizer, nem tanto das alturas, afinal, escalar o Monte Everest ou o Kilimanjaro não é tarefa aberta a todos. Além do próprio Pico da Bandeira, de onde se avista a pequena Manhumirim, hoje com cerca de 30 mil habitantes. Mas este, sim, ele escalou muitas vezes na adolescência. “Eu fui lá no pico umas cinco ou seis vezes. Um frio, putzgrila!”, lembra. Saiu de Manhumirim e veio para São Paulo com menos de 20 anos, para ingressar em uma universidade pública que lhe oferecesse uma boa formação, pois não tinha condições de pagar os estudos, especialmente um curso de medicina, que exige tempo integral de dedicação. Passou a morar então com um irmão que já residia em São Paulo, pois dinheiro para pensão também não havia, e, em 1949, ingressou na Faculdade de Medicina da USP. “Tive que me virar, mas entrei – fiz um concurso bastante bom – e, a partir do terceiro ano, quando eu comecei a fazer clínica no curso, fui trabalhar com um professor que lecionava na USP e em Sorocaba. Só no sexto ano, já em 55, esse professor me convidou para vir para Sorocaba trabalhar com ele”, recorda. Naquele tempo, o CCMB pertencia à Fundação Sorocaba – entidade da Igreja Católica – e o professor em questão era o doutor Francisco Xavier Pinto e Lima, primeiro cardiologista de Sorocaba, que por ironia faleceu precocemente, aos 50 anos, de um enfarte fulminante. A cadeira de medicina teve três titulares: Pinto e Lima, Pedro Giannini e Hudson Hubner França, que permanece até hoje.
Quando foi morar em Sorocaba, o professor Hudson não sabia que ia se dar tão bem com a cidade. Lá constituiu família, alargou seu círculo de amizades e, em 95, recebeu da Câmara de Vereadores de Sorocaba o título de Cidadão Sorocabano.
Essa passagem é uma das muitas que demonstram que uma vez médico, Hudson sempre cumpriu seu juramento à risca e leva muito a sério o que, para ele, trata-se de uma filosofia de vida, muito além da formalidade da formatura: ajudar o próximo, incondicionalmente. Hudson não compareceu à solenidade de entrega por que um concunhado vindo de Minas, e que se hospedara em sua casa para acompanhá-lo na solenidade da homenagem, morreu subitamente. Só foi receber a honraria um mês depois, quando o prefeito e um grupo de vereadores a levaram até sua casa. “Mantenho muita ligação com Minas Gerais, com parentes. Vou com uma certa freqüência para lá. Mas minha terra realmente é Sorocaba”, emociona-se.
A prática da medicina lhe trouxe, além da realização pessoal e profissional, um sentido especial com relação à vida e às pessoas. “A humildade é uma coisa muito importante e não só em medicina. Você tem de ter esse tipo de humildade para reconhecer que não sabe muito. Tem de ter uma obsessão pela dúvida. Não a dúvida que paralisa, mas a que te estimula a avançar um pouco mais”, explica.

Muito além da medicina
O interesse pela Filosofia e pela Física, e a leitura constante desse tipo de literatura, são os responsáveis por boa parte de sua formação humanística. E que se reflete no âmbito profissional. Para ele, o médico precisa ter uma consciência muito clara de que a linha que divide a alegria do sofrimento, a vida da morte, é muito tênue e pode ser transposta com facilidade. É preciso entender que o convívio diário com essas imposições da vida – principalmente para quem trabalha num hospital – não torne o médico um ser frio, mas faz compreendê-las melhor. Outra coisa que para o professor facilita essa compreensão – e aí entra o filósofo – é o fato de que, no Universo, é preciso haver renovação, haver ciclos. “Tempo e espaço são coisas relativas. Você num momento tem essa pessoa, que tem determinada função. Daqui há uma centena de anos, você já se desfez, já se incorporou ao Universo e talvez renasça como um pé-de-couve, ou qualquer coisa desse tipo”, diz ele, com um toque de sua espirituosidade tão característica.
Ao mesmo tempo, a certeza de ter uma vida nas próprias mãos dá ao médico uma imagem de onipotência aos olhos daqueles que precisam de seus serviços, sejam seus pacientes, sejam os familiares dele. Cobranças e pressões são inevitáveis. Quando se trata de um cardiologista, então, a coisa é mais séria, porque existem mitos em torno dos problemas do coração que acabam causando uma certa ansiedade, principalmente nos familiares do paciente.
Hudson defende, e pratica, a interpessoalidade entre médico e paciente, o que ele chama, com propriedade, de arte médica. “É uma coisa que infelizmente está acabando. Porque a medicina tem dois aspectos: o da ciência, onde você estuda química, anatomia, fisiologia, genética etc., e o aspecto da arte médica”, diz.
Segundo ele, conhecer bem o paciente que se está tratando é fundamental, pois, além de facilitar o contato e a intimidade entre as duas partes, auxilia inclusive no diagnóstico. Além da cultura específica, ensina, “é preciso saber um pouco de Filosofia, saber discutir notícias de jornal, criar uma empatia, isso motiva a confiança e o paciente se abre. Tem de saber conversar com o paciente, antes e depois da consulta”.
Porém, Hudson reconhece que, hoje, os tempos são outros. Com a chamada medicina de grupo e a irrisória remuneração da rede do SUS, o médico recém-formado fica impossibilitado de exercer em sua plenitude os hábitos adquiridos na faculdade. Aquelas consultas de quarenta, quarenta e cinco minutos, tempo ideal para uma boa interação entre médico e paciente, são coisa do passado.
Um passado não tão remoto, mas que já se faz sentir pelo peso que acarreta tanto ao médico, por não poder exercer sua função de forma plena, como para o paciente, que se sente negligenciado numa consulta que muitas vezes não chega a durar quinze minutos, pois o médico precisa atender grande número de pacientes para poder, no fim do mês, ter algum retorno financeiro. “Eu consegui fazer isso – e faço ainda – porque sou de uma época anterior a esta. Um médico que está começando agora não pode se dar o luxo de ficar esse tempo todo com um paciente”, explica Hudson.

Romance, poesia e futebol
Outra coisa que acaba sendo dificultada para o médico – por absoluta falta de tempo e verba –, e que o professor Hudson também defende e incentiva, é a ampliação da formação profissional por meio da diversificação da cultura do indivíduo – requisito tão importante quanto a sua própria especialização. O bom médico, na sua opinião, é aquele que lê muito e não só literatura específica, mas bons livros, jornais variados e que conheça também a cultura de outros povos. Para isso, viajar é uma boa forma de ampliar esses horizontes e uma de suas grandes paixões. “Tiro férias regularmente e minha esposa (dona Diva) e eu viajamos bastante. Eu tenho a impressão de que o fato de ter nascido no meio de muita montanha me deu esse fascínio por montanhas. Conhecemos praticamente todos os grandes picos do mundo – o Everest, no Nepal, o Kilimanjaro, na África, o Mckinley, no Alaska”, conta.
Leitor assíduo de romance e poesia, tem Guimarães Rosa na conta de um grande mestre, mas poderia citar uma lista enorme de autores que admira, como Umberto Eco, Arthur Miller, Henrik Ibsen, Gabriel García Márquez, Ernest Hemingway, Thomas Mann, e o atualíssimo Charlie Fraser. Na poesia, destaca a conterrânea Adélia Prado e o poeta do Pantanal, Manuel de Barros. Dos modernos, Manuel Bandeira. “Embora eu seja mineiro, eu prefiro o Manuel Bandeira ao Carlos Drummond de Andrade. Acho bonitas suas poesias. É claro que o Drummond é excepcional, mas o Bandeira é fora de série”, exulta.
Uma outra paixão em sua vida, ainda que prefira não mais praticá-la, é o futebol. “Só que eu era muito grosso, viu! Acho que se fosse bom de bola eu não teria sido médico, mas eu era muito ruim”, diz, rindo de si mesmo. Jogou futebol até os 45 anos, quando achou que o corpo a corpo começava a pesar. Foi aí que surgiu o tênis, esporte que acabou também se tornando um hobby. Uma vez por semana, religiosamente, lá vai ele para as quadras. “Não consigo ganhar, mas jogo”, diz modestamente o professor Hudson.
Sua rotina em Sorocaba é bastante carregada. Mas é também bastante organizada e ele sabe controlá-la muito bem para que não se prejudique. Levanta todos os dias às seis e meia da manhã, chega ao CCMB por volta das sete e meia, onde se divide entre as aulas e a diretoria do Centro. Às quatro da tarde, vai para o consultório. À noite, se é dia de tênis, vai jogar, se não, vai estudar ou preparar alguma coisa para o dia seguinte. Antes de se deitar, pega um bom romance ou um livro de poesias para ler e no máximo à meia-noite já está dormindo.

Cardiologista conceituado
Ele não deixa de expressar a falta que sente de uma maior autonomia do CCMB, uma vez que a Reitoria está sediada em São Paulo e isso dificulta a operacionalização de algumas tomadas de decisões. “São contatos mais formais, o que é insuficiente. É insuficiente do ponto de vista pessoal, social e também do ponto de vista técnico-administrativo, porque, como aqui é um centro de ciências médicas e biológicas, às vezes fica um pouco difícil para o pessoal de São Paulo entender como administrar Sorocaba. Por exemplo, poderiam nos dar um limite de orçamento para que trabalhássemos dentro dele, sem que se precisasse, à toda hora, ficar consultando São Paulo”, sugere.
A mesma coisa poderia ser dita da parte acadêmica. Segundo Hudson, existem diferenças brutais em dar aula em cursos como Direito, ou Pedagogia, para sessenta, setenta alunos, quando, na Medicina, sete alunos já é um número bastante razoável. “Imagine entrar numa sala de cirurgia, com um indivíduo com a barriga aberta, levando 33, 34 alunos. Não dá. Então, você tem que ter um número muito grande de professores para poder atender um número talvez reduzido de alunos”, explica.
Em 98, houve um incidente envolvendo a Faculdade de Medicina. Um dos alunos, em uma das maratonas organizadas pelos estudantes, sofreu queimaduras graves. O acontecimento causou muitas dores de cabeça a todos que direta ou indiretamente conviviam naquele ambiente. A figura do professor Hudson foi uma força de equilíbrio da estrutura do câmpus Sorocaba, um tanto abalada por conta da cobrança e das pressões voltadas para o CCMB.
Com relação ao médico, é um profissional reconhecido, formador de grandes expoentes da cardiologia e tido como um baluarte da área que ministra. “Ele foi médico do meu pai e da minha mãe e sempre foi o médico que todos devem ser: o conselheiro da família, um clínico generalista – cuja imagem e formação, hoje, vêm sendo resgatadas em todas as faculdades, inclusive fora do Brasil. Então, ele é aquele que a família tem como um guia, porque, se não for a sua especialidade, ele sabe com propriedade indicar qual a especialidade a ser procurada”, diz a professora Diana Tannus, sua comadre e colega de trabalho de muitos anos.

Com os netos no circo
Bem-humorado e dono de um bom senso extremado, uma característica que seus colegas de trabalho – muitos deles amigos de décadas – mais exaltam é a segurança que se sente ao trabalhar com ele. “É uma pessoa boa, bondosa, que gosta de solucionar todos os problemas e que se preocupa demais quando não pode resolvê-los. É uma pessoa que vê as necessidades do câmpus, a necessidade de modernização e está aberto a isso”, diz Inácia Godoy Moreno, secretária acadêmica do CCMB.
Casado com uma advogada de formação, mas professora de português de coração, dona Diva, tiveram três filhos. Dois deles são médicos como o pai, psiquiatras, e um deles – Carlos Hubner – também dá aulas no CCMB.
Das lembranças tristes que traz na vida, a morte do filho caçula em decorrência de um acidente de carro, aos 19 anos, é a que nunca se apaga.
Mas paixão, paixão mesmo, são os quatro netos. O avô coruja não se cansa de contar suas peripécias. Conta-se que o professor Hudson é um grande fã dos circos e, como não ficaria bem um senhor tão distinto ir a um espetáculo sozinho, leva então os pequenos com o argumento de que são eles – os netos – que irão se divertir.
Uma dessas peripécias a serem contadas e recontadas no CCMB é a de que, numa dessas idas, o avô estava todo empolgado com as acrobacias dos trapezistas. Vira, então, o caçula para ele e sapeca sem dó: “Vovô, como é que você pode gostar tanto disso?” Ao avô só restou mesmo rir, num misto de desconcerto e admiração pela autenticidade, e ingenuidade, do neto. “Vou falar o quê?”, diverte-se.
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