Entrevista: Qualidade acadêmica é conquista de anos
A revista PUCviva entrevistou a vice-reitora acadêmica da PUC-SP, professora Sueli Marquesi, fechando a primeira
parte da série de debates Os Caminhos da Universidade Brasileira – A Universidade do Novo Milênio – que vêm sendo promovidos pela Associação dos Professores da PUC-SP. A professora Sueli Marquesi destaca a gestão da atual Reitoria na tarefa de superar a crise financeira e o que isso implica no desenvolvimento acadêmico da universidade. A vice-reitora fala como vê as perspectivas da PUC diante das mudanças em curso no ensino do País, a relação com o mercado, as dificuldades na obtenção de verbas públicas e as coisas boas que a nossa universidade conquistou e procura manter.
PUCviva – Como atingir a excelência acadêmica sem interferir no equilíbrio orçamentário da entidade?
Sueli Marquesi – Na minha avaliação, esse é um falso dilema. Não se pode imputar à excelência acadêmica da PUC as razões do seu desequilíbrio econômico-financeiro. É claro que fazer pes-quisa, ensino e extensão com compromisso e qualidade, como nós fazemos, custa dinheiro. Nos-sa excelência acadêmica não caiu do céu, como num passe de mágica. Ela foi conquistada ao longo dos anos, é fruto de decisões, de opções que a PUC fez e continua fazendo. Pagar salários dignos a professores e funcionários, desti-nar recursos orçamentários para a pesquisa, incentivar projetos inovadores no campo do conhe-cimento, entre outras iniciativas que resultam em elevado padrão de qualidade acadêmica, custa caro mesmo. Por outro lado, é óbvio que não é possível desenvolver qualquer atividade, seja ela acadêmica ou administrativa, sem que se tenha o planejamento financeiro. Esse é um princípio básico que vale até para o nosso orçamento doméstico. A experiência que vivenciamos na elaboração do Plano Acadêmico Trienal demonstrou que é perfeitamente possível pensarmos no desenvolvimento acadêmico sem descolarmos do planejamento econômico-finan-ceiro. Os limites orçamentários, uma dificuldade que todas as instituições sérias de ensino e pesquisa enfrentam em nosso País, não podem ser apontados como únicos impedidores da busca pela manutenção ou pela ampliação da excelência acadê-mica. É preciso muito trabalho e criatividade para fazer tudo o que a PUC tem feito até hoje, mesmo com todas as limitações financeiras.
PUCviva – O que faltaria para a PUC superar as condições de trabalho docente atuais (crescente número de alunos por sala, ainda muitos professores no regime de hora-aula, esgotamento dos espa-ços físicos etc.) e avançar na excelência acadêmica em curso?
Sueli Marquesi – As condi-ções não são as ideais, temos mui-to em que avançar, mas não con-cordo que estejamos no caos su-gerido pela pergunta. Os estudos, ainda em curso, realizados pela Vi-ce-Reitoria Acadêmica, demons-tram que os pressupostos da in-dagação estão equivocados. Em relação ao número de alunos por classe, tem havido uma monito-rização classe a classe, para que sejam obedecidas as orientações da Vice-Reitoria Acadêmica. Se analisarmos a nossa relação alu-nos/sala de aula, a PUC está no grupo das universidades brasilei-ras que mantêm os melhores ín-dices. Nosso regime trabalho do-cente é por tempo (parcial/inte-gral). O regime de hora/aula tem sido aplicado a uma minoria e, mesmo assim, localizado em cer-tas unidades. O problema do espa-ço físico, especialmente no câm-pus Monte Alegre, tem sido um dos focos de atenção desta Reito-ria. Com a realização de diversas obras de manutenção e a constru-ção de novos prédios, temos con-tornado com algum sucesso os limites que temos. No entanto, são soluções precárias, que não resol-vem o problema. Essa é uma questão que a Comunidade terá que enfrentar urgentemente. Aliás, nas discussões sobre a expansão da universidade que vêm sendo realizadas pelos conselhos supe-riores, a limitação do espaço físi-co tem sido uma questão central.
PUCviva – A PUC está no ru-mo certo no que diz respeito às mudanças exigidas e/ou propostas/permitidas pela nova LDB? Exemplo: mestrado profissionali-zante.
Sueli Marquesi – Sim. O su-cesso dependerá da continuidade da implementação do Plano Aca-dêmico Trienal, evoluindo para o delineamento de um planejamento estratégico, assim como da criati-vidade e da vontade política de enfrentar as mudanças que a LDB em geral e as Diretrizes Curricu-lares em particular estarão possi-bilitando nas áreas acadêmicas e administrativas. O mestrado pro-fissionalizante é um bom exemplo. Na última sessão do Cepe realiza-da em agosto, depois de um rico e polêmico debate, aprovamos a regulamentação para criação de programas de Mestrado Profis-sionalizante. Conquistamos alguns avanços importantes nas diretrizes propostas, especialmente quanto aos mecanismos de integração entre a pós-graduação e a graduação. O assunto agora será analisado pelo Consun.
PUCviva – Como a sra. defini-ria o modelo de universidade que caracteriza a PUC-SP? Que di-reção esse modelo pode/deve to-mar considerando as transforma-ções atuais do ensino no País (pri-vatização, falta de verba pública, transformações do mercado etc)?
Sueli Marquesi – A PUC é uma universidade comunitária, com vocação pública, que se rea-liza sobretudo em face da sociali-zação do conhecimento que pro-duz e que está projetado na exce-lência do seu ensino, pesquisa e extensão e na busca de atender ao compromisso por uma socie-dade justa e igualitária. Apesar de tais afirmativas estarem expressas no Plano de Gestão da atual Rei-toria, o projeto de universidade que vem sendo desenvolvido na PUC é uma construção coletiva, que agrega diversos grupos e pes-soas ao longo da nossa história. Na Reitoria, estamos atentos às mudanças que estão ocorrendo no ensino superior, não só no Brasil, mas também em outras partes do mundo. Ao mesmo tempo em que lutamos pela nossa sobrevivência, superando os obstáculos impos-tos pelos limites financeiros, temos o olhar no futuro. Vivemos tempos velozes e cada vez mais conectados. Precisamos dar res-postas rápidas ao que acontece ao nosso redor, especialmente aos novos parâmetros estabelecidos pelas forças da sociedade e aos rumos que vêm sendo dados à política governamental para as áreas da educação e da ciência e tecnologia. No entanto, tenho convicção de que temos que fazer isso mantendo as nossas caracte-rísticas. É essencial evoluir em alguns aspectos da cultura interna que emperram nosso desenvolvi-mento e dificultam a interação entre as Unidades, sobretudo, o avanço institucional da PUC. Não podemos ser lentos, morosos nas nossas respostas, sob o risco de não cumprirmos com a respon-sabilidade social que sempre assumimos. Mas temos que ter serenidade. Se perdermos nossa identidade, nossas marcas di-ferenciadoras, também correremos o risco de ser apenas mais uma entre tantas universidades do País. Acredito que nenhuma pessoa que faça parte da nossa comunidade, seja ela aluno, professor ou funcionário, queira esse futuro para a PUC.
PUCviva - O projeto puquiano deve atender o mercado, em primeiro lugar, ou procurar influenciar na definição da demanda do mercado?
Sueli Marquesi – Esse é outro falso dilema. Antes de tudo, a Universidade deve ser um centro de excelência. Aquela que atingir esse patamar deverá ser sempre sujeito do mercado e não seu objeto. A PUC tem sido sujeito à medida que tem servido de parâmetro para a implantação efetiva das necessidades impostas pela LDB no que se refere à tríade en-sino, pesquisa e extensão, base do conhecimento, à titulação e capacitação dos docentes e ao contra-to de trabalho por tempo. Temos reconhecida qualidade acadêmica. Em quase todas as áreas em que atuamos, quaisquer que sejam os parâmetros, oficiais ou não, somos referência no ensino superior brasileiro. Ora, é exatamente por isso que os profissionais que for-mamos têm certa preferência ao ingressar no mercado de trabalho. Seja nas parcerias que temos com o mercado, seja na formação de profissionais críticos, mas capacitados em suas habilidades técnicas, estamos sempre interagindo com o mercado. A PUC não é uma ilha. A estrutura da sociedade brasileira é capitalista, o que pressupõe a relação com o “mercado”. Agora, entender isso como uma capitulação às regras nefastas do “mercado”, que ferirá a per si a autonomia da Universidade na sua produção científica ou na sua liberdade de pensamento e expressão, é descolar-se da realidade e imaginar uma PUC amorfa, passiva e indulgente, características distantes da história que construímos com muita luta e trabalho.
PUCviva – Como a universida-de poderia escapar/contornar as pressões do mercado para obter verba para a pesquisa (pública e privada) a curto prazo?
Sueli Marquesi – A universi-dade que atingir um patamar de excelência terá sempre caminhos abertos para financiamento, o que pode ser comprovado pelas inú-meras parcerias e convênios que têm sido efetivados nos últimos anos. A disputa por recursos, se-jam públicos ou privados, está cada vez mais acirrada. Ainda mais aquela destinada à pesquisa. Temos que ir atrás. Precisamos de agilidade, mas, não tenho dúvidas, o que vai determinar o sucesso será nossa qualidade, nossas mar-cas diferenciadoras. Precisamos apresentá-las aos nossos parceiros. Não adianta ficarmos dizendo para nós mesmos que somos bons, que temos qualidade. Onde houver uma oportunidade legítima e honesta de parceria, temos que ir lá dizer e demonstrar isso. Só assim conseguiremos mais recursos para a pesquisa, seja nas agências governamentais de fomento no Brasil e no exterior, seja junto a instituições da sociedade civil (ONG’s, empresas). Além disso, com o sucesso da política de capacitação docente, geramos um enorme potencial que agora pode ser melhor aproveitado.
PUCviva – A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e exten-são é defendida e/ou praticada em todas áreas de conhecimento e unidades acadêmicas ou se trata de uma prática restrita a professores?
Sueli Marquesi – A indissocia-bilidade entre ensino, pesquisa e extensão deve ser defendida e praticada em todas as áreas do co-nhecimento e em todas as unida-des, pois a sua origem está no próprio processo de produção do conhecimento. Na minha avaliação, esse é o tripé que, de fato, caracteriza uma universidade. Naturalmente, em uma instituição das dimensões da PUC-SP, os rit-mos e modalidades de realização dessa tríade são diferenciados.
PUCviva – Com o advento do Plano Acadêmico Trienal 1998/2000, e considerando a diver-sidade da PUC, qual é avaliação sobre a absorção e aplicação do Plano na universidade hoje?
Sueli Marquesi – De fato, para se fazer uma avaliação sobre a aplicação e absorção do Plano Acadêmico Trienal, há que se considerar a diversidade de nossa universidade. Entretanto, levando em conta que, dentro dessa diversidade, há uma unidade, que é a excelência acadêmica, e ainda que o Plano Acadêmico Trienal foi aprovado há exatamente um ano, a avaliação de sua implementação pode ser considerada muito boa e atestada por meio das metas nele definidas, muitas delas já atingidas e outras que estão em andamento com cronograma previsto. Devemos, também, ressaltar que o Plano Acadêmico Trienal gerou uma visão de conjunto da universidade: a Reitoria, os colegiados e as unidades passaram a conhecer melhor os problemas que têm de enfrentar, assim como suas potencialidades, resultando num adensamento das discussões no Cepe, cujos frutos já puderam ser colhidos nos debates sobre Estatuto e Regimento, bem como na presente análise da expansão da universidade.
PUCviva – Quais outras ques-tões a sra. gostaria de comentar?
Sueli Marquesi – Gostaria de ressaltar que estamos vivendo um momento especial na história da nossa universidade. É ver-dade que sempre enfrentamos desafios, no campo acadêmico ou no administrativo. Mas as mudanças que vêm aconte-cendo, seja no âmbito mais geral da estrutura social, seja no campo específico do ensino superior brasileiro, são muito profundas e precisamos estar atentos a elas. No entanto, cada dia mais renovo a minha crença na capacidade criadora da PUC. Não é uma credulidade fundada no nada. Ela se reforça no intenso envolvimento das Unidades e do Cepe nas decisões acadêmicas, sejam elas resultantes da adequação à LDB, sejam elas resul-tantes de algumas necessidades internas; no grande número de produções dos docentes da PUC, evidenciado nas publicações quer pela Educ, quer pela revista da Apropuc (PUCviva) ou ainda por editoras externas à universidade; na qualidade dos cursos; na multiplicidade de eventos atrelados ou não aos 500 anos de Descobrimento do Brasil - PUCBRA500; nos avanços, tímidos diante do ideal, mas consideráveis frente a realidade que temos hoje, na busca de uma relação cada mais integrada entre a pós-graduação e a graduação. São muitos os motivos pelos quais acredito que a PUC tem todas as condições de avançar qualitativamente em seu modelo de universidade, consoli-dando-o como segmento im-portante dentro de ensino superior brasileiro.
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