Crônica - Harmonia
Crônica -
Harmonia
Miguel Angelo Yalente Perosa
Penso em harmonia sempre. Em como fazer. Toda a minha vida procurei estabelecer com as coisas e com as pessoas uma relação de mútua satisfação. Talvez por isso me decepciono com facilidade, comigo e com os outros.
Sou exigente. Não perdôo a mim em nenhuma situação em que falho. Como falho? Quando não consigo atingir meus objetivos. Desanimo. E nada vale a pena. Um grande pesar se abate sobre mim. Sinto que permanentemente sou menos do que deveria ser e que por isso não valho a pena. E a vida não vale a pena ser vivida nessas condições.
Sou exigente. Não perdôo a ninguém em nenhuma situação em que falham co-migo. Como falham? Quando não conse-guem corresponder às minhas neces-sidades mínimas de acolhimento e afeto. Desanimo. E nada vale a pena. Um grande pesar se abate sobre mim. Sinto que permanentemente sou menos do que deveria ser e que por isso não valho a pena. E a vida não vale a pena ser vivida nessas condições.
Meu sofrimento é permanente. Sem-pre que entro em contato com as pessoas estou exposta à decepção iminente. Por isso sou retraída, tímida e vulnerável e procuro estar pouco com as pessoas.
Sonho em encontrar alguém que seja acolhedor e solidário comigo e que pos-samos nos amar sempre. Sei que isso não é possível. Mas sonho e tento escapar da dura realidade do egoísmo imenso que inunda o coração das pessoas.
Meu humor é superior a mim. E independe da minha vontade. Às vezes estou alegre e enturmada e sentindo que faço parte da situação que estou vivendo. Mas no minuto seguinte posso estar no fundo do poço sem nenhuma razão aparente e sem que possa me controlar. Nessas horas quero sumir. Vejo a alegria estampada nos rostos das pessoas e me irrito. Penso ou que são superficiais e infantis, ou que não valho uma casca de banana de onde escorreguei para a depressão.
Estou sempre exposta ao julgamento alheio. E isso me deixa insegura. E toda situação nova recebe de mim a atenção com que se deve pisar num campo minado. Fico tensa, sem jeito. Só estou razoavelmente confortável entre os conhecidos.
Às vezes penso que isso não tem jeito, que eu sou assim, como se fosse da minha genética. Às vezes acho que serei capaz de mudar. E depois me decepciono.
O futuro me parece como um grande fardo a ser carregado. O que me espera são responsabilidades das quais não acredito que me desvencilharei satisfatoriamente. E, se conseguir, o resultado não terá valido o sacrifício.
Gosto da minha cama, dos meus objetos, do meu som. Estou permanentemente mudando de roupa. Para ser outra. E para combinar o que visto com o que sinto. Na maioria das vezes, não gosto do arranjo.
O ar que respiro às vezes tem a leveza da aragem que refresca. E procuro aproveitar esses momentos com sofreguidão. Mergulho na idéia de que serei sempre assim. Até que passa.
Tenho horror em incomodar as pessoas. Desde pequena. Evito ao máximo pedir algo a quem quer que seja. Sei que uso de alguns artifícios para conseguir o que quero. Mas, se não usasse de alguns subterfúgios, acho que nunca conseguiria nada de ninguém, nem de mim mesma. Uma das minhas traquitanas é transformar um querer em direito adquirido. E, em vez de pedir, exijo. Nem sempre consigo o resultado pretendido, porque as pessoas podem reagir contrariamente à minha exigência. Outra dissimulação do meu querer é a sedução. Tento fazer com que a pessoa queira que eu queira o que, no fundo, quero. De tal maneira que é o outro quem deseja. Eu só concordo de bom grado, muitas vezes agradecida pela atenção. Quando o querer refere-se a um esforço pessoal, tento justificá-lo como sendo importante para os outros. O fato é que não permito querer. Como se minhas necessidades, minhas vontades incomodassem a todos. E acredito que desde criança incomodei muito meus pais, porque nasci e mudei a vida deles totalmente. Minha mãe, sempre atarefada, merece que a poupe de minhas coisas. Meu pai, chega muito cansado em casa e está sempre suspirando de preocupações e contrariedades no trabalho e na vida. Não devo incomodá-lo. Sempre pensei assim. E sempre fui tratada como um estorvo. Cada requisição que faço é um drama: de dificuldade de dinheiro, de preocupação com meu bem-estar. É muito ruim pedir, não devo pedir. Tenho que ser auto-suficiente, não precisar de nada e de ninguém. Mas, mesmo quando peço para mim mesma, sinto um enorme desconforto e tenho que justificar o meu desejo muito bem justificado.
Às vezes acho que não deveria ter nascido. Teria sido melhor para todos. E, vez ou outra, quando o peso de existir se torna insuportável, penso em me suicidar. Com muita tristeza, uma tristeza ancestral, fico remoendo dores e jeitos, armas, equipamentos, bilhetes em que vou expressar minha vida indevida, meu erro de ter nascido e meu pedido de perdão pelo incômodo que vou causar. É que, às vezes, viver é uma culpa só.
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