O remédio existe e é amargo

APROPUC-SP

Paulo Henrique Sandroni

Começaria dizendo que vivemos, nos últimos anos, muitas transformações que infelizmente não podem ser ignoradas, pois afetam nossa vida cotidiana e influíram muito na situação atual da PUC.
Creio que uma das transformações mais importantes ocorreu a partir dos anos 70 deste século. Trata-se do aumento da incerteza na área econômica e financeira, e mesmo na administrativa.
Talvez nos anos 50, ou 60, nossa segurança sobre o futuro da economia nacional e mundial era muito maior do que hoje. O mundo era um lugar menos imprevisível. A crise financeira e econômica dos anos 70, que afetou todas as economias mais desenvolvidas, deixou uma marca profunda nas organizações e nas pessoas: a busca da segurança, um elemento central para o desenvolvimento econômico e o crescimento das organizações.
Essa insegurança no plano econômico e financeiro que inevitavelmente exerceu enorme influência sobre as práticas administrativas teve, no entanto, uma espécie de compensação por um aumento da segurança no plano militar e político, especialmente a partir dos anos 80. Aquele perigo da guerra nuclear que – e os que estão neste auditório lembram-se da crise dos mísseis em Cuba em 62 sabem do que estou falando, quando se chegou ao limiar da III Guerra Mundial – foi praticamente afastado. Isto é, a insegurança na época era muito mais político-militar do que sobre nossos destinos econômicos e financeiros. Agora a situação se inverteu. Essa insegurança sobre o futuro do mundo é bem diferente do que acontecia a uns 30, 40 anos atrás.
Além disso, outras transformações importantes ocorreram mais ou menos simultaneamente. Por exemplo, a verdadeira revolução operada no campo das comunicações e tecnologias da informação passaram a “unir” o mundo de forma muito mais “íntima”. É uma das características da globalização: a integração mundial – ninguém pode se dar ao luxo de ficar de fora, através destes meios modernos de comunicação. Muitos crêem que a globalização é um fenômeno que já existia há muito tempo e hoje não existem tantas diferenças assim. Eu discordo bastante disso, em função não apenas da revolução nas comunicações, mas também da integração dos mercados financeiros e do barateamento dos transportes, especialmente o aéreo.
Houve uma revolução aí, uma revolução quase silenciosa que, quando chegou, todo mundo se adaptou e pensamos que ela sempre foi assim – e não é bem esse o caso. E, dentro dessa revolução dos transportes, das comunicações e dos mercados financeiros nos encontramos como se fosse um torvelinho, sofrendo – para o bem ou para o mal – de todas as suas conseqüências.
Recentemente, um empresário paulista estava em sua casa falando ao telefone celular com sua mulher, em Miami. Entram quatro assaltantes, ele deixa o telefone celular ligado. A mulher escuta o assalto, telefona para uma vizinha. A vizinha avisa a polícia e, como tratava-se de uma região de pessoas ricas, a polícia prende os assaltantes em 15 minutos. Quer dizer, os assaltantes eram assaltantes meio atrasados. Eles não estavam muito conscientes desse processo de transformação tecnológica...
Essa mudança é uma mudança fantástica! Outro dia, tive a oportunidade de receber representantes de uma universidade da Turquia. E o que eles vieram fazer no Brasil? Eles queriam criar, aqui, uma unidade avançada de sua universidade. Para quê? Para aprender português. Por quê? Os gerentes das multinacionais da Turquia, que agora estavam operando num plano global, tinham que aprender português porque o Brasil estava recebendo muitos investimentos internacionais. E, vejam, eu jamais pensei que o português pudesse se tornar uma língua de interesse multinacional. São casos pitorescos, só para ilustrar a abrangência do fenômeno da globalização.
O outro fator que influi também consideravelmente nestas transformações e que, em parte, foi causado pelas anteriormente mencionadas, foram as mudanças operadas no até então denominado bloco socialista. Com a dissolução da URSS e a crescente integração da China nos mercados internacionais, mais de um terço da população mundial que antes estava separada econômica e financeiramente do resto do mundo iniciou um processo crescente de integração. Agora, trata-se de um mercado único onde se reúnem potencialmente cerca de 6 bilhões de pessoas! Mesmo que muitas estejam nestas condições a contragosto...
Depois destas transformações no antigo bloco socialista, muitos governos consideraramse liberados, ou pelo menos mais tranqüilos, para adotar políticas mais voltadas para o mercado e menos para o atendimento das necessidades sociais, uma vez que o pólo que representava essa alternativa se dissolveu. Falando aqui uma linguagem bem clara, os governos dos países capitalistas mais avançados não tinham porquê continuar mantendo uma política de seguridade social tão avançada, pois o faziam em função da alternativa ainda representada pelos países socialistas. Estes tinham regimes políticos fechados e economias frágeis, mas davam seguridade social aos seus habitantes.
Então, como contraposição, os países capitalistas avançados precisavam criar também um mecanismo correspondente, como de fato o fizeram, mas à custa de uma pressão sobre as finanças públicas que ameaçava seu próprio desenvolvimento econômico. Como esse ponto de referência acabou, os governos dos países capitalistas puderam implementar políticas de menor intervenção estatal, cujo objetivo era extrair todas as possíveis vantagens de uma economia de mercado.

Projeto puquiano atropelado
Claro que todas estas transformações nos afetaram. O projeto que poderíamos dizer, o projeto puquiano, foi duramente golpeado porque ele se encontrava – e em certa medida ainda se encontra – no centro desta nervura. Ele é atropelado por todos esses fatos e todas essas conseqüências. No meio disso tudo é preciso ressaltar tam
bém que nos últimos anos, pelo menos nos últimos 20 anos, a maioria dos serviços básicos, mais especificamente os serviços de saúde, de educação e de transporte urbano, teve um aumento em seus custos de produção. Ou melhor, a produtividade, na produção destes serviços, não foi suficientemente grande para contrapesar o aumento de seus custos. E a PUC brinda pelo menos dois destes serviços.
Vejamos o caso da saúde. Cada unidade de produção de saúde, hoje, custa muito mais caro do que custava no passado. Por quê? Houve, no mundo, acompanhando todas essas tendências que mencionei, uma coisa que se poderia chamar de “esperanto tecnológico”. Não é possível, hoje, ficar à margem dessa evolução tecnológica. Hoje, qualquer consulta médica resulta numa bateria de exames, muitos dos quais feitos por equipamentos muito caros – o que muitas vezes está fora do alcance da média dos pacientes. Não é por outra razão que os planos de saúde não apenas tornaram-se indispensáveis como também vêm reajustando seus preços de forma avassaladora.
No caso da educação, hoje, cada unidade de ensino exige equipamentos e programas no campo da informática, de tal forma a brindar um computador pa-ra cada aluno e todos eles inte-grados em sistemas de comuni-cação e de telecomunicações, em nível global. Nenhuma unidade de ensino médio ou superior pode se furtar a isso. Você precisa se in-tegrar com o resto do mundo nes-se plano e isso significa custos. As universidades precisam, e as escolas precisam, ter salas bem aparelhadas para conseguir produzir essas unidades de ensino – não como essas unidades que nós temos aqui, aqui nesse prédio (Prédio Novo da PUC-SP). Eu cheguei, na minha juventude – isso a muitas luas atrás, como vocês podem imaginar – a jogar futebol neste terreno aqui, onde hoje é o Prédio Novo. Quando o chamado Prédio Novo – que eu considero mais velho do que o Prédio Velho – foi construído, ele representou uma revolução: tínhamos um equipamento, naquele momento, moderno, muitas salas e tal e coisa, novinho em folha. Hoje, isto aqui é uma velharia. Isto aqui não é mais compatível com o nível de avanço tecnológico indispensável para que continuemos a ser uma unidade de ensino de excelência. Ou nós solucionamos isso, e rapidamente, ou então ficaremos à margem de todo esse processo.
Vejam as salas de aula, como elas são aqui. São lamentáveis, elas já estão superadas. E é preciso mudar isso rapidamente, senão ficaremos atrasados. É impossível, quase, dar aula aqui, nesses corredores barulhentos. Calor infernal, esse ar poluído. É muito ruim isso! E, olha, isso já vem há muitos anos, assim, dessa maneira. E só para citar um exemplo.
Mas voltemos aos custos que estão aumentando. Como é que nós vamos fazer frente a todos esses desafios? Não podemos ficar de fora e, para ficar por dentro, precisamos nos renovar, mudar. E há aqui, então, uma contradição entre concepções que criamos internamente na PUC: ter capacidade para superar crises é um ponto forte da sua cultura, como o Alípio Casali mencionou, mas ela também tem um ponto fraco, pois proporciona o caminho para um sentimento de tranqüilizadora onipotência. Dizem assim: “Não, a PUC tá numa crise braba, mas ela já saiu de outras crises no passado e vai sair desta também.” É uma espécie, assim, de extrapolação ao absoluto desta capacidade de superar problemas. Acho que isso é uma coisa muito perigosa e muito negativa, porque nós sabemos de outras organizações que tiveram problemas e que no final acabaram fenecendo.
Vejam a Escola de Sociologia e Política. A Escola de Sociologia e Política já foi uma das maiores unidades de excelência de ensino do Brasil. Vejam o que ela é hoje. Então, nós podemos estar correndo o mesmo risco aqui na PUC, se essa mentalidade continuar. Pode chegar um momento em que, embora não tenhamos superado a crise, achemos que isso já aconteceu. Entra-se então num processo de lenta agonia até o seu desfecho lamentável, e eu não gostaria de participar dessa agonia, desse desfecho. Então, precisamos mudar agora. A PUC já teve várias oportunidades de fazer as mudanças necessárias e não as aproveitou. Eu não estou querendo, com esta colocação, colocar a culpa em x, y ou z, eu sei que as condições são muito complexas e difíceis, e a responsabilidade é de todos nós.
Estou fazendo uma reflexão global. Talvez não tenhamos aproveitado as oportunidades por acharmos que a crise já houvesse sido superada. É como se disséssemos, “é mais uma que nós ultrapassamos e agora vamos seguir adiante”. Sentamos em cima de um êxito relativo, quer dizer, saímos de uma dificuldade profunda e não soubemos aproveitar esse novo espaço, esse tempo que tivemos aí para melhorar a nossa situação. Então, diante disso, é inevitável que, hoje, sem abandonar aquela visão social que a PUC tem, aquela visão democrática, libertária que a PUC tem, sem abandoná-la, repito – e jamais abandonando – que isso é um elemento que lhe dá força e nutre todos nós, é que nós olhemos para este outro lado – que é inevitável –, que é o lado relacionado com o quê? Com a realidade dos números, dos custos e sua relação com a excelência de serviços.
Nós não podemos apelar mais para o Estado e nós estamos vendo como o Estado está cada vez menos interessado em nós, tirando o seu corpo e nos deixando muitas vezes na mão, mesmo na questão das bolsas de estudo. E essa tendência aumenta, porque o Estado também está quebrado. E ele rompe nos elos mais fracos e a PUC é um dos elos mais fracos nessa cadeia. Então, é preciso que encontremos meios a partir de nossos próprios esforços, e sem abandonar a visão social, libertária e democrática, para superar esta crise definitivamente.

Excelência acadêmica em risco
Não é possível que nós olhemos para o lado acadêmico, se nossos professores não sabem se vão receber o seu salário ou não. Aqui, não venham com a história de que um professor que faz pesquisa é um pesquisador que enfrenta qualquer dificuldade, por mais duras que sejam suas condições de trabalho, e vai estar sempre pesquisando. Eu não acredito nisso. Eu acredito que é preciso condições mínimas para que uma pessoa possa render bem academicamente e, se ela não tiver o mínimo, não só a sua remuneração, mas também as condições de trabalho, a excelência acadêmica se deteriorará. A PUC, em vez de chegar à superação e progredir ela pode, como outras organizações, fenecer.
Então, isto é urgente. E se isso representar medidas amargas a serem tomadas – porque não tem medida agradável –, pois a saída de uma crise é sempre uma coisa amarga, você tem que renunciar a certas coisas para conseguir outras, são trocas que estão aí, diante de nossos olhos. Quer dizer, sem fazer isso, vamos continuar com a mesma história: vamos continuar dando uma saída provisória e depois ir empurrando um pouco mais, como se tudo tivesse sido solucionado. A PUC se deixou atrasar nesses movimentos. Aquelas escolas, ou mesmo universidades, que o Alípio mencionou aqui e que a gente muitas vezes se refere com menosprezo, estão nos tirando os melhores alunos! Porque oferecem as melhores condições, e a um preço competitivo! Ora, isso não vai influir no nosso futuro? Claro que vai! E daqui a pouco vão começar a tirar também os nossos professores. E já estão tirando.
Então, é preciso medidas urgentes. E vai doer. Vai doer porque nós nos atrasamos, passamos muito tempo sentados em cima de vitórias que na verdade nem eram vitórias. É preciso, então, fazer uma operação rápida, uma operação que pode significar um traumatismo em muitas pessoas que talvez tenham uma visão da PUC de muitas décadas atrás, para que ela possa dar esse salto. Creio que as pessoas aprendem ou pela repetição, ou pelo trauma, ou pelas duas simultaneamente. E talvez este seja nosso caso.
Não podemos mais apelar para o Estado. Esse apelo é cada vez mais infrutífero e estamos cada vez mais sendo abandonados pelas funções sociais que cumprimos, que devemos obter com o respaldo estatal, mas isso, essa alternativa, deve ser cada vez mais abandonada. Nós devemos nos aproximar, sim, e rapidamente, do setor privado. Quando eu falo do setor privado, aqui, eu não quero dizer apenas as empresas privadas mas também as organizações sem fins lucrativos, as instituições públicas não estatais, nacionais ou estrangeiras. Uma integração maior com a comunidade passa também por uma integração maior com as empresas, que muitas vezes têm uma postura ética até melhor do que eu tenho visto em muitas unidades aí, que se dizem simplesmente representantes dos interesses dos mais pobres.
Então é preciso partir para uma política mais agressiva para superar essa crise.Madalena: Quando avalio essa solução traumática, fico preocupada, porque hoje não tem mais o que amargar, do ponto de vista acadêmico. Nós chegamos ao limite. Amargar, do ponto de vista acadêmico, é contrariar o que todos aqui na mesa quiseram dizer: mantendo o caráter da PUC. Então, o que é esse amargor?
Sandroni: Eu já te digo. Se você me permite, eu acho que tem muita coisa para mudar e nós não chegamos no ponto limite. Nós estamos diante de uma crise e, se sentarmos numa mesa de negociações e dissermos: “Olha, nós não temos mais nada para oferecer”, então, evidentemente, não dá pra fazer nenhuma negociação.
Vou dar um exemplo concreto no sentido exatamente oposto: alguns meses atrás, o Departamento de Economia se reuniu e havia ali uma tendência muito forte a propor – como de fato ocorreu – um doutoramento em Economia (a Economia não tem doutoramento, só mestrado). Nós temos um corpo de professores capaz e suficiente para alcançar este objetivo. Quando a proposta chegou ao Departamento para a devida autorização eu me manifestei contra, mesmo querendo que ali se criasse um lugar de excelência, onde pudéssemos lançar o nome da PUC tendo um doutoramento em Economia. E por que fui contra? Olha, a presente crise não havia nem sido anunciada, mas eu fui contra porque sabia que, se nós montássemos um curso de doutoramento aqui, ele seria altamente deficitário. E por que deficitário? Porque há uma demanda enorme. Por acordo coletivo, nós temos direito a que os professores assistam cursos, se matriculem sem pagar – é um subsídio. Daí fui contra.
Isso é renunciar e nós precisamos fazer isso, tanto é que a minha posição foi derrotada.
Então, é isso que nós temos que fazer: rever o todo, e não ficar só defendendo o nosso pedaço. É muito confortável dizer: “Vamos fazer o regulamento desse doutoramento, pois já temos condições e tal”, sem assumir as conseqüências.

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