Entrevista com James Petras: "O Mercosul é mera formalidade"
Entrevista com James Petras
O professor James Petras esteve no Brasil no primeiro semestre deste ano e aqui proferiu uma série de palestras em várias universidades e organizações sociais. Petras é professor de Socio-
logia na Binghamton University, Estado de Nova York (EUA). É autor de mais de 30 livros sobre a América Latina, Estados Unidos e Europa Meridional. Entre suas obras, podemos destacar Armadilha Neolibeal, publicado pela Xamã e Neoliberalismo: América Latina, Estados Unidos e Europa, edição da Furb (SC).
O intelectual James Petras teve participação ativa no Tribunal Bertrand Russell contra a repressão política na América Latina. Petras visita regularmente o País e olha com muita a atenção os movimentos sociais que aqui se desenvolvem, especialmente o MST. O professor abriu um espaço em sua carregada agenda e falou à revista PUCviva no intervalo entre um compromisso e outro em sua rápida visita a São Paulo.
Para ele, o colonialismo norte-americano vem se fortalecendo e as perspectivas para o próximo século é de que o domínio dos EUA se aprofunde. Aqui, na América Latina, o Mercosul – um acordo formal entre países, conforme suas palavras – será o palco de disputa entre as multinacionais norte-americanas e européias. James Petras também fala sobre algumas condições necessárias para que ocorra transformações substanciais na sociedade brasileira.
PUCviva – No livro Neoliberalismo: América Latina, Estados Unidos e Europa, o sr. fala, entre outros assuntos, das disposições da legislação norte-americana para os outros países, da proteção comercial e das transformações internas daquele país e seus reflexos em sua política exterior. Quais são as características principais do novo colonialismo dos EUA? O que mudou?
James Petras – As características principais do novo colonialismo dos EUA são muldimensionais: política, econômica, militar e cultural. Por isso é um sistema colonial e não simplesmente um imperialismo econômico ou colonialismo cultural. É um sistema multifacetado. Por exemplo, agora quando analisamos as relações entre os EUA e a América Latina entendemos que os Estados Unidos estão comprando, como a Europa, os grandes setores estratégicos da economia: telecomunicações, indústria pesada, de mineração, petrolíferas. Então, não é simplesmente introdução de capital em algum setor. Estão determinando os parâmetros para a tomada de decisões. Determinam a política de ajuste estrutural, de gastos, o tamanho do orçamento público, a distribuição de entrada de capital e despesas do orçamento nacional, que também implica determinar os orçamentos estaduais e municipais. Dentro das estruturas de decisão, para se efetivar os ocupantes dos postos mais importantes como Fazenda, Finanças, Economia, antes têm de ser aprovados pelos bancos internacionais que são extensões de Soros, dos EUA. É preciso conferir previamente se tais candidatos aos cargos são de confiança de Wall Street, do Banco Mundial etc.
Mais além do econômico, temos em muitos casos a forma como os EUA fixam as leis mais importantes. Por exemplo, a lei de propriedade intelectual, as leis que dizem como deve funcionar o sistema financeiro, o grau de dolarização da economia, quais são os países que podem comercializar com Cuba, as leis de extradição. Então é toda uma série de leis norte-americanas que já é a lei suprema do continente.
Percebemos também o aumento da influência da doutrina militar e a incidência, a partir das chamadas campanhas contra o narcotráfico e a lavagem de dinheiro, a presença e a colaboração estreita dos EUA com as instituições mais sensíveis da América Latina que controlam a repressão, que concentram a força e que cada vez mais se insinuam na economia.
Finalmente, temos o intercâmbio desigual dos produtos culturais. Com a monopolização das telecomunicações, a produção de mercadorias, há uma invasão de programas de diversão na televisão, há a CNN. Esta ação está mudando a consciência das pessoas desde o interior de suas casas, de suas imagens, desde seus valores, desde a difusão de informações. São tão graves quanto os demais fatores. É uma coisa de colonialismo subversivo na consciência, de psicologia social, gerando uma afinidade, uma linguagem norte-americana em inglês, um estilo de vida em inglês.
PUCviva – Perda total da identidade?
Petras - Sim, é uma forma de criar outra identidade, de identificar-se com a via americana, aceitar que a General Electric é parte do Brasil, quando as remessas de lucros que saem do Brasil para os EUA são monstruosas.
PUCviva – Considerando a análise de que os EUA no século 21 vão aprofundar seus domínios no mundo, quais são as perspectivas para as nações da América Latina, particularmente os países reunidos no Mercosul?
Petras – Poderíamos fazer duas coisas. Projetar as tendências atuais significa a absorção total das principais atividades econômicas e a desnaturalização da cultura e a criação de instrumentos repressivos. A influência dos EUA no Mercosul entra passo a passo a partir da desnacionalização das empresas. Se no Brasil os EUA compram as telecomunicações, a partir das empresas norte-americanizadas, os EUA entram como o fator decisivo no Mercosul. O Mercosul será, então, a cancha do jogo das multinacionais européias e norteameri-canas que já dominam os mercados nacionais e organizam suas atividades nesses países. O fato de se chamar Mercosul é uma mera formalidade. O intercâmbio entre os mercados está muito influenciada pela conduta, investimentos, decisões de atores que têm suas matrizes fora do Mercosul, que decidem em que grau e em que porcentagem querem os mercados da Bolívia, do Paraguai, onde operar mais eficientemente. O Mercosul não tem um caráter latino-americano. Geograficamente é latino-americano. Mas os agentes principais, movendo capitais e definindo a distribuição ou a divisão de trabalho nesses países, são determinados pelas empresas estrangeiras.
PUCviva – Então o Mercosul não teria poder de barganha, de se impor diante de outros mercados, como o dos EUA? O bloco seria uma fantasia ou se trata de um passo positivo?
Petras – Eu não creio que tenha uma autonomia em relação à Europa, por exemplo. O que gera uma alternativa? É quando os agentes econômicos têm um caráter dos países da região. Quando se diz que o Brasil está aumentando a sua exportação para a Argentina. Mas quem é o Brasil? O que significa constatar que a General Motors do Brasil está captando uma porcentagem maior do mercado que a Volkswagen do Brasil, do que a Ford da Argentina? Então, que sentido tem em dizer que esse bloco é um aprofundamento da atividade econômica latino-americana? É uma extensão e ampliação das atividades comerciais, produtivas, financeiras, dos atores. Daqueles que definem o bloco. Não são os territórios, tampouco as nacionalidades dos líderes desse bloco econômico, mas a contribuição nacional e social das principais instituições que estão operando nesses terrenos, que não são da região. Enquanto a desnacionalização se aprofunda, aparece um caráter bastante diferente do que dizem os acordos formais. É preciso ir além desses acordos formais entre a Argentina, o Brasil etc.
PUCviva – Quais seriam os desenhos possíveis para uma alternativa viável e realista para o Brasil?
Petras – Eu acredito que há uma enorme capacidade não-utilizada no Brasil. Tanto de recursos hidráulicos como de mão-de-obra, de produção, de mercado.As dimensões do mercado, a integração da produção é muito subdesenvolvida. O que temos são enclaves de desenvolvimento vinculados, integrados com o exterior. Então, a primeira coisa é reorganizar o sistema de produção.
A segunda coisa é capturar o excedente gerado aqui. São 20 bilhões de dólares exportados em simples remessas de multinacionais. E tem as remessas de juros. É preciso reorganizar o excedente gerado aqui, reorganizar a produção para o aprofundamento do mercado interno. Isto é fácil ouvir de social-democratas, liberais. Todos falam em algumas modificações. Mas isto não é tão simples. As instituições que controlam a produção e geram as remessas não estão dispostas a reorganizar a produção. Isso significa que é preciso se adotar uma política de choque. Quer dizer, é preciso intervir a partir de um Estado popular, nacional, intervir nos setores estratégicos, ressocializando os pontos altos e significativos da economia.
O primeiro choque é atuar sobre esses pontos. Segundo, é reorientar o Estado. Um Estado grotesco que temos visto, pouco ágil, superpovoado. Com uma nova política há que se fazer uma reforma profunda do Estado. Eu coincido em algumas críticas com o liberalismo, de como está organizado o Estado, mas discordo com a forma da reforma desse Estado. Creio que é preciso dar mais fontes de financiamento para as instituições estatais de nível local. Operar a descentralização com a reforma do Estado para delegar mais responsabilidades ao poder local. Isso significa diminuir o poder administrativo direto do Estado e conceder responsabilidade a conselhos eleitos.
É preciso ter uma reestruturação do mercado de trabalho, ter um programa de capacitação da mão-de-obra para o trabalho produtivo na indústria e agricultura, na educação, saúde etc.
Tudo isso implica alguns choques. Se não socializarmos a economia, a estrutura estatal vai distorcer e engolir as mudanças, e vai voltar a ineficiência.
Acredito que devemos mudar o sistema de representação. Sou a favor de representações por atividade econômica. Que os trabalhadores, camponeses e os profissionais liberais tenham representação. E creio que se deve incluir setores específicos da sociedade como negros, mulheres, ecologistas e consumidores.
Isso é importante porque no passado tivemos muita legislação e planificação que distorceram realidades. Esse sistema tem de ser pluralista, representativo, democrático. Mas um pluralismo que exclui setores que atuam contra as novas normas. Tem de ser um pluralismo amplo, profundo, mas que respeite os interesses do povo e da nação.
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