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Home >> Revista PUC Viva >> 34, Oriente Médio, abril de 2009 >> Gaza, as eleições em Israel e a resistência política*

Gaza, as eleições em Israel e a resistência política*

APROPUC-SP

ARTIGO 1
Gaza: O genocídio não destruiu a resistência palestina

kalid Almair e Tariq Kader

Ao longo de 22 dias as forças armadas sionistas, com sua força aérea, mísseis de artilharia, utilizando sem escrúpulos armas proibidas pelas convenções de Genebra - como as bombas com fósforo branco -, arrasaram a Faixa de Gaza. Assassinaram 1.285 habitantes. Destes, 111 eram mulheres e 280 eram crianças. Bombardearam ambulâncias, escolas, hospitais, mesquitas, prédios da ONU.
Um verdadeiro genocídio foi aplicado implacavelmente à luz do dia pelo Estado racista, mas sem conseguir acabar com a resistência. A barbárie israelense na Faixa de Gaza com todos os bilhões de dólares e todos os sistemas sofisticados do exército sionista não foi suficiente para derrotar o povo palestino, que luta por sua sobrevivência. Apesar de conseguir arrasar o território, o resultado de fato foi uma derrota política para Israel, pois não conseguiu terminar com a resistência e seu caráter apareceu como nunca antes para as populações de todo o mundo. Foi uma verdadeira virada.
Uma violenta onda de repúdio tomou conta das capitais europeias. A mobilização internacional golpeou fortemente o Estado de Israel. O discurso "Israel é a única democracia do Oriente Médio" caiu por terra de vez. Israel, que já vinha perdendo toda sua aura de "democrático", "posto avançado da civilização", perdeu de vez o sursis que ainda tinha, utilizando a recordação do holocausto nazista e do genocídio de 6 milhões de judeus. Já não tem mais a boa vontade que havia conseguido desde sua criação com a extensa utilização do Holocausto sofrido pelos judeus para justificar suas atrocidades. Os sionistas terão grande dificuldade para defender-se perante qualquer plateia depois que o mundo contemplou o horror que produziram. Os milhões que se mobilizaram não voltarão a ser neutros perante o genocídio que foi praticado contra o povo palestino.

Os primeiros protestos

Ainda que a tática israelense fosse aproveitar o período de festas de final de ano para arrasar Gaza, os primeiros protestos de massa ocorreram já nos primeiros dias. Nos dias 28 e 29 de dezembro, Líbano, Egito, Jordânia, Turquia, Síria e Bahrein viram grandes mobilizações, algumas chegando a dezenas de milhares de pessoas.
Nos dias seguintes, as manifestações surgiam em cidades espanholas, francesas, norte-americanas, latino-americanas e asiáticas. Em Londres a contagem chegou a 50 mil. Em Nova York, a mídia registrou um bloco composto de judeus ortodoxos deplorando a ação israelense.
Na Jordânia e no Egito, a polícia recebeu ordens de seus governos, aliados de Israel, para reprimir as mobilizações. Na Cisjordânia, relatos por e-mail chegavam aos ativistas brasileiros detalhando os métodos policialescos dos grupos de Abu Mazen, do Fatah, para infiltrar agentes provocadores nas passeatas. Seu objetivo era dar motivos para a intervenção da polícia do Fatah, que foi corrompida e treinada por Israel.
As dificuldades, entretanto, não evitaram as mobilizações. Também a intensa campanha da mídia para responsabilizar o Hamas pela guerra não surtiu o efeito esperado, pois os manifestantes levavam cartazes e distribuíam panfletos que apontavam o Estado de Israel como o verdadeiro terrorista. Eram comuns nos atos ao redor do mundo todo as bandeiras em que a estrela de davi era substituída pela suástica nazista, expressando claramente a real herança política do Estado de Israel. Do mesmo modo, cartazes e falas comparavam Gaza com o Gueto de Varsóvia, e colocavam os habitantes de Gaza como as vítimas de um novo e mais prolongado holocausto. Com todas essas demonstrações, a mobilização popular ia ganhando mais adeptos e levando às consciências dos trabalhadores uma mensagem de solidariedade para com os palestinos, e desmascarando Israel.

ARTIGO 2
Israel: as eleições depois do massacre em Gaza confirmam sua natureza racista e genocida

Tariq Kader e Indra Habash

A eleição de Israel tirou as dúvidas de quem ainda tinha alguma ilusão sobre a possibilidade de uma reforma interna de Israel e de que alguma força moderada pudesse salvar as propostas de "paz" dos dois Estados. Os vencedores da eleição são uma variação de correntes de ultradireita, algumas abertamente fascistas e racistas. Demonstrou-se existir um acordo general entre os judeus israelenses, com exceção de alguns poucos indivíduos ou grupos. Vários dos grupos ou indivíduos que advogam contra a limpeza étnica são ameaçados de punição ou eliminação, o que faz com que alguns deles tenham preferido viver no autoexílio, como o professor Ilan Pappé, que recebeu ameaças de morte e foi obrigado a renunciar ao cargo de catedrático de Ciência Política na Universidade de Haifa, e a deixar o país.
As camisetas usadas pelos soldados sionistas com inscrições que advogam abertamente matar mulheres grávidas palestinas para, segundo sua inscrição, eliminar dois com um só tiro, são a expressão mais acabada da barbárie nazista imperante no Estado de Israel.
Benjamin Netanyahu, herdeiro dos terroristas de extrema direita do Irgun e da gangue Stern, formou um governo com a participação de Israel Beitenu (Israel nossa casa), abertamente racista e a favor da expulsão dos palestinos e da exclusão da cidadania para os árabes que vivem no território desde 1948. O partido Beitenu de Lieberman se descreve como "um partido nacional com a meta de seguir o corajoso caminho de Zev Jabotinsky" - nada mais, nada menos que o fundador do revisionismo sionista e da organização paramilitar israelense Irgun, responsável pelos ataques a bomba ao Hotel King David em Jerusalém, em 1946 (sim, Israel foi quem primeiro se utilizou de terrorismo na região, hoje aprimorado para o terrorismo de Estado) e do massacre de Deir Yassin em 1948. Netanyahu, por sua vez, reiterou que vai continuar a política de expansão das colônias judaicas nos TPOs (Territórios Palestinos Ocupados) dos governos de Ariel Sharon e Ehud Olmert. Também já declarou que vai estimular "áreas econômicas palestinas" e nem sequer o simulacro de Estado acordado em Oslo e ansiado por Abbas será permitido.
Os partidos israelenses que seriam pretensamente mais democráticos, Meretz e outros, tidos pela imprensa ocidental como de centro ou centro-esquerda, não têm praticamente eleitores. Os únicos partidos que questionam até certo ponto o status racista têm sua base entre os árabes israelenses, cerca de 20% da população. Nesta eleição, esses partidos chegaram a ter seu direito de concorrer suspenso e de última hora puderam concorrer, devido a uma sentença da Corte Suprema. Essa situação levou a que aproximadamente a metade dos eleitores árabes não comparecesse às urnas.

Quem governa Israel

Para resumir, o eleitorado israelense escolheu um Knesset (parlamento israelense) novo cujos membros, em sua ampla maioria, são fascistas autênticos, como o Likud de Netanyahu, e muitos deles, como Israel Beitenu, exigem abertamente a limpeza étnica dos não-judeus. Outros apelam para o genocídio contra a comunidade palestina.
A seguinte síntese das ideias dos partidos ganhadores pode esclarecer o perfil do novo Knesset:
• Os palestinos devem ser mantidos sob a mais cruel repressão.
• Caso sigam insistindo em resistir à ocupação, devem ser expulsos.
• O "direito a defender-se" de Israel autoriza-o a violar o direito à vida de centenas de milhares de palestinos aos quais massacra e a praticar o terrorismo de Estado.
Segundo a versão enganosa da mídia, essa direitização seria compensada pela entrada dos trabalhistas no governo. Os trabalhistas, ainda apresentados pela mídia internacional como de centro-esquerda, são os mesmos que comandaram o massacre de Gaza através de seu ministro Ehud Barak. O trabalhismo serviu para tentar disfarçar a natureza do Estado de Israel, que ele dirigiu por mais de 40 anos Agora, aos 61 anos da criação desse Estado, o sionismo "de esquerda" já não tem mais espaço para postular-se aos olhos do mundo como alternativa diferenciada e "pacifista". Sua derrota patética e a perda até mesmo do 3º lugar para Israel Beitenu demonstram que, para o eleitorado israelense, se é necessário defender o caráter racista do Estado, é melhor escolher quem não mede as palavras e diz abertamente que é necessário ir ainda mais fundo na limpeza étnica.
Obama continua a sustentar e armar Israel, mas quer manter a política enganosa dos dois Estados e mostrar uma cara mais negociadora
Esses mesmos hipócritas encabeçados por Barack, depois de algumas barganhas, se dispuseram a colaborar com os fascistas do Likud. Por trás dessa disposição de Netanyahu e a colaboração pronta dos trabalhistas, está a pressão do governo Obama, ansioso em apresentar uma cara mais dócil para os assassinos sionistas. Afinal, em sua recente visita, a secretária de Estado Hillary Clinton fez questão de reafirmar o "leal compromisso" dos Estados Unidos com a segurança de Israel. E continua a sustentar a todo custo o regime nazi de apartheid, que possui centenas de ogivas nucleares e tem um dos exércitos mais fortes do mundo, com a desculpa de que a segurança de sua população civil está ameaçada pelos foguetes caseiros de Gaza. Mas não teve uma palavra sequer para o direito à vida dos palestinos, nem mesmo das mulheres e crianças massacradas em Gaza - afinal, até as armas usadas por Israel foram fornecidas pelo governo Bush e continuam a ser pelo novo governo. Obama, inclusive, declarou que vai trabalhar com qualquer governo que o povo de Israel escolha, ou seja, mesmo com esses nazistas declarados, mas se recusa a conversar com o governo eleito pelos palestinos, encabeçado pelo Hamas, pois "não reconhece Israel".
Em maio, a visita de Netanyahu colocou nos jornais a discussão entre Obama e Netanyahu. Mas é bom não se deixar enganar: tratava-se de discussão tática. Obama queria convencer Netanyahu de que, diante da resistência palestina e do isolamento crescente de Israel, seria melhor adotar a prática tradicional de trabalhistas e do Kadima, ou seja, falar em "processo de paz", em Estado palestino, enquanto continuam o roubo de terras palestinas e a limpeza étnica. E apesar de não tê-lo convencido até agora a disfarçar sua prática genocida com a cortina de fumaça dos "dois Estados" como faziam os trabalhistas e o Kadima, Obama mantém todo o apoio militar e econômico, que é vital para a manutenção de Israel e para que ele possa continuar sua prática genocida.

ARTIGO 3
Egito articula uma negociação para retroceder
Hamas não pode cair no canto da negociação que visa a rendição

Tariq Kader

O Hamas tem sido perseguido pelo imperialismo a serviço do Estado de Israel e sua política genocida não por ser "terrorista", como eles dizem, nem por ser uma direção fundamentalista religiosa. O problema reside em que, ao manter em seu programa o chamado à destruição de Israel e sua denúncia dos Acordos de Oslo, somado ao seu papel na segunda Intifada, tem colocado um obstáculo à traição do Fatah.
Isso é crucial para que se entendam os motivos por que Israel e Estados Unidos se negaram a qualquer concessão, não aceitaram sua vitória eleitoral e trataram de isolá-lo, enquanto apoiam com tudo o Fatah e estimulam Abbas e sua gente a persegui-lo e a tentar golpes como o fracassado de 2007.
Não deve haver dúvida em nenhum revolucionário de que, em Gaza ou em qualquer combate de Palestina contra Israel e o imperialismo, se deve estar no campo militar do Hamas, ainda que sem lhe dar apoio político. Mas ao mesmo tempo em que defendemos esse campo e rechaçamos a tentativa de isolar e esmagar Gaza e o Hamas através dos governos imperialistas - sejam de direita ou de "esquerda" - da União Europeia, temos que dizer que está em marcha uma política tão perigosa quanto a outra: a de impor pela via da negociação o que não foi possível pela via das armas. Afinal, apesar do terrível número de mortes e vítimas do ataque genocida, Israel não pôde desarmar a resistência, nem mesmo obrigar o Hamas a devolver o soldado Galit, cativo há 3 anos.
Por isso, está em curso uma negociação encabeçada pelo Egito, que é um governo capacho do imperialismo. Essa negociação, que conta com o apoio do governo Obama, concentra-se em exigir do Hamas que aceite entregar ou "compartilhar" com a ANP colaboracionista de Abbas o controle das fronteiras em troca de uma trégua. Parte dessa política é uma pseudorrecomposição de um governo de unidade nacional, a ser compartilhada por todas as forças políticas. O cinismo de Abbas o levou a propor dividir o controle em Gaza, sem mexer uma vírgula na Cisjordânia, que continuaria totalmente controlada pelos esbirros de Abbas.
É preocupante que, embora não tenha aceito tal absurdo, a direção do Hamas tenha declarado aceitar a manutenção do Fatah no controle da ANP em um possível "governo de unidade nacional".
A unidade de que os palestinos necessitam é a unidade da resistência, de todos os lutadores, independentemente de sua origem e filiação política, não a unidade entre os defensores da causa e os traidores que entregaram até os mapas dos locais dos túneis em Gaza para facilitar o trabalho dos sionistas assassinos. O que os palestinos necessitam é um chamado a uma política de unir os trabalhadores e o povo de Gaza com as massas da Cisjordânia com essa perspectiva da resistência e a desconhecer a ANP colaboracionista. As negociações para o acordo entre o Hamas e o Fatah vão na contramão dessa necessidade e permitem aos colaboracionistas uma recuperação, a qual vão usar novamente contra a resistência e o próprio Hamas assim que possam.

A esquerda palestina

Os partidos comunistas da região sempre estiveram comprometidos pelo apoio da ex-URSS à partilha da Palestina, à criação de Israel e à tese dos dois Estados. Mas também as outras organizações que se reivindicam marxistas vieram sofrendo uma transformação e mudando sua estratégia desde a libertação nacional de toda a Palestina para "os dois Estados". Essa constatação vale com diferentes ritmos para a Frente Democrática para a Libertação da Palestina e a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). A FDLP foi pioneira em propor "etapas" na luta de libertação. Isso preparou o caminho para concessões estratégicas que eles consideravam "etapas necessárias" na luta.
A FPLP, cuja postura reivindicava o fim do Estado de Israel e que em um período anterior da luta estava na primeira linha da resistência, algum tempo depois também passou a aceitar na prática partir das teses das "etapas" e dos "dois Estados" em sua linha política oficial.
As organizações que tradicionalmente representaram a esquerda entre os palestinos tiveram uma posição equivocada desde a formação da ANP após os Acordos de Oslo. Essa política fazia com que as organizações de esquerda se comportassem como uma espécie de oposição de sua majestade nos marcos do processo de Oslo e de conformação da ANP, aceitando a autoridade do Fatah. Por isso foram perdendo apoio na base da população palestina, e esse espaço acabou ocupado em grande parte pelas correntes islâmicas, como Hamas ou Jihad. Os islamistas, que insistiam na libertação de toda a Palestina e na negativa de reconhecer a legitimidade da entidade sionista, e que mantiveram a luta de resistência armada, foram ganhando força diante deles.
Esse papel da esquerda tradicional ficou ainda mais nefasto quando Abbas, já convertido em agente direto do imperialismo e do sionismo, tentou dar um golpe após a eleição que dera a vitória ao Hamas um ano antes. Esse golpe foi orquestrado em associação com Israel e com a supervisão da CIA, mas fracassou, e as forças do Fatah foram expulsas de Gaza. No entanto, a esquerda palestina passou a chamar à unidade, como se se tratasse de uma briga entre forças da resistência, como se fossem todos igualmente responsáveis, Fatah e Hamas.
Ainda hoje, em vez de saudar a ação que levou a expulsar os agentes de Gaza, essas organizações mantêm uma posição de considerar ambos os lados "divisionistas" e chamar à unidade com elas. O principal dirigente da Frente Democrática de Libertação da Palestina, Nayef Hawatmeh, em entrevista recente ao jornal Gara, do país basco, declarou: "o diálogo que se levou a efeito no Egito é consequência do golpe militar do movimento Hamas, que provocou a separação de Gaza e Cisjordânia. Portanto, a luta é para recuperar a unidade do povo, da resistência e do território palestino. Nós estamos participando ativamente no diálogo, e nesta última reunião se chegou a um estancamento, em 2 de abril, pela intransigência de ambos, mas sobretudo do Hamas, que não quer retroceder em seu controle sobre a Faixa de Gaza". Ou seja, forças que se dizem "de esquerda" continuam a falar em uma unidade de todas as correntes para um "governo de unidade nacional", aí incluídos os agentes do imperialismo e do sionismo. Seria como se na Segunda Guerra Mundial a resistência francesa buscasse uma unidade com os colaboracionistas de Vichy para fazer um governo em comum na França ocupada pelos nazistas; ou se, no Vietnã, a Frente de Libertação Nacional vietcongue buscasse um acordo com o governo títere sustentado pelos norte-americanos em Saigon. Seria como se se exigisse da resistência no Vietnã do Sul que dividisse o controle de alguma zona libertada com aquele governo títere dos generais a soldo do imperialismo.
O que é o governo Abbas senão a direção dos agentes apoiados e pagos pelo imperialismo para controlar e reprimir a resistência a serviço do projeto dos ocupantes? Para não deixar margem a dúvidas, Abbas acabou de nomear um governo encabeçado novamente pelo funcionário do Banco Mundial Salam Fayad, homem de confiança do imperialismo e odiado pelas massas na Cisjordânia e em Gaza, e só aceita o acordo pela unidade se conseguir impor uma força de segurança de 15 mil homens para atuar em Gaza.
Por tudo isso, buscar a unidade com o traidor Abbas e exigir do Hamas que aceite as exigências do ditador egípcio Mubarak e dos Estados Unidos de recompor as forças de segurança unificadas sob a autoridade do "novo governo unificado" com o Fatah à cabeça é uma política que em vez de unir forças para resistir, como dizem seus defensores, desarma a resistência e facilita a tarefa dos traidores da causa palestina!


Kalid Almair, Tariq Kader e Indra Habash são colaboradores do jornal Al Baian.

Nota
*Artigos do jornal Al Baian.

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