Busca da liderança educacional
Fabio Garcia Gallo
É uma honra estar num debate como esse, com a participação dos professores Paulo Resende, Alipio Casali e meu amigo Paulo Sandroni.
Fico muito satisfeito com o que ouvi até aqui; a minha intenção era justamente obter esse apren-dizado, que é muito importante para mim, principalmente porque estou chegando à vice-reitoria administrativa. Debates como este são importantes porque não só le-vantam os problemas, como apre-sentam as soluções e nos colocam de frente para o momento que é vivido pela nossa universidade. Isso melhora nossa perspectiva sobre o assunto e nos conduz à compreensão do problema que vivemos.
No plano internacional, vive-mos um momento novo, muitos evitam falar sobre o assunto ou caracterizam-no de maneira este-reotipada. Nós ainda estamos apreendendo sobre esse momen-to da vida mundial, a era da glo-balização, que o professor San-droni chamou de “esperanto tecnológico” e que denomino da era da “informação tecnológica”. É um momento crescente, em que a difusão da informação é imediata, onde o avanço tecnoló-gico traz redução de custos em alguns setores. Entretanto, ao contrário do que possa parecer, também traz aumento de custos evidentes em outros segmentos. Infelizmente, quando falamos das áreas da Saúde e da Educação, prevalece o aumento de custos. E isso nos atinge, pois essas são atividades que a PUC exerce e, no momento, esse processo está gerando aumento de custos para nossa estrutura de gastos e pre-judica o equilíbrio econômico-financeiro.
No Brasil, a participação do Estado está falida. Não temos mais como recorrer ao Estado, pois ele está virando as costas até naquilo em que podia nos ajudar. A questão da filantropia é uma amostra clara disso.
A PUC passa por um momento de urgência e lida com uma questão clara que é o pagamento de salários – 13.º, pagamento de 1/3 de férias. Isso nos deixa numa si-tuação constrangedora e difícil, principalmente quando se fazem comparações com outras univer-sidades. Elas estão numa compe-tição desenfreada por alunos. Uma delas gastou milhões numa campanha recente de divulgação em televisão e outdoors para captar novos alunos. Se não me engano, o objetivo era conseguir 26 mil alunos novos. O resulta-do ficou entre 12 e 15 mil novos inscritos.
Eu costumo dizer que estamos dentro de um avião pesado, que já está voando e tem problemas na asa, no motor, na parte elé-trica. E, o que é pior, temos que reformá-lo em pleno vôo, sem po-der pousar e botar a aeronave no hangar e fazer todos os reparos que a gente necessitaria. Temos que continuar vivendo, sonhando e debatendo nossos caminhos.
Não se discute a questão admi-nistrativa sem colocá-la no campo político, particularmente numa universidade como a nossa, comunitária, e que tem toda uma história de luta. Portanto, não há como pensar, nesse nosso ambi-ente democrático, em isolar o campo político da discussão administrativa.
Não é minha intenção dar res-postas a tudo o que já foi levan-tado ou questiona-do aqui no debate, mesmo porque algumas respostas nasceram natural-mente. Por essa razão, fiquei muito satisfeito com vá-rias coisas que fo-ram ditas hoje, principalmente quanto ao entendi-mento de todos de que a atividade acadêmica é nossa atividade-fim, é a essência da nossa universidade.
E, nesse ponto, gostaria até de re-produzir o que falei na minha pos-se: a área administrativo-finan-ceira de uma instituição, qualquer que seja o seu tipo ou objetivos, é essencial do ponto de vista estru-tural, como qualquer parte do corpo humano é essencial para o todo. No entanto, sem demérito algum, a área administrativa não é e nem pode ser atividade-fim. Ela é na verdade suporte para a atividade-fim. Trata-se de uma área imprescindível para a con-cepção dos objetivos da institui-ção. Não existe organização algu-ma que sobreviva sem uma es-trutura administrativa adequada, mas essa atividade organizacional é suporte para a atividade-fim, que, no caso da PUC, é a área acadêmica.
De qualquer maneira, a des-peito de levantar a questão polí-tica, a despeito do entendimento de que é atividade-meio, nós pre-cisamos resolver a questão eco-nômico-financeira para que pos-samos nos voltar à nossa ativi-dade-fim. Porque percebemos que, no momento em que come-çamos a deixar de lado certas dis-cussões importantíssimas do ponto de vista acadêmico, não conseguimos resolver questões básicas.
Como a gente consegue, sem receber salários, sobreviver? Co-mo o nosso pro-fessor consegue pensar em sua aula de forma adequada, fazer pesquisa, dedi-car-se ao que ele tem que fazer academicamente, se nós não con-seguirmos se-quer cumprir compromissos básicos com ele, como o paga-mento de salá-rios? Mas onde aparece a dimen-são política dessa discussão? Por-que, graças a Deus, a PUC tem todo um caldo cultural, uma massa pensante, muito impor-tante. Refiro-me àquele núcleo citado pelo professor Alipio. Con-cordo que esse núcleo é presente ao longo de toda a vida de nossa universidade e hoje está em plena atividade, em pleno desenvolvi-mento e preocupado com a nossa universidade.
As soluções existem
Gostaria de me referir a outra questão que tem a ver com essa discussão, que é a relação entre o público e o privado. Acho que te-mos que reafirmar a nossa cultura específica. Na verdade, devemos observar que não somos uma en-tidade pública e, ao mesmo tem-po, não somos nitidamente uma entidade privada. Temos que ra-ciocinar desta forma e buscar soluções com essa identidade. Temos de reafirmá-la e sabendo que, dentro do contexto em que vivemos, possamos buscar so-luções. Daí não basta realmente uma solução administrativa. Te-mos que buscar soluções polí-ticas e conjuntamente soluções administrativas.
Fico preocupado quando o professor Paulo Resende cita um dos nossos mitos: que nós na verdade não somos comunidade. Acredito que nós temos que fir-mar nossa identidade enquanto comunidade, já que temos o caldo cultural citado anteriormente e uma cultura específica. Reafir-mamos essa identidade de forma clara e daí buscarmos esse espí-rito de comunidade é essencial, porque não vai haver solução sem isso.
Este quadro mostrado hoje nos indica, nos dirige, nos favorece na busca de soluções. Temos que buscar um projeto coletivo. Con-cordo com o professor Alipio quando ele afirma que existe em nosso ambiente uma certa dico-tomia, ou seja, existe claramente um aspecto de riqueza e de risco. Essa massa pensante é um aspecto importante de riqueza da nossa universidade e deve ser alimentado. Mas ela também mos-tra um risco claro. Se os interes-ses não forem buscados em comum, se esse interesse não for procurado ser único e algumas pessoas, dentro disso, colocarem interesses particulares acima do coletivo, o projeto coletivo não vai existir e nossa solução vai ser bem mais difícil.
Faço minhas as palavras do professor Alipio: não pode existir o posicionamento de que a Rei-toria tem de resolver todos os problemas. Nós, que participa-mos da administração da univer-sidade, algumas vezes ouvimos, e acredito que outros aqui pre-sentes tenham ouvido, frases do tipo: “Mas vocês foram eleitos para esse cargo, então vocês têm que dar soluções”. É difícil ouvir frases desse tipo, porque nós bus-camos soluções conjuntas. Esta-mos administrando algo que bus-ca a solução para o bem de todos. E temos muitas soluções, mas que dependem da participação e cola-boração de todos.
Sobre os custos da universi-dade também tenho a noção de que esse problema emergencial que vivemos é pequeno. É algo que, para quem teve a experiência de outras organizações, não é tão grave. Ele se torna grave quando o campo político não colabora, quando as estruturas não cola-boram para a sua solução. Porque as soluções são difíceis, são amargas, como disse o professor Sandroni, mas elas existem.
Gostaria de citar algumas so-luções que nós estamos buscan-do, e para praticar a minha própria proposição desde o primeiro dia como vice-reitor, que é a de transparência.
Negociação com bancos – Temos feito uma negociação muito dura com os bancos. Te-nho discutido com algumas pes-soas que nós somos reféns de banco. Não é uma situação nova para ninguém e temos que nego-ciar dentro dessa perspectiva.
Montante da dívida – Há citação de dívida de US$ 8 mi-lhões num momento, US$ 20 mi-lhões num outro. Eu não sei quan-to atingiu na época do professor Alípio, mas hoje está em torno de R$ 100 milhões, o que dá algo em torno de US$ 50, 60 milhões; não há neste momento como compa-rar os números, não sei como esses números que foram citados anteriormente são compostos. A posição atual contém algumas soluções. A nossa dívida ban-cária, hoje, é em torno de US$ 11 milhões. É algo de R$ 20 milhões, o que é uma dívida administrável. O restante são dívidas tributárias e que desde a gestão do professor De Caroli estão sendo administra-das. De forma geral, a nossa dí-vida tributária já está negociada. Isto nos dá uma tranqüilidade. Por isso, falar sobre o volume da dívi-da simplesmente não estabelece qual é o problema, nem permite comparações. Acho que a equa-ção hoje é difícil, mas ela já tem um perfil de solução melhor. Esta-mos com um jacaré a morder os nossos calcanhares, que é uma dívida em torno do montante cita-do, e reafirmo aqui que não há problema nenhum em citar isso. Mesmo porque são números que aparecerão no balanço.
Superar a crise – Quero me referir a uma frase que já ouvi não só aqui na PUC, mas em muitos outros lugares: “Nós sempre a su-peramos (a crise) e nós vamos superá-la mais uma vez”. Eu tenho dificuldade para entender essa fra-se. Sempre superamos nossos problemas, mas corremos o risco de chegar num momento em que as dificuldades não sejam supe-radas. Hoje, o contexto é diferen-te. Achei muito oportuno o pano-rama criado pelo professor Paulo Resende. Hoje, estamos num ambiente diferente, de concor-rência mais agressiva. Graças a Deus, o nosso vestibular tem cres-cido – o ano passado foi em torno de 22, 23 mil candidatos inscritos. Para este ano estamos projetando algo em torno de 27 mil. É um número ainda especulativo. Na minha área, que é a de adminis-tração e finanças, temos faculda-des que oferecem ao aluno, logo de início, um notebook e todos os livros. Os alunos estão pagando por isso, mas essas faculdades estão crescendo. Começaram ofe-recendo aulas em algumas poucas salas alugadas e hoje já possuem prédios inteiros. Nós temos que enfrentar essa concorrência.
Medidas amargas – Nenhu-ma Reitoria, nem esta, faz as coisas sozinha. Nós fazemos as coisas dentro da solução de co-munidade. Portanto, podemos concluir que somos responsá-veis. Todos nós levamos a PUC para essa situação. O caminho da PUC hoje foi um caminho escolhido por todos e não há nenhuma carga de crítica no que eu estou falando. Ao contrário. Acho até algo positivo enquanto comunidade. Medidas amargas terão que ser tomadas. A nossa comunidade vai ter que decidir por isso. Senão, a frase “Nós sempre superamos” talvez se torne “a gente poderia ter supe-rado”. Não quero ouvir essa frase.
Medidas em andamento
Gostaria de apresentar algu-mas soluções de curto prazo em que estamos trabalhando e, ao mesmo tempo, algumas soluções de longo prazo. Alguns problemas já citados e outros sobre os quais discorrerei a seguir se entrelaçam e apresentam características emergenciais e, pela sua comple-xidade, também de longo prazo.
üO problema do Prédio Novo não tem solução definitiva imediata. A solução virá a longo prazo. No entanto, algumas melhorias têm de ser feitas no curto prazo. Co-mo podemos lecionar nesse am-biente em que estamos lecionan-do? Para que possamos realizar investimento em infra-estrutura temos que buscar, no longo pra-zo, o desenvolvimento sustentado. Já temos um desenho arquitetô-nico do Prédio Novo, com o que seria uma sala ideal, um sonho, mas já estamos tentando torná-lo realidade.
üO aproveitamento de algumas oportunidades no passado torna-riam as soluções mais fáceis hoje. As novas oportunidades têm que ser aproveitadas. As parcerias com o setor privado tornam-se uma solução evidente. Podemos citar o Banespa, um parceiro no caso da biblioteca e em outros ca-sos. A Logocenter, empresa de software, está doando sistemas de gestão integrada. Todas as áreas da universidade vão estar interligadas. Nós estamos buscando parceria com empresas de hardware – a própria Logocenter está colabo-rando conosco nessa busca.
ü Elaboramos um relatório, que está sendo discutido no âmbito da Reitoria e por isso ainda não foi divulgado, que traz um plano de trabalho das três vice-reitorias e que será parte integrante do Plano de Gestão já apresentado ante-riormente pela Reitoria.
Existe um plano de trabalho que foi preparado pela minha equipe. O primeiro tópico é buscar o equi-líbrio econômico-financeiro. Pa-ralelamente a isso, está sendo ela-borado por uma equipe de audi-tores um trabalho de divisão da uni-versidade por cen-tros de resultado. O objetivo é bus-carmos ver quais são os resultados obtidos por cada área. Além do pro-cesso orçamen-tário, esse proces-so visa à obten-ção do controle efetivo de custos.
üO aumento de receitas opera-cionais passa pela discussão do de-senvolvimento da universidade. O Consun e os outros três órgãos colegiados superiores discutiram recentemente o que foi chamado, num primeiro mo-mento, “expansão universitária” e que nós procuramos caracterizar, num segundo momento, como “desenvolvimento universitário”. Isso porque não se trata só de dis-cutir a expansão da universidade, na perspectiva de seu cresci-mento, mas sim o seu desenvol-vimento como um todo. Melhorar alguns cursos, corrigir outros, cortar aquilo que, por qualquer motivo, se entende que não é adequado. Enfim, essa é uma solução que está nos Conselhos e cuja discussão é de toda a comunidade.
üEstamos buscando o aumento de receitas não-operacionais: estamos discutindo e vamos re-discutir todos os contratos que a PUC tem com terceiros e que de alguma forma tragam aumento de receita não-operacional.
üQuanto ao equilíbrio financeiro imediato, estamos buscando re-dução e adiamento de gastos: to-dos os gastos estão sendo abso-lutamente controlados. Estamos buscando algumas soluções e uma delas passa por recursos de pes-quisa – Fapesp e outros órgãos de pesquisa. E um exemplo disso é a solução que foi dada no caso da informática: estamos com um projeto aprovado para a instalação de toda a rede da universidade. Somos uma das seis entidades brasileiras que estão participan-do do projeto Internet II.
Nós falamos em globalização, ensinamos globa-lização e não es-tamos globali-zados. Ficamos de fora de algu-mas atividades do mundo acadê-mico justamente por não termos de forma ampla a ligação com Internet e Intranet. A principal missão estabelecida pelo Consun para a Comissão de Informação Tecnológica, criada recentemente, é a preparação de um plano diretor de informática.
üEstamos discutindo o novo modelo organizacional: começa-mos a falar e começamos a discutir a melhoria das condições de infra-estrutura e de trabalho e isto passa pelo sistema de for-mação gerencial que permita inte-gração, transparência e agilidade na tomada de decisão e, princi-palmente, conexão com o mundo acadêmico atual.
üSobre o câmpus Sorocaba, nos-sa posição é muito clara: ele é in-tegrante da universidade e como tal tem que ser auto-sustentável. Nós somos donos de um hospital e este tem de trazer receitas e é nesse aspecto que nós estamos trabalhando.
Nossos representantes em So-rocaba estão discutindo com a Secretaria da Saúde o novo acor-do que existe entre a PUC-SP e o Estado para o atendimento da saú-de da população da região, e além dos acertos sobre o convênio existente.
üExiste um plano muito interes-sante da Divisão de Recursos Hu-manos, com metas de curto e lon-go prazos, que nos traz diversas soluções, inclusive respostas aos questionamentos sobre plano de carreira e bolsas concedidas aos nossos funcionários. Assunto já discutido com a Afapuc e ela tem o mesmo entendimento que a gente: a bolsa concedida ao fun-cionário é uma bolsa de desen-volvimento desse funcionário e da perspectiva de crescimento profissional.
Retornando a um ponto ante-rior da discussão – o atual mo-mento vivido pela PUC –, a si-tuação é de turbulência e é na-tural que neste momento todos procurem buscar os seus inte-resses e, ao mesmo tempo, pro-curem buscar soluções. Esta situação tende a tornar o ambi-ente mais agitado do que deveria ser, quando um momento de turbulência é um momento que exige calma, raciocínio e ponderação.
Finalizando, gostaria de con-clamar toda a comunidade a par-ticipar da discussão na direção de um projeto para o equilíbrio eco-nômico-financeiro da PUC-SP e que busquemos o entendimento e o interesse comum. É preciso deixar de lado qualquer forma de interesse particular, colocar o interesse coletivo acima de qual-quer interesse particular. Gostaria que houvesse entendimento, com franqueza e seriedade, como este em que estamos tratando todas as questões da PUC-SP.
Como eu vejo a PUC para o próximo milênio? Forte, saudável, democrática, como sempre, bem estruturada e continuando sendo esse grande emblema nacional. E nós queremos ser – e tenho certe-za de que seremos – liderança educacional.
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