O interesse nacional do Chile

APROPUC-SP

Ivan Witker

Não há dúvida que um dos conceitos mais controvertidos no âmbito dos estudos internacionais é o de interesse nacional. Uma noção fortemente associada aos principais inspiradores da corrente realista das relações internacionais, Morgenthau, Niebuhr e Kennan, e que custa diferenciá-la de seus dois contextos de uso, como categoria analítica e como instrumento de ação política. Também apresenta um grau de dificuldade ao tema o fato de que os especialistas locais em relações internacionais tampouco coincidem sobre a existência e perdurabilidade deste conceito na história das relações exteriores chilenas. Por estas razões, se faz necessário fazer algumas precisões.
Em primeiro lugar, não é pertinente entrar aqui em detalhes teóricos profundos sobre o conceito de interesse nacional. Utilizaremos o conceito como critério aceitável para a ação política, entendendo que qualquer ação exterior opera com um padrão de interesse referido a uma entidade territorial, política e cultural, denominada nação, e de que a idéia de interesse pertence à essência da política. Isto porque cremos que o Mercosul – e também o Nafta – nascem como opções essencialmente políticas.
Em segundo lugar, tampouco é concernente discutir aqui acerca da sustentabilidade desta noção na história da política exterior chilena. Entretanto, e como aprofundaremos adiante, o Chile dos anos 90 impôs, como eixo de sua política exterior, o chamado regionalismo aberto, que substitui a visão excepcionalista (Insulza: 74) fortemente arraigada na política exterior desencadeada nos últimos anos do governo militar (1973-89) e que encontrava explicação no auge econômico que começava a viver o país de então. Portanto, entenderemos – de acordo com Insulza – que o regionalismo aberto constitui o núcleo do interesse nacional chileno hoje.
Esta visão particular chilena merece ser posta em um contexto atual. Portanto, para tentar uma redefinição do conceito à luz do atual estado de relações ad intra e ad extra Mercosul, nos parece metodologicamente útil ter como ponto de partida os recentes ensaios de Joseph Nue, Redefining the National Interest, publicado recentemente no Foreign Affairs, e The Idea of the National Interest, de W.B. Brands, também publicado recentemente no Diplomatic History. Nos dois textos, os autores nos convidam a refletir acerca dos alcances desta noção nos dias de hoje, muito especialmente à luz dos últimos acontecimentos na Sérvia e no Kosovo, e do impacto que exerce a era da informação nas relações internacionais.
Ambos sustentam que o interesse nacional se tornou algo por demais gravitante para ser visto sob um prisma exclusivamente geopolítico e estimam que as autoridades eleitas também têm algo a dizer sobre a matéria. Nye adianta que, em democracia, o interesse nacional poderia ser um conjunto de prioridades compartilhadas com o resto do mundo, dentro do qual se situam os direitos humanos e os valores democráticos, sempre e quando a opinião pública se sinta tão identificada com eles e esteja disposta a pagar um certo preço em promovê-los (Nye: 23). Por seu lado, Brands analisa a evolução histórica dos três grandes elementos que, a seu juízo, compõem a noção de interesse nacional na atualidade: prosperidade, democracia e segurança. A última década teria demonstrado que nenhum destes três elementos pode permanecer isolado dos demais se se busca o desaparecimento ou diminuição dos perigos e das vulnerabilidades. Assim mesmo, a história das relações internacionais deste século confirmaria o quanto foi nocivo privilegiar um destes elementos em detrimento dos demais (Brands: 260).
Uma importante constatação de tais reflexões nos indica então que o conceito de interesse nacional avança atualmente para confins que vão mais além da tradicional equação “poder”-“equilíbrio”, estudada por Morgenthau (: 120) e colocada no contexto de Guerra Fria por Kissinger (: 809); algo importante na hora de ver a atual encruzilhada do Mercosul.
Nye estabelece uma interessante hierarquização, encabeçada por uma “lista A”, que compreende todos aqueles fenômenos que representam ameaças diretas e envolvem a sobrevivência do Estado, seguida de uma “lista B”, onde encontramos aquelas ameaças em estado latente ou com o caráter de iminente e conclui com a “lista C”, onde se situam as contingências que podem afetar indiretamente a segurança e, por conseguinte, a estabilidade de cada país. O principal foco de interesse aponta a “lista C”, toda vez que o conceito de soberania emanado do Tratado de Westfalia está sendo atingido de maneira crescente pela era da informática que dá vigor às forças transnacionais. A invasão de fronteiras, atuando de jure e de facto, está colocando matérias que representam fortes desafios para os estados nacionais. A “lista C” engloba matérias como direitos humanos e institucionalidade democrática que já não podem ser disfarçadas pelo simples desejo das elites governantes. Por isso, a “lista C” é, na realidade, a “lista B” para muitos países, principalmente para aqueles de porte médio (Nye: 27).
O que isso significa para o Chile? Rigorosamente, muito. Não obstante, a noção interesse nacional é algo novo na política exterior chilena do presente século. As classes dirigentes deste século partem da base de que o país é pequeno e com pouco peso na política e na economia internacionais, por isso tem privilegiado o trabalho em organismos multilaterais, alimentando-se, assim, um insólito apego às normas do direito internacional. Só no final do governo militar, e em razão do isolamento político e o auge econômico, tentou-se esboçar os conceitos de excepcionalidade e unilateralidade como eixos de um verdadeiro interesse nacional, no sentido colocado por Morgenthau. Entretanto, não foi com o advento da democracia, e principalmente durante os períodos de J. M. Insulza e J. G. Valdes na Chancelaria, que começaram a se tornar visíveis os esforços sistemáticos para dar sustento teórico para a ação internacional e a estabelecer um conjunto mais elaborado de prioridades e critérios. Portanto, a política externa deixou de ser regida pelos conceitos de excepcionalidade e unilateralidade, para começar a assumir compromissos políticos e comerciais de envergadura de acordo com determinações próprias. Conseqüentemente, a aproximação com as nações vizinhas e em especial com o Mercosul deve ser entendido neste contexto de incipiente conceitualização do interesse nacional chileno.

Nafta ou Mercosul?
Durante a primeira Cúpula das Américas, realizada em Miami (EUA) no final de 1994, o Chile foi formalmente convidado pelos chefes de Estado dos países membros do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) a aderir a tal pacto. Visualizou-se assim a possibilidade de dar luz verde para a materialização da Iniciativa das Américas, que, no dizer do presidente Bush, criaria uma zona de livre comércio do Alaska à Terra do Fogo. O anúncio do convite desatou enormes expectativas no Chile, como provou a imprensa do país durante aqueles anos. O debate nacional centralizou-se com tanta força nessa possibilidade, que o chanceler da época ordenou a “desnaftalizar” a agenda política. Contudo, a impossibilidade da administração Clinton de obter autorização do Congresso dos EUA para negociar utilizando-se da via rápida (o fast track), impediu que a iniciativa se concretizasse. Desde então, a
Chancelaria chilena optou por mudar o perfil da discussão e propor que, em seu lugar, se avance em um acordo de caráter bilateral, similar ao existente com o Canadá e com o México. Dessa maneira, o Chile ficaria ligado às economias do Nafta, mas individualmente.
A factibilidade de uma adesão ao Nafta foi desaparecendo paulatinamente, e no país começou a ficar patente a idéia de que esse tratado se converteu, para muitos norte-americanos, em símbolo de uma política econômica que favorece basicamente às grandes corporações multinacionais e que põe em risco postos de trabalho. De fato, a Casa Branca tentou aprovar no Congresso o seu pedido para o fast track, em novembro de 1997. Logo após, fracassou na segunda tentativa, em novembro de 1998, quando os democratas e uma parte importante dos republicanos se opuseram ao pedido. Para o governo e a opinião pública chilenos, ficou claro que o ingresso no Nafta não depende de simples desejo, mas de uma constelação de situações, nem sempre controláveis em suas dinâmicas e tempos de desenvolvimento. Apesar desse desacerto, a posição da economia chilena mudou fortemente nos últimos anos ao se utilizar outras alternativas de integração, amparadas sob a denominação de política comercial lateral, denominada pelo atual Chanceler J. G. Valdes (: 93). Hoje em dia, o país não é o mesmo de 1996, ano em que foi assinado um acordo de associação com o Mercosul. Ao mesmo tempo, de tão vital passo em seu entorno na região, ingressou na Apec, criando laços privilegiados com a rota Ásia-Pacífico e subscreveu acordos comerciais com quase todos os países latino-americanos (Valdes: 88). Isto tornou complexo e rico, como nunca na história, a sua relação com restante do hemisfério.
Com efeito, apesar de que o Chile só tem o caráter de associado e mantém uma própria tarifa externa, sua associação com o Mercosul complicou qualquer negociação posterior com o Nafta ou de ordem bilateral com os EUA. Segundo o artigo 52 do acordo Chile-Mercosul, a parte contratante que outorgue vantagens, favores, franquias, imunidades ou privilégios para produtos originários ou destinados a um terceiro país, ao menos que esteja previsto no contexto da Aladi, tem a obrigação de negociar concessões equivalentes às recebidas ou outorgadas com outros países contratantes do acordo Chile-Mercosul. Obviamente que esta cláusula não estabelece proibições, mas obriga a estudar os impactos. Mesmo assim, o acordo Chile-Canadá cria complicações adicionais, emanadas do encaixe dos créditos e investimentos externos que chegam ao Chile. Este depósito obrigatório no Banco Central chileno é criticado pelos Estados Unidos e qualificado como barreira aos investimentos. Washington tem ressaltado que não aceitará. Os EUA também têm criticado as chamadas bandas de preços agrícolas para os produtos provenientes do exterior e que o Chile tem conseguido manter em seus acordos externos. Em seguida, se observam disparidades entre o que foi negociado pelo Chile com o Canadá e com o México a respeito do que é vigente no Nafta em matéria de regras de origem.
Isto significa que a política exterior do Chile chegou a um interessante momento de definições, onde uma clara conceituação de seu interesse nacional será inevitável. Isto acarretará debates internos de envergadura. À luz do acontecido, e descartado ao menos a médio prazo a adesão ao Nafta, parece viável um acordo de livre comércio de caráter bilateral com os EUA. Na classe política chilena há vozes que querem situar essa alternativa como prioridade número 1, entendendo que um acordo suporia um incremento dos fluxos de investimentos norte-americano no Chile, maiores possibilidades para o investimento chileno nos EUA e ingresso irrestrito de produtos chilenos no mercado norte-americano. Inclusive, chegou-se a sustentar que qualquer vinculação jurídica com os EUA será sempre melhor, um vez que levaria a uma queda abrupta do “risco-país”, algo impossível de se conseguir de outra maneira.
Sobre o Mercosul, o ponto de inflexão é a necessidade ou não de aprofundar o acordo existente. Em termos gerais, a fórmula 4+1 (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, mais o Chile) responde à atual estrutura de exportação importação do país andino. Os principais produtos importados pelo Chile correspondem a insumos produtivos, particularmente bens intermediários que somam mais da metade de todo as suas exportações, e bens de capital que representam aproximadamente 30% do total. Os EUA são a origem mais importante das compras chilenas no exterior, totalizando um quarto delas. Em seguida vem a União Européia com 20% e depois o Mercosul. Esse fato indica por que não convém ao Chile aceitar a tarifa externa comum do Mercosul. Se isto acontecesse, a produção nacional ficaria mais cara e o comércio seria desviado, em detrimento dos preços e qualidade dos produtos. Entretanto, uma vez que uma parte substantiva de seu PIB é gerado pelas exportações, ao Chile convém estreitar seus vínculos comerciais com o Mercosul e aumentar suas vendas para o exterior, principalmente de manufaturas, algo essencial para uma economia de desenvolvimento mediano.
Para isso, é necessário eliminar as barreiras paratarifárias e, sobretudo, melhorar a infra-estrutura em matéria de transporte e telecomunicações. Por isso, foi bem visto que se negociou uma redução progressiva, que se iniciou com 85% do comércio durante o primeiro ano de funcionamento e que deve ser concluído, salvo as listas especiais, em 2004 com a tarifa zero. Os produtos sensíveis – têxteis agrícolas, calçados – devem começar a redução ainda em 1999, para alcançar tarifa zero em 2006. As listas especiais – açúcar, carne, trigo e farinha – começarão a redução em 2005 e terminarão em 2012. Atualmente, 11% das exportações se dirigem ao Mercosul que, por sua vez, é responsável por 18% das importações do Chile. O Mercosul é também responsável por 3% dos investimentos estrangeiros e o destino de 72% dos investimentos chilenos no exterior.
Mas o Mercosul continua dividindo a opinião pública chilena. Ainda não há clareza sobre os passos a seguir. As grandes questões que se apresentam são, se a criação de uma instância de resolução e de controvérsias constitui ou não um passo que ajude a superar os atuais problemas na vinculação do Chile com o bloco; se é necessário que o país assuma um papel mais ativo, na qualidade de sócio pleno, ou deixe tudo nas mãos da inércia; se é necessário ou não se envolver na crise no interior do Mercosul ou assumir um papel de espectador; e até que ponto é vital ou secundário criar um sistema especial de aplicação de salvaguardas, assim como negociar a liberação do setor de serviços.
Nesse sentido, dignas de menção são as complexidades nos trâmites de regras de origem, as queixas de discriminações como os aumentos unilaterais de tarifas, principalmente no Brasil (caso dos lácteos), a aplicação de preços mínimos (fios), e de cotas máximas de importação (azeitonas), redução de prazos de financiamento das importações, classificação livre de produtos a fim de obrigá-los a pagar mais tarifas (sucos, no Paraguai) e aplicação de sobretaxas (calçados, na Argentina). Nos círculos empresariais chilenos se ouve também queixas e críticas mais gerais como diferenças nas estruturas tributárias, obstáculos para o deslocamento de profissionais e investidores, competição desleal de empresas subsidiadas indiretamente com créditos brandos ou outro tipo de ajuda estatal e um inesperado nível de informalidade no cumprimento de compromissos comerciais, assim como a escassa disponibilidade de informação de mercado, elementos que, em todo o caso, são qualificados como desafios a serem superados, e não como barreiras intransponíveis.
Em síntese, o Mercosul, independentemente dos alcances que potencialmente encerram o Nafta, ou um acordo similar firmado bilateralmente com os EUA, é, até hoje, a iniciativa de integração que maior impacto teve na política e no comércio exterior do Chile, sendo ponto central de sua estratégia comercial lateral, ainda que continue colocando dúvida sobre o seu exato lugar no contexto do interesse nacional que perfilou nos anos 90.
Sem dúvida que as fortes dimensões políticas e culturais presentes na relação são ingredientes adicionais, que obrigam a colocar o bloco e seus integrantes em um lugar preponderante da mesa de discussão e debate nacional.

O Mercosul na política exterior chilena
Umas das perguntas centrais da política exterior chilena é: o que o Mercosul representa dentro dessa política? A resposta irá variar ostensivamente, dependendo de quem responde. No âmbito político da Chancelaria é possível ouvir que se trata de “opção estratégica”, enquanto para certos formadores de opinião no âmbito econômico, o Mercosul tem um futuro imprevisível, devido a pouca clareza de seu funcionamento.
Em alguns círculos industriais o Mercosul é visto com otimismo, a cada vez que aumenta as exportações de manufaturas, mas em outros, especialmente aqueles ligados à agricultura tradicional, insistem em que o bloco significou um duro revés para o setor. Nos meios castrenses também se olha com certa perplexidade o modus operandi que terá a integração física projetada, não se conseguindo compreender ainda o impacto que isto pode ter sobre as denominadas hipóteses de conflito, que, historicamente, têm sido a razão de ser dos exércitos latino-americanos.
Essa disparidade de opiniões reflete o escasso amadurecimento do conceito de interesse nacional nas classes dirigentes chilenas. Em seu seio ainda não se definiu se o Mercosul faz parte da “lista B” na hierarquização proposta por Nye, nem porquê. Menos ainda se conseguiu elucidar como se conjugam os três elementos no interior do Mercosul, que no entender de Brands devem interagir em uma definição atualizada do interesse nacional.
Insulza é quem aprofundou com maior elaboração este assunto. Nesse sentido, assinala que o
interesse nacional chileno de hoje – o regionalismo aberto – estaria assentado em três pilares:
üfortalecimento da democracia;
ücrescimento econômico; e
ügraus crescentes de eqüidade.
Acrescentando que os objetivos da nova política exterior chilena são:
üo desenvolvimento de uma política econômica internacional, que mantenha e fortaleça a abertura externa, sirva de apoio ao crescimento e proteja a autonomia nacional;
üo fortalecimento da democracia;
üo impulso da integração e cooperação regional e subregional na América Latina e;
üa contribuição à criação de uma ordem internacional segura e estável.
De passagem faz uma hierarquização geográfica: América Latina e, em ordem decrescente, Europa, América do Norte e Ásia-Pacífico.
Insulza, de seu cargo, forçou a aproximação do Chile com o Mercosul, apoiando-se no argumento de que chega de olhar o mapa e revisar as vinculações do Chile com o exterior para estabelecer que, de acordo com critérios geográficos, históricos, culturais, políticos e econômicos, a subregião representada pelo Mercosul constitui o âmbito prioritário e natural da ação externa do Chile.
No entanto, um balanço da associação é tarefa complexa, pois pode ser abordada de muitas perspectivas. Em primeiro lugar, politicamente, constata-se que o Mercosul alcançou um valor simbólico forte diante da opinião pública chilena, que o vê como algo confuso, mas próximo, enquanto para o governo, o bloco constituiu um espaço concreto onde buscar apoio internacional é imediato. Basta mencionar a ação do Mercosul a propósito do caso Pinochet.
Em segundo lugar, de um ponto de vista econômico, o balanço adquire tonalidades variadas, uma vez que a relação custo-benefício muda de um setor para outro. Há quem assinala que o ponto central de qualquer melhora passa pela liberalização do setor de serviços. Por isso, este ponto está colocado como prioridade importante para o governo que deve assumir em março de 2000.
Em suma, o Mercosul se converteu em uma ligação crucial da política exterior chilena, cuja centralidade fica manifesta na hora em que se coloca em situação de hipotética ausência do bloco. Entretanto, ele exercerá maior atração para o Chile na medida em que se desvencilhe de seus problemas internos, supere suas oscilações hamletianas e tome consciência de que é necessário avançar pela trilha da integração e de uma melhora da competitividade nos mercados mundiais.

Colisão ou convergência de interesses nacionais?
Com uma população conjunta de mais de 200 milhões de pessoas, um PIB que supera os US$ 1 trilhão, cobrindo uma superfície de 12 milhões de km quadrados (quer dizer, 70% da América do Sul), com recursos agrícolas e minerais de importância planetária e uma ampla variedade de climas e topografias, o Mercosul foi estabelecido em 1995 como uma união aduaneira. Eixos básicos do projeto são a tarifa externa comum e uma comercialização interna que tende à livre circulação. Com a adesão do Chile e da Bolívia, na qualidade de associados, o bloco se converteu na experiência integracionista de maior êxito na América do Sul. Hoje, é considerada internacionalmente como uma iniciativa válida, legítima, razoável e auspiciosa, que colocou a América do Sul no mapa da globalização e sua sigla faz parte do léxico da economia internacional.
A origem do Mercosul está nas inumeráveis tentativas integracionistas vividas pela América Latina e que terminaram em querelas por interesses menores. Sem embargo, em 1985, os governos brasileiro e argentino, saídos de eleições democráticas, enfrentavam a necessidade de reorientar suas economias e avançar em uma inserção de novo tipo na economia mundial. O enorme peso da dívida externa contraída nos anos anteriores, a falta de novos créditos, a necessidade de grandes investimentos na tarefa de modernização se fizeram inevitáveis na metade da década de 80, obrigando os dois países a enfrentar de maneira unida os objetivos da reconversão. Esse desejo de esforço e energia comuns levou os presidentes Alfonsín e Sarney a criar um contexto político ad hoc, que permitiu uma série de reuniões informais de representantes dos dois governos (realizadas nas localidades de Don Torcuato e Itaipava) com o propósito de tirar as dúvidas e construir um calendário de passos concretos. Tanto na Argentina quanto no Brasil, rondava o fantasma do fracasso da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc), e não se escondia o temor de finalizar as discussões com uma projeção tão débil como o da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). O ceticismo predominante nas cúpulas argentina e brasileira da época encontrava explicação também no fato de que em 1986, salvo a Comunidade Econômica Européia (CEE), não havia outra experiência de sucesso de integração de economias desenvolvidas ou intermediárias. Naquela época, não existiam nem o Nafta, nem a Apec nem o acordo bilateral EUA/Canadá.
De tal maneira que, em que pese a sua arquitetura jurídica e institucional incompleta, o Mercosul nasceu essencialmente com um projeto estratégico de dois países que estavam virando a página de um capítulo muito importante de sua história política e econômica. Tal projeto se solidificou ao ser confirmado pelas novas administrações dos dois países. Isto ratifica a impressão de que o Mercosul nasce após o convencimento substantivo das classes dirigentes de ambos países de que a integração regional, e muito especialmente com seu vizinho imediato, podia se instalar no vértice superior de sua escala de prioridades em se tratando de política externa e que o Mercosul poderia ser parte do interesse nacional do Brasil e da Argentina, mesmo que, nesses países, o conceito não tivesse uma elaboração histórica suficientemente nítida.
Movidos mais pela prática e pelas necessidades, os dois maiores países da região lembraram neste rincão de mundo dois velhos adágios das relações internacionais. Aquele de Tucidides, que destacava a convicção de que a convergência de interesses é o vínculo mais seguro entre os Estados e os indivíduos; e o de lord Salisbury, segundo o qual, o único vínculo que perdura entre as nações é a ausência de conflitos enfrentados.
Esta vontade original é a que começou a empacar. Por isso, as crises recentes do Mercosul se constituem numa forte advertência regional e reforçaram a impressão de que é necessário dar um salto qualitativo e ir mais além da simples vontade. Em primeiro lugar, emerge com força a necessidade de perfilar estratégias de convergência política e econômica de longo prazo por parte de todos os seus integrantes, sejam membros plenos ou associados.
Parece ter surgido o momento da eficiência e da coordenação, onde estejam claramente definidos os deveres e direitos de cada membro e se alimente a cultura exportadora do bloco (isto é, mais eficiência nos portos, menos burocracias, harmonização efetiva de políticas macroeconômicas e fiscais, criação de um mecanismo de resolução de controvérsias comerciais para que os problemas de caráter setorial não sejam mais solucionados pelas autoridades políticas etc.). No plano político, parece haver chegado a hora da supranacionalidade. É preciso melhorar e aperfeiçoar com urgência a institucionalidade vigente, dotar seus órgãos de poder de decisão. Tudo isso resulta em colocar o bloco no primeiro lugar das escala de prioridades de cada um dos integrantes.
Não deve escapar o fato de que a última crise surge após os insistentes esforços de Buenos Aires em reforçar o seu alinhamento com Washington em assuntos internacionais, como foram a solicitação do governo argentino de se converter em membro pleno da Otan e a disponibilidade do presidente Menen em participar de uma operação multinacional na Colômbia. Apesar de que Reficco atribui esse esforço pró-EUA a elementos internos argentinos (particularmente ao chamado realismo periférico presente na administração Menen), fica claro que a falta de estratégia de convergência persiste no seio do Mercosul.
Entretanto, olhando em perspectiva, o Mercosul parece viável, mesmo depois do grande confronto comercial argentino-brasileiro de 1999, dos problemas financeiros do Brasil, da instabilidade constitucional do Paraguai, e de qualquer contingência que se apresente no futuro próximo.
Os fluxos comerciais intrabloco marcam tendências nessa direção. Se a isso se junta a efetiva integração física em curso e as necessidades que impõe o mundo globalizado, é provável que o Mercosul reverta esta e outras situações de crise.
Nesse sentido, parece necessário superar a “Brasil-dependência” do Mercosul e extrair lições da CEE e do Nafta. A primeira, apresenta uma experiência mais igual e harmoniosa ao não existir diferenças tão grandes no potencial econômico entre seus integrantes, o qual inibiu ações unilaterais. Lembremos que a história das nações européias está marcada por conflitos desmembradores e sangrentos, em parte pelo desejo de cada nação de buscar espaços físicos em um território continental limitado e densamente povoado, algo que não ocorre em nosso entorno. Os acordos de Roma na década de 50 foram um novo tipo de contrato entre aquelas nações, que decidiram mudar sua escala de
prioridades e colocaram o entendimento com os vizinhos em primeiro lugar. O processo de encontrar equilíbrios justos de interesses, de unificar critérios políticos e edificar estruturas institucionais não foi fácil. Destaca-se a aproximação franco-alemã, um fato inimaginável para as gerações anteriores, e que foi produto de uma vontade política no sentido estrito, uma vez que Charles de Gaulle e Konrad Adenauer não vinham do mundo da economia.
Quanto à experiência do Nafta, ela não parece assimilável ao Mercosul, uma vez que a liderança recai em uma potência com elevado grau de estabilidade, mas com interesses planetários de natureza muito diversa e vasta, algo que não ocorre em nossa região.
Definitivamente, para que o Mercosul se instale e permaneça no lugar central do interesse nacional de cada um dos países envolvidos, se faz necessário dois tipos de crescimento. O primeiro é vertical, para fortalecer a sua estrutura orgânica supranacional e gerar mecanismos para um livre entendimento empresarial. O segundo é horizontal, que vá envolvendo as sociedades, as entidades não estatais, com o propósito de diminuir as brechas existentes e de gerar um clima de confiança e aproximação. Em suma, que os países do Mercosul atualizem sua noção de interesse nacional e incluam de maneira equilibrada aqueles três elementos indispensáveis que cita Brands: prosperidade, segurança e democracia.

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