Resenha - Futebol, espetáculo do século
Resenha
Futebol, espetáculo do século
Teresinha Bernardo
Futebol - espetáculo do século é uma obra fruto do seminário realizado em outubro de 1999, organizado pelo Núcleo de Estudos do Cotidiano e de Cultura Urbana do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, sob a coordenação da professora Márcia Regina da Costa.
Ao tratar o futebol em seus múltiplos aspectos o livro divide-se em seis partes: inicia com a discussão sobre “Boleiros, futebol e cinema”; em seguida aponta para a nova organização deste esporte em empresa; discute também as possibilidades da democracia no futebol; vai para a várzea mostrando que o jogo praticado neste local não morreu, simplesmente, mudou de lugar; analisa amplamente as torcidas organizadas e as disputas simbólicas que são travadas no campo; na última parte coloca questões relativas ao futebol, à literatura e ao cinema.
Se por um lado o livro perpassa todas estas temáticas em seus artigos, por outro seus atores possuem formações diferenciadas, possibilitando ao leitor captar o futebol nas suas múltiplas dimensões.
É nesse sentido que Futebol - espetáculo do século ganha estatuto superior às outras publicações que versam sobre o mesmo tema. Ao desvendar as verdadeiras batalhas que se travam nos campos, seus significados, suas histórias, os micro e macropoderes embutidos seja nos clubes e federações, seja nas empresas, o faz de forma polifônica e não somente através de uma visão unidimensional.
Destacam-se na multiplicidade de visões os artigos de Sócrates, ex-jogador; Maurício Murad, professor doutor em Sociologia da UERJ; Vera Regina Toledo Camargo, doutora em Comunicação; Juca Kfouri, comentarista esportivo; José Paulo Florenzano, antropólogo, doutorando da PUC/SP; Flávio Adauto, jornalista; Elizabeth Murilo da Silva, antropóloga, doutoranda da PUC/SP e Fátima Martins Rodrigues Ferreira Antunes, doutoranda de Sociologia da USP.
Sócrates, em seu artigo “O dilema entre o personagem e o homem” mostra que no futebol emergem personagens da noite para o dia. Nas palavras do autor: “o surgimento de um personagem pode acontecer já na primeira apresentação, provocando uma brutal transformação na vida deste profissional”. É justamente esta transformação que Sócrates analisa através do filme Boleiros, de Ugo Georgetti, destacando o personagem de um antigo jogador, que ao não conseguir se adaptar à vida de um cidadão comum passa por uma séria crise financeira. Sócrates, da mesma forma que o narrador de Benjamim, sabe dar conselhos, pois viveu as experiências do futebol durante muito tempo. Assim, diz: “Saber quem somos é o principal passo para sermos felizes”.
Diferente de Sócrates que foi um jogador, Maurício Murad é um estudioso do futebol, em seu artigo “Futebol e cinema no Brasil 1908-1998” desvenda certas semelhanças entre o futebol e o cinema – “os protagonistas políticos da modernidade brasileira encontrados no final do século 19: remetentes e destinatários; espaços sociais e tempos históricos; origem de classe e popularização”. Essas semelhanças, do ponto de vista sociológico, poderiam ser pensadas como elementos restitutivos de nosso ethos, de nossa identidade coletiva.
No entanto, por meio da história do futebol e do cinema, Murad mostra que apesar das semelhanças acima referidas, as suas trajetórias foram diferenciadas: o primeiro tornou-se um esporte do povo independente do estrato social, de suas respectivas torcidas; enquanto que o segundo, as suas produções estão referidas às classes médias intelectualizadas.
Apesar desses fatores diferenciadores, tanto o cinema quanto o futebol tornaram-se o lazer preferencial do grande público entre as décadas de 30 e 40. Nessa mesma época, segundo o autor, foram realizados dezenas de filmes sobre futebol. No entanto, nas décadas seguintes não houve a consolidação da “escola do futebol” como ocorreu com a chanchada e o cangaço, apesar do projeto de pensar o Brasil pelo viés da cultura popular.
Na verdade, a relação entre o futebol e o cinema é nebulosa: de um lado há muito mais filmes sobre futebol do que se imagina; de outro há muito menos produções do que se poderia esperar.
O final dos anos 90 e a entrada no novo milênio parece mostrar que há, ainda, muito o que dizer da relação entre o futebol e o cinema: os fatos atuais parecem demonstrar.
Se Murad mostrou a relação entre o futebol e o cinema, Vera Regina Camargo desvenda a relação entre o futebol e a mídia, no seu artigo “Os elementos para uma concepção de massa” – de um lado tem-se o futebol como aglutinador da população brasileira, trazendo em seu bojo alguns elementos da massa, de outro a mídia como mecanismo de massificação. Assim, tanto o futebol quanto a mídia movimentam o mecanismo de massificação criando e destruindo os valores culturais.
A autora analisa a parceria entre o futebol e a mídia desde os anos 30 através dos jornais, chegando na década de 90 com a presença da Internet. Nesses 60 anos, os veículos de comunicação conviveram no mesmo contexto, pois a existência do mercado consumidor para os assuntos futebolísticos sempre foi uma realidade.
No entanto, a televisão, mais do que qualquer outro veículo de comunicação, torna o futebol um espetáculo, dando pouca importância tanto para o jogador quanto para o torcedor; o que interessa parece ser o marketing esportivo em função da ampliação do mercado consumidor.
Seguindo trajeto semelhante, isto é, o da crítica, Juca Kfouri desvenda as parcerias entre os times e as multinacionais, como o próprio título de seu artigo sugere: o futebol brasileiro encontra-se em liquidação. Na verdade o que vem ocorrendo é a privatização do futebol nacional, da mesma forma como ocorre com as empresas estatais. Se com estas os acordos suspeitos acontecem, no futebol esse fato parece ser uma constante. Os prejuízos futuros são incalculáveis.
José Paulo Florenzano, ao discorrer sobre o Corinthians, persegue a linha crítica dos dois últimos autores; sua reflexão desvenda o processo por meio do qual o time que se originou da reunião de trabalhadores humildes e que ao longo do tempo foi caracterizado como o Time do Povo, transforma-se em time-empresa, com as parcerias suspeitas de que fala Kfouri. Se o diagnóstico de que o futebol brasileiro encontra-se em liquidação é correto, no Corinthians esse processo ganha um tom mais revoltante, seja pela sua origem, seja pela democracia corinthiana vivenciada no início dos anos 80, enquanto criação do autogoverno coletivo no interior do futebol profissional.
Segundo Florenzano, a experiência dos anos 80 não tem nada a ver com as mudanças instauradas pelas multinacionais do sportbusiness, onde a disciplina é fundamental e a hierarquia mais ainda.
Se o futebol profissional transforma-se em empresa, com parcerias suspeitas, onde as atitudes autoritárias dos dirigentes, onde o jogador deve somente obedecer, Flávio Adauto muda a linha de argumentação, ao tratar do futebol de várzea, mostrando que ele não morreu, simplesmente mudou de local. Ao discorrer sobre essa mudança, Adauto penetra na cidade de São Paulo e por meio da sua própria memória traz para o presente o cinema do bairro, as histórias de Vila Maria Zélia e especialmente o futebol de várzea, praticado nos campos de terra batida.
São Paulo, no presente, não permite mais o campo de terra cercado por ripas, próximo ao centro. Não obstante, nessa nova São Paulo, segundo Adauto “o lazer continua sendo o futebol de várzea”. Tanto isso é verdade que o próprio autor organizou em 1995 um campeonato só para times de várzea. As inscrições ultrapassaram o número de mil.
A análise dos diferentes artigos permite, ainda, perceber que o futebol deixou de ser um assunto exclusivamente masculino. Este fato parece óbvio, pois desde as primeiras décadas deste século, encontravam-se mulheres no campo, torcendo para seus respectivos times, inclusive as jovens desse final de milênio disputam partidas com entusiasmo. O novo é que as mulheres, aqui, ganham um outro foro: de torcedoras e jogadoras tornam-se analistas. Desta forma, as subjetividades femininas estão presentes completando as masculinas na análise que, sem dúvida nenhuma, o futebol como fenômeno social merece.
Da mesma forma que o futebol fascina pela sua característica fundamental do acaso, do inesperado, não existindo portanto uma razão que o dirige, Futebol - Espetáculo do Século fascina pela pluralidade de visões, havendo somente a temática que o unifica.
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