2009 − Nova realidade no Oriente Médio?
Ao longo dos últimos meses instalaram-se novos governos em Israel e nos Estados Unidos e no momento em que estas linhas são escritas realizam-se eleições no Líbano e no Irã.
O novo primeiro-ministro israelense já deixou claro que sua prioridade é a questão iraniana e não será surpresa se houver um esfriamento na relação entre Israel e os Estados Unidos assim que se iniciarem os contatos norte-americanos com Teerã. O Irã já deu claros sinais de que, se Washington abrir mão de estabelecer como condição prévia para o início das conversações a interrupção do enriquecimento de urânio, os primeiros contatos diretos em 30 anos poderão frutificar. Barack Obama parece entender que, ao contrário da postura beligerante de seu antecessor, o modelo diplomático adotado no tratamento com a Líbia de Gaddafi pode ser mais uma vez reproduzido. Mas o preço de uma abordagem da ameaça nuclear iraniana nos moldes propostos pelos europeus e de uma avaliação errônea pode ser outra crise como a que agora se esboça com a Coreia do Norte.
As eleições no Líbano, vencidas pela coalizão governista apoiada pelos Estados Unidos, deram um morno recado ao Hizballah, mas mantiveram a tensão existente no sistema, garantindo que, ainda que os extremistas não se tornem governo, continuarão a ser a força armada mais poderosa do país, controlando com exclusividade uma importante área do país e trazendo o Irã à fronteira norte de Israel. E no Irã, apesar da grande movimentação e alarde do candidato moderado, não é possível determinar o resultado das eleições para presidente e assim vislumbrar uma mudança, no mínimo do discurso, que permita uma diminuição da tensão na região. Não há dúvida, entretanto, que o projeto hegemônico do Irã não depende da figura presidencial; vem da época do Xá e é controlado pelos aiatolás, herdeiros de Khomeini.
Mas o evento mais importante do período foi sem dúvida a visita de Barack Obama ao Egito e o discurso que lá proferiu.
Entre março de 2008 e maio de 2009 - do final da cadência do presidente George Bush ao início da cadência do presidente Barack Obama, o índice de aprovação do governo norte-americano aumentou 19% junto à população egípcia. É certo que, mesmo tendo quadruplicado, a aprovação atingiu somente 25%, o que significa que três quartos da população do Egito, o principal aliado dos Estados Unidos no mundo árabe, opõe-se à política externa norte-americana. E a situação é ainda pior em outros países árabes: 17% de aprovação na Arábia Saudita e 11% na Síria, de acordo com a última pesquisa do Instituto Gallup.1 É essa percepção do mundo árabe que estava por trás do tom do discurso de Obama no Cairo, no início de junho de 2009.
Não há, certamente, uma eliminação do atrito acumulado com o mundo árabe ao longo dos oito anos do governo Bush; mas talvez haja um início de degelo. E a história demonstra que todo presidente americano que tentou aproximar-se dos países árabes o fez à custa de pressões por concessões israelenses, sem viés partidário, fosse ele Einsenhower, Nixon, Carter ou Bush (o pai). É o caminho mais fácil e mais efetivo para conquistar os corações e mentes da população árabe. Por outro lado, os mesmos exemplos demonstram que Israel só concordou em ceder às pressões de seu principal aliado quando obteve garantias a sua segurança.
O discurso de Obama certamente atentou para essas duas realidades que, dependendo da forma como são aplicadas, podem ou não ser excludentes.
O discurso no Cairo foi feito para aproveitar uma janela de oportunidade que demonstra que, após anos ignorando os discursos de Bush, o mundo árabe está disposto a escutar. É mais um capítulo que se segue às aberturas feitas através da entrevista à televisão árabe, a saudação de Ano-Novo ao povo iraniano, e o discurso ao parlamento turco.
O conflito israelo-palestino
Segundo a pesquisa do World Public Opinion2, mesmo entre os americanos que simpatizam mais com Israel do que com os palestinos, 64% se opõem à construção de assentamentos na Cisjordânia. Mas somente 45% consideram que a solução do conflito deveria ter alta prioridade na agenda norte-americana de política externa. Essa percepção choca-se frontalmente com as recomendações do relatório Baker-Hamilton3 sobre a guerra no Iraque, rejeitado pelo governo Bush, que concluiu que "os Estados Unidos não poderão alcançar seus objetivos no Oriente Médio se não tratarem diretamente do conflito israelo-palestino". Da mesma opinião é o general David Petraeus4, comandante do CENTCOM, o Comando Central dos Estados Unidos, que cobre as áreas do Golfo Pérsico e da Ásia Central. Segundo ele, "a resolução do conflito israelo-palestino diminuiria a ameaça a soldados americanos na região e eliminaria os argumentos de vários países e de grupos como o Hizballah. A questão palestina é central, e sua solução facilitaria o trabalho nos 20 países da região onde estão estacionadas tropas americanas, muitos deles no mundo islâmico". Mas se a oposição à ampliação dos assentamentos tornar-se o elemento crucial na relação entre Israel e os Estados Unidos, conforme apontado no discurso de Obama, a nova liderança israelense terá de lidar com as tensões internas em sua coalizão e esta pode não resistir. Atender às exigências norte-americanas pode ser insustentável para o atual governo israelense, refém dos grupos religiosos e de direita.
A questão que ficou após o discurso de Obama é a mesma que já havia sido levantada antes em relação à definição de "congelamento" dos assentamentos. Continua nebulosa a interpretação relativa ao crescimento vegetativo, à localização "dentro ou fora" do muro, e ao que ficou acordado entre o presidente Bush e o ex-primeiro-ministro Ariel Sharon no tocante às "novas realidades demográficas", entendidas pelos israelenses como um reconhecimento da impossibilidade de retirar da Cisjordânia os mais de 300 mil colonos lá instalados desde 1967 (excluindo-se os que vivem na parte leste de Jerusalém). Israel foi mencionado no contexto das profundas ligações entre os dois países, mas não como o aliado estratégico na guerra contra o terror que o caracterizava durante o governo Bush.
Aparentemente Obama, que antes do Egito esteve na Arábia Saudita, não recebeu nenhum respaldo entusiástico da monarquia saudita para promover seu plano de paz, já que não houve qualquer proposta pragmática para fazê-lo avançar. Assim como não houve qualquer menção aos únicos resultados efetivamente obtidos sob auspício norte-americano, os acordos de paz entre Israel e o Egito e entre Israel a Jordânia.
A aparente pressão sobre Israel foi o que mais chamou a atenção no discurso de Obama. Mas essa pressão terá de ser exercida também sobre os palestinos para que haja qualquer avanço nas negociações. Os palestinos estão pagando o preço de anos de corrupção e da recusa de Arafat de capitalizar os avanços obtidos através da mediação do presidente Clinton. O fracasso no controle das forças de segurança (derivado em grande parte da corrupção e da consolidação de "feudos" no seio da sociedade palestina) foi fundamental para a vitória do Hamas nas eleições legislativas e para sua tomada de poder na Faixa de Gaza após a retirada das tropas e colonos israelenses do território.
Nenhum dos lados sabe qual a solução, ainda que ambos tenham bem claro que os principais problemas mantiveram-se imutáveis ao longo dos últimos vinte anos. Nenhuma liderança palestina coerente chegaria à mesa de negociações exigindo o retorno dos refugiados e seus descendentes a Israel, assim como Israel não exigirá compensação aos países árabes pelos bens dos 800 mil judeus expulsos de seus lares após a criação do Estado de Israel em 1948. O desenho da nova fronteira depende de ajustes marginais, onde a totalidade da área em discussão não chega a 1%. Se houver disposição para obter um acordo, as propostas de troca de território e correções de fronteira certamente não representarão obstáculo significativo.
De ambos os lados as lideranças estão divididas. O "campo da paz" em Israel perdeu espaço, com parcelas cada vez maiores da sociedade israelense apoiando a direita como reação à escalada de violência. Suas propostas de ceder aos palestinos chocam-se com os resultados das retiradas unilaterais do Líbano e de Gaza que, segundo a direita, levaram ao fortalecimento do Hizballah e do Hamas. Do lado palestino, a Autoridade Palestina mantém um frágil controle da Cisjordânia, altamente dependente de forças de segurança alinhadas com Israel e treinadas pela União Europeia. Qualquer indício de apoio israelense transforma-se em um peso para o atual governo palestino, com a pecha de "colaboracionismo". Na Faixa de Gaza, após o erro de cálculo que resultou no confronto do início deste ano, o Hamas mantém relativa calma, tentando evitar um cerco também por parte do Egito e buscando rearmar-se de todas as formas. Navios no Mediterrâneo e ao menos um comboio no Sudão foram interceptados com armas que se dirigiam para a Faixa de Gaza. Se forem corretas as declarações atribuídas ao líder do Hamas em Gaza, apontando para uma abertura após o discurso de Obama, talvez seja possível encontrar algum elemento comum entre o Hamas, o Fatah e representantes do pragmatismo israelense.
O que é certo, e a história já demonstrou, é a impossibilidade de se impor um acordo. Nenhuma pressão dos Estados Unidos terá sucesso se as partes não estiverem dispostas a conversar.
O Irã e a questão nuclear
A questão nuclear, talvez a mais premente no momento, tendo em vista os recentes eventos na Coreia do Norte e a tímida reação norte-americana, foi abordada de forma inócua, fazendo menção a uma possível corrida armamentista nuclear, mas apresentando como objetivo utópico a total eliminação de armas atômicas. Uma mão foi estendida ao Irã através do reconhecimento da responsabilidade dos Estados Unidos no golpe que derrubou o governo de Mossadegh em 1953, e da proposta de deixar para trás antigas desavenças. Não há dúvida de que os Estados Unidos dependem do Irã para manter a estabilidade na região, das margens do Mediterrâneo até a Ásia Central. Ações do Hizballah no Egito, no Líbano, e nos territórios ocupados por Israel, o apoio a suicidas xiitas no Iraque, a ameaça nuclear e balística e até o apoio ao Taleban, seu inimigo natural, são instrumentos que o Irã pode utilizar para tornar mais complicada, talvez impossível, a atuação dos Estados Unidos nessa área vital para seus interesses. Sem contar com a cooperação da Rússia, que vê no Irã um elemento tático de pressão, os Estados Unidos estão em uma difícil situação, lutando simultaneamente em várias frentes.
O Irã conta com o apoio da Rússia para manter seu programa nuclear, e os interesses chineses no acesso ao petróleo iraniano opõem-se à tentativa norte-americana de impor sanções ao Irã. Por outro lado, se optarem por uma abordagem de conciliação, os Estados Unidos poderão oferecer ao Irã a integração ao projeto Nabucco, o óleo-gasoduto de 3 mil quilômetros projetado para levar o petróleo do Mar Cáspio até a Áustria, via Turquia e evitando o território russo. O gás iraniano serviria para diminuir a dependência da Europa Ocidental do suprimento russo, foco de tensões entre os Estados Unidos e seus aliados europeus desde o auge da Guerra Fria.
Como o envolvimento dos Estados Unidos no Iraque não se encerrará no futuro próximo, mesmo que o grosso das tropas seja retirado no prazo anunciado, deverá haver uma intensificação da presença militar na região do Golfo Pérsico, com os países do Conselho de Cooperação do Golfo; estes poderão solicitar uma cobertura explícita do guarda-chuva nuclear americano, caso o programa nuclear iraniano não seja interrompido.
Mais a leste, o principal problema que os estrategistas norte-americanos enfrentam é a ressurgência do Taleban na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Apesar de sua derrota no pós-11/9, o Taleban manteve seu controle em amplas áreas rurais do Afeganistão, deixando somente o controle das áreas urbanas para o novo governo eleito. São os interesses comuns entre os serviços de inteligência do Paquistão e os grupos concentrados no Waziristão que representam uma ameaça aos Estados Unidos. O Afeganistão foi considerado, desde o final da Guerra Fria, a profundidade estratégica de que o Paquistão necessita em seu confronto contra a Índia, e as forças que os Estados Unidos querem combater são vistas como um dos braços armados na luta pela recuperação da Caxemira. Como solucionar todos esses problemas sem hostilizar o Paquistão, o Irã, a Rússia e a China?
O Oriente Médio representa um dos maiores desafios para o novo governo norte-americano. Mas erra quem assume que o conflito israelo-palestino é a chave para todos os males da região. Os países árabes estão divididos entre conservadores e radicais, xiitas e sunitas, e têm todos interesses específicos, que muitas vezes utilizam a causa palestina em proveito próprio. O Hizballah, que lutou contra a ocupação israelense no Líbano e adquiriu legitimidade como defensor da causa libanesa, perdeu o rumo quando passou a defender a causa palestina com a qual não tem nenhuma afinidade a não ser o ódio por Israel. E o Irã só vê na defesa dos interesses palestinos mais um instrumento para desestabilizar a região. O grande desafio para os Estados Unidos está na estabilização da Ásia Central, impedindo o renascimento de um Afeganistão falido, ou o surgimento de um Paquistão radical de posse de armas nucleares.
Esperemos que o idealismo de Obama não venha a substituir a utópica proposta de democratização do governo Bush. Pv
Samuel Feldberg é graduado em Ciência Política e História pela Universidade de Tel Aviv; Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo; Coordenador do módulo Holocausto e antissemitismo do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP; Co-coordenador da área temática Oriente Médio, do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP; Professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco.
Notas
1 http://www.gallup.com/poll/118940/Approval-Leadership-Arab-Countries.aspx?CSTS=alert - Acessado em 7/6/2009.
2 http://www.worldpublicopinion.org/pipa/articles/brunitedstatescanadara/604.php?nid=&id=&pnt=604 - Acessado em 7/6/2009.
3 http://www.usip.org/isg/iraq_study_group_report/report/1206/iraq_study_group_report.pdf - Acessado em 7/6/2009.
4 http://www.daralhayat.com/portalarticlendah/22899 - Acessado em 7/6/2009.
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