Cuba e a integração regional e mundial
Adalberto Santana
Neste artigo, propomos fazer uma reflexão sobre os desafios que Cuba enfrenta, neste final de século, em seu processo de integração com os países latino-americanos e outras regiões do mundo.
Partimos do fato de que a reinserção de Cuba na economia da América Latina tem origem em diversas causas. Entretanto, existem dois elementos centrais que se expressam com o colapso da economia planificada nos países do ex-bloco socialista e com o endurecimento do bloco econômico dos EUA.1 Ambas situações, de maneira geral, condicionam uma diversidade de medidas na via econômica de Cuba que orientam por sua vez uma série de mudanças no desenvolvimento do modelo socialista. Surgindo assim uma reforma econômica que pretende “a reestruturação do comércio exterior, o investimento estrangeiro, a descentralização e o autofinanciamento, e mudanças nas formas de propriedade sobre os meios de de produção”.2 Pontos que são abrangidos no presente estudo, particularmente quando a América Latina avança em um processo de integração regional.
Na última década deste século, Cuba vive uma etapa em que predominam as tendências de integração regional, o que também contribui para que a ilha busque delinear um novo futuro econômico, político e social diante da mundialização da economia, incluindo a constituição de novos blocos de poder. Sobretudo para poder enfrentar os desafios que impõe a necessária integração regional.3 Nesse sentido, diante da dinâmica da globalização econômica internacional, se fortalece uma maior aproximação e se define mais a economia cubana no rumo da cooperação e da abertura para o investimento do capital internacional.
O paradigma da economia socialista em Cuba busca a sua inserção na economia mundial tendo como um de seus principais obstáculos a política do governo dos EUA, que mantém uma situação de fustigamento econômico e político. Mas esse fustigamento de Washington contra a economia cubana não é novo, começou a se definir com maior peso na medida em que o país caribenho se incorporou ao Conselho de Ajuda Mútua Econômica (Came) em 1972. Quer dizer, uma década depois de que a economia cubana fora fortemente atingida pelo bloqueio econômico norte-americano. Podemos constatar que ainda nos anos 70, Cuba manteve um importante nível de relações econômicas com os países capitalistas ascendentes, chegando a 40% de todo o seu intercâmbio (30% com países capitalistas desenvolvidos e 10% com países capitalistas subdesenvolvidos).
Entre 1990 e 1993, a economia cubana viveu a situação mais difícil dos últimos 70 anos. Carlos Lage apontou:
A capacidade de importação do país se reduziu dos mais de US$ 8 bilhões anuais para mais ou menos US$ 2,2 bilhões; US$ 8,1 bilhões em 1989, quando se podia considerar que se desenvolviam plenamente os vínculos com a comunidade dos países socialistas, e US$ 2,2 bilhões estimados da capacidade de importação para 1992. Isto quer dizer que o país teve que viver neste ano com 73% menos dos recursos de importação com que vinha funcionando a economia e a vida da população cubana. Até então, tínhamos um intenso intercâmbio comercial com os países da comunidade socialista e principalmente com a URSS. Para esses países se dirigiam 81% das exportações e recebíamos deles 85% de nossas importações.5
Podemos identificar, assim, que em relação a 1989, os níveis de atividade econômica em 1993, de acordo com dados oficiais, provocaram um declínio do PIB de 34,8%.6 Essa ruptura abrupta do desenvolvimento das relações comerciais de Cuba com os países do Came significou a perda de mais de 75% de seu mercado. Esse fato resultou na drástica redução do incremento de matérias-primas para produção nacional e de produtos para o consumo interno. Essa situação econômica levou a perda do mercado dos produtos cubanos de exportação. Acrescente-se a isso que Cuba não só reduziu o seu intercâmbio comercial, senão que, principalmente com o colapso do socialismo na Europa Oriental, deixou de se articular com um desenvolvimento de integração econômica, como foi com o Came. Essa situação levou a economia do país a ter que sobreviver com menos recursos e, para poder sobreviver nessas condições, a buscar novos mercados. No contexto dessa situação se argumenta:
A crise do período de 1990-93 respondeu ao rápido desmantelamento do comércio exterior de Cuba e, conseqüentemente, a brusca redução da capacidade de importação do país. Isto não significa a ausência de outros problemas referentes à eficiência econômica e à produtividade que também afetam o desempenho geral da economia cubana hoje, e que antes de 1989 já haviam provocado declíneos na taxa de crescimento econômico da nação.7
Assim, ao reduzir o intercâmbio com os países socialistas, Cuba procurou a sua reinserção nos novos rumos que tomou a economia mundial, encontrando no processo de abertura econômica um desses caminhos novos. A abertura para os investimentos estrangeiros na ilha é um elementos que hoje se desenvolve amplamente e ostenta um papel central. Nesse sentido, pode-se identificar que a economia cubana é dependente do comércio exterior e seus recursos são limitados.
A dinâmica que Cuba viveu nas últimas três décadas tem enfrentado constantes pressões políticas. Forças distintas, basicamente os sucessivos governos dos EUA e grupos anticastristas no exílio, têm sido obstáculos para a plena integração da ilha ao mercado mundial. Somente em 17 de abril de 1995, o senador americano ultraconservador Jesse Helms, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado norte-americano, diante de diversos líderes da Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA) e de outras organizações do exílio, afirmou fazer o possível para que a chamada lei Helms-Burton fosse aprovada pelo Congresso com o objetivo de reforçar o embargo contra Cuba. Para o analista cubano Esteban Morales, o que Clinton faz com a aprovação de tal lei é:
Trabalhar para enquadrar Cuba, moldar o seu comportamento a uma economia de mercado e a uma democracia liberal pluripartidária, levando-a novamente ao conjunto de repúblicas latino-americanas que, depois de quase 200 anos de seus processos de independências, não puderam solucionar um só dos problemas que Cuba já resolveu e que agora procura preservar. Impõem o bloqueio como mediação. Tal bloqueio, a globalização e pressões para a estandartização de seu regime político, constitui o desafio combinado que hoje enfrenta Cuba no processo de reestruturação de suas relações econômicas internacionais.8
Desta forma, ambos fatores externos são prioritários para evitar a inserção completa de Cuba na moderna economia mundial. Entretanto, este país caribenho é hoje uma economia aberta. Particularmente depois do fim do Came, quando essa derrocada provocou um efeito complexo na economia cubana, particularmente no setor externo. Desta maneira, o desaparecimento do bloco socialista conduziu Cuba à criação de condições excepcionais de funcionamento de sua economia e para a necessidade de iniciar um processo de ajuste com particularidades bastantes singulares.
O processo de ajuste que se verifica em Cuba – conhecido por Período Especial – se apóia no aproveitamento das capacidades nacionais existentes em todas as esferas, preservação da capacidade de desenvolvimento, utilização de um regime de distribuição equitativa, combinação adequada do processo de diversificação das exportações com enfoque mais seletivo da substituição de importações, maior atenção nas vantagens comparativas dinâmicas, incremento substancial do papel da ciência na solução dos principais problemas econômicos, ativação dos mecanismos de participação popular e a manutenção do projeto socialista como condição essencial do êxito de todo esse processo.9
O Canadá é um exemplo das relações de Cuba com um país do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN). Um país que ao fomentar suas relações diplomáticas, e sobretudo comerciais, com Cuba, conseguiu intensificar suas importações da ilha – níquel, açúcar, pesca, entre outros. O comércio bilateral entre os dois países chegou em 1998 a US$ 555 milhões e as importações de níquel cubano representaram 25% dos ganhos de Cuba em divisas. Mesmo assim, desde o início dos anos 90, as empresas canadenses investiram mais de US$ 600 milhões na construção de aeroportos, campos de golfe, pizzarias, instalações de energia elétrica, hotéis e minas.
No caso das relações de Cuba com o México, existe uma estreita e cordial convivência entre os dois países. Isto contrasta com o conflito que há mais de 30 anos se desenvolve entre a ilha caribenha e a maior potência militar e econômica do mundo, os EUA. A relação cubano-mexicana tem profundos laços históricos. Embora se possa reconhecer que no âmbito educativo, cultural e acadêmico é onde as relações tem sido, há muitos anos, de grande importância. Nos dias de hoje, a relação se ampliou e se aprofundou nas mais diversas áreas da vida econômica e comercial. Nesse novo contexto, as estimativas é de que as empresas mexicanas que apóiam a reforma econômica cubana investiram na área do turismo, cimento, têxteis, telefonia, refino de petróleo. A presença de importantes atores políticos do México em Cuba e os pronunciamentos mexicanos em razão da proposta do senador norte-americano Jesse Helms de ampliar o bloqueio à Cuba têm sido freqüentes e provenientes de diversos setores.10
Por isso é que o México se constitui em um dos principais sócios de Cuba, depois que a ilha perdeu o respaldo do comércio preferencial e a ajuda que os governos da ex-URSS e dos países do Leste Europeu lhe concediam. É o caso de diversos setores empresariais mexicanos que têm apoiado pragmaticamente a abertura econômica de Cuba. Nessa perspectiva da reforma econômica cubana, se destaca o impulso mexicano, fazendo-se presente em investimentos que podem chegar a mais de US$ 1 bilhão. Nas dinâmicas dos investimentos mexicanos se pode compreender que obedecem a força e a capacidade que o setor empresarial mexicano está conseguindo, inclusive considerando a forte depressão econômica mexicana, e a que dinâmica o setor privado mexicano está disposto a consolidar suas empresas a médio e longo prazos, não só em Cuba, mas também em outros países do Caribe.
Desta maneira, tanto o México, Canadá e a própria União Européia estão entre os maiores investidores em Cuba. Dessa forma, se pode entender que quem tem oferecido as melhores condições ao setor empresarial de outras nações do mundo para investir é o próprio bloqueio econômico norte-americano. Este, por sua própria lógica, tem vetado setores de Miami e de outras partes dos EUA interessados em investir na ilha. Inclusive importantes empresas norte-americanas têm manifestado seu interesse em entrar no mercado cubano, sobretudo quando os investimentos mexicanos, canadenses, franceses e italianos, em conjunto, chegam a mais de US$ 1,5 bilhão. Essa situação comercial não tem eximido os investidores do México, Canadá e Europa das pressões norte-americanas plasmadas na lei Helms-Burton. O próprio presidente Clinton suspendeu em 16 de julho de 1999, pela sétima vez, o capítulo III da lei Helms-Burton.11 É bom enfatizar que o citado capítulo dessa lei autoriza aos norte-americanos a demandar nas cortes federais as empresas estrangeiras que realizem negócios com Cuba e utilizem as propriedades que lhes foram confiscadas pelo governo revolucionário cubano. A lei Helms-Burton entrou em vigor em 12 de março de 1996 e reiteradamente tem sido repudiada pela comunidade internacional, principalmente porque os capítulos III e IV violam acordos internacionais e têm uma aplicação extra territorial.
Apesar das suspensões dessas medidas, os congressos do México e do Canadá, nações que são integrantes do TLCAN, aprovaram leis “antídoto” para reagir à lei Helms-Burton e punir os EUA em caso de sua aplicação. Até o início de 1998, a única empresa que havia sido atingida pelo capítulo III de tal lei foi a empresa canadense Sherrit Co.,12 uma vez que as mexicanas Grupo Demos e Cemex, assim como a italiana Stet, saíram de Cuba com receio das represálias dos Estados Unidos.
Para que Cuba conseguisse investimentos de capital estrangeiros, uma vez que havia desaparecido o antigo vínculo com o ex-campo socialista, a economia cubana foi obrigada a recompor o sistema de relações externas e a reorientar seu aparato produtivo e sua estrutura legal.
Essas circunstâncias levaram o país, a partir de 1990, a adotar uma série de transformações em sua estrutura econômica, as quais tiveram que passar pelo ordenamento legal. Desta forma, a política econômica se definiu por:
A adequação e priorização do processo de investimento segundo os recursos disponíveis, os ajustes do consumo de energia, o desenvolvimento de programas de substituição de importações, o incremento das exportações tradicionais e não tradicionais, a aplicação do programa de turismo e a abertura do investimento estrangeiro.13
Neste contexto, foram aprovados em meados de 1992 uma série de mudanças na constituição de Cuba, destacando-se dentro dessas modificações a aceitação da propriedade privada e o reconhecimento de empresas mistas.
Foram eliminados o monopólio que o Estado tinha do comércio exterior, função hoje dividida com empresas mistas, representações de empresas estrangeiras e, inclusive, numerosas empresas estatais, fato que as aproxima das condições do mercado.14
O conjunto das pressões externas que tem vivido Cuba, evidentemente, geradas principalmente pelo governo dos EUA, contrastam com o desenvolvimento crescente dos investimentos produtivos estrangeiros, a partir de 1992, quando se inicia o processo acelerado de criação de empresas mistas e associações econômicas com o capital estrangeiro. Em meados de 1995, havia mais de 200 empresas estrangeiras associadas sob diferentes modalidades de contrato com empresas cubanas. A participação por país está concentradas na Espanha (22%), Canadá (12%), Itália (8%), México (6%) e França (6%).
Em relação à distribuição por setor, o investimento estrangeiro está na indústria (26%), turismo (16%), mineração (14%), prospecção de petróleo (12%).15
O novo processo de abertura econômica implicou que até março de 1995, o governo cubano tenha conseguido manter um intercâmbio comercial com 2,5 mil empresas de 109 países. Pela situação econômica que atravessa Cuba, no contexto do fenômeno da globalização econômica, pode-se entender por quê foi necessário abrir a sua economia para o investimento do capital privado estrangeiro. Esta decisão, desde uma perspectiva financeira, se explica em virtude de o país “não receber créditos de organismos financeiros internacionais e obtém muito pouco do governo, além do que tem contratempos para obter empréstimos bancários pelos problemas criados por sua dívida externa”.16 Haveria que considerar que essa abertura econômica não implicou entrar “em um processo de privatização, mas sim dar passagem ao mundo onde predomina o capital privado”.17 Nesse sentido, foi formulado:
A transformação do comércio exterior de Cuba resultou na abertura da economia para mais de 3 mil empresas de 98 países, comunicação com 33 linhas aéreas de 17 países e a manutenção de relações diplomáticas com mais de 150 países. Isto, apesar do bloqueio norte-americano.18
Nessa perspectiva, também podemos destacar a presença do impulso latino-americano para a reforma econômica cubana. Houve um aumento de troca de mercadorias de 5,6% em 1989 para 34,7% em 1994. Estas cifras só são superadas pelo intercâmbio com a Europa, que chegou a 45,6% em 1994.19
Lembremos que até maio de 1995, o intercâmbio comercial entre Cuba e Rússia se sustentava em um acordo que só estabelecia “a entrega para Cuba de três milhões de toneladas de petróleo por parte de Moscou, e a remessa para a Rússia de 1 milhão de toneladas de açúcar”.20 Esta nova situação, em que Cuba é cada vez mais independente dos velhos e novos blocos de poder em nível mundial, é que seguramente fortalece a abertura econômica cubana.
Nesse sentido, pode-se afirmar e reconhecer que em Cuba tem se fortalecido uma política de abertura para o investimento estrangeiro, o qual corresponde com a capacidade dos investidores latino-americanos e de outras latitudes que, a contar com uma percepção pragmática dos negócios, tem feito que se adiantem aos grupos da Flórida que estão evidentemente mais ideologizados. É possível se constatar isso nas visitas de várias delegações de diferentes países a Cuba, assim como por seus investimentos.21
Seguindo essa lógica, no final de abril de 1995, o governo cubano decidiu iniciar um programa de vendas de imóveis exclusivamente para estrangeiros. Assim, surgiu uma sociedade anônima com o nome de Associação Cubana Imobiliária, fundada com o propósito de estabelecer empresas mistas.22 Destacam-se nessa ofensiva econômica as viagens de funcionários cubanos ao exterior com o objetivo de fomentar o investimento na ilha. Um intercâmbio desse porte com nações latino-americanas e com outro nível de desenvolvimento foi o giro realizado por uma delegação, encabeçada pelo presidente da Câmara de Comércio, Carlos Martínez Salsaman, à América Central. Os resultados dessa visita se definiram nas exportações cubanas de medicamentos, equipamentos médicos, casas pré-fabricadas, e na importação de cítricos, carne e madeira da região. Um dos melhores resultados do intercâmbio comercial de Cuba com os países da América Central é o restabelecimento das relações diplomáticas com a Guatemala. As relações entre os dois países foram interrompidas em 1961 e voltaram ao normal em janeiro de 1998.
Também cabe ressaltar a presença na ilha de um grupo de 100 empresários britânicos em janeiro de 1998, cujo objetivo era o de explorar as oportunidades de negócios.23
Na tendência de integração de Cuba com as economias latino-americanas, há que se ressaltar um futuro ingresso do país ao Pacto de São José.24 Até 1996, Cuba contava com uma produção de 10,5 milhões de barris de petróleo, cuja maior parte era utilizada na geração de energia elétrica e na indústria do níquel e cimento. A URSS era o principal fornecedor com 91 milhões de barris anuais de petróleo.25 Atualmente, entre o petróleo importado e a produção nacional (15%), apenas se recebe a metade daquilo que se recebia anteriormente. Por esta razão, a economia cubana sofreu uma semiparalisação do seu parque industrial e das máquinas agrícolas. Também provocou um agudo déficit no transporte e contínuos cortes de energia. Desde 1991, a empresa estatal petroleira, a Cubapetróleo (Cupet) já assinou mais de 40 contratos de associação com empresas estrangeiras.26 Isto inclui “22 convênios de exploração petrolífera em contrato de risco em mais de 30 campos em terra e na costa marítima, abrangendo 100 mil quilômetros quadrados, assinados com empresas do Canadá, Grã-Bretanha, França. Suécia e Espanha, entre outras”.27
Como se sabe, o gasto de energia no transporte em qualquer país está entre 20 e 40% do gasto total. Em Cuba, com o consumo de energia dependente do petróleo (salvo a produção açucareira, que usa o bagaço da cana em suas caldeiras), em 1989, as importações de petróleo foram de 13,2 milhões de toneladas, das quais o transporte, segundo estimativa do Instituto de Investigações do Transporte (ITT), utilizava mais de dois milhões.
Na década de 90, as importações de petróleo se reduziram para menos da metade, e a produção nacional de cru, principalmente pesado não refinável, somente cresceu em cem mil toneladas.28
A gravidade da crise tem levado 11 milhões de cubanos a sofrer uma ampla escassez que abrange desde combustível até alimentos e bens de consumo básicos. A política de aprofundar as reformas passaram necessariamente pela reorientação econômica do modelo socialista. Difícil decisão que tem de ser tomada sem pretender abandonar as conquistas sociais. Desta maneira, Cuba provavelmente possa enfrentar os desafios que hoje a globalização impõe e a necessária reinserção da ilha na economia mundial.
Em diversos meios norte-americanos, sobretudo em setores importantes de opinião, se sente cada vez mais forte as pressões para que Washington modifique sua política para Cuba. Por exemplo, em março de 1995, o New York Times insistiu em que o governo norte-americano devia mudar a sua política e “adequá-la à realidade atual e torná-la congruente com os princípios do livre comércio e transição pacífica que apregoa”.29 Nesse sentido, influentes setores de opinião nos EUA afirmam que Cuba sobrevive porque outros países estão investindo no país e não participam do embargo. Nesse contexto, tem sido de bastante destaque a iniciativa dos senadores Tom Daschle e Byron Dorgan depois de sua visita a Havana em agosto de 1999, de levantar o embargo a Cuba no Congresso americano na parte de alimentos e medicamentos.30
Em 15 de novembro de 1997, a Assembléia Geral das Nações Unidas condenou o embargo econômico, comercial e financeiro imposto pelo governo dos EUA a Cuba há mais de três décadas. A primeira condenação da ONU foi em 1991 e tem continuado até 1999.
Os prejuízos causados pelo embargo somente em 1993 ultrapassaram US$ 970 milhões.31 Por isso é que no novo desenho da economia cubana foi imprescindível a introdução de determinados ajustes, alguns deles com elementos e formas de desenvolvimento capitalista. Por isso que o próprio presidente Fidel Castro tem sustentado a inevitabilidade de tais elementos de uma economia de mercado.32 Dentro da série de reformas econômicas que o governo cubano tem anunciado e implementado, figuram, ao lado da promoção dos investimentos estrangeiros, os mercados agropecuários livres, o porte livre de divisas, o emprego privado e a redução de subsídios estatais e de necessários ajustes trabalhistas, em função da falta de matérias-primas. Sem dúvida, toda esta dinâmica de reformas pode se entender como um processo de abertura econômica.
Em relação à conjuntura econômica e ao processo de integração de Cuba com a economia mundial, essa etapa pode se caracterizar nos seguintes pontos:
- As diversas pressões políticas exercidas contra Cuba e o desaparecimento do campo socialista têm sido fatores que condicionam seu atual desenvolvimento.
- Esse fatores têm delineado o novo perfil das mudanças que essa nação tem apresentado.
- Na fase atual, entende-se que Cuba vive um período de transição que se caracteriza pela abertura econômica e pelo fomento aos investimentos do capital estrangeiro.
- Para esses investimentos estrangeiros é estratégico que Cuba esteja situada em uma região vital do mundo como é a Cuenca do Caribe, uma vez que possui mão-de-obra altamente qualificada que nenhuma nação da América Latina pode oferecer, e além disso oferece plena segurança aos investimentos, nos quais o Estado cubano participa de maneira destacada. Se soma a tudo isso, a ausência de conflitos trabalhistas em Cuba.
Em virtude dessas mudanças, pode-se entender que avança a cada dia em sua reinserção no mercado mundial. O governo também tem realizado a reorganização das estruturas produtivas e a liberalização do mercado agropecuário, industrial e artesanal. Internamente, estas medidas têm o propósito de estimular o poder aquisitivo do peso cubano, que desde as últimas semanas de março de 1995 recuperou-se em mais de 50% frente ao dólar, e deve chegar a um nível mais estável até 1999, para assim contribuir para o saneamento das finanças internas. Destaca-se também como um sinal positivo o fato de que no comércio exterior cubano, as exportações cresceram em 1995 em 3,5% e é estimado para 1998 “um crescimento de 10,7% nas exportações, com uma taxa de 26% de aumento nas zonas açucareiras”.33 Enquanto prevê-se que as importações deverão crescer 4,7%.34
Para 1999, espera-se alcançar um modesto crescimento da economia, que se destaca diante da queda de 35% no período 1989-94. O crescimento para 1998 está entre 2,5 a 3,5%.35 Nos dois anos anteriores, o crescimento econômico chegou a 7,8% (1996) e 2,5% (1997).36
No que diz respeito à safra de açúcar, principal produto em que se apóia a economia cubana, a produção de 1997 foi de 4,25 milhões de toneladas, enquanto em 1998 a previsão era de menos de quatro milhões de toneladas. Esta situação se explica pelo fechamento de 30 grandes centros de produção açucareira, com o propósito de tornar mais eficientes aquelas que continuarão em funcionamento.
Diante desta situação, a economia cubana deve se apoiar na indústria do turismo como uma nova fonte de recursos. Em nível mundial, uma das atividades econômicas que mais produz divisas para as nações periféricas é a do turismo e particularmente para as nações da Cuenca do Caribe. E nisto Cuba tem um papel destacado, onde a indústria do turismo é o melhor incentivo econômico diante da difícil situação de bloqueio norte-americano, assim como os efeitos da diminuição do principal produto (açúcar) de exportação.
A produção de açúcar em Cuba é o que teve o maior peso, mas sua produção foi afetada, caindo dos 7,1 milhões de toneladas em 1990, para 4,45 milhões em 1996. Quantidade superior àquela produzida nos três anos anteriores. Enquanto o turismo em 1996 teve um incremento de 12,2% e 7,5% de dívidas procedentes desse setor. O turismo tem rendido ao país, segundo cálculos, mais de US$ 1 bilhão e tem servido como uma alavanca para que Cuba saia da prolongada recessão em que vive.
Considerando as divisas brutas do turismo, espera-se um aumento de 22% para o ano 2000, com 1,4 milhão de visitantes, um índice de ocupação próximo a 64% e uma redução dos custos por dólar de ingresso.37
É preciso considerar que em Cuba, nessa atividade, se desenvolve um processo forte de investimentos estrangeiros.38 Outra vantagem do turismo é que estimula outros ramos da economia, por exemplo, a indústria da construção e a indústria de materiais de construção. Na região do Caribe, depois do México, não tem outro país com capacidade de produção de cimento como Cuba. Nesse país, estão envolvidos em investimentos estrangeiros 57 países em 40 áreas diferentes da economia.
Sem dúvida, geograficamente, Cuba tem condições favoráveis para o desenvolvimento de sua indústria do turismo, como assinala os economistas cubanos Julio Carranza e Aurelio Alonso: “clima tropical, praias, estabilidade social etc. além de ser um ramo de rápida recuperação do investimento, requisito importante em uma política de crescimento acelerado”.39
O crescimento do número de turistas que anualmente chegam a Cuba, e a segurança e garantia dadas ao capital estrangeiro para investir, têm feito empresas espanholas a planejar abrir novos hotéis na ilha.40
Fala-se que um número cada vez maior de bancos e empresas hoteleiras norte-americanas tem realizado investimentos com risco dividido, associando-se a empresas de outros países, para não ficar de fora dessa atividade em expansão. Sobretudo quando se calcula que em 1997 mais de 1,2 milhão de turistas visitaram as praias cubanas e gastaram cerca de US$ 300 milhões.41 Nesse sentido, a expansão que envolve essa atividade, representa o “dispor de 50 mil habitantes no final do século, para atender 2 milhões de visitantes estrangeiros e obter divisas brutas de US$ 3 bilhões”.42
Nessa dinâmica de modernização econômica do governo cubano, havia sido planejado para 1998 o incremento dos impostos e a redução de uma série de gastos públicos.43 Considerando que o orçamento nacional de 1997 chegou a estar entre 450 e 470 milhões de pesos cubanos.44
O balanço da economia cubana em 1997 apresentou as seguintes características, segundo o ministro de Economia e Planejamento, José Luis Rodríguez.:
O ano que termina (1997) se caracterizou por sua extraordinária complexidade, não só do ponto de vista econômico e financeiro, como também pelo recrudecimento da guerra econômica que desenvolve os EUA contra nosso país. Temos sofrido ataques terroristas no turismo, agressões biológicas na agricultura e pressões de todo o tipo para desestimular os investimento estrangeiros em Cuba, os quais, apesar de tudo, chegam a mais de 300 acordos de associação econômica com capital externo neste final de 1997.
Se o governo dos EUA finalmente se decidisse a acabar com o embargo e estabelecesse políticas sobre diversos temas com o governo cubano, nos encontraríamos em um cenário mais propício para a integração de Cuba e do conjunto de toda a América Latina.
Para os Estados Unidos, sem dúvida, fica cada vez mais claro que Cuba é mais independente dos velhos e novos blocos de poder. Agora que se define com maior nitidez a sua independência política e econômica. Entretanto, diante do novo processo de globalização, surge necessariamente a aspiração de se integrar ao mercado mundial. A viabilidade econômica de um país carente de grande quantidade de matérias-primas fundamentais para o bom funcionamento de sua economia é um grande desafio, como acontece com a maioria dos países do arquipélago caribenho. A abertura econômica cubana procura responder a essa situação. Por isso, Cuba busca maiores relações econômicas e comerciais com outras nações da região e que a reforma e a abertura econômica sejam um estímulo para alcançar esses objetivos.
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