Gerar consensos na comunidade
Eu agradeço à Apropuc pelo convite para participar deste evento. É redundante dizer da sua oportunidade, pelo fato de que ele tem sido oportuno há 30 anos na PUC-SP. Por isso, este já se torna o mote inicial desta reflexão: nós estamos diante de uma questão que não tem uma justificativa apenas conjuntural, mas que é constitutiva da maior parte da história desta universidade que fará 53 anos. Por essa mesma razão, não se deve esperar nenhuma iluminação especial desta mesa, por mais competente que seja ou pudesse ser sua composição. Não obstante, há obviamente um ponto de intersecção, entre o compreender adequadamente o que se passa com a PUC-SP e o ter a possibilidade de se agir na direção adequada. Falo de soluções lentas, de médio e longo prazos. E falo como educador, pesquisador, mas também como quem tem a experiência de administrador, e tem o olhar há três décadas voltado para a Universidade brasileira. Eu olho para a PUC-SP, comparo, e reconheço aqui a institucionalização de uma vida universitária que corresponde a muito daquilo que se pode esperar de uma universidade no Brasil. Por tudo isso, minha análise e minhas reflexões vão ser muito mais sobre uma política administrativa do que especificamente uma análise econômico-financeira sobre esta crise conjuntural.
A preliminar dessa análise há de ser a reiteração de um princípio fundamental: qualquer projeto administrativo deve se colocar em articulação com o projeto acadêmico, tendo em consideração a finalidade do ser Universidade. Pode parecer desnecessária, por repetitiva, a explicitação desse princípio. Acontece que hoje ela se torna ainda mais indispensável, à vista do que se passa na política administrativa das organizações em geral e do efeito mimético que isso gera sobre as instituições de educação e cultura. Estou referindo-me ao fato de que a grave crise que desaba hoje sobre as organizações, faz com que o êxito de sua mera sobrevivência já pareça um feito heróico supremo. O herói moderno, nesta década de recessão, de hipercompetitividade e falência do interesse público, tem sido o executivo gestor que consegue, no meio da tempestade, sustentar um projeto de organização empresarial, qualquer que ele seja. O sinal de inteligência máxima, hoje, é a inteligência gestora.
A PUC-SP deve colocar-se num fluxo transversal a essa política administrativa dominante. Nem alinhamento, nem contra-fluxo. Porque não se pode decretar um isolamento do mundo, colocar-se fora das leis do mercado, nem tampouco se deve seguir o manual de sobrevivência que a presente crise do mercado redigiu. Nessa transversalidade situa-se a tensão entre o administrativo e o acadêmico. É um certo modo de sustentar essa tensão que constitui a cultura institucional específica da PUC-SP.
Volta-se com isso para aquela discussão entre o público, o privado, e o estatal? Sim, inevitavelmente. Não precisamos repetir aqui os termos dessa questão, mas é claro que estou defendendo como caminho de médio/longo prazo algo próximo àquilo que tem sido chamado de modelo "comunitário" para a universidade e seu sentido público.
Mas deve-se expurgar desse conceito suas conotações assistencialistas e paroquiais. Tal modelo acaba de receber um duro golpe com a possibilidade de perda do benefício fiscal da filantropia. A se confirmar essa perda, penso que o atual modelo "comunitário" escorrerá pelo ralo, e à PUC-SP restará o desafio de redefinir-se institucionalmente. Ainda nessa hipótese eu não sustentaria por enquanto qualquer tentativa de sua conversão em instituição formalmente "pública". Por não ver ainda futuro nas "públicas" e por ainda ver possibilidades de realização de interesses públicos dentro de um modelo "privado". E esse modelo "privado", por mais economicamente instável que pareça ser na atual conjuntura, parece-me conter ainda muitas possibilidades de sustentação.
Não devemos ter como exemplo essas instituições universitárias privadas que estão por aí: grandes empresas, exuberantes, capitalizadas, expandindo seus câmpus e equipamentos. Sabemos do custo de qualidade acadêmica que permite esse êxito econômico. Alguns ajustes internos nos itens e procedimentos de despesas da PUC-SP poderão e deverão ser feitos, com certeza. Mas, no que se refere às receitas, deveremos, sim, inevitavelmente, provocar uma redefinição do perfil social de nossa demanda, porque será inevitável cobrar o preço justo da qualidade que se oferece.
Quanto a receitas complementares, penso que as Universidades Comunitárias, em conjunto, poderiam iniciar uma campanha publicitária de massa, para mudar, por pouco que seja, a cultura de doações individuais, principalmente de ex-alunos. Já existem mecanismos de estimulação fiscal razoáveis para isso. Acho que se deve profissionalizar o gerenciamento dessas iniciativas. Eu não esperaria efeitos a curto prazo de tal iniciativa, mas ela deve ser feita desde já. Também algumas parcerias discretas com a iniciativa privada poderiam ser abertas. Digo "discretas" não no sentido de fazê-las às escondidas, mas de concretizar isso apenas dentro de certa margem compatível com o caráter e os valores da universidade. No mais, nada de mágica ou de soluções surpreendentes. Requer-se competência e determinação.
Isso significa ao mesmo tempo que nós temos que seguir desenvolvendo nossa cultura específica institucional. Cultura essa que seja irredutível à cultura de qualquer outra organização, seja de natureza econômica, seja de natureza política ou cultural no que essas possam ter de contrário ao interesse público.
A principal dificuldade que vejo é a de gerar os consensos internos necessários para um projeto de sustentabilidade da PUC-SP. Este é um ponto realmente crítico. Por um lado, a sobrevivência e o desenvolvimento da instituição estão acima de tudo e devem se sobrepor a tudo. Por outro lado, porém, requer-se uma paciência máxima para a negociação dos consensos. À direção superior da universidade cabe a responsabilidade por uma função pedagógica nesses processos. Às chefias, colegiados e entidades representativas de professores, alunos e funcionários, cabe a responsabilidade de converter em políticas unitárias os seus interesses corporativos.
Aquela certa "informalidade", também, que já é parte da cultura puquiana, não pode ser perdida. Hoje esse é um mecanismo de sobrevivência e de desenvolvimento criativo da maior importância no interior das organizações, mesmo as mais complexas e de interesses mais deslavadamente econômicos. Nunca achei que informalidades sejam incompatíveis com profissionalismo. Esse clima de informal familiaridade tem sustentado, a meu ver, o melhor da cultura interna da PUC-SP, que sustenta a forte adesão institucional (sentimento de pertença) dos professores, alunos, funcionários. É parte daquele caráter que chamei de "comunitário". Ele vem à tona esporadicamente, em manifestações explícitas surpreendentes, da maior importância, como a recente mobilização dos alunos em torno do problema da filantropia.
Entretanto, paradoxalmente, esta mesma cultura "comunitária" que dá sustentação é a mesma que pode inviabilizar, a longo prazo, a instituição. Porque essa cultura "puquiana" cumpre uma função simultaneamente agregadora e desagregadora. A esse respeito, eu estou bastante cético, por um lado, e bastante confiante, por outro. Bastante cético, na medida em que passa ano após ano e em certos aspectos não saimos do lugar, apenas oscilamos ou giramos em torno do mesmo. Mas ao mesmo tempo eu acredito que haja um fenômeno que se pode chamar de aprendizagem institucional. A instituição aprende. Eu reconheço, nesse sobe-e-desce, nesse vaivém da PUC-SP, um grande vetor; uma linha de desenvolvimento. Eu só espero que ela cresça mais que a curva do endividamento. Mais do que espero: estou convencido de que esse vetor seja possível e de que devemos, portanto, trabalhar por ele.
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