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Home >> Revista PUC Viva >> 34, Oriente Médio, abril de 2009 >> Rumo a um novo Oriente Médio?

Rumo a um novo Oriente Médio?

APROPUC-SP

Gershon Knispel

O conflito israelense-palestino não sai da pauta da ordem mundial, apesar de se tratar de um pequeno território estreito, cujas fronteiras naturais são, do lado ocidental, a longa praia do Mediterrâneo, e, do lado oriental, o Rio Jordão. A nascente do rio fica na fronteira com a Síria e o Líbano, no lado norte, e a foz no Mar Morto, que domina o deserto do Neguev. Um comprimento de quase 600 quilômetros, e uma largura média de 50 quilômetros. A sua "cintura", entre o mar e a fronteira demarcada pela ONU, não passa de 18 quilômetros, até a divisa com a Cisjordânia.
Os testemunhos baseados nos relatos documentados, desde os mais antigos de que dispomos, mostram que a Palestina era uma arena de combates entre tribos e outras entidades étnicas, ascendendo e caindo umas atrás das outras. Essas sucessivas invasões geraram o nome "Palestina", que significa nas línguas semíticas "alvo de invasão". Como consta na Bíblia, tribos e povos foram liquidados ou expulsos; sobravam sempre as tribos nômades do deserto, que conseguiram dominar os tsunamis das invasões desde que surgiram as primeiras sociedades humanas.
Como no tribunal de Salomão, um lado falou "tudo é meu" e outro lado falou também "tudo é meu"; o lado mais forte vencia temporariamente, até surgir um novo poder oponente ainda mais forte. Na bela peça de Bertholt Brecht, "O círculo de giz caucasiano", quando o juiz do povo, Etzdack, tinha a tarefa de tomar uma decisão justa nas divergências entre a baronesa, mãe do bebê que abandonou ao fugir do palácio, e a serva, que adotou o menino, o magistrado pegou o giz, desenhou um círculo no chão e pôs o bebê no centro do círculo. Cada litigante puxava o braço de seu lado do bebê, cada vez com mais força; quando a serva sentiu que o bebê ia ser partido em dois, ela largou o seu braço e proclamou: "Prefiro ficar sem o bebê a que ele seja partido em dois". Etzdack decidiu que só a serva merecia ficar com o bebê.
Apesar do fato de o tempo do domínio dos filhos de Israel sobre a Palestina não ter durado mais de 600 anos, e de terem passado 2 mil anos na Diáspora, os delegados do congresso do movimento sionista na Basileia, nos fins do século 19, decidiram desaprovar a proposta do visionário Theodor Herzl, que já estava sentindo as dificuldades de criar o Estado judeu na Palestina, de fundar o novo Estado em Uganda. Os delegados se basearam em que Deus, segundo a Bíblia, tinha outorgado ao povo hebreu a Palestina como a Terra Prometida, numa época em que os judeus estavam ameaçados por pogrons na Diáspora, como o de Kichinev, na Ucrânia.
Em 1898, Herzl fez a sua primeira e última viagem à Palestina, para lá se encontrar com o kaiser Guilherme, da Alemanha, usando-o como mediador junto às autoridades do Império Otomano, que então dominavam a região, para que regulamentassem a imigração judaica. No livro Altneuland ("Nova terra antiga"), que escreveu depois dessa viagem, Herzl documentou o fato de que a Palestina não era, como se pensava entre os judeus da Europa, um deserto abandonado. Ao contrário de terra árida, o que ele encontrou foi um povo florescente, hospitaleiro, que usava vestes dos tempos bíblicos; suas casas brancas, bem escondidas entre as montanhas cobertas de muito verde. Sua alimentação estava adequada ao clima; suas maneiras de se integrarem ao ambiente eram de uma imaginação brilhante.
Escreveu Herzl: "Respeitem esse povo maravilhoso, aprendam os costumes deles, porque eles são muito sábios em lidarem com as tempestades de areia e vento que chegam do deserto". Como era de bom-tom naquela era de visão romântica do colonialismo, Herzl exigiu: "Que vocês levem para eles as novidades tecnológicas, utilizando-as com esse povo que está lá, criando um Estado moderno integrado no ambiente local, mas com os melhores métodos da industrialização, sem esquecer que estamos no Oriente Médio".
Os primeiros colonos judeus foram trazidos com financiamento dos famosos milionários judeus, o Barão de Rothschild e o Barão de Hirsch, nos fins do século 19. Começaram a se propagar como cogumelos depois da chuva. A Organização Sionista começou a instaurar fundos nacionais, como o Keren Hakayemey, para comprar terras dos latifundiários árabes que moravam nas capitais da Europa, os efêndis do Império Otomano. Os trabalhadores do campo árabes, os felás, viram-se expulsos das terras, quando os imigrantes judeus chegaram e passaram a lavrá-las.
À ocupação da Palestina pelo general Allenby, em nome da Inglaterra, em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, derrubando os turcos, seguiu-se a Declaração de Lorde Balfour sobre a intenção do rei da Inglaterra de propiciar aos judeus a criação de um Lar Nacional judaico na região. Essa proposta não ocorreu devido ao bom coração dos ingleses, a cujos olhos os árabes tinham sido aliados do inimigo alemão. Para salvaguardar os interesses do Império Britânico, os ingleses usaram na Palestina, como na Índia e na África, a tática colonial bem conhecida do "divide e impera". Contar com os colonos judeus como "nativos" na Palestina mostrou-se oportuno para os interesses ingleses.
Aumentou o fluxo da imigração judaica, principalmente dos países da Europa Oriental, da Rússia e da Polônia, trazendo a mentalidade de se fechar num gueto, já nos primeiros assentamentos agrários, influenciados pela Revolução de Outubro, com a tendência de criar fatos consumados. Cercavam com um muro um terreno tendo ao centro uma alta caixa-d'água que servia também de torre de vigilância. Os muros chocavam os árabes, que estavam acostumados a tirar as pedras do terreno e a separar com elas, sem muros, as terras de cada um.
O mais grave foi o Projeto Trabalho Hebraico, de David Ben Gurion, com o qual as lideranças sionistas pretendiam mudar o caráter dos judeus, que não tinham na Europa autorização para trabalhar na terra ou como artesãos, sendo obrigados a fazer "negócios de vento" com finanças, chamados de parasitas. Queriam criar uma classe de operários e lavradores que não recusariam nenhum trabalho manual. Os jovens que chegaram da Rússia com uma mentalidade bolchevique julgaram positivo o Projeto do Trabalho Hebraico, de pegar um povo exilado e torná-lo "um povo normal em sua própria terra", mas o projeto, para os árabes, redundou num desastre.
Milhares de árabes camponeses, operários da construção civil e de construção de estradas, viram-se sem trabalho. Não demorou muito para serem criados movimentos árabes palestinos de libertação nacional, tendo ocorrido em 1936 a grande revolta deles - muito mais contra os ocupantes britânicos do que contra os judeus -, que foi esmagada impiedosamente. Simultaneamente começava na Alemanha Nazista a perseguição aos judeus, e judeus alemães partiram em grande número para a Palestina. Quando a Alemanha invadiu a Europa Oriental, começou a executar a "Solução Final da Questão Judaica" (extermínio dos judeus em todos os países ocupados pelos alemães). O número de emigrantes judeus aumentou ainda mais, rumo à Palestina.
A amargura dos palestinos foi crescendo, ao verem sua terra ser tomada pelos judeus como se fosse uma fruta que cai de madura. Como compensação para a liderança árabe frustrada, os britânicos decidiram reduzir bastante o número de novos imigrantes judeus que fugiam do nazismo e encontraram as portas fechadas no mundo inteiro. Agora os judeus é que estavam numa situação desesperadora, com os judeus que restavam na Europa condenados a uma situação desastrosa. Ocorreram grandes manifestações de rua de judeus, até sangrentas, nas principais cidades judaicas da Palestina - Haifa, Tel Aviv, Jerusalém Ocidental. Os três movimentos clandestinos da extrema-direita judaica, a Frente Militar Nacional, os Combatentes pela Libertação de Israel e o Grupo Stern, bombardearam os três quartéis-generais da inteligência militar britânica, o King David Hotel de Jerusalém e os dois centros da polícia inglesa em Jafo e Haifa, destruídos; sob as ruínas se encontraram centenas de soldados e policiais britânicos mortos.
Os ingleses encontraram três membros desses movimentos e os enforcaram numa prisão de Acre. Como vingança, os movimentos direitistas judaicos sequestraram oficiais e sargentos britânicos e os enforcaram em cavernas nas montanhas. Os movimentos clandestinos mais equilibrados, da esquerda militante, como a Haganá urbana e o Palmach dos kibbutzim, formaram-se em grupos paramilitares, cujos comandantes eram ex-soldados e oficiais judeus que haviam servido nas unidades britânicas que combateram os alemães na África e na Europa.
É evidente que também os árabes palestinos começaram a se organizar em grupos armados. Cada lado do conflito chamava o outro de "bandidos", e os ingleses continuaram em seu papel de "divide e impera". Os intelectuais judeus que chegaram da Alemanha antes do início da Segunda Guerra Mundial já encontraram os fatos consumados pelos judeus russos e poloneses, que ignoraram completamente o legado de Herzl de tratar os árabes com o respeito que mereciam. A Aliança de Paz foi formada pelos professores Gershom Shalon, Martin Buber e Isayahu Leibovitz, que tinham sido judeus assimilados na Alemanha, eram abertos e queriam tratar os árabes como aliados na luta contra o colonialismo britânico. Foram acusados de "sonharem acordados".
Escritores, poetas, escultores e pintores, os jovens judeus criadores mais talentosos, fundaram, em meados dos anos 1930, o Movimento Cananeu, virando as costas para os judeus da Diáspora que queriam manter a cultura ocidental, que para esses jovens não poderia ser transplantada para o Oriente Médio. Queriam se enraizar, adotando os costumes de tribos bem mais antigas na região do que as tribos de Israel, como os cananeus, os nabateus, querendo abrir um intercâmbio cultural com os palestinos e estudar profundamente a história e os baixos-relevos desses povos mais antigos. A obra mais conhecida é a do escultor Danziger, que criou a escultura de Nimrod, o mitológico caçador.
O Movimento Cananeu não demorou a despertar a ira dos líderes sionistas, que ameaçaram expulsar seus membros e destruir suas obras, o que paralisou a ação desses jovens. Assim aumentou a influência dos dois lados das frentes de negação, e as tentativas de fundar um Estado binacional se demonstrou uma ilusão.
A manutenção da rigidez do status quo ameaçou tornar eterna a ocupação britânica. Foi a União Soviética a primeira a apoiar a campanha na ONU pela partilha da Palestina em dois Estados para os dois povos em conflito. Isso também não se originou do bom coração dos soviéticos, e sim dos interesses em torno da questão. A liderança judaica na Palestina era vista como socialista, por causa dos assentamentos coletivos dos kibbutzim; do maior sindicato, a Histadrut, famosa no mundo inteiro como instituição igualitária, que dominava as grandes companhias industriais e de construção, nacionalizadas; a escassez de produtos criou um sistema de cupões para garantir a distribuição equitativa dos alimentos.
A ação dos judeus contra a ocupação inglesa da Palestina criou para os soviéticos a imagem de uma cabeça-de-ponte para liderar a luta contra o colonialismo anglo-francês no Oriente Médio. E assim, ainda adolescentes, nos juntamos nesses grupos paramilitares de esquerda, combatendo a causa justa da libertação nacional.
Na madrugada do dia 15 de maio de 1948, quando os últimos soldados do magno rei da Inglaterra saíram pelo porto de Haifa, nos vimos cercados pelos exércitos do rei Faruk do Egito, do rei Abdullah da Transjordânia e pelas divisões do primeiro-ministro iraquiano Nuri Said. Todas essas tropas eram comandadas pelos britânicos e a França colonialista mandou também o exército da Síria invadir o norte da Palestina. Essa foi a última cartada dos ingleses para anular as possibilidades de criar um Estado soberano na região.
Essa invasão dos exércitos que seguiam as ordens da Grã-Bretanha, ainda por cima com o embargo de armas do mundo ocidental para os judeus, deixaram os soldados judeus expostos aos tanques e aviões dos invasores. Esse era o ponto a que os ingleses queriam chegar, esperando que a liderança judaica recuasse, para que a Grã-Bretanha fizesse a mediação do cessar-fogo imediato. Mas, graças às grandes quantidades de armas convencionais, que chegavam por ordem do Kremlin, via Tchecoslováquia, para os israelenses, conseguimos fazer os invasores baterem em retirada.
O cessar-fogo logo foi declarado enquanto a jovem Israel se achou com novas fronteiras, num território 18% maior do que lhe tinha sido reservado pela partilha da ONU em 1946. Milhares de árabes palestinos fugiram para os países árabes vizinhos, com medo de que lhes acontecesse a mesma chacina que fora feita por grupos armados da direita nacional israelense em Kafer Kassem, perto de Jerusalém; a aldeia de pescadores árabes Tantura, perto de Haifa, e outras aldeias de camponeses árabes na Galileia. Humilhados, torturados e massacrados, esses palestinos e seus descendentes estão há mais de 60 anos em campos de refugiados.
A euforia de fazer parte da construção de um país socialista de vanguarda no Oriente Médio não durou muito tempo. A realidade bateu na nossa cara.

A perda das oportunidades de chegar a um acordo de paz

Em 1952, foi dado o golpe da junta militar que derrubou o rei Faruk no Egito, expulso para a Itália. Dominavam a junta os coronéis Nasser e Nagib. Os países colonialistas ficaram mais ameaçados de perderem o controle que mantinham sobre o Oriente Médio. Quando, em 1953, Ben Gurion se demitiu pela primeira vez do cargo de primeiro-ministro israelense, ficou em seu lugar Moshe Sharet. Este aceitou os esforços de intermediários para entrar em negociações de paz com a junta militar egípcia.
Ben Gurion, a partir de seu kibbutz Stek-Boker, no deserto do Negev, usou seus bons contatos com o serviço secreto israelense para formar uma rede de judeus egípcios para fazer atos de sabotagem no Cairo. O grupo escondeu bombas incendiárias em dois cinemas em Alexandria e na Embaixada americana no Cairo, para sabotar as relações da junta egípcia com os Estados Unidos. Treze judeus egípcios do grupo clandestino foram capturados antes que as bombas explodissem; dois foram enforcados, o dr. Moshe Marzuk e Samuel Azar - os outros foram condenados à prisão perpétua. (Foram libertados após o acordo de paz entre Israel e o Egito em 1977).
Moshe Sharet teve de se demitir e Ben Gurion voltou a chefiar o governo. Em 1956 foi celebrada, como o fim de Israel socialista, a aliança com o bloco ocidental. Em outubro desse ano começou a campanha da Guerra do Sinai - nós, as unidades da reserva, fomos chamados imediatamente para nossos quartéis, descendo rumo às fronteiras do Sinai, para nos prepararmos contra a "invasão egípcia"; outra parte foi mandada para o norte. Simultaneamente à nossa invasão, foram mandados ao sul de Suez os nossos paraquedistas; ao lado deles desceram na mesma hora paraquedistas ingleses e franceses, completando o cerco de Suez, fruto de uma manobra dos comandantes dos três exércitos - tudo isso para agir contra a nacionalização pelo Egito do canal de Suez.
Os governantes Eisenhower, dos Estados Unidos, e Kruchtchev, da União Soviética, exigiram a retirada imediata dos israelenses, ingleses e franceses. Acabou o colonialismo inglês e francês e começamos a nos tornar, nós israelenses, os fantoches do imperialismo americano. Forçado pelos Estados Unidos, o governo então trabalhista de Israel, em 1967, repetiu a encenação, montando a farsa da ameaça de invasão por Egito e Síria. Depois de uma mobilização de três semanas, quando todas as unidades da reserva foram chamadas para reforçar o Exército de Israel, começou, na madrugada de 5 de junho de 1967, a blitz comandada pelo general da aviação Ezer Vaitzman, quando todos os nossos aviões destruíram ainda no chão todos os aviões egípcios, sírios e israelenses. Não se passaram três dias e o Sinai ficou completamente ocupado por Israel.
O exército da Jordânia foi aniquilado no dia seguinte e Israel anexou a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, toda habitada por árabes palestinos. No dia 9 de junho, último dia dos combates, o exército de Israel ocupou as colinas sírias do Golã, e assim começou a ocupação da Palestina pelas forças israelenses, o grande erro e o capítulo mais trágico da trajetória de Israel.
A euforia que tomou conta da comunidade de Israel depois da "vitória" deu força para o início da propagação da atmosfera messiânica. Os movimentos religiosos se tornaram fundamentalistas e se uniram aos partidos da extrema-direita. Apesar de esses grupos fundamentalistas e direitistas estarem ainda na oposição, o governo trabalhista se rendeu e permitiu a colonização judaica nos territórios ocupados. Isso levou à decadência completa do Partido Trabalhista. Nós não tínhamos mais ilusões.
No dia 28 de setembro de 1967, três meses depois da guerra, nós, doze artistas plásticos, poetas, escritores, atores e professores, editamos um anúncio no jornal Haaretz, o mais importante de Israel, para dizer:

O nosso direito de nos defender não nos dá o direito de oprimir outros. A ocupação obriga à revolta. A revolta leva ao esmagamento do povo revoltado. O esmagamento leva ao terror, que leva ao contraterror. As vítimas do terror são em geral pessoas inocentes. A manutenção dos territórios ocupados nos torna um povo de assassinos a serem assassinados. Vamos devolver os territórios ocupados imediatamente!
Mas a euforia inebriante deixou embriagadas todas as camadas da população israelense, e ninguém quis aderir a esse abaixo-assinado, hoje pendurado em milhares de casas em Israel como um ícone. As tendências de fazer Israel se expandir cegaram os olhos dos israelenses, que passaram a não enxergar os vizinhos palestinos. Edifícios de 14 andares dos judeus passaram a esconder os amontoados de casinhas brancas dos palestinos.
Não demorou para começar a luta palestina de libertação nacional, com atos de sabotagem dentro e fora de Israel, que chegaram ao ponto mais alto na Olimpíada de Munique em 1972, nos sequestros de aviões, e nos homens-bomba palestinos desesperados com a injustiça cometida contra seu povo. Essa luta provocou a reação duríssima do exército de Israel, que atingiu o ponto mais alto no bombardeio para matar líderes palestinos, atingindo indiscriminadamente milhares de vítimas civis palestinas.
O círculo vicioso se ampliava mais e mais. Nosso anúncio se tornou uma realidade brutal. A 8 de dezembro de 1987, foi desencadeado o levante popular palestino da Intifada, contra a ocupação, levante que não só surpreendeu os israelenses, mas também o quartel-general da Organização para a Libertação da Palestina - OLP, que se instalou na Tunísia após ter sido expulsa do Líbano, na primeira guerra do Líbano provocada em 1982 pelo líder israelense Ariel Sharon, culpado depois de ter ajudado cristãos japoneses a cometerem as chacinas de Sabra e Chatila.
A direção da OLP entendeu enfim que, até esse ponto, não havia conseguido fazer nada contra a terrível ocupação. Observando que o levante começou sem a ajuda dos líderes palestinos, estes concluíram que seria a hora certa de entrar nas negociações de Oslo, juntamente com a delegação secreta de Israel. As autoridades de Israel, afinal, também sentiram o peso da ameaça da Intifada. O fruto dos entendimentos de Oslo foi o encontro, em Camp David, em 1994, de Arafat e Itzhak Rabin, com intermediação do presidente Bill Clinton, em que os dois lados concordaram com a tese de dois Estados para dois povos, com fronteiras aceitas por ambas as partes.
Mas a grande campanha de calúnias contra Rabin, com a iniciativa da Frente da Negação comandada por Ariel Sharon e Bibi Netanyahu, que imprimiu cartazes enormes de Rabin com a cafia igual à de Arafat, com a legenda "Traidor", culminou com o assassínio de Rabin, a 4 de novembro de 1995, por um jovem fanático religioso israelense.
Imediatamente se espalhou a segunda Intifada, depois que Ariel Sharon, acompanhado de 500 soldados e policiais, fez a provocação da invasão da mesquita de El Aqsa, a principal mesquita da Palestina, em Jerusalém Oriental. Centenas de homens-bomba levaram com eles milhares de vítimas civis israelenses sem culpa.
Para evitar a entrada de homens-bomba, o governo de Israel decidiu construir um muro diabólico de 8 metros de altura, serpenteando ao longo de centenas de quilômetros dentro dos territórios ocupados, isolando completamente os palestinos e os separando de seus terrenos de cultivos, com os israelenses instalando centenas de barreiras que dificultam a circulação dos palestinos em suas aldeias.
A tática que Israel utiliza, de destruir com explosões as casas dos familiares dos homens-bomba, visa forçar os palestinos a saírem dos territórios ocupados. Tudo isso levou os palestinos a aperfeiçoarem seus meios de combate, usando os foguetes Kassam, feitos em casa, para superar a altura de 8 metros do muro. Também construíram centenas de túneis subterrâneos sob casas precárias nos campos de refugiados, dentro de Gaza e outros campos, para garantir a importação de alimentos e armas, enfrentado o cerco já antigo de Israel.
Isso provocou recentemente a guerra de Gaza, quando o exército de Israel deixou 1.500 mortos, a maioria mulheres e crianças e civis, enquanto os mortos israelenses nessa aventura sangrenta chegaram a 13, entre eles sete soldados, dos quais quatro mortos por "fogo amigo". Os alvos escolhidos por Israel não foram atingidos - nem foram interrompidos os ataques com os foguetes Kassam, não foi libertado o soldado israelense capturado por militantes árabes, e o prestígio do Hamas aumentou, como havia aumentado o prestígio do Hizbollah na segunda guerra do Líbano.
Apesar da superioridade militar de Israel, que conta com as armas mais sofisticadas do mundo, o Hizbollah festejou o resultado da segunda guerra do Líbano e o Hamas festejou o resultado da guerra de Gaza. Do lado de Israel, isso resultou na vitória eleitoral dos direitistas mais extremados, com a entrada no governo até dos partidários de Lieberman, o atual ministro das Relações Exteriores israelense, que prega a "transferência" dos árabes, ou seja, a limpeza étnica.
As mudanças demográficas que a população de Israel sofreu nas últimas décadas resultaram na presença de mais de um milhão de imigrantes russos, que chegaram depois da queda da União Soviética. O crescimento natural acelerado da população ortodoxa judaica, cujas famílias têm muitas crianças, e o número assustador de jovens israelenses laicos que voltam para a religião, e a emigração de número crescente de jovens israelenses, que saem do país depois de completarem o serviço militar - tudo isso dificulta as condições para mudar a política racista que hoje domina Israel. E para manter a doutrina aceita por Rabin, de dois Estados para dois povos.
Com a vitória de Obama, a questão da legitimização dos dois Estados para dois povos se tornou unânime em todos os países do mundo. Os Estados Unidos, que antes sempre vetavam as resoluções da ONU contra a ocupação da Palestina por Israel, agora é quase certo que vão mudar esse hábito. Isso seria o único jeito de forçar Israel a utilizar o mesmo princípio de devolver os territórios ocupados em troca da paz, que foi aceito primeiro pelo Egito e agora por todas as nações árabes, por proposta da Arábia Saudita. O consenso internacional vai tornar o governo de Israel e o Hamas alvos de sanções internacionais, como aconteceu com a África do Sul do apartheid.
As autoridades da Negação, tanto em Israel como do Hamas, terão de deixar o seu lugar para direções realistas, que vão ter a força de pilotar seus navios para que não encalhem, ou, pior, afundem no mar para sempre e desapareçam da Palestina, como centenas de tribos e povos que ao longo de milênios chegaram e desapareceram como ventos do deserto. A única dúvida é se Obama conseguirá cumprir o seu próprio projeto.

Gershon Knispel é artista plástico e, também, o autor das ilustrações deste escrito.

Nota:

A redação final deste artigo recebeu a colaboração do jornalista Renato Pompeu.

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