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Crônica: Conversando com a Caroba e o Sabiá

APROPUC-SP

Hélio Deliberador

O que passo a lhes contar é o re-sultado de uma série de conversas que tive ao cair da tarde ou ao amanhecer com uma árvore e com um pássaro.
Para que não me julguem somente como solitário e delirante, antes mesmo do relato, conto-lhes conversas e leituras de dois amigos que acolhem tais diálogos como necessários à condição humana.
Lourival1 me contou que em sua casa há um jardim iluminado. Convidou-me para visitá-lo e disse como esse jardim veio sendo vagarosamente construído pelos pássaros e pelo vento e como, com seu olhar sensível, começou a ver sua manifestação luminosa.
Paulo2, em um texto intitulado Espírito, uma invenção do Espírito, conta uma história de um velho que conversava com uma árvore. Nessa história ele escreve: “A árvore e seu companheiro passaram a contar histórias em silêncio (...) Só se sai do tempo quando se penetra as coisas. Penetra-se as criaturas quando estando totalmente presentes, deixa-se de existir e se é transportado de maneira integral até elas. Assim os antigos diziam que para penetrar o espírito das criaturas, é necessário que se deixe de existir, que se abandone tudo o que se é para se poder estar com elas. E então se lembrar quando se era um com as coisas. Fazer isto é uma necessidade do espírito...”
Nossos olhos e ouvidos são janelas da alma e espelhos do mundo. Por isso esses diálogos tornam-se possíveis entre nós.
A Caroba3 e o Sabiá Laranjeira são amigos que encontro todos os dias no cotidiano da PUC-SP. São de uma beleza e vivacidade incomuns. Quando paro a admirá-los, sou surpreendido pelo diálogo possível entre nós.
Eles me disseram que as árvores no quadrilátero da PUC-SP estão cada vez mais raras, para não dizer, quase espécies em extinção. Por isto também o número de espécies de pássaros é pequeno.
Chamam-me a atenção para a quantidade de quadrados vazios onde deveria haver uma árvore, nas calçadas algo deterioradas da Rua Monte Alegre, da João Ramalho e da Ministro de Godoy.
Mostram que algumas árvores, que foram plantadas e cercadas na Rua Monte Alegre, perto da Capela da PUC-SP, estão mortas tal é o descuido e desprezo que se teve por elas.
Meu amigo professor Franklin Gold Grub sugeriu que a PUC-SP cuidasse de suas calçadas e das árvores de seu quadrilátero do mesmo modo que passou a cuidar do jardim interno do prédio-sede. Com seu conhecimento de botânica sugeriu que fossem plantadas flamboians por serem árvores grandes e belas e por terem raízes que não rompem calçadas.
O Sabiá sugeriu também algumas árvores frutíferas e mostra-se muito interessado pela possibilidade de mudarmos um pouco a paisagem.
Na primavera, a Caroba fica inteiramente florida com suas pequenas flores roxas que forram o chão da Clínica nas salas que olham e são olhadas pelas árvores que sobrevivem na PUC-SP.
O Sabiá me contou que nas férias cortaram alguns galhos de uma das duas amoreiras que há por ali.
Reclamei, pois eram galhos mais baixos. Desses galhos, na época, eu podia dividir com ela, algum sanhaço e outros amigos, o sabor e a cor de seus frutos. Como só ficaram os galhos altos, e do lado do prédio vizinho, só os pássaros comerão amoras. Só restaram frutos caídos no chão para o incômodo dos que cortaram seus galhos.
Esse prédio vizinho parece olhar enamorado para a Caroba, pois ela é a única lembrança da intensa vegetação do casarão dos Gomes, que existia ali antes dos prédios.
O Sabiá me contou que, na medida que os prédios multiplicam-se, diminuem as árvores. Lembrou que a PUC-SP construiu um recentemente, nos fundos da Clínica e do prédio. A Caroba disse que chegou a temer por sua sorte.
Eles contaram que viram penalizados que essa edificação tirou a luz das casas baixas que já haviam em sua frente.
O Sabiá conta que a circulação interna nesse prédio é difícil. As rampas são estreitas. A altura de alguns vãos livres é pequena e a circulação no corredor da Cardoso ficou desprivilegiada.
O Sabiá ficou admirado e me disse que na PUC-SP, por ser lugar de homens que pensam, poderiam ser encontradas outras soluções.
Eu procurei justificar pela pressa e a falta de recursos econômicos completando que o pensamento pode prejudicar o olhar e a audição. Acrescentei que há pássaros que também não primam pela estética de seu espaço. Além do mais, nem temos Faculdade de Engenharia Civil ou Arquitetura.
A Caroba me olhou com alguma desconfiança face a meu jeito de achar rapidamente justificativas.
Olho novamente para ela e lembro que a noite vem chegando, seus galhos internos passam a formar desenhos que parecem gaviões, corujas ou outros habitantes noturnos das árvores.
A noite veio e eu volto aos meus afazeres cotidianos nessa PUC-SP, onde encontro pessoas, árvores e pássaros, mas também onde o pensamento me afasta da possibilidade de encontros e da escuta de árvores e pássaros.

 

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