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Home >> Revista PUC Viva >> 34, Oriente Médio, abril de 2009 >> Estado de Israel e a luta palestina: origens e perspectivas

Estado de Israel e a luta palestina: origens e perspectivas

APROPUC-SP
Simone Ishibashi

Existe uma campanha amplamente difundida nos meios de comunicação de que todos aqueles que de alguma maneira se opõem à política do Estado de Israel estariam assumindo uma postura antissemita. Assim, de acordo com essa visão, defender o povo palestino contra os ataques do Estado sionista seria o equivalente a ficar ao lado dos "terroristas" contra os "civilizados". Essa propaganda, fortemente disseminada e aprofundada durante os anos Bush, segue viva. Isso se mostrou de maneira ainda mais dramática diante da ofensiva desferida pelo Estado de Israel à Faixa de Gaza em dezembro de 2008, que terminou deixando o saldo de 1.400 mortos e uma infinidade de feridos, inclusive vítimas de armas químicas como o fósforo branco. Entretanto, apesar da brutalidade, a ofensiva de Israel sobre Gaza suscitou pouca resposta da chamada comunidade internacional. Torna-se patente a complacência com que as potências trataram o massacre promovido pelo Estado de Israel, limitando-se na melhor das hipóteses a apelos verbais para que cessasse a ofensiva. Após seu fim, mesmo tendo sido provado que o Estado de Israel utilizou armas proibidas e cometeu inúmeros crimes de guerra contra a população palestina, nenhuma sanção ou medida foi tomada.
Isso mostra claramente que todas as noções de direitos internacionais, justiça internacional e a própria atuação de organismos como a ONU cedem lugar à realidade de que jamais se questionam as diretrizes políticas das grandes potências e de seus aliados, como Israel, ainda que isso custe a vida de milhares de pessoas. Hoje, a política norte-americana de Barack Obama - que se calou durante a ofensiva de Israel sobre Gaza, alegando não ser o "presidente" em exercício, muito embora não se tenha calado durante os atentados em Mumbai meses antes, que condenou veementemente - é marcada pelo objetivo de recompor a localização norte-americana no mundo, profundamente abalada pelos anos Bush. Para atingir tal objetivo, Obama tenta costurar acordos pragmáticos com o Irã que lhe permitam pacificar o Iraque. Evidentemente, essa política norte-americana pode ser um novo foco de tensão com Israel.
Por sua vez, as eleições realizadas no Estado de Israel no início deste ano levaram ao poder as forças de ultradireita de Benjamin Netanyahu e seu Yisrael Beitenu, partido que realizou uma campanha profundamente antiárabe, defendendo tirar a cidadania dos árabes que vivem em Israel, 20% da população total de Israel, caso não jurassem lealdade ao Estado judeu. No governo nega reverter a política de expansão territorial pela via da proliferação dos assentamentos israelenses sobre o que restou do território palestino, e recusa também a política de dois Estados, um israelense e outro palestino. A política de "dois Estados" foi o eixo norteador de toda a atuação do imperialismo norte-americano e dos governos israelenses predecessores. Ao contrário de resolver o problema palestino, essa política condenaria os palestinos a viver numa ficção de estado, sem unidade territorial, condições econômicas de se auto-gerir e, acima de tudo, a renunciar a reaver os territórios dos quais foram expulsos após 1947, quando se oficializou em votação na ONU a criação do Estado de Israel, ocupando 63% do território palestino. Esse processo culminou na expulsão de 8 milhões de palestinos, que hoje vivem em campos de refugiados mundo afora, sem direito a retornar a sua terra de origem. Os 63% de terra palestina ocupada pelos judeus se ampliaram para 80% após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Um "Estado" palestino em 20% de seu território histórico significa concretamente negar aos milhões de refugiados o direito ao retorno, e legitimar a ocupação colonialista de Israel. Hoje, a Faixa de Gaza é um território de apenas 362 km2, que concentra amontoados cerca de 1,5 milhão de palestinos que sofrem com um desemprego maior que 35% e com um índice de pobreza absoluta de mais de 35%. "Dois Estados" significa perpetuar essa realidade.
Não há, portanto, como defender essa política. Porém, a linha atual defendida pelo governo israelense anuncia novos conflitos e o endurecimento da repressão ao povo palestino. E, pela primeira vez, pode haver contradições maiores entre os interesses dos Estados Unidos, que seguem defendendo os acordos costurados anteriormente e a política de criação de um "Estado" palestino no território hoje ocupado pelos campos de refugiados, e de Israel que busca expandir ainda mais seu território e lançar mão do uso de seu poder bélico para assegurar seus interesses.
Tendo essa situação como pano de fundo, faz-se necessário resgatar alguns elementos históricos sobre a formação do Estado de Israel, que infelizmente tem atenção quase nula nos cursos de História e das Ciências Humanas em geral, o que termina favorecendo justamente a interessada propaganda de igualar palestinos a terroristas e seus defensores em "antissemitas". Esconde-se, em primeiro lugar, que a Palestina nunca foi uma "terra sem povo" a ser ocupada por um "povo sem terra", o que fez com que a criação do Estado de Israel só tenha podido se dar sobre a expulsão e a opressão do povo palestino.
O objetivo deste pequeno artigo é lançar luz sobre o processo de formação do Estado de Israel, que em verdade foi a resposta dada pelo imperialismo à questão judia como uma saída reacionária após a Segunda Guerra Mundial. Tentaremos assim compreender o avanço do movimento sionista e suas relações com o imperialismo, de modo a desconstruir a ideologia que trata os que se levantam contra a opressão e o assassinato do povo palestino como "antissemitas". Uma solução capaz de trazer a paz duradoura entre palestinos e judeus passa pelo fim das bases do Estado de Israel.

O movimento sionista no início do século XX

Com a desagregação do feudalismo e a ascensão do capitalismo nos países da Europa e da América, a maioria dos judeus se encontrava assimilada aos países em que havia se estabelecido. O conceito de Sion (Jerusalém) tinha importância apenas como referência religiosa. A maioria dos judeus rechaçava a ideia da formação de um Estado judaico. Pelo contrário, um amplo espectro de setores judeus em diversos países como a Rússia e a Alemanha simpatizava com o comunismo e passara a integrar os partidos socialistas, defendendo o princípio do internacionalismo. Grandes dirigentes revolucionários como Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo são parte dessa geração.
Assim, o movimento sionista, que passa a se organizar mais a partir da segunda metade do século XIX e início do XX sob a direção de Teodor Herzl era, antes da Segunda Guerra Mundial, minoritário entre os judeus. E sempre esteve ligado ao imperialismo e aos setores mais altos da classe burguesa judia, distanciando-se das aspirações do povo judeu. Prova disso é o fato de que Teodor Herzl e os demais dirigentes sionistas não hesitaram em firmar pactos com personagens antissemitas confessos, como o ministro czarista Von Plewbe, que prometeu em nome do regime czarista no início do século XX financiar uma caravana em direção à Palestina sob a condição de que os sionistas convencessem os judeus a abandonar os partidos operários e a sua luta contra o governo. Assim, os dirigentes sionistas trocavam favores e cordialidades com o governo czarista, que mantinha uma posição bastante indulgente, como mínimo, em relação à matança indiscriminada de judeus, os pogroms, responsáveis por um feroz antissemitismo na Europa do Leste.
O banqueiro judeu de origem alemã, Rotschild, temia que essa onda antissemita pusesse em perigo a integração dos judeus da Europa ocidental e com essa finalidade começou a financiar os sionistas que buscavam o apoio das potências centrais em seu afã de colonizar a Palestina, objetivo que obteve apoio da Inglaterra e dos Estados Unidos, que buscavam consolidar uma plataforma no Oriente Médio de onde pudessem projetar seus interesses sobre a região. Mas foi após a Segunda Guerra Mundial que o movimento sionista obteve maior respaldo, com o apoio do imperialismo norte-americano e das demais potências, que se utilizaram da justa aspiração do povo judeu de viver em segurança após a tragédia de mais de 6 milhões de judeus assassinados, para dar uma saída reacionária a essa demanda.

A fundação do estado sionista

Tanto a Inglaterra quanto os Estados Unidos permitiram que desde 1933 Hitler perseguisse os judeus, além de terem fechado suas fronteiras aos milhares de refugiados que escapavam buscando asilo. A Inglaterra, que naquele momento detinha o poder político e militar sobre o território palestino, fez um acordo com colonos sionistas para garantir que estes pudessem expulsar os palestinos de suas terras, confiscar seus bens e obrigar, antes mesmo da votação da ONU, a expulsão de mais de 1 milhão e meio de pessoas. Essa política respondia à orientação, ratificada na reunião sionista de Baltimore em 1942, de estabelecer na Palestina um Estado essencialmente judeu. Tal resolução fora previamente acordada com a Inglaterra em 1937, quando ocorreu o Congresso Sionista de Zurique. Novamente a direção do movimento sionista se lança a pactuar com o maior perseguidor do povo judeu, renunciando por vezes a combater o próprio nazismo para barganhar com o governo de Hitler a imigração de setores de judeus alemães à Palestina, sem se importar com a sorte do conjunto dos judeus europeus.
Assim, financiados pelo imperialismo britânico e depois pelo norte-americano, os sionistas se utilizaram de diversas medidas para favorecer a imigração judia para o território palestino, incluindo imensas facilidades econômicas. A administração britânica na Palestina lançou um decreto que concedia a propriedade da terra a todo judeu que construísse uma simples torre, estimulando a ocupação de terras pelos judeus e a imigração, e consequentemente a expulsão e expropriação das terras palestinas. Assim, as aldeias palestinas foram cortadas por um número cada vez maior de propriedades judias, enquanto se formavam bandos paramilitares de sionistas que se dedicavam a aterrorizar os camponeses palestinos protagonizando diversos crimes, como o massacre de Kibiya em 1936, Deir Yassin em 1948 etc. Esses bandos foram comandados por Ariel Sharon e Menahem Begin, formando a base do Estado sionista e de seus atuais partidos políticos. Um exemplo é Zeev Jabotinksy, principal ideólogo do movimento de direita sionismo revisionista e posteriormente pai ideológico do Likud, nunca escondeu sua admiração por Mussolini, de quem fora amigo pessoal e a quem o ditador chamava de "cidadão fascista". Em uma de suas declarações mais famosas, afirma: "Que queremos nós? Queremos um império judeu, igual como a Itália".
Em votação realizada em 1947, a ONU legitimou a ocupação colonial, dando início à escalada de expulsão e repressão dos palestinos. Utilizando-se do horror gerado pela política de extermínio dos judeus na Segunda Guerra Mundial, o imperialismo cria no Oriente Médio o encrave que hoje conhecemos como Israel. Um ano mais tarde essa política obteve o apoio da URSS de Stálin, que reconheceu na ONU a "legitimidade" de Israel e desarmou a resistência dos partidos comunistas árabes.

A modo de conclusão

Desse modo, o imperialismo resolveu a questão judaica à "sua maneira": de minoria oprimida a transformou em uma maioria opressora, responsável pela expropriação das terras palestinas, dezenas de milhares de presos políticos, milhões de palestinos exilados. Assim se forjou um Estado-teocrático e discriminatório a todos aqueles que não professam a religião judia, fundado na negação do direito democrático elementar aos palestinos de se constituir como povo. Tal Estado só pode existir até hoje graças ao apoio do imperialismo norte-americano, e ao seu estado de guerra permanente sobre os povos árabes, tal como se deu na Guerra dos Seis Dias, na ofensiva sobre o Líbano em 2006 e no recente massacre ao povo de Gaza em dezembro de 2008. Trata-se, portanto, de um Estado de cidadãos-soldados que se direitiza cada vez mais, e que sobrevive em um regime de apartheid, em que 20% da população constituída de árabes-israelenses não tem sequer os mesmos direitos formais que os judeus. Por outro lado, há que subverter as bases do Estado sionista mais profundamente, rompendo as amplas diferenças de classe que o compõem.
Enquanto a última ofensiva sobre Gaza mostrou a falsidade da ideia de que burguesia sionista seria uma "civilização adiantada" e colonizadora no Oriente Médio, a geração mais proeminente de seus políticos encontra-se completamente corroída pela corrupção. Mesmo sua forte economia, cujo PIB se situa na 18ª colocação mundial, avança aprofundando as contradições. Isso porque se dá graças a uma intensa exploração dos trabalhadores, e aprofundando uma desigualdade social impressionante. Um milhão e meio de israelenses, de uma população total de sete milhões, vivem abaixo da linha da pobreza, enquanto 40% da receita das 500 maiores empresas do país estão nas mãos de 19 famílias. Assim, vê-se que o Estado de Israel se sustenta sobre uma dupla base: opressão dos palestinos e árabes, e superexploração de sua força de trabalho.
Trata-se, portanto, de um Estado fundado sobre a opressão e a injustiça em relação aos povos da região, e sobre os seus trabalhadores no plano interno. A legítima aspiração de uma paz justa e democrática entre judeus e árabes, e a realização plena e efetiva do direito de autodeterminação do movimento nacional palestino exigem destruir as bases desse Estado. Os judeus solidários com a causa dos povos oprimidos devem repudiar a política do governo israelense de endurecer a ofensiva sobre o povo palestino, e se colocar em defesa de suas demandas. Tal como demonstra a própria criação do Estado de Israel, nenhuma saída progressiva pode ser dada pelo imperialismo à legítima aspiração dos povos oprimidos de viverem em paz.
Ao contrário dos que defendem que uma solução pacífica viria da paz negociada pelos organismos internacionais comandados pelo imperialismo, como a ONU, ou da política de "dois Estados", que condenaria o povo palestino a ter que viver num estado fictício, sem nenhuma unidade territorial, sem reverter de maneira qualitativa a miséria a que hoje são submetidos, além de legitimar a invasão israelense e a presença do imperialismo na região, dizemos que só a derrocada do Estado de Israel e sua classe dominante é que pode abrir uma nova perspectiva para a justa demanda do povo palestino.
Entretanto, para que isso se concretize, é preciso que a resistência palestina transborde os limites da estratégia de guerrilhas do Hamas e se transforme num levantamento de todo o povo palestino, que hoje resiste corajosamente aos tanques blindados de Israel com pedras e coquetéis molotov. Defendemos os militantes da resistência palestina frente ao Estado sionista, mas dizemos que é necessário superar a política de constituição de um estado teocrático defendida por direções como o Hamas e o Hezbollah. Essa estratégia não só liquida liberdades democráticas básicas, como oculta as profundas contradições de classe das sociedades islâmicas, impedindo que a classe trabalhadora tome a frente do processo na luta contra o imperialismo, e por uma política realmente independente. É preciso combater a ofensiva assassina de Israel mantendo a mais profunda independência das posições vergonhosas da burguesia árabe, que tem na cúpula do Fatah um dramático exemplo. Só transformando a resistência numa profunda guerra de libertação nacional contra a dominação israelense e imperialista, e unindo os trabalhadores e as massas de oprimidos árabes, é que se poderá apontar uma nova perspectiva, abrindo o caminho para a emergência de uma Palestina socialista, laica e não-racista, onde possam conviver em paz trabalhadores árabes e judeus.


Simone Ishibashi é diretora da revista Estratégia Internacional Brasil e membro da Liga Estratégia Revolucionária.

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