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Home >> Revista PUC Viva >> 34, Oriente Médio, abril de 2009 >> Da ideia de transferência à realização da limpeza étnica: contribuições da nova historiografia israelense e palestina

Da ideia de transferência à realização da limpeza étnica: contribuições da nova historiografia israelense e palestina

APROPUC-SP

Arlene E. Clemesha

O êxodo de aproximadamente 800 mil árabes da Palestina de 1947 a 1949 foi o principal fato constitutivo da sua história moderna, mas recebeu diferentes versões ao longo dos últimos sessenta anos. Esse estudo se concentra em alguns aportes da historiografia palestina e israelense, oriundas de pesquisas em história oral e a abertura de arquivos em Israel. Levanta o problema da restituição da propriedade palestina confiscada pelo nascente Estado de Israel e indica, finalmente, a importância do reconhecimento da expulsão do povo palestino e a realização de seus direitos humanos, para qualquer processo interno de reconciliação.

A elaboração da ideia de "transferência"

Os escritos dos fundadores do movimento sionista (político e laico) indicam que a ideia de "transferência" da população árabe autóctone para além das fronteiras de seu país, para a criação de um Estado exclusivamente judeu na Palestina, era parte do projeto sionista desde o início do seu empreendimento colonizador, isto é, desde o final do século XIX. Theodor Herzl, fundador da Organização Sionista, na Basileia, Suíça, 1897, e autor de Der Judenstaat (O estado judeu) em 1896, escreveu em seu diário, em 12 de junho de 1895: "devemos expropriar com cuidado", "tentaremos expulsar a população miserável para além da fronteira (...) negando-lhe qualquer emprego em nosso país... Tanto o processo de expropriação como a retirada dos pobres deve ser executada de maneira discreta e circunspecta"1.
O mito sionista da "terra sem povo para um povo sem terra" - expressão típica do olhar colonizador europeu sobre o "Oriente" - foi amplamente divulgado nesse momento. Ao mesmo tempo, a Organização Sionista implementava uma prática colonialista que implicava não a exploração da mão de obra árabe palestina mas a sua exclusão paulatina. Entre os pilares da colonização sionista constavam as políticas de: "conquista da terra", isto é, a aquisição de terra na Palestina pelo Fundo Nacional Judeu2, esvaziada de seus camponeses, fallahin, palestinos, não obstante o fato de que não mais de 6-9% da terra do futuro estado chegou a ser adquirida dessa forma; e "conquista do trabalho", que significava reservar os postos de trabalho criados pela nova comunidade para judeus apenas. Em outras palavras, tratava-se de um boicote deliberado do trabalho árabe, forçando os árabes palestinos a emigrar em busca de trabalho fora das regiões conquistadas pela Organização Sionista.

O Mandato Britânico da Palestina, vigente de 1922 a 19483, deu impulso decisivo ao projeto sionista, permitindo que, no final dos anos 1930, os líderes sionistas começassem a traduzir sua visão de exclusividade judaica em planos mais concretos. Novas perspectivas foram abertas para o sionismo em julho de 1937, quando a Real Comissão de Inquérito, denominada Comissão Peel, recomendou, pela primeira vez, a partilha da Palestina em dois Estados: um judeu e um árabe, incluindo a possibilidade de "transferência" da população árabe para fora do território onde seria criado o Estado judeu. A região delimitada para o Estado judeu somava 20% da Palestina histórica e incluía as cidades palestinas de Jaffa, Acre, Haifa e Nazaré. A região em torno de Jerusalém continuaria sob o governo do Mandato Britânico e o restante do país, cerca de 70%, permaneceria árabe.

Um mês depois, em 7 de agosto de 1937, no XX Congresso Sionista, reunido em Zurique especificamente para avaliar as propostas da Comissão Peel, o líder sionista David Ben-Gurion apresentou a ideia de que o yishuv (a comunidade sionista na Palestina antes da criação do Estado de Israel) devia tomar em suas mãos a realização da transferência, sem depender, para isso, dos britânicos:

A transferência populacional já foi realizada no Vale [Jezreel], em Sharon [a planície] e outros locais. Vocês estão a par do trabalho do Fundo Nacional Judeu (FNJ) nesse caso [referência às expulsões esporádicas - sic, a.n. - de comunidades camponesas árabes de terras adquiridas pelo FNJ]. Trata-se agora de uma transferência em dimensões totalmente diferentes. Novos assentamentos judeus, em várias partes do país, só serão possíveis se houver a transferência dos fallahin árabes... (Cf. Morris, 2007: 43)
Apesar de o território demarcado para o Estado judeu pelo Plano de Partilha da Comissão Peel ser muito inferior às ambições sionistas, a liderança respondeu favoravelmente, ciente da importância simbólica que tinha nesse momento o simples reconhecimento oficial do princípio de autodeterminação nacional judaica (mesmo que em apenas parte da Palestina). Em 12 de dezembro de 1938, depois que a revolta árabe de 1936-39 já havia forçado os britânicos a recuar da proposta de partilha e transferência, Ben-Gurion escreveu em seu diário: "vamos oferecer ao Iraque 10 milhões de libras palestinas pela transferência de cem mil famílias árabes da Palestina para o Iraque". Ora, cem mil famílias significariam de 600 mil a 800 mil pessoas, o que representava na ocasião mais da metade da população palestina. Em 1941, em um memorando delimitando a política sionista a ser seguida no futuro, Ben-Gurion declarou que, apesar de ele acreditar que seria possível a transferência voluntária de segmentos do povo palestino, "uma transferência completa do grosso da população árabe só poderia ser forçada, através de uma transferência ‘compulsória e sem escrúpulos'"4- foram essas as suas palavras.
Vários anos depois, em maio de 1942, durante uma reunião da cúpula sionista no Hotel Biltmore de Nova Iorque, foi adotada uma estratégia maximalista, prevendo a formação de um "commonwealth judeu" sobre toda a Palestina do Mandato5. Assim, como diz Ilan Pappé, o espaço geográfico almejado pelo movimento mudou de acordo com as circunstâncias e oportunidades, mas o objetivo central permaneceu o mesmo: "a criação na Palestina de um Estado puramente judeu, tanto como um porto seguro para os judeus, quanto como berço de um novo nacionalismo judeu. Esse Estado tinha que ser exclusivamente judeu não apenas em sua estrutura sociopolítica, mas em sua composição étnica"6.
Como diria o historiador palestino Nur Masalha, a visão sionista de criação de um lar exclusivo judeu na Palestina estava intimamente ligada à ideia de transferência: a transferência de judeus da Europa para a Palestina e a transferência dos árabes palestinos para fora da Palestina7.

A limpeza étnica8 da Palestina:
consequência da guerra de 1948?

Em 1948, a Palestina foi radicalmente transformada. No início desse ano, palestinos árabes constituíam mais de dois terços da população do país. Eram maioria em quinze dos dezesseis subdistritos, e possuíam 90% da terra. No final desse ano, mais da metade de quase 1,4 milhão de palestinos árabes havia sido expulsa da sua terra. Os que permaneceram foram reduzidos a uma pequena minoria no interior do recém-criado Estado de Israel.
Na década de 1950, o historiador palestino Walid Khalidi seria provavelmente o primeiro a comprovar que a população não deixou o país sob ordens da liderança nacional palestina, como dizia a história oficial de Israel. Walid Khalidi pesquisou os principais jornais árabes, Al Ahram do Cairo, Al Hayat de Beirute, e Al Difa, o jornal mais lido na Palestina; além das resoluções da Liga dos Estados Árabes e do Alto Comitê Árabe (embrião de governo palestino formado durante a revolta de 1936-39). Não encontrou consignas de fuga, mas sim "apelos exortando a população palestina a permanecer não obstante os ataques sionistas".9 O mesmo vale para os comunicados de rádio. Graças aos arquivos da BBC, registrados em Caversham e depositados no Museu Britânico de Londres, sabe-se que as estações de rádio árabe-palestinas, notadamente a Sharq Al Adna e a Rádio Jerusalém, não transmitiram ordens de fuga. Pelo contrário, entre vários outros comunicados do tipo, em 13 de maio de 1948, Sharq Al Adna transmite um apelo do coronel Idrisi, chefe de polícia nomeado pelo Alto Comitê Árabe, para que os homens em idade de portar armas permanecessem na Palestina. Em 4 de maio, a mesma estação transmitiu um apelo do Rei Abdullah da Transjordânia, exigindo o retorno dos palestinos que haviam deixado seu país, e felicitando a coragem e o heroísmo daqueles que não tinham fugido.10
Hoje, uma das visões mais recorrentes na historiografia israelense é a de que a fuga de metade da população palestina foi o inelutável "dano colateral" da guerra árabe-israelense de 1948-49. No entanto, segundo Rashid Khalidi, não apenas o massacre e a expulsão do povo palestino não foram o resultado inevitável da guerra árabe-israelense de 1948, como "os ataques decisivos à coesão da sociedade palestina foram produzidos ainda antes de 15 de maio, no início da primavera de 1948"11 - isto é, antes de os exércitos árabes entrarem no conflito.
A primeira fase do conflito foi decisiva. Deflagrada em 29 de novembro de 1947, pela aprovação da resolução 181 da Assembleia Geral da ONU (determinando a partilha da Palestina para a criação de um Estado judeu em quase 55% do território, e outro árabe, em 45% da Palestina), essa fase durou até a proclamação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948. Ela marca o primeiro êxodo, envolvendo possivelmente a metade do total de 750-800 mil palestinos que se tornaram refugiados em 1948. Durante essa fase, as milícias da Haganah (sua unidade de combate se chamava Palmach), Irgun e Stern, enfrentaram apenas combatentes palestinos e voluntários árabes. Caíram várias das principais cidades palestinas, bem como numerosos vilarejos. A maioria dos moradores de Jaffa e Haifa foi dispersa e o grosso de suas propriedades, confiscadas. Estradas e pontos estratégicos foram tomados e os 30 mil árabes da porção ocidental de Jerusalém forçados a deixar a cidade, para não mencionar uma série de outras cidades palestinas importantes que foram atacadas antes de 15 de maio de 1948.12 Os exércitos árabes só vieram ao socorro da população da Palestina após 15 de maio, quando o país já estava imerso em guerra civil. Como diz Rashid Khalidi, o quinze de maio de 1948 marcou não apenas o nascimento do Estado de Israel, mas também a derrota definitiva dos palestinos pelos seus inimigos sionistas, após décadas de lutas resistindo ao controle sionista do país.13
Em seu livro A limpeza étnica da Palestina, de 2007, o acadêmico israelense Ilan Pappé abala decisivamente a visão prevalecente da expulsão dos palestinos ao demonstrar que a guerra teria sido concebida pela liderança política do yishuv e milícias sionistas, como parte de um plano cuidadosamente elaborado para a limpeza étnica do povo palestino. Em outras palavras, a limpeza étnica foi o resultado de um "planejamento demorado e meticuloso", culminando no abominável Plano Dalet e na guerra de 1948. O documento de resumo da reunião de preparação do Plano Dalet, que consta nos arquivos da FDI (o exército de Israel), atesta:


Em uma fria tarde de quarta-feira, 10 de março de 1948, um grupo de onze homens, líderes sionistas veteranos e jovens oficiais do exército judeu, colocaram os toques finais em um plano para a limpeza étnica da Palestina. Na mesma tarde, despacharam ordens militares às unidades plantadas no terreno, para que se preparassem para a expulsão sistemática dos Palestinos de vastas áreas do país. As ordens continham uma descrição detalhada dos métodos a serem empregados para desalojar à força a população: intimidação em larga escala; cercar e bombardear vilarejos e núcleos populacionais; atear fogo às casas, propriedades e bens; expulsar os moradores; demolir as casas; e, finalmente, plantar minas nos destroços para impedir o retorno dos moradores expulsos. Cada unidade recebeu uma relação específica de vilarejos e bairros que seriam seu alvo, em conformidade com o plano mestre. Denominado Plano D (Dalet em hebraico), esta era a quarta versão, e a final, de planos anteriores mais vagos, delineando o destino da população autóctone da Palestina. Os três planos anteriores tinham descrito apenas vagamente como a liderança sionista pretendia lidar com a presença de tantos palestinos na terra que o movimento nacional judeu queria para si. O quarto e último traçado dizia clara e inconfundivelmente: os palestinos têm que ir". (Pappé, 2006:1)
As pesquisas de Pappé indicam que, antes da elaboração do Plano Dalet, o principal passo para o planejamento da expulsão sistemática do povo palestino foi a criação do que hoje se conhece com o nome de Arquivos dos Vilarejos: um mapeamento secreto de todos os vilarejos palestinos, realizado pelo Fundo Nacional Judeu (FNJ-KKL) por sugestão de um jovem historiador da Universidade Hebraica, Ben-Zion Luria.
De fato, Pappé argumenta que sem essa informação e sem saber quanta resistência cada vilarejo seria capaz de oferecer, o Plano Dalet não poderia ter sido traçado em março de 1948. Os esforços envolviam o registro de informação precisa sobre a localização topográfica de cada vilarejo, suas vias de acesso, qualidade da terra, fontes de água, principal fonte de renda dos habitantes, composição sociopolítica, filiação religiosa, nomes dos mukhtars, relações com vilarejos vizinhos, idade da população masculina (16-50), entre outras características.
No final da década de 1930, o arquivo secreto estava quase completo: o conjunto estava formado por um grande número de pastas, montadas paulatinamente, para cada um dos vilarejos palestinos. Os arquivos da era pós-1943 incluíam descrições detalhadas dos cultivos, números de árvores nas plantações, produtividade dos pomares a até de árvores individuais, quanta terra cada família possuía em média, quantos carros, os nomes dos donos de lojas, membros de oficinas, os nomes dos artesãos e seus respectivos ofícios. Mais tarde, foram acrescentados detalhes meticulosos sobre cada clã e sua filiação política, estratificação social entre notáveis e camponeses, e os nomes dos servidores públicos no governo do Mandato Britânico. Por volta de 1945 mais detalhes começaram a ser registrados, sobre as mesquitas, os nomes dos imãs (junto, diz Pappé, com caracterizações do tipo "é um homem comum"), inclusive descrições precisas dos interiores das casas dos dignatários. Finalmente, não causa surpresa que, segundo Pappé, na medida em que se aproximava do final do Mandato Britânico, os registros se tornavam cada vez mais de ordem militar: o número de sentinelas em cada vilarejo (a maioria não tinha nenhum), além da quantidade e qualidade das armas à disposição dos camponeses. Nota-se que tais armas eram em geral antiquadas ou inexistentes. De acordo com Pappé, uma categoria importante era o "índice de hostilidade" em relação ao sionismo, determinado pelo grau de participação do vilarejo na Revolta Árabe de 1936-39. O material incluía listas de todos os envolvidos na revolta e as famílias que tinham perdido algum de seus membros na luta contra os britânicos.
A atualização final dos arquivos dos vilarejos foi feita em 1947, quando se criaram listas de "procurados" para cada vilarejo. Em 1948, tropas judaicas usaram essas listas nas operações de busca e captura, realizadas cada vez que ocupavam uma cidade. Tipicamente, os homens eram reunidos e alinhados, aqueles cujos nomes estavam nas listas seriam identificados, muitas vezes pelo mesmo informante, só que agora com capuz de tecido sobre a cabeça, com buracos no local dos olhos para poderem ver sem ser vistos. Os homens identificados eram frequentemente fuzilados no local.14
As descrições dos sobreviventes palestinos desde 1948 e pesquisas mais recentes em arquivos israelenses, bem como estudos de história oral realizados por acadêmicos israelenses, revelaram que os massacres tenderam a seguir determinados padrões, conduzidos de acordo com as informações reunidas nos Arquivos dos Vilarejos e o esquema de conquista territorial elaborado pelo Plano Dalet. É o que demonstra a pesquisa de mestrado de Teddy Katz, estudante israelense do departamento de História do Oriente Médio na Universidade de Haifa. Sua tese, intitulada "O Êxodo dos Árabes dos Vilarejos ao Sul do Monte Carmel", focava cinco vilarejos palestinos da costa, entre Hadera e Haifa, particularmente os vilarejos de Umm Zaynat e Tantura. Testemunhas entrevistadas por Katz revelam a história de um massacre brutal, produzido em 22-23 de maio de 1948, de cerca de 200 habitantes de Tantura. Eram principalmente jovens homens desarmados que foram fuzilados depois da rendição do vilarejo às tropas da Haganah. Teddy Katz entrevistou 135 pessoas para sua tese. O capítulo sobre Tantura se baseia nos testemunhos de quarenta pessoas, coincidentemente vinte árabes e vinte judeus. De acordo com Pappé, Katz foi capaz de "superar as suspeitas e, de fato, a deslegitimização que geralmente se aplica, em Israel, à história oral palestina (na realidade a toda a história palestina)", porque conseguiu testemunhos do massacre não apenas entre as vítimas palestinas mas entre os militares judeus que participaram dos acontecimentos.
De acordo com os depoimentos, o massacre aconteceu em duas fases. A primeira fase foi um massacre deslanchado provavelmente por soldados enraivecidos devido a alguns tiros disparados após a rendição do vilarejo. Tudo indica que um ou dois atiradores ainda escondidos conseguiram ferir e matar entre dois e oito soldados judeus. Essa fase de matança teria deixado cem mortos. A segunda fase teria sido mais premeditada, executada por unidades de inteligência e logística, principalmente homens e mulheres dos assentamentos judaicos mais próximos, Atlit, Binyamina, Maayan Zvi e Zichron Yaacov. Essas unidades sistematicamente executaram homens suspeitos de esconder uma arma em casa - suspeita esta, ao que tudo indica, geralmente infundada - ou de pertencer aos voluntários árabes que tinham ido em socorro dos palestinos. Outras cem ou mais vítimas, de acordo com as testemunhas, foram mortas nessa fase. Segundo a pesquisa de Katz, a limpeza étnica foi conduzida contra um pano de fundo de instruções vagas de superiores, e uma grande dose de liberdade posta nas mãos de cada comandante na ocupação dos vilarejos, para fazer com os habitantes o que achasse apropriado.

A Guerra de 1948

Seguindo a proclamação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948, quando aproximadamente 400 mil palestinos já tinham sido expulsos de seus vilarejos e cidades, e centenas já mortos, os Estados árabes vizinhos, Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque, enviaram seus exércitos ao campo de batalha. No entanto, não passa de mito, "dos mais persistentes", aquele segundo o qual "em 1948 o nascente Estado [de Israel] enfrentou uma coalizão árabe monolítica e implacavelmente hostil". Como diz Avi Shlaim, acreditava-se que essa coalizão estivesse unida sob a bandeira da destruição do Estado de Israel, e que, ligado a este, estivesse o segundo objetivo: "aquele do genocídio -‘jogar os judeus ao mar' como diz a frase popular"15.
Na realidade, a coalizão de exércitos árabes que lutou contra o Estado de Israel em 1947-49 estava longe de constituir um grupo monolítico. Não havia unidade de objetivos e quase nenhuma coordenação na ação. Os Estados árabes enviaram apenas forças expedicionárias à Palestina, mantendo o grosso de seus exércitos em casa. Em meados de maio de 1948 o total de tropas árabes, entre regulares e irregulares, operando na Palestina, era inferior a 25 mil, enquanto a composição do exército israelense (denominado Força de Defesa de Israel, FDI, formado pelas milícias sionistas, das quais a Haganá -"defesa" em hebraico - era a principal) ultrapassava 35 mil homens. Em meados de julho, a FDI tinha 65 mil homens em armas, e em dezembro, 96.441. Os exércitos árabes também incrementaram suas tropas, mas jamais chegaram a esse ritmo de crescimento16.
Além dos fracassos dos Estados árabes, Rashid Khalidi chama atenção para a falta de forças palestinas regulares e treinadas, a ausência de uma estrutura de comando centralizada e de uma fonte confiável de armas, para não mencionar a fraqueza estrutural do movimento nacional palestino sob a liderança de Hajj Amin al-Husayni, já fortemente abalado pela repressão britânica da revolta de 1936-3917.
O terceiro aspecto seria a falta de unidade da Liga Árabe. A coalizão árabe estava afetada por profundas divisões políticas internas. Desde sua fundação em 1945, a Liga Árabe era o fórum mais elevado para a política pan-árabe em relação à Palestina. Mas a Liga Árabe estava dividida entre o bloco hashemita, formado pela Transjordânia e o Iraque, e o bloco anti-hashemita, liderado pela Arábia Saudita e o Egito. "Curiosamente, a Liga permaneceu obstinadamente contrária a deixar que os palestinos assumissem o controle de seu próprio destino"18. A Liga, sob a liderança de ‘Abd al-Rahman ‘Azzam se opôs ao mufti e disponibilizou para a defesa da Palestina uma porção mínima da prometida ajuda financeira e de armas. Em última instância, comparando operações palestinas e sionistas, nota-se em que medida a luta foi local e segmentada para os palestinos, enquanto "centralizada e nacional para os sionistas"19.
Em 1949, quando terminaram os combates e traçou-se a linha de armistício, Israel havia expandido suas fronteiras, passando a ocupar 78% da Palestina histórica. A Jordânia assumiu o controle da área a oeste do Rio Jordão, enquanto o exército egípcio passou a administrar a faixa de terra ao redor de Gaza. Os palestinos passaram a viver "sob uma gama de regimes alheios"; foram privados de uma imensa parte de suas propriedades e perderam controle sobre quase todos os aspectos de suas vidas, diria Khalidi. Aproximadamente 800 mil pessoas tinham sido expulsas, e centenas massacradas. No mesmo ano foi criada a Agência da ONU para os refugiados palestinos, denominada UNRWA. Pesquisas como a de Salman Abu Sitta comprovam que aproximadamente 400 de 500 vilarejos e 11 bairros urbanos foram destruídos, em cidades como Tel-Aviv, Haifa e Jerusalém.20 Mas o número preciso de palestinos mortos permanece uma incógnita, devido ao caos instaurado e à total ausência de um sistema centralizado de contagem.

Palestinos expulsos, propriedades usurpadas

Os palestinos em fuga deixaram para trás casas, fazendas, negócios vários, contas em bancos, igrejas e mesquitas, cemitérios - para não mencionar as fazendas e o equipamento agrícola. Vastas quantidades de propriedade pessoal e terras foram confiscadas pelo governo israelense, mais especificamente, pelo Comitê Ministerial para a Propriedade Abandonada (Ministerial Committee for Abandoned Property) e o Gabinete da Propriedade Abandonada (Custodian of Abandoned Property), surpreendentemente criados logo em julho de 1948. Os palestinos tornaram-se não apenas refugiados, mas refugiados destituídos de seus bens, incapacitados de restabelecer a vida no exílio. A amplitude e a dimensão dessas perdas foram economicamente catastróficas.
Após a guerra de 1948, Israel usou as terras e casas palestinas confiscadas, de mais de 400 vilarejos e cidades destruídas, para assentar milhares de novos imigrantes judeus, incluindo judeus da Europa, sobreviventes do holocausto, e outros, vindos de países árabes onde começaram a sofrer as consequências da rejeição árabe à criação do Estado de Israel.
Alguns vilarejos foram reconstruídos e receberam nomes hebraicos, em mais uma tentativa de apagar todo sinal da história e da realidade não-judaica da Palestina. De 1948 a 1953, a Agência Judaica estabeleceu 345 novas cidades judaicas, a maioria das quais foi construída em propriedade confiscada. Até 1954, um terço da população judaica de Israel vivia em propriedade confiscada de refugiados. Quase toda a propriedade imóvel - terras principalmente - dos refugiados palestinos permanece hoje em posse do Estado de Israel e do Fundo Nacional Judeu (FNJ-KKL).
A expulsão de palestinos seguida do confisco das suas propriedades não terminou com o fim da guerra em 1949. Os palestinos que deixaram suas casas mas permaneceram dentro do território onde foi criado o Estado de Israel (aproximadamente 32 mil deles se encontraram nessa situação em 1949) jamais tiveram permissão para voltar a suas propriedades, não obstante o fato de terem se tornado cidadãos israelenses. Suas casas, como as casas dos refugiados palestinos, foram ou demolidas ou entregues a imigrantes judeus.
Os refugiados - um total de mais de 7 milhões de palestinos - recusaram-se a aceitar compensações porque significaria abrir mão do direito de restituição e, portanto, aceitar o exílio e a condição de refugiados permanentes, inclusive para seus descendentes, por gerações a perder de vista. Exigem, pelo contrário, o direito de retorno e restituição de propriedade.

Considerações finais

Certos mitos fundadores do Estado de Israel, como aquele dos "poucos contra muitos" (sua suposta fragilidade perante um mundo árabe determinado a erradicá-lo em 1948) e "egresso voluntário dos árabes", foram irremediável e definitivamente abalados por avanços concluídos pela historiografia israelense e palestina. Mas, abalados ou não, os diversos mitos que ainda permeiam a história oficial do Estado de Israel ajudam a ocultar sua responsabilidade pelos crimes de 1948. Nas palavras de Ilan Pappé, não há dúvida de que "a limpeza étnica de 1948, que foi o principal acontecimento constitutivo da história moderna da terra da Palestina, foi quase que totalmente erradicada da memória coletiva global e apagada da consciência do mundo"21. A narrativa geral ainda sobrevive, transformando o opressor em vítima e exigindo concessões cada vez maiores por parte do povo palestino.
No entanto, nenhuma reconciliação entre israelenses e palestinos pode se concretizar sem o reconhecimento do que aconteceu em 1948, incluindo o alcance de suas consequências até os dias de hoje. O reconhecimento do direito de retorno da população expulsa - o que não significa que 7 milhões de palestinos queiram passar a viver no Estado de Israel - faz parte do reconhecimento da responsabilidade israelense pelos crimes de 1948. Trata-se de uma necessidade moral sem a qual não pode haver reconciliação nem processo de paz.

Arlene E. Clemesha é professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo.

Notas:

1 Cf. Patai, 1960: 88.
2 Keren Kayemeth LeIsrael, KKL, criado durante o V Congresso Sionista, Basle, Suíça, 1901.
3 Em 1917, a coalizão russo-franco-britânica derrotou os otomanos na Primeira Guerra Mundial. O império turco ruía e suas partes eram divididas em áreas sob controle
da Inglaterra e França, dando origem aos assim chamados "Mandatos" da Liga das Nações. Em 24 de julho de 1922, o Conselho da Liga das Nações aprovou o texto do Mandato Britânico da Palestina, texto este que reiterava e consolidava a promessa feita aos sionistas pela primeira vez na Declaração Balfour, de 2 de novembro de 1917. Os Estados Unidos, que não eram um país-membro da Liga, participaram das negociações sobre os termos do Mandato Britânico da Palestina.
4 Cf. Morris, 2007: 44-45.
5 Cf. Laqueur, Rubin, 2001: 55.
6 Pappé, 2006: 4.
7Cf. entrevista de Nur Masalha concedida ao filme de Maryse Gargour, La Terre Parle Arabe, 2008.
8 A expressão "limpeza étnica" se encontra atualmente bem definida pela lei internacional, que a denomina "crime contra a humanidade". Ilan Pappé cita algumas das definições dadas a ela, incluindo aquela da Enciclopédia Hutchinson, segundo a qual trata-se de uma expulsão à força para homogeneizar a população. O Departamento de Estado dos Estados Unidos reitera tal definição e diz ainda que sua essência seria erradicar a história de uma região. A ONU empregou definição semelhante em 1993, quando sua Comissão de Direitos Humanos (UNCHR) a caracterizou como o desejo de um Estado ou regime de impor um governo étnico em regiões pluri-étnicas, empregando para isso expulsões e outras formas de violência, incluindo a separação de homens e mulheres, detenções, assassinatos de homens pelo simples fato de serem combatentes em potencial, destruição de casas e o repovoamento da região com outro grupo étnico. Cf. Pappé, 2007: 1-5.
9 Cf. Ali Elsamman, Pourquoi le non au dialogue? In: Jean-Paul Sartre, Le Conflit Israélo-Arabe: Dossier, Le Temps Modernes. Paris, n. 253, 1967, p. 360.
10 Idem. p. 362.
11 Khalidi, 2007: 13.
12 O jornal novaiorquino The New York Times publicava regularmente matérias sobre as cidades palestinas conquistadas em 1948: Haifa, 21 de fevereiro; Tiberias, 20 de abril; Jerusalém, 25 de abril; Jaffa, 26 de abril; Acra, 27 de abril.
13 Deve-se notar que o movimento nacional palestino perdeu a guerra para o sionismo em 1948, em grande medida, porque já tinha sido arrasada em sua luta contra o mandato britânico. Em 1936-39, a repressão britânica assassinou mais de três mil homens combatentes, incluindo grande parte das lideranças palestinas, e prendeu 5.760 palestinos.
14 Cf. Pappé, 2007:17.
15 Shlaim, 2007: 80.
16 Shlaim, 2007: 81.
17 Cf. Khalidi, 2007: 30-31. O autor também nota que "não obstante sua hegemonia na política palestina, durante quase duas décadas, Hajj Amin al-Husayni não chegava à estatura de um Sa‘d Zaghlul ou mesmo Shukrial-Quwwatli, talvez porque nenhum partido nacionalista existente na Palestina fosse remotamente semelhante ao partido Wafd [‘Delegação', Egito, 1919, N.A.] ou mesmo o Bloco Nacional Sírio (Kutla Wataniyya)".
18 Shlaim, 2007: 82.
19 Khalidi, 2007: 30. Outros líderes palestinos na Guerra de 1948 foram Hasan Salama e ‘Abd al-Qadir al-Husayni, que lideraram os combatentes palestinos no exército da jihad. O Exército de Libertação Árabe, por sua vez, era formado por aproximadamente 4 mil voluntários, financiado e precariamente armado pela Liga Árabe, e treinado em bases no sul da Síria (sob a liderança do sírio Fawzi al-Qawuqji).
20 Veja Abu Sitta, S. The Return Journey: A Guide to the Depopulated and Present Palestinian Towns and Villages and Holy Sites in English, Arabic and Hebrew. Palestine Land Society, 2000.
21Pappé, 2006: 12.

Referências bibliográficas:

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