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Home >> Revista PUC Viva >> 34, Oriente Médio, abril de 2009 >> EDITORIAL - Imperialismo – e não “raça”, “religião” ou “etnia” – produz a guerra no Oriente Médio

EDITORIAL - Imperialismo – e não “raça”, “religião” ou “etnia” – produz a guerra no Oriente Médio

APROPUC-SP
Bibliotecas imensas já foram escritas sobre os conflitos contemporâneos no Oriente Médio, entre os quais a "questão palestina"
ocupa, sem dúvida, lugar de destaque. No horizonte das possibilidades previsíveis, outras bibliotecas ainda serão escritas, antes que a região encontre um ponto de equilíbrio-estável, decente e civilizado. Mas não é tão impossível assim imaginar um prazo para que isso finalmente - e na melhor das hipóteses eventualmente - aconteça: ele está vinculado às reservas
existentes de petróleo na região, aos rumos que a economia capitalista mundial adotará no futuro próximo, em termos de sua relação com o meio ambiente e com a evolução tecnológica (aumentando ou diminuindo a sua dependência do "ouro negro") e à capacidade da resistência dos povos às múltiplas formas de dominação que o imperialismo promove, financia, arma e sustenta em todo o planeta.
Afirmamos, com isso, que os conflitos no Oriente Médio, incluindo a guerra entre árabes e israelenses, não são provocados por questões étnicas, religiosas, culturais, como costumam afirmar "especialistas" e "orientalistas" como Samuel Huntington. Nem são "conflitos milenares" (talvez produzidos por alguma misteriosa incompatibilidade genética). São o resultado de uma história concreta, iniciada com a divisão imperialista do Oriente Médio, produzida a partir do século XIX, pelo imperialismo franco-britânico
- apenas para nos referirmos ao período mais recente - que, desde 1908, quando foram descobertas as reservas de petróleo no Irã, fizeram o possível para assegurar o seu controle.
Ao fim da Segunda Guerra Mundial, a região passou a ser alvo da disputa entre as potências que dividiram o mundo em "áreas de influência" - União Soviética e Estados Unidos - e, finalmente, com o fim da Guerra Fria, os senhores de Washington passaram a ter a palavra final na região, devidamente auxiliados por alguns aliados incondicionais, em particular o Estado de Israel e a monarquia saudita. Outros governos árabes - em geral, reinados e ditaduras corruptas encarregadas de administrar os estados artificiais criados pelas potências coloniais - dançaram ao sabor do jogo de forças entre as potências.
Os povos do Oriente Médio foram a grande vítima desse jogo. Isso inclui, obviamente, o povo judeu, mas não numa relação simétrica ou equivalente. Dados os interesses geopolíticos dos Estados Unidos, o Estado de Israel goza de uma proteção militar e econômica absoluta - que inclui a doação, pelo tesouro estadunidense, de pelo menos dez bilhões de dólares anuais como forma de "subsídio", além da cumplicidade bélica (que inclui a permissão para Israel estocar dezenas de bombas atômicas; alguns especialistas
chegam a falar em 200 ogivas nucleares). Os palestinos, em contrapartida, lutam com paus e pedras contra os ocupantes israelenses, que, ignorando solenemente todas as resoluções da ONU, mantêm a ocupação da Cisjordânia, o controle militar sobre a Faixa de Gaza e não cessa a construção de novos assentamentos em áreas palestinas.
Mas - novamente - nada disso significa que há um conflito entre dois ou mais povos. Há judeus israelenses que lutam por uma paz justa com os palestinos, e há árabes palestinos que colaboram com os invasores e ocupantes israelenses. Isso acontece, precisamente, por não se tratar de lutas étnicas, raciais ou religiosas, mas sim de interesses políticos e econômicos. Os povos só encontrarão a paz quando os senhores da guerra - aqueles que lucram, de todos os lados, com o comércio, principalmente, do petróleo
e das armas - forem derrotados.
É com essa perspectiva concreta que produzimos a presente edição especial sobre os conflitos no Oriente Médio. Não somos "neutros": ao contrário, defendemos uma paz justa entre árabes e judeus, assim como o reconhecimento dos direitos de todas as minorias, incluindo as reivindicações do povo curdo pelo seu próprio território. Sabemos, também, que as ideologias nacionalistas e patrióticas jamais oferecerão qualquer solução ao Oriente Médio, pois, mais do que nunca, trata-se, ali, de todos reconhecerem o direito do outro à existência. Assumimos, portanto, uma perspectiva de apoio internacionalista à união entre todos os povos da região, contra as aves de rapina e os opressores de todas as cores e matizes, como única forma de suspender a matança e pavimentar o caminho da paz.
O que isso significará, concretamente, no caso de judeus e palestinos? Dois estados para os dois povos? Um estado para os dois povos? Uma "confederação semítica", em que israelenses e palestinos preservarão alguma forma de autonomia? Ninguém tem a resposta, mas ela deverá ser encontrada nas ruas, no curso das batalhas em que jovens e trabalhadores, árabes e judeus, deverão travar conjuntamente contra o imperialismo e seus títeres. Aos que pensam ser isso uma "utopia", só nos resta responder que utopia maior - e tão reacionária quanto sangrenta - é imaginar que a solução será dada por acordos palacianos.
Foram os acordos palacianos entre as potências imperiais que geraram os atuais conflitos. Eles só serão superados sobre os escombros do imperialismo.

José Arbex

Agradecimentos
Este número da PUCviva se deve, em grande medida, à colaboração do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe). Agradecemos pelo auxílio na indicação de pesquisadores e estudiosos da cultura árabe. O ICArabe agrupa intelectuais escritores, jornalistas, professores e outros profissionais que buscam conhecer, estudar, divulgar e promover a cultura árabe. (www.icarabe.org)
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