Poemas
Poemas
João Cabral de Melo Neto
Cemitério Pernambucano (Toritama)
Para que todo esse muro?
Por que isolar estas tumbas
do outro ossário mais geral
que é a paisagem defunta?
A morte nesta região
gera dos mesmos cadáveres?
Já não os gera de caliça?
Terão alguma umidade?
Para que a alta defesa,
alta quase para os pássaros,
e as grades de tanto ferro,
tanto ferro nos cadeados?
— Deve ser a sementeira
o defendido hectare,
onde se guardam as cinzas
para o tempo de semear.
O Luto no Sertão
Pelo Sertão não se tem como
não se viver sempre enlutado;
lá o luto não é de vestir,
é de nascer com, luto nato.
Sobe de dentro, tinge a pele
de um fosco fulo: é quase raça;
luto levado toda a vida
e que a vida empoeira e desgasta.
E mesmo o urubu que ali exerce,
negro tão puro noutras praças,
quando no Sertão, usa a batina
negra-fouveiro, pardavasca.
Cemitério Pernambucano (São Lourenço da Mata)
É cemitério marinho
mas marinho de outro mar.
Foi aberto para os mortos
que afoga o carnaval.
As covas no chão parecem
as ondas de qualquer mar,
mesmo os de cana, lá fora,
lambendo os muros de cal.
Pois que os carneiros da terra
parecem ondas de mar,
não levam nomes: uma onda
onde se viu batizar?
Também marinho: porque
as caídas cruzes que há
são menos cruzes que mastros
quando a meio naufragar.
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