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Home >> Revista PUC Viva >> 34, Oriente Médio, abril de 2009 >> Reflexões sobre o Nacionalismo Árabe*

Reflexões sobre o Nacionalismo Árabe*

APROPUC-SP
José Arbex Jr.

Tudo o que nos foi roubado por aquela empresa imperialista, por aquele Estado dentro do Estado, enquanto morríamos de fome, nós vamos reaver... O governo decidiu sobre a seguinte lei: um decreto presidencial que nacionaliza a Companhia Internacional do Canal de Suez. Em nome da nação, o presidente da república declara que a Companhia Internacional do Canal de Suez é uma companhia limitada egípcia. (1)

A nacionalização, anunciada pelo então presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, em 26 de julho de 1956, durante um comício realizado na Praça Manshiyya, em Alexandria, levou ao delírio uma multidão calculada em algumas dezenas de milhares de pessoas.
Com Nasser, o moderno nacionalismo árabe encontrava o seu momento histórico mais brilhante: um líder carismático, símbolo da luta contra o imperialismo britânico, finalmente demonstrava a possibilidade de os povos árabes recuperarem sua dignidade e autoestima. A vitória obtida na Guerra do Suez, em novembro de 1956, contra as forças combinadas da Inglaterra, França e Israel - resultado que provocou a renúncia, em janeiro de 1957, de Anthony Eden, o então arrogante primeiro-ministro britânico - criou a sensação, entre milhões de árabes de todo o Oriente Médio, de que a mensagem pan-arabista preconizada por Nasser era o caminho indiscutível rumo à recuperação da glória que um dia os povos árabes conheceram, no auge da expansão islâmica.
A vitória egípcia estimulou manifestações populares em todos os países árabes cujos governos eram abertamente identificados com as potências imperialistas, especialmente no Iraque do primeiro-ministro Nuri al-Said, visto pela população como um vassalo de Londres. Said foi um dos arquitetos do Pacto de Bagdá, aliança militar formada em 1955, que colocava o Irã, a Turquia, o Paquistão e o próprio Iraque sob a tutela estratégica da Grã-Bretanha e era um guardião dos interesses das companhias petrolíferas no país. (2) Como resultado das mobilizações populares, caíram Said e a monarquia iraquiana, em julho de 1958. Também como resultado da campanha de Suez, e por impulso de correntes nacionalistas sírias, principalmente organizadas pelo Partido Baas, foi criada, em 22 de fevereiro de 1958, a República Árabe Unida (RAU), que, integrando Egito e Síria, com capital no Cairo, era destinada a ser o embrião do primeiro Estado pan-árabe. O prestígio de Nasser atingia o seu ponto máximo.
Apesar de sua aparente força e exuberância, o sonho nacionalista pan-árabe simbolizado por Nasser durou pouco. Em 28 de setembro de 1961, a RAU foi dissolvida, após um golpe de Estado desfechado na Síria, sob o impacto de contradições e disputas entre os interesses dos grupos sírios e egípcios que controlavam as várias esferas do poder político e econômico.(3) E o mais severo golpe contra o nacionalismo árabe em geral, e o nasserismo, em particular, aconteceria quase que exatos onze anos após o triunfal comício na Alexandria: a Guerra dos Seis Dias contra Israel (entre 5 e 10 de junho de 1967).
Para muitos estudiosos, intelectuais, arabistas, orientalistas e mesmo antigos apoiadores de Nasser, a derrota imposta por Israel (com o total amparo dos Estados Unidos) contra os exércitos combinados do Egito, da Síria e da Jordânia colocou uma pá de cal no nacionalismo árabe, do qual só restariam, hoje, remanescentes e saudosistas. Sua impossibilidade prática, precisamente, teria aberto o caminho para o fundamentalismo islâmico contemporâneo.
Alguns sugerem que o nacionalismo árabe nunca passou de uma espécie de delírio, pois a designação genérica "árabe" esconderia, sob o manto de um suposto mundo homogêneo e comum, grandes diversidades culturais e interesses econômicos díspares. O pan-arabismo, como o pan-africanismo, só teria existido, como força ideológica capaz de mobilizar, no contexto histórico bem preciso da Guerra Fria e do surgimento de um movimento internacional anti-imperialista que teve o seu auge entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o final dos anos 1960, com o processo de descolonização do Oriente Médio, da Ásia e da África. Nasser teria sido muito mais um resultado do período histórico mundial do que de uma dinâmica própria da história dos povos árabes.
Outros acreditam que a própria ideia de "nacionalismo árabe" constitui uma espécie de anacronismo, por tentar adaptar um conceito especificamente europeu ocidental a uma realidade cultural e política multimilenar estranha à formação do Estado-nação, imposto aos povos do Oriente Médio por potências ocupantes.(4) Já correntes islâmicas identificam no nacionalismo árabe uma tentativa vã e absurda de atacar o próprio Islã como o fundamento essencial da união entre todos os povos (que seria consagrada pela Umma).
Há, enfim, uma gama quase infinita de interpretações e variações sobre o mesmo tema, incluindo, obviamente, aqueles que ainda mantêm a convicção de que a união dos povos árabes em torno de um projeto nacionalista conheceu apenas uma derrota momentânea, em 1967, mas se mantém no horizonte como uma possibilidade histórica. É claro que não pretendemos, aqui, esgotar qualquer debate sobre o nacionalismo árabe. Trata-se apenas de formulá-lo de modo adequado, abrindo algumas possibilidades de reflexão amplas e abrangentes.

Estado, nação, nacionalidade e nacionalismos

A "questão nacional" e a relação entre Estado, nação, nacionalidade e nacionalismos inspirou uma vastíssima gama de livros, teses, trabalhos acadêmicos, ensaios históricos, políticos, culturais e filosóficos. Um dos autores mais influentes foi o filósofo alemão Georg Hegel (1770-1831), para quem o Estado é a expressão última do desenvolvimento coletivo da humanidade, após a superação da organização no núcleo familiar e na sociedade civil, segundo o processo ao qual damos o nome de história. O objetivo desse processo, diz Hegel, é possibilitar ao ser humano alcançar a liberdade e a consciência próprias do espírito; não é uma tarefa que possa ser realizada por um indivíduo nem por um grupo isolado, mas sim o resultado do conjunto de interações entre seres humanos que em sua jornada através dos tempos realizam objetivamente a potencialidade da Ideia ("A história universal nada mais é do que a manifestação da Razão").
A busca de formas cada vez mais aperfeiçoadas de organização faz com que os homens superem o estado de natureza, o núcleo familiar e a sociedade civil (entendida como instância em que se resolvem os valores privados), produzindo o surgimento do Estado, portador de um valor ético superior ao valor particular e privado das sociedades precedentes, como resultado de sua maior universalidade. Em outros termos, o Estado constitui uma objetivação em grau superior do espírito. Hegel acreditava que o Estado prussiano, em particular, marcava o fim da história: nele, as instituições estatais teriam atingido o grau máximo de organização e perfeição.
Segundo Hegel, a África, local de "infância da humanidade", havia permanecido detida nos estágios iniciais do desenvolvimento das sociedades. Os povos africanos são por ele descritos como "hordas de bárbaros", uma humanidade ainda não consciente de si. Os povos da China e da Índia ainda permaneciam fora da história (isto é, não haviam ainda atingido o grau de desenvolvimento necessário para a formação de instituições capazes de construir o Estado civilizado, mas constituíram sociedades congeladas numa existência vegetativa), ao passo que os povos semíticos da Ásia ocidental, incluindo Síria, Judeia e Egito, representaram o primeiro e mais baixo estágio da história. Para Hegel, portanto, a constituição do Estado nacional moderno é o ápice da civilização. Todos os outros povos ainda teriam que percorrer o mesmo caminho, se é que isso seria possível, para conquistar a própria liberdade. Fora da Europa, não há salvação.
A percepção eurocêntrica de Hegel deixou marcas profundas até mesmo na obra de pensadores revolucionários como Karl Marx e Friedrich Engels. São famosos, por exemplo, os comentários de Marx sobre a "missão civilizadora" do imperialismo britânico na Índia, ou a defesa que Engels faz da anexação da "esplêndida terra da Califórnia" pelos Estados Unidos, antes entregue aos "preguiçosos mexicanos que não sabiam o que fazer com ela". Também os povos árabes mereciam o "desprezo hegeliano" de Marx e Engels, que, sem qualquer cerimônia e com pouco conhecimento de causa, desqualificavam como meros "salteadores" até mesmo líderes da luta contra o colonialismo britânico no Egito.
Em seu extraordinário Orientalismo, Edward Said demonstrou o quão profundamente a percepção eurocêntrica de Hegel marcou a mentalidade europeia dita "ocidental". Na mesma linha, Immanuel Wallernstein mostra que o "universalismo europeu", pretexto ideológico e doutrinário para justificar a invasão de países e intervenções militares nos quatro cantos do planeta, assenta-se sobre um tripé constituído pelo orientalismo, pela razão tecnológica e pela ideia de direitos humanos, obviamente segundo uma narrativa auto-apologética.
Coube ao historiador Eric Hobsbawm a produção de uma das obras mais esclarecedoras sobre o Estado, a questão nacional, nacionalidade e nacionalismo. Hobsbawm sustenta, em síntese, que foi o nacionalismo que inventou a nação, e não o contrário. Não há uma relação imediata, "natural" ou necessária entre Estado, povo, território, etnia e idioma. Ao analisar a formação do Estado nacional francês que emergiu da Revolução de 1789, Hobsbawn mostra que a Revolução Francesa "foi completamente estranha ao princípio e ao sentimento de nacionalidade; era inclusive hostil a ele". A língua não tinha nada a ver, em princípio, com o ser inglês ou francês e, de fato, os especialistas franceses "lutaram tenazmente contra as tentativas de fazer da língua falada um critério de nacionalidade". O que caracterizava o povo-nação, visto de baixo, era o fato de ele representar o interesse comum contra os interesses particulares e o bem comum contra o privilégio.
O sentimento de nacionalidade, portanto, está em sua origem muito mais vinculado à prática de solidariedade entre os que se sentiam oprimidos, na luta contra o opressor (no caso da Revolução Francesa, contra a nobreza, o clero, o Estado absolutista), do que ancorado em supostos sentimentos de identidade "natural" que seriam propiciados pela etnia, religião, língua etc. Assim, a percepção de "nação" pelos "de baixo" foi, posteriormente, modificada pelas novas elites que assumiram o poder, as quais constituíram uma narrativa para dar novos fundamentos à definição da nacionalidade. No caso da França, apenas posteriormente o domínio do idioma, a religião e outras características passaram a ser critério para se definir a cidadania. Houve, por assim dizer, um processo de "naturalização" das identidades nacionais, como se o vínculo a determinada nação fosse um dado da natureza, e não uma construção política datada, típica de uma fase histórica precisa: a destruição do Estado absolutista e a fundação de uma nova ordem internacional, baseada no surgimento do poder de classe da burguesia.
A disputa entre os vários grupos burgueses pelo controle do comércio mundial, pelo monopólio do fornecimento de matérias primas, pelo controle de novos territórios determinou a necessidade de Estados assentados sobre limitações territoriais claras, mas sobre novas bases jurídicas e filosóficas, fornecidas pelo Iluminismo. O novo Estado burguês foi construído de modo a expressar as novas relações de classe. A burguesia ascendente, falando em nome de "toda a nação", construía instituições e narrativas justificadoras, destinadas a proteger os seus próprios interesses de classe. Foram muito convenientes, nesse sentido, as ideias defendidas por Hegel sobre os povos não-europeus: elas justificavam, com a mais alta filosofia, a prática da espoliação capitalista dos povos que pertenciam à "periferia da história".
As supostas "identidades nacionais" construídas pelo discurso burguês foram, portanto, politicamente motivadas por grupos interessados (a "nação política"), tendo como base as narrativas que descrevem idealmente uma "nação universal" (hábitos, virtudes, passado mítico, identidades atemporais etc.), substância do discurso nacionalista. Não pode ser confundido com o sentimento de nacionalidade (eventual conexão cultural ou espiritual do indivíduo a um grupo qualquer), nem com um fenômeno "natural". Quando discutimos os conceitos de Estado, nação, nacionalidade e nacionalismo estamos, portanto, imersos na vida política, na esfera dos jogos de poder, longe, bem longe de qualquer dado a priori.
O discurso nacionalista encontrou os povos árabes no século XIX, quando eles já existiam há milênios organizados segundo as mais variadas formações.

O discurso nacionalista e os povos árabes

Nós nos rebelamos contra os ingleses; e contra os franceses...
Nós nos rebelamos contra os que colonizaram nossas terras e tentaram nos escravizar...
Nós repetimos a revolução vermelha muitas vezes, e continuamos nossas revoluções brancas por muitos anos...
E para isso suportamos muito sofrimento, aguentamos muitas perdas, sacrificamos tantas vidas...
Mas: Quando finalmente conquistamos nossa liberdade, começamos a santificar as fronteiras que eles instituíram depois de dividir nossas terras...
E nos esquecemos de que essas fronteiras eram as do "confinamento solitário" e as da "prisão domiciliar" que eles nos impuseram!

O lamento de Sati‘ al-Husri, provavelmente um dos mais influentes ideólogos do nacionalismo árabe, expõe uma das características mais marcantes da configuração geopolítica do Oriente Médio: povos que existem há milênios na região vivem em fronteiras traçadas há menos de oito décadas, e por imposição de potências externas que, ao desenhá-las, não levaram em consideração seus anseios, suas histórias, suas vidas. A história dos povos árabes, portanto, tem pouco a ver com o resultado cristalizado no mapa contemporâneo. Por outro lado, seria um equívoco imaginar um passado homogêneo e glorioso, um suposto tempo mítico, quando a identidade árabe era plena entre todos os povos que, de alguma forma, participam dessa história. E aqui apenas começa o problema: o que significa ser árabe? Houve algum momento da história em que a identidade árabe foi plenamente realizada sobre um território que abrange "do Golfo ao Atlântico"?
Se houve, terá sido durante os primeiros séculos da expansão islâmica. Mas essa afirmação coloca um problema central: do ponto de vista da ideologia nacionalista, ancorada sobre a ideia laica da identidade nacional - não importa se integralmente baseada numa visão mítica do "povo" -, resulta complicado afirmar que o cimento que mantém coesa, dá sustentação a determinada ideia de nação é a religião.
É claro que, não apenas no "caso árabe", mas, em geral, o componente religioso sempre foi parte importante do discurso da identidade nacional. Na própria Europa, a passagem da cultura oral para a letrada ocorreu graças à revolta de Martinho Lutero contra a Igreja Católica, combinada com a invenção de Gutenberg, que permitiu a impressão de dezenas de milhares de cópias da Bíblia em língua vernácula. Esse movimento está na base do processo de formação da sociedade civil europeia e, paradoxalmente, permitiu o surgimento do Iluminismo, que condenaria a religião ao mundo das sombras. Ou, ainda, basta lembrar que a história da formação e desenvolvimento dos Estados Unidos é profundamente marcada pela presença do fundamentalismo protestante (berço verdadeiro, aliás, do radicalismo religioso, por muitos equivocadamente atribuído ao Islã) e pela ideia de que a América puritana estaria destinada por Deus a ser a "primeira entre as nações".
Mas em nenhum desses casos a religião teve uma centralidade equivalente à verificada na fase islâmica da história dos povos árabes, que, ademais, tornou estranha a ideia de separação das esferas religiosa e pública. Assim, o nacionalismo árabe, para poder subsistir como ideologia, é obrigado a encontrar fora da esfera da religião referências que legitimariam a ideia de uma nação árabe, sob pena de declarar sua própria inutilidade: se o Islã é o alicerce do povo árabe, torna-se superficial, desnecessário e até nocivo qualquer outro discurso legitimador. Como contrapartida, do ponto de vista da lógica do Islã, o nacionalismo árabe é um disparate, uma heresia e prova de "decadência espiritual", nas palavras do importante ideólogo islâmico egípcio Said Qutb, condenado à morte por Nasser, em 1966. Os árabes, em sua perspectiva, não têm nenhum privilégio perante os olhos de Deus, já que o seu "povo escolhido" é a espécie humana em seu conjunto. Essa perspectiva se mantém no mundo islâmico contemporâneo, cujo objetivo é construir a Umma (comunidade mundial de todos os povos).
Do ponto de vista defendido por Qutb, a derrota de 1967, na Guerra dos Seis Dias, só aconteceu porque o apelo nacionalista não foi capaz de mobilizar os povos árabes, por ser estranho à sua formação e à sua história. No longo intervalo histórico, foi o abandono da religião, a tentativa de "importar" modelos alheios à sua cultura que conduziu os povos árabes à decadência. Em termos mais imediatos, limitados à história contemporânea, a fraqueza dos povos árabes e sua impotência diante da instalação do Estado de Israel foi o resultado de uma tentativa desastrada, por parte das próprias lideranças, de olhar para os povos árabes de um ponto de vista externo, adotando as lentes do orientalismo, que rejeitam a religião como algo arcaico, para privilegiar o nacionalismo. Ironicamente, ainda segundo a perspectiva da crítica islâmica, o exemplo mais claro da força que tem a convicção religiosa é a própria constituição do Estado de Israel, criado como instrumento religioso de ataque contra a nação islâmica otomana.
Mas não é possível forçar generalizações ou simplificações contundentes quando se trata de descrever ou criticar o nacionalismo árabe. O mais correto, aliás, seria adotar a expressão "nacionalismos árabes", no plural: as várias correntes nacionalistas árabes, que começaram a se manifestar a partir do final do século XIX, têm as mais distintas origens, formas e conteúdos ideológicos; algumas procuram o diálogo com o Islã, outras declaram-se completamente seculares e avessas à religião, algumas aproximam-se do fascismo, outras do socialismo e outras, ainda, tentam se acomodar nos limites teóricos e políticos do Estado- nação burguês. Além disso, nem todas as correntes nacionalistas árabes surgiram como reação à dominação imperialista ocidental: algumas surgiram já em franca oposição ao decadente Império Otomano. Alguns povos árabes foram submetidos por mais de um século à dominação ocidental direta, ao passo que outros nunca o foram. Constitui-se, enfim, um panorama caleidoscópico de situações e tomadas de posição, das quais o nasserismo foi, provavelmente, apenas a expressão mais forte e nítida.
O impulso definitivo ao surgimento de correntes nacionalistas árabes foi dado pela eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1917), como resultado da convergência de uma série de circunstâncias históricas. Em primeiro lugar, a crise do Império Otomano permitiu uma articulação política entre elites regionais árabes que estavam descontentes com o seu papel subordinado no esquema de dominação imperial. Além disso, minorias árabes não-islâmicas passaram a ver no ocaso do império uma oportunidade de, ao menos, barganhar posições no jogo do poder. Essa perspectiva estimulou o surgimento de movimentos que procuravam construir a ideia de uma cultura árabe não necessariamente islâmica. Finalmente, o colonialismo europeu (França e Grã-Bretanha) estimulou o surgimento de uma oposição nacionalista aos otomanos, dado o seu alinhamento com a Alemanha. Trata-se, aqui, do bem conhecido papel desempenhado por T. E. Lawrence, consagrado pelo filme Lawrence da Arábia (David Lean, 1962), cujas promessas de independência e soberania aos futuros Estados nacionais árabes seriam traídas pelo acordo secreto celebrado, em 16 de maio de 1916, entre Grã-Bretanha (Mark Sykes) e França (François Georges-Picot).
Nos termos do acordo - embrião do processo que desembocaria na criação do Estado de Israel -, o Reino Unido recebeu o controle dos territórios correspondentes, grosso modo, à Jordânia e ao Iraque, bem como uma pequena área em torno de Haifa. A França ganhou o controle do sudeste da Turquia, da Síria, do Líbano e do norte do Iraque. As duas potências ficaram livres para definir as fronteiras dentro daquelas áreas. A Palestina seria colocada sob administração internacional, aguardando consultas com a Itália e a Rússia. A primeira receberia algumas ilhas do Egeu e uma esfera de influência em torno de Izmir, no sudoeste da Anatólia, enquanto a segunda ficaria com a Armênia e partes do Curdistão.
Em 2 de novembro de 1917, o então ministro das relações exteriores britânico, Arthur James Balfour, declarou formalmente, em carta reservada ao barão Walter Rothschild, que o seu governo aprovava a ideia de estabelecer um lar nacional judeu na Palestina. Balfour cedia, assim, às pressões de Chaim Weizmann e Nahum Sokolow, líderes do movimento sionista britânico. Não há uma resposta definitiva sobre os motivos que levaram Londres a adotar tal atitude. Uma das explicações, como vimos, é a religiosa: tratava-se de criar um Estado judeu contra o califado otomano. Outra interpretação sugere que os britânicos estavam interessados em angariar o apoio do poderoso lobby judeu estadunidense para assegurar que Washington entraria na Primeira Guerra contra a Alemanha.
Após a Revolução Russa (1917), Vladimir Ilitch Lênin denunciou as reivindicações da Rússia czarista sobre o Império Otomano e tornou pública uma cópia do Acordo Sykes-Picot (que, até então, permanecia secreto), bem como outros tratados. Os principais termos do acordo foram confirmados pela Conferência inter-aliada de San Remo, em 19-26 de abril de 1920, pelo tratado de Sèvres, em outubro do mesmo ano (quando foi formalizada a presença italiana na Anatólia e a divisão dos territórios árabes) e pelo Conselho da Liga das Nações em 24 de julho de 1922, estabelecendo os mandatos britânico e francês correspondentes às áreas definidas pelo ajuste de 1916.
Na prática, desabava o Império Otomano e no seu lugar implantava-se um novo império franco-britânico. Monarquias e chefes tribais locais tentaram negociar com os novos imperadores os termos mais vantajosos possíveis para a reacomodação geopolítica. Não é o caso, aqui, de reproduzir com detalhes uma história já bastante conhecida, mas apenas de ressaltar que esse processo originou os atuais Estados árabes com suas fronteiras tão arbitrariamente atribuídas pelos colonizadores, segundo acordos não raro espúrios com elites árabes locais e critérios que passaram à margem e ao largo das vontades dos povos. Basta lembrar que, em março de 1921, Winston Churchill, representante máximo do império britânico no Oriente Médio, convocou quarenta "especialistas", que se reuniram no Cairo, para discutir o futuro geopolítico da região. A maioria dos "especialistas" convenceram Churchill de que a melhor estratégia seria criar monarquias árabes que, apoiadas pelas forças britânicas, garantiriam a ordem e o suprimento contínuo de petróleo (preocupação central, desde 1908, quando foram descobertas as grandes reservas iranianas). Assim foi "inventado" o Iraque, cuja "estabilização" causou a morte de 10 mil combatentes árabes que não aceitaram ser enquadrados nas novas fronteiras.
Para governar o Iraque, Londres escolheu Faisal, filho de Hussein bin Ali, o leal e subserviente xerife de Meca. Por um breve período, entre 1919 e 1920, Faisal foi o rei da Grande Síria, mas acabou destronado pela França, que tinha outros planos para a colônia. Abdullah, irmão de Faisal, ganhou de presente a Transjordânia, atual Jordânia. Mas havia uma "pedra no sapato" de Churchill: Ibn Saud, também fiel escudeiro da coroa britânica e poderosa liderança regional, não aceitava submeter-se a Faisal. O jeito foi criar um outro reino para Saud: a Arábia Saudita.
Nas duas décadas seguintes, o desenho do mapa do Oriente Médio seria cristalizado, com a delimitação das fronteiras da Síria e do Líbano, e com a criação do Estado de Israel. Ao mesmo tempo, a região sofreu o impacto da "ocidentalização" da Turquia, sob Mustafá Kemal Ataturk, que procurou aproximar-se da cultura europeia e criar um Estado-nação nos moldes ocidentais. Isso criou um vazio de referências identitárias para os povos árabes, antes propiciadas pelo "guarda-chuva" otomano. Como contrapartida, os povos locais começavam a se inquietar com a chegada de milhares de imigrantes judeus - fluxo estimulado pelas promessas contidas na Declaração Balfour. Finalmente, ideias nacionalistas começaram a percorrer o Oriente Médio, sob o impacto da Revolução Russa de 1917, dos contatos "europeizantes" via Turquia e pelo contato entre culturas permitido pelo Canal de Suez, que possibilitava a circulação de mercadorias, mas também de ideias.
Não por acaso, precisamente no Egito, núcleo mais dinâmico do comércio imperialista via Suez, surgiu o primeiro núcleo da Irmandade Muçulmana, em 1929. Hassan al Banah, seu líder, propunha a rejeição ao colonialismo e aos valores ocidentais, retorno à pureza do Islã, prática do assistencialismo para com os mais pobres, refundação do califado unificado no mundo muçulmano (Umma), sob a autoridade exclusiva do Corão, abolição das instituições implantadas no mundo islâmico pelo Ocidente, com a consequente extinção dos estados árabes criados pelas potências coloniais.
Também nesse contexto surgiram as primeiras tentativas de construir uma nova identidade árabe. Nessa atmosfera política, floresceu o nacionalismo proposto por Sati' al-Husri, nascido em Alepo, em 1879, filho de uma família rica. Al-Husri formou-se na Academia Real de Istambul e trabalhava como professor em setores europeus do Império Otomano, quando travou os primeiros contatos com ideologias nacionalistas. Entre 1910 e 1912, visitou vários países europeus, para conhecer os seus métodos educacionais. Nessa época, aproximou-se do movimento nacionalista turco, obtendo a inspiração para construir o "arabismo". Durante o breve reinado de Faisal na Síria (1919-1920), al-Husri ocupou o cargo de ministro da Educação. Seguiu Faisal para o Iraque, onde foi encarregado de criar e administrar o setor de Educação. Ali teve a oportunidade de amadurecer o seu conceito de nacionalismo árabe, bem como o poder de exercer grande influência sobre uma vasta rede de professores e alunos, incluindo jovens oficiais militares. Foram eles que, em 1941, desfecharam um golpe de Estado para depor a monarquia pró-britânica e instalar um governo favorável ao Eixo nazista, dirigido por Rashid Ali al-Gailani. A monarquia seria logo restaurada e al-Husri deportado para a Síria, junto com dezenas de professores sírios e palestinos que ele havia convidado para lecionar no Iraque.
De volta a Damasco, al-Husri promoveu uma vasta reforma do sistema educacional. Introduziu um currículo que se distanciou do modelo francês e enaltecia valores culturais nacionais. Obviamente, a reforma causou grande confusão, irritação nos franceses e resistência daqueles que haviam se adapatado ao sistema colonial. Em 1947, al-Husri mudou-se para o Cairo, onde assumiu a direção do setor cultural da Liga dos Estados Árabes. Lá permaneceu durante 18 anos, período em que produziu a maior parte de seus escritos. Voltou a Bagdá em 1965, onde morreu, dois anos depois.
Al-Husri tinha uma visão de cultura e nação bastante próxima à dos românticos alemães que foram a fonte de inspiração de Adolf Hitler. Para eles, a nação era o solo sagrado que deveria ser preservado e mantido, ainda que isso significasse o sacrifício pessoal. A liberdade era, sobretudo e antes de mais nada, a liberdade da nação, a supremacia dos valores nacionais, da cultura, da língua, dos costumes e de seus deuses. Era uma ideia quase mágica. A singularidade do regime nazista, a esse respeito, foi precisamente a de unir os mais arcaicos valores nacionais com a mais avançada tecnologia, produzindo o que muitos hoje qualificam de "modernismo reacionário".
Para al-Husri, o idioma é o centro do sentimento nacionalista árabe. Também a sua história multimilenar, da qual o Islã é apenas uma parte - claro que importante, mas apenas uma parte. Em sua perspectiva, foi a grandeza da cultura e da história árabe que permitiu o surgimento do Islã, e não o contrário. Se o Islã fornecia a atmosfera espiritual para o florescimento da cultura árabe, o seu instrumento deveria ser um Estado forte, capaz de impor a obediência e a disciplina, em nome de uma missão mais elevada, a plena realização da nação árabe.
Um dos mais importantes leitores de al-Husri foi Michel Aflaq, criador do Partido Baas. Aflaq nasceu em Damasco, em 1910, numa família de religião cristã grega-ortodoxa, da classe média. Frequentou, em Paris, a Universidade da Sorbonne, no final dos anos 1920 e princípio da década de 1930, onde estudou e debateu as obras de Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Vladimir Lênin e Giuseppe Mazzini, além de ideólogos alemães nacionalistas e fascistas. De volta a Damasco, nos anos 1930, passou a dar aulas e a divulgar ideias nacionalistas revolucionárias - época em que, provavelmente, teve contato com o trabalho de al-Husri.
Aflaq não admitia que as ideias ocidentais tivessem mais importância para a sociedade do que a superior civilização árabe. Em 1940, fundou um clube de discussões, em Damasco, com o objetivo de promover o renascimento (baas) árabe. Em 1947, no contexto dos anos de crise que se seguiram ao final da Segunda Guerra, agravados na região pela criação do Estado de Israel, ele transformou o movimento em partido, conquistando o apoio de segmentos das classes média e baixa, assim como de setores do Exército. Portador de uma mensagem que misturava o nacionalismo árabe com reivindicações socialistas (o socialismo seria um resultado "natural", uma consequência da luta nacionalista) o Baas teve ramificações no Iraque, na Jordânia e no Líbano. Em 1949, Aflaq tornou-se ministro da Educação da Síria, cargo que exerceu até 1952, quando teve que deixar o país por força de um golpe dado pelo coronel Adib Shishakli, voltando em 1954. Em meados da década de 1950, o Baas tinha-se tornado o mais importante partido da Síria, graças em parte à fusão com o Partido Socialista.
Aparentemente, Aflaq conheceu Saddam Hussein em 1958, quando o então jovem oficial iraquiano procurou asilo na Síria, após ter participado da tentativa de assassinato do primeiro-ministro Abdel Karim Qasim. Na ocasião, Husein teria aderido ao Baas. Em 1966, exilado da Síria após perder uma disputa interna no partido, Aflaq deixou o país. Viveu no exílio no Líbano e depois no Brasil. Em 1968, após o golpe de estado que colocou Saddam Hussein no poder, o Iraque passou a ser controlado pelo Baas, e ele foi, então, convidado a viver no Iraque, onde morreu, em 1989.
Ecoando as ideias de al-Husri, Aflaq defendia um nacionalismo que mais se assemelhava a uma força espiritual transcendente. A nação árabe é o ideal aspirado e a próxima fase da história dos povos árabes dispersos. É o seu ponto de culminância. Os árabes deveriam realizar nessa nação a perfeição espiritual e livrar-se das influências nefastas do ocidente. Apesar de cristão, Aflaq acreditava que o Islã fornecia aos árabes "a imagem mais brilhante da sua linguagem e literatura e a parte mais grandiosa da sua história nacional".
O ponto alto do nacionalismo árabe ocorreria na segunda metade dos anos 1950, quando os baasistas promoveram sua aproximação com Gamal Abdel Nasser. Como o Baas, Nasser adotava um discurso nacionalista e socialista. Também falava em revolução, reformas sociais, expulsão do imperialismo do Oriente Médio. E, sobretudo, na unidade da grande nação árabe. Desse encontro entre o Baas e Nasser nasceria a RAU, em 1958, como a primeira grande tentativa de formar a nação pan-árabe.

As limitações do nacionalismo árabe

Se alguma "lição" emerge claramente da história do nacionalismo árabe, é o fato de que ele jamais conseguiu cumprir a sua própria promessa de unificar os povos árabes. Não há uma razão simples para isso: como vimos, há aqueles que acreditam que não há nem nunca houve uma nação árabe, assim como há os religiosos islâmicos, para quem o grande apelo é a construção da Umma, assim como outros pensam tratar-se de uma questão anacrônica, pois a divisão do Oriente Médio em Estados nacionais é um fato, queiramos ou não, e por isso o pan-arabismo já não faz mais sentido. Mas nenhuma dessas formulações consegue esclarecer, de fato, por que em alguns momentos da história o nacionalismo conseguiu mobilizar e até mesmo assegurar a vitória, como foi o caso na nacionalização do Canal de Suez, mas não conseguiu se manter como força capaz de assegurar a coesão e a continuidade do movimento. Não há uma resposta simples, mas justamente a história do maior sucesso do nacionalismo árabe fornece algumas indicações.
A nacionalização do Canal de Suez foi o resultado de um intenso período de manifestações anti-imperialistas que antecedeu a chegada de Nasser ao poder e que, de fato, preparou as condições para o bem-sucedido golpe de julho de 1952. No final da Segunda Guerra Mundial, o império franco-britânico havia dado claros sinais de esgotamento de suas forças. Isso abriu o caminho para a ampla manifestação de sentimentos anti-imperialistas no Oriente Médio, na Ásia (especialmente, na Índia de Gandhi) e na África (incluindo o Magreb). Em Port Said, no Egito, as manifestações de protesto eram organizadas por uma frente ampla de grupos das mais diversas origens, de sindicatos a entidades estudantis, passando por comunistas, socialistas, nacionalistas, camponeses e muçulmanos radicalizados. O principal alvo, obviamente, era a ostensiva presença britânica na zona do canal.
Esse foi o quadro que possibilitou o golpe que derrubou a monarquia, porta-voz dos interesses de Londres. Nasser e os oficiais golpistas foram amparados pelo Movimento Democrático de Libertação Nacional, que incluía grupos comunistas, e também pela Irmandade Islâmica. Entretanto, consumado o golpe, Nasser voltou-se contra os sindicatos de trabalhadores, os grupos de esquerda e contra a Irmandade. Sua justificativa: era necessário organizar o poder centralizado, para impedir que a desordem tomasse conta do país. Foi o pretexto para colocar todos os partidos na ilegalidade, exceto o seu próprio Partido da Libertação (criado em janeiro de 1953). Líderes sindicais foram presos e dois trabalhadores foram enforcados, sob a acusação de terem organizado uma greve na indústria têxtil de Kafr-al-Dawar, perto de Alexandria. Em outubro, Nasser ordenou a dissolução das organizações estudantis e, em janeiro, dos partidos. A Irmandade Muçulmana tornou-se alvo da repressão após uma tentativa de assassiná-lo, em outubro de 1954.
Nasser combinou repressão, cooptação de lideranças populares mediante a oferta de cargos públicos e posições de mando no seu partido, e um discurso reformista (em setembro de 1952, por exemplo, promulgou um decreto de reforma agrária) e anti-imperialista, mobilizando a máquina de propaganda do Estado para promover o culto à sua própria personalidade. No plano externo, Nasser adotou a linha do "não-alinhamento": na Conferência de Bandung, em 1955, declarou que os países árabes deveriam preservar sua própria independência diante das superpotências (Estados Unidos e União Soviética). No mesmo ano, quando os Estados Unidos se recusaram a vender-lhe armas, imediatamente as comprou da Tchecoslováquia, medida que o aproximou mais do bloco soviético e multiplicou as preocupações da Inglaterra quanto ao destino do Canal de Suez.
O ataque combinado de Inglaterra, França e Israel ao Egito foi secretamente acertado em meados de 1956, em reuniões realizadas em Sèvres, nas cercanias de Paris. O sinal seria dado por uma incursão israelense na Península do Sinai. A Inglaterra e a França exigiriam o fim imediato do conflito e a retirada de ambos os exércitos da zona do canal, sabendo que Nasser não poderia fazê-lo, pois isso significaria perder a soberania sobre o Sinai e sobre o Suez. Seria o pretexto para o bombardeio de cidades egípcias e para o desembarque de tropas em Port Said, na entrada do canal. Israel seria regiamente recompensada por sua contribuição: a França assumiu o compromisso de transferir aos israelenses combustível, tecnologia e material para construir reatores nucleares em Dimona. O plano foi colocado em ação em 29 de outubro; seis dias depois, soldados franceses e britânicos tomavam Port Said.
A resistência constitui um dos capítulos mais emocionantes da história contemporânea do Oriente Médio. Desde as primeiras horas da incursão israelense no Sinai, ficou claro que as tropas convencionais egípcias não seriam capazes de barrar os agressores. Nasser teve que, novamente, recorrer à sua antiga base de apoio, por ele próprio colocada na clandestinidade. Foram mobilizadas lideranças comunistas, ativistas sindicais, jovens participantes do movimento estudantil. Apenas na primeira semana após o início do ataque, mais de um milhão de armas de pequeno porte foram distribuídas entre a população, que passou a fazer uma guerra de guerrilha contra os agressores. A força da resistência popular surpreendeu as tropas imperialistas. O total fiasco dos agressores provocou a ira do presidente estadunidense Dwight Eisenhower, que não foi consultado previamente sobre a aventura, e abriu espaço para ameaças de uso de força por Moscou. No quadro da Guerra Fria, o governo britânico não teve alternativa: decretou o cessar-fogo em 6 de novembro.
A vitória egípcia foi celebrada como uma vitória árabe. Todos os povos do Oriente Médio sentiram que sua dignidade fora resgatada. Não é necessário mais do que uma rápida pesquisa pelos jornais da época para comprová-lo. Não só não houve qualquer contradição entre o sentimento nacional egípcio e o dos demais povos, como, ao contrário, Nasser apenas se tornou herói de seu povo quando ele se alçou à categoria de herói de todos os árabes. Tampouco houve choques entre grupos religiosos e não-religiosos. Houve cooperação. E isso não aconteceu simplesmente por efeito dos discursos de Nasser. Aconteceu porque - para, de novo, recorrer a Eric Hobsbawm - a luta travada pelo povo egípcio foi a luta da nação oprimida contra os opressores. Nasser foi vitorioso apesar de Nasser.
Não é a idealização nacionalista que produz e mantém a coesão nacional, mas sim o sentimento de luta contra a opressão. A euforia provocada pela vitória obscureceu o fato de que, não fosse a pronta resposta popular, o edifício institucional nasserista ruiria como um castelo de cartas, sob o impacto do ataque militar imperialista. Mas Nasser jamais entendeu ou aceitou a lição. Nos anos seguintes, manteve o seu estilo personalista, carismático e autoritário, que incluiu planos de erguer um Estado pan-arabista a partir "do alto", mediante acordos de cúpula, como aquele que constituiu a RAU, com a Síria. Exatamente por ter construído o seu governo sobre as fracas bases de seu próprio carisma, e por ter tratado a nação como base de manobra, em proveito próprio, bastou a derrota militar de 1967 para fazer naufragar o seu projeto.
O "caso egípcio", bem longe de ser único, provou-se exemplar. Em todos os outros países árabes onde houve confrontos entre as forças populares e representantes do imperialismo (por exemplo, no vizinho Iraque), as elites locais sempre agiram de acordo com os seus próprios interesses, apenas apelando "à nação árabe" quando isso foi necessário para derrotar seus inimigos, mas procurando manter o movimento de massas sob controle. Jamais faltou, por parte dos povos árabes, a disposição de lutar, combater e derrotar o inimigo, como hoje, aliás, ensinam de forma magnífica e trágica os filhos do Iraque e da Palestina. Como contrapartida, os governos árabes nunca foram até as últimas consequências na via da ruptura com o imperialismo.
A senha de "destruir Israel", nesse contexto, sempre jogou um papel muito útil para a preservação dos regimes árabes autoritários: conquistar uma eventual unidade nacional à custa do "inimigo externo", real ou imaginário, constituiu um jogo quase tão velho quanto a própria humanidade. Com o tempo, graças à iniquidade dos governantes árabes, o discurso nacionalista foi reduzido, praticamente, à negação do direito de Israel à existência.
Apesar de tudo, persiste um sentimento de "ser árabe" que, em termos gerais, descreve os mais de 200 milhões de seres humanos que habitam uma vasta área "do Golfo ao Atlântico", e que não se confunde com o nacionalismo histericamente brandido pelos governantes. É um sentimento construído por milênios de convívio com uma cultura mais ou menos comum e que não pode ser contida ou traduzida nos estreitos limites dos Estados nacionais impostos pelos colonizadores. É um sentimento que, através dos séculos, teima em se expressar, como tão bem traduz o poeta palestino Mahmud Darwich, em seu "Cartão de Identidade":

Escreve! / Sou árabe. (...)
As minhas raízes foram criadas antes do início dos tempos
antes do nascimento das eras,
antes dos pinheiros e das oliveiras,
antes que tivesse nascido a erva. (...)
Escreve!
Sou árabe.
Roubaste os pomares dos meus antepassados
e a terra que eu cultivava com os meus filhos;
não me deixaste nada, apenas estas rochas;
O governo vai tirar-me as rochas, como me disseram?
Escreve, então, no alto da primeira página:
a ninguém odeio, a ninguém roubo.
Mas, se tiver fome,
devorarei a carne do usurpador.
Tome cuidado!
Cuidado com a minha fome,
Cuidado com a minha ira!

 

José Arbex Jr. é professor do Departamento de Jornalismo da PUC-SP.

Notas:

* O presente artigo é uma versão condensada do ensaio publicado na edição 4 (2007) da revista Tiraz., publicação do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe da Universidade de São Paulo.
1 Discurso de nacionalização da Companhia Internacional do Canal de Suez pelo presidente Gamal Abdel Nasser, em 26/7/1956.
2 O Pacto de Bagdá, importante no contexto da Guerra Fria travada entre os blocos soviético e capitalista, tinha como objetivo estratégico combater eventuais influências de Moscou na região. Também procurava evitar situações como a criada, entre 1951 e 1953, pelo então primeiro-ministro nacionalista iraniano Mohamed Mossadegh, que ousou nacionalizar as empresas estrangeiras que exploravam o petróleo em seu país. Mossadegh foi deposto por um golpe articulado pela CIA, em 19 de agosto de 1953.
3 Formalmente, o Egito manteve o nome RAU até a morte de Nasser, em 1971. O nome foi depois alterado para República Árabe do Egito.
4 Crítica semelhante é endereçada aos defensores da restauração de nações formadas pelos povos originários das Américas, como os Incas, os Maias e os Astecas, tema que voltou a ocupar o imaginário político internacional com a vitória do cocalero Evo Morales, na Bolívia (o primeiro índio eleito à presidência do país, em dezembro de 2005), com a prolongada revolta zapatista, no sul do México, e com o movimento bolivariano liderado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

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