Ocupação invisível
Ministro da Defesa de Israel durante a chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967 - quando o Estado sionista anexou Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, além da síria Golã e do egípcio Sinai -, Moshe Dayan teria afirmado à época que a poesia da palestina Fadwa Tuqan era mais subversiva que dez atentados. Fala que demonstraria a preocupação de que, por intermédio da comunicação e da cultura, se quebrasse o cerco militar e se chegasse aos corações e mentes das pessoas, nas mais diversas partes do mundo. Assim, seria importante abafar as vozes da resistência.
Silenciá-las sempre fez parte da política sionista. Afinal, palavras poderiam desmontar um dos grandes mitos criados por essa ideologia: o de que a Palestina era uma "terra sem povo para um povo sem terra". Durante muito tempo, a propaganda oficial que serviu para apoiar o projeto sionista, de constituição de um Estado judeu naquelas terras, prevaleceu. Os mais de 800 mil palestinos árabes expulsos em 1948, quando da criação de Israel - a nakba (catástrofe) para essa população nativa - e as cerca de 500 aldeias destruídas permaneceram na invisibilidade. Sessenta e um anos depois, a existência de palestinos, uma "verdade inconveniente" à manutenção do status quo, não pode mais ser negada. Sem dúvida, sua brava resistência, diante da quarta potência bélica do planeta, tem papel fundamental nisso. O desafio agora é mudar a imagem construída, de que, como todos os "orientais", os palestinos constituem um povo atrasado, irracional, afeito à violência por natureza e que, portanto, deve ser temido e dominado. Do outro lado da ponte, estão os "ocidentais", civilizados, pacíficos, lógicos, cuja missão é levar a "democracia" aos primeiros. Denunciada pelo escritor palestino Edward Said em seu livro Orientalismo, essa visão predomina no discurso midiático acerca do mundo árabe - e dos muçulmanos, cujo universo é bem mais amplo (estimativas dão conta de que são 1 bilhão em todo o globo). Com isso, embora nos dias atuais a questão palestina esteja sempre na pauta do noticiário internacional, não tem sido mais que uma ilustre desconhecida ao cidadão comum.
O ICArabe (Instituto da Cultura Árabe) tem atuado para mudar esse panorama. Com esse intuito, realizou recentemente o curso "A história da Palestina e os desafios da atualidade", na PUC-SP, em parceria com essa instituição e com a Boitempo Editorial. Ações como essa têm sido um caminho para desconstruir estereótipos. Com filmes inéditos em exibição até 7 de junho, a mostra "Imagens do Oriente", em sua terceira edição, também vem ao encontro dessa proposta. Através da linguagem do cinema, a diversidade e a riqueza da milenar cultura árabe são apresentadas ao público, em contraposição à imagem distorcida de que a região é absolutamente homogênea e seus povos não passam de bárbaros.
Batalha pelas mentes
Um olhar crítico sobre a cobertura da mídia brasileira acerca da questão não deixa dúvidas de que esse modelo é reproduzido no País. Não por acaso. A ideologia por trás da notícia está, por exemplo, na origem da própria TV Globo, que em 1966 se fortaleceu mediante acordo obscuro com o conservador grupo estadunidense Time-Life - o qual lhe permitiu o monopólio do mercado e definiu o padrão da informação que seria veiculado em seus telejornais. A estratégia era clara: ganhar a batalha pelas mentes. Para tanto, a programação procurou sempre manter a população alienada e com baixa autoestima. Adormecida, a arma da crítica não ameaçaria o status quo. Segundo o documentário "Peace, propaganda and the promised land - U.S. media & the Israeli-Palestinian Conflict" (em português, "Terra, paz e propaganda - a mídia dos EUA e o conflito israelo-palestino"), feito pela Media Education Foundation, a campanha de relações públicas é a segunda frente de batalha do Estado de Israel, ao lado da militar. Vencer a guerra também no campo da informação, portanto, é parte integrante da estratégia sionista para manter e expandir a ocupação em território palestino.
Antiga fábrica de mitos, Hollywood cumpriu e cumpre importante papel nesse contexto. Em suas produções cinematográficas, os árabes geralmente são os terroristas, homens-bomba e opressores. São os vilões, diante dos mocinhos "ocidentais", patriotas e amantes da democracia. Em nome dessa ideologia, em momentos decisivos da história contemporânea - como os ataques às Torres Gêmeas nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 -, intercalar o noticiário com filmes do gênero e mesmo desenhos animados foi opção deliberada.
O quadro de concentração da mídia tem viabilizado esse discurso hegemônico global. Segundo levantamento feito pelo Epcom (Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação) - divulgado pela organização do 1º Encontro Paulista pela Democratização da Comunicação e Cultura, realizado em outubro último, em São Paulo -, apenas seis redes privadas nacionais de televisão aberta e seus 138 grupos regionais afiliados controlavam, em 2002, 667 veículos de comunicação. O amplo campo de influência dessas redes se capilarizava por 294 canais VHF, que englobavam mais de 90% das emissoras nacionais, somadas a 15 UHF, 122 rádios AM, 184 rádios FM e 50 jornais diários. É o oligopólio da informação.
Omissão e distorção
Esse é o pano de fundo em que se realiza a cobertura internacional dos principais veículos de comunicação. Como consequência, no caso palestino, é praxe a omissão de fatos históricos imprescindíveis para se entender a conjuntura, a informação fragmentada, a notícia como espetáculo e a falácia da mera "reação desproporcional" por parte de Israel. Na ofensiva contra Gaza no apagar das luzes de 2008 e início deste ano, esse foi o tom dominante nas reportagens - de que o Estado sionista estaria respondendo ao lançamento de foguetes por parte do Hamas e, portanto, apenas se defendendo. O que obscureceu a verdade. A ocupação criminosa, que rouba os direitos humanos elementares de homens, mulheres e crianças palestinos e espreme 1,5 milhão deles naquela faixa de pouco mais de 350 quilômetros quadrados, foi mantida praticamente na invisibilidade.
Recurso utilizado para tanto foi noticiar aquele acontecimento não como o que de fato foi - um massacre da população civil de Gaza - mas sim como uma guerra entre duas forças iguais. Como não se podia simplesmente omitir o que acontecia, haja vista que a Internet vazou o cerco às informações, a grande imprensa recorreu ao engodo da imparcialidade para nivelar Israel e os palestinos. O cerne da questão - a ocupação sionista - continua fora do alcance dos olhos da grande massa brasileira. Com isso, a "guerra" em Gaza foi tratada como mais uma na região, e não como um triste capítulo da nakba palestina.
Na linha de autodefesa, as vítimas foram responsabilizadas por sua tragédia. A mídia noticiou largamente que o começo da ofensiva sionista se deu devido ao rompimento do cessar-fogo pelo Hamas, enquanto, como divulgado no circuito de comunicação alternativo, comprovadamente quem iniciou a investida foi Israel, ainda em novembro de 2008, seguindo um plano traçado em meados do mesmo ano - portanto, pouco depois de acordada trégua entre as partes.
Outra confusão bastante comum é taxar a resistência - direito reconhecido pelas Nações Unidas - de terrorismo. Em seu livro Eu vi Ramallah, o poeta palestino Mourid Barghouti denuncia a tática: "Eis os israelenses ocupando nossas casas como vítimas! Apresentam-nos como assassinos!... Suas casas construídas sobre as nossas declaram, com dignidade ímpar, sua predisposição de ‘compreender' nosso hobby estranho de morar em campos espalhados nas terras dos deuses e das moscas! Como se nós tivéssemos pedido a eles que nos expulsassem de nossas casas e rogado para que enviassem seus bulldozers para destruí-las diante de nossos olhos!"
Distorcer os fatos tem sido uma constante na batalha por corações e mentes. Há poucos dias, a grande mídia brasileira noticiava a declaração do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sobre Jerusalém como a capital indivisível dos judeus e que deveria assim ser preservada para que se mantivesse o livre acesso aos seguidores das três religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo). Não aparecia na mesma reportagem a informação de que Israel ocupou a parte leste da cidade ilegalmente em 1967, segundo a própria ONU, e que sua retirada dali é condição sine qua non para o avanço em direção a uma paz justa e duradoura. Também não se mencionou que muitos palestinos são impedidos de entrar em Jerusalém Oriental. E que a não-devolução da "cidade velha" a estes tem sido entrave nas negociações.
Sobre essas reuniões, aliás, tem-se cultivado o mito da oferta generosa. Sempre que alguma "proposta de paz" é divulgada, a grande imprensa corre a anunciá-la como solução. Contudo, conforme o discurso predominante, não será levada a cabo porque os palestinos não estão dispostos a ceder em suas exigências. A realidade é bem outra: o principal interlocutor, os Estados Unidos, e a potência ocupante nunca apresentaram as mínimas condições para a solução da questão palestina. De bantustões à la apartheid na África do Sul à "autonomia limitada" para a população local nos territórios, as propostas mostram uma indisposição à desocupação.
Ademais, um dos pontos considerados pela lei internacional como direito inalienável não tem frequentado as negociações: o direito de retorno. São 8 milhões de palestinos refugiados no mundo, a maior população deslocada na atualidade, mantidos praticamente na marginalidade - portanto, fora da arena midiática. Assim se pereniza a produção global de excluídos, a disfunção mais gritante do capitalismo e a dimensão mais espetacular da expansão do Ocidente, nas palavras do sociólogo Zygmunt Baumman, afirmadas em seu livro Identidade. Para manter o distanciamento do público desses cidadãos "rejeitados", em geral a grande imprensa promove sua desumanização e a normalização do horror. Assim, as vítimas palestinas, quando muito, são transformadas apenas em um número.
Para complicar, qualquer crítica ao Estado de Israel é logo alardeada como antissemitismo, o que está longe de ser verdade. Antissemitismo é o preconceito contra semitas - portanto, não só judeus, mas também árabes -, e não pode ser confundido com antissionismo, que significa posicionar-se contra a ideologia do sionismo, não contra uma determinada população. Portanto, quem se opõe à opressão e discriminação, bem como à transferência compulsória e à limpeza étnica dos palestinos, não pode ser classificado de antissemita. Mas essa tem sido uma maneira de silenciar críticos e jornalistas, em todo o mundo.
Democratizar a comunicação
Contribuir para modificar essa situação passa necessariamente pela democratização da comunicação e da cultura no País. Antigo pleito dos movimentos sociais, a discussão começa a ganhar corpo com o anúncio da Conferência Nacional de Comunicação para a construção de políticas públicas para a área. Conforme decreto presidencial publicado em 17 de abril último, esta se realizará entre 1º e 3 de dezembro próximo, em Brasília. Entre os temas centrais, está o debate sobre o conteúdo veiculado, a pluralidade e diversidade na programação da mídia - em especial a televisiva, por seu grande alcance e por ocupar espaço público, mediante concessões sem regras claras.
A cobertura internacional se inclui nesse contexto. Vale salientar que, não obstante a questão palestina esteja presente nos noticiários hoje, é preciso vencer o desafio de elucidar que o problema fundamental é a ocupação ilegal de territórios. Ciente disso, a Ciranda Internacional da Informação Independente inaugurou em maio ciclo de debates pró-conferência com o tema "A questão palestina e a mídia". Na oportunidade, a historiadora da USP, professora-doutora Arlene Clemesha, apresentou aos jornalistas presentes a contextualização histórica necessária para se entender a conjuntura na região. Direcionar os holofotes para todos os principais fatos que permeiam essa complexa questão é um passo importante. O conhecimento, ao lado da ampliação do espectro da mídia - hoje a arena da política -, é mister se o objetivo é transformar a sociedade contemporânea e estruturar um mundo com mais justiça e igualdade para as gerações futuras.!
Soraya Misleh é jornalista e diretora de imprensa e divulgação do ICArabe; Secretária de comunicação do Movimento Palestina para Tod@s e membro da Ciranda Internacional da Informação Independente.
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